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CRISTINA FERREIRA NO BANCO DOS RÉUS

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colagem fotográfica

A SIC pede uma indemnização de 20 milhões de euros. Não sabemos se a TVI acompanha e suporta a litigância de Cristina Ferreira, mas devia suportar e deveria caber à empresa pagar solidariamente todos os custos que o processo venha a ter para Cristina Ferreira. Afinal de contas, foi a TVI a seduzir Cristina Ferreira.

O montante da indemnização pedida pela SIC terá em conta os prejuízos calculados por perdas de receitas em IVR (concursos com chamadas de valor acrescentado), em publicidade, em patrocínios e em ações comerciais.

A saída de Cristina Ferreira da SIC foi confirmada em 17 de julho de 2020, quando a própria anunciou que estava de volta à TVI, para um cargo da direção e com uma quota do capital social da Media Capital.

O julgamento de Cristina Ferreira pode muito bem vir a ser um sucesso de audiências televisivas. Resta saber quem vai capitalizar mais, se a queixosa SIC ou Cristina como a “má da fita”.

Como Cristina se tornou “patroa” da TVI

A Media Capital é um dos principais conglomerados de média em Portugal. Além do canal generalista TVI, tem um bouquet no cabo constituído principalmente pela TVI Internacional, TVI Reality (canal dedicado a reality shows) e CNN Portugal.

O grupo está presente em outros negócios relacionados com o sector de média, tais como a produção de conteúdos para televisão, assegurada pela multinacional Plural Entertainment, a edição discográfica, a realização de eventos musicais e culturais (Farol) e a distribuição de direitos cinematográficos (Castello Lopes Multimedia).

No início de maio de 2020, entrou em cena a Pluris Investments de Mário Ferreira, que apenas adquiriu o capital social necessário para ser o acionista de referência. Um pouco mais de 35%. O restante capital social vendido pelos espanhóis da Prisa foi pulverizado por meia dúzia de empresas, sendo uma delas a Docasal Investimentos Lda., com sede em Mafra e que pertence a Cristina Ferreira e ao pai.

Até essa altura a DoCasal Investimentos não tinha atividade, mas fez jus ao nome com a compra de 2,5% da Media Capital por cerca de 1 milhão e meio de euros.

capital social da Media capital /fonte: Wikipédia

TRABALHOS MERDOSOS

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Li recentemente um livro de David Graeber, com o eloquente título “Trabalhos de Merda”.

Documentado com centenas de depoimentos, escrito com total clareza e sem presunção intelectual, “Trabalhos de Merda” é um ensaio antropológico sobre o trabalho inútil e muito bem remunerado, de que as sociedades pós modernas são cada vez mais pródigas.

Assessorias, consultorias, vice-diretorias, vice-presidências e muitos outros trabalhos que ninguém sabe o que são, grande parte das vezes nem aqueles que exercem tais profissões, contam-se, segundo o antropólogo supra citado, entre os trabalhos inúteis, bem remunerados, como a excelência dos trabalhos de merda. As organizações que recrutam tais profissionais passariam bem sem  eles e os próprios têm a plena consciência de que o seu trabalho é absolutamente dispensável. Alguns não aguentam e abandonam-no. Tal é a honestidade intelectual dos testemunhos que ilustram o ensaio do antropólogo americano.

Bem diferentes dos trabalhos de merda são os trabalhos merdosos, que, vagamente referidos mas não sendo objecto de análise no dito ensaio, me dão a  oportunidade de aqui os abordar.

Trabalhos merdosos são trabalhos com utilidade, mas mal pagos. Do ponto de vista da recompensa monetária, um trabalho de merda é sempre indiscutívelmente preferível a um trabalho merdoso. Mas há trabalhos merdosos de discutível utilidade. Simplesmente existem para alimentar uma clientela que não quer levantar o cu do sofá quando há futebol na TV, ou cozinhar ao fim de semana (e não só) e sobretudo servem para enriquecer uns quantos exploradores do trabalho de jovens.

Estou a pensar em trabalhadores concretos, entregadores de encomendas, particularmente os estafetas entregadores de pizzas, hambúrgueres e outros “bens”alimentares,  mesmo que sejam dos que fazem mal.

Embora morando numa cidadezinha de 35 mil habitantes, vejo-os por aí a toda a hora, a acelerar nas suas motoretas, despendendo um tempo mínimo na entrega, e siga para próxima, porque quanto mais entregarem mais ganham. Chama-se a isso trabalho por objetivos. De acordo com fontes consultadas, podem ganhar entre 1,50 a 6 € por entrega, dependendo da distância e da avaliação de eficiência feita pela clientela. Sem organizações que defendam os seus direitos, estes empresários em nome individual, inscrevem-se na App respetiva, abrem início de atividade nas Finanças, fazem os descontos  para a Segurança Social, têm de assumir as despesas do meio de transporte e até da saúde, do seu veículo e deles próprios, pasme-se! se por azar, tiverem um acidente. Os patrões, invisíveis, que ganham dinheiro através das App, chamam a isso auto-responsabilização.

Estafetas de entrega de comida são o must do autoemprego, do empresariado jovem da era das App.

Poderíamos chamar a estes trabalhos merdosos, empregos tipo Amazon. Não estou certa, mas suspeito que foi esta gigante comercial de tudo, a pioneira destes trabalhos merdosos. Tive amigos, jovens, na Inglaterra, que se desunhavam a fazer entregas, com os seus próprios carros, a viverem aos magotes numa casa, para conseguirem, juntos, pagar uma renda. Orgulhavam-se de trabalharem para a Amazon, cujo dono, Jeff Bezos, é só a pessoa mais rica do mundo, sem terem a mínima noção de como contribuíam para fazer crescer exponencialmente a sua fortuna. Não podem entender que a única forma de enriquecer é explorando a mais valia, o trabalho dos outros, se não sabem sequer quem foi Karl Marx, ou se, conhecendo o nome, talvez o considerem um perigoso comunista.

Alguns ainda lá andam  nas entregas, sem tempo e sem cabeça para pensar como hão de sair.

Outros, mal juntaram umas libras para comprarem um chasso velho em Portugal, meteram as tralhas na mochila e “embora, que se faz tarde”!

Pergunto-me amiúde que projeto de vida poderão ter estes jovens?!

Sem tempo para estudar, para aprender um trabalho útil, sem tempo sequer para pensar nisso, alguns, julgando-se uns felizardos por serem empresários em nome individual, mesmo sendo o seu trabalho muito merdoso, estes jovens hipotecam o seu futuro. Vão ficando nos trabalhos merdosos por falta de alternativa. Têm 20 anos, terão 22, 25, talvez 30, e continuarăo nas entregas.

De trabalho merdoso em trabalho merdoso, nunca chegarão a ter um trabalho de merda.

GUERRA COM A CHINA FAZ TIK TOK TIK TOK TIK TOK

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Shou Zi Chew, dono do Tik Tok

No Congresso dos Estados Unidos, a rede social Tik Tok foi classificada como “perigosa influência chinesa”, que funciona como janela de espionagem chinesa sobre a sociedade americana, que é um “vício”, produtora de conteúdos que provocam distúrbios alimentares, que promovem a prostituição e a venda de drogas e, ainda, perigosa para a “saúde mental das crianças”. Não há mal que não venha do Tik Tok.

Foi isto que ouviu o criador do Tik Tok, o senhor Shou Zi Chew. Na passada quinta-feira, Chew respondeu durante 5 horas às questões colocadas pelos congressistas que integram o Comité de Energia e Comércio. Nenhum dos congressistas apresentou provas das acusações. Aparentemente expressavam opiniões pessoais. Mas exigiram respostas concretas do presidente da ByteDance, a empresa-mãe do Tik Tok.

Chew respondeu que todos os arquivos do Tik Tok estão armazenados em solo norte-americano, em servidores geridos por empresas norte-americanas e que, portanto, a acusação de espionagem não faz sentido. Aliás, o Tik Tok nem existe na China. O que existe é uma rede social gémea chamada Douyin, semelhante ao Tik Tok mas sem qualquer partilha de conteúdos entre ambas. Sobre outras questões, Chew considerou que eram problemas comuns a todas as outras redes sociais existentes.

Chew disse que gastou quase 2 mil milhões de dólares no “Projeto Texas” para reforçar a segurança de dados, projeto que emprega 1.500 funcionários norte-americanos a tempo inteiro e que é gerido pelos americanos da Oracle Corp. Nada disto pareceu impressionar os congressistas que persistiram nas críticas à má influência chinesa que alcança a grande América através do Tik Tok.

No final, ficamos com a sensação de que o cerco ao Tik Tok está a ser fechado. Ou os acionistas chineses vendem o que têm do Tik Tok a investidores norte-americanos ou o Congresso vai aprovar leis que permitirão ao Governo fechar a rede social.

No imediato, as ações de empresas de media social que competem com o TikTok por publicidade subiram logo na quinta-feira, com a Meta Platforms Inc (Facebook) a subir 2,2%, por exemplo.

Na China, o Governo do senhor Xi Jinping, pela boca do ministro do Comércio, mandou dizer que forçar a venda do TikTok “prejudicará seriamente a confiança dos investidores de todo o mundo, incluindo a China, para investir nos Estados Unidos” e que a China se oporia a qualquer venda.

AFINAL, MOTORES DE COMBUSTÃO NÃO ACABAM

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Contrariando o que tinha sido aprovado no tempo de Ângela Merkel, o Governo alemão decidiu que a partir de 2035 pode continuar a haver produção e comercialização de automóveis com motores de combustão. Mas, em vez de queimarem petróleo refinado, terão de queimar o chamado e-fuel.

A ‘novidade’ era previsível, perante as pressões a que assistiamos, está a ser espalhada pela agência de notícias Reuters, que apresenta a proposta alemã como uma medida apaziguadora face aos protestos da indústria automóvel e de alguns Estados membros da UE como, por exemplo, Portugal.

Carlos Barbosa, presidente do ACP

O presidente do Automóvel Clube de Portugal (ACP), Carlos Barbosa, disse à revista do clube que “os construtores não foram na conversa dos comissários”, não se mostrando nada surpreendido com o caminho que as coisas estão agora a tomar.

Para os cidadãos europeus automobilizados, isto representa a possibilidade de continuar a utilizar os veículos com motores de combustão, deixando de poluir. Os motores de combustão poderão funcionar com combustíveis sintéticos e não haverá necessidade de adaptar as redes de distribuição de combustíveis. Nas estações de serviço, as mangueiras passarão a debitar e-fuel em vez de gasolina ou gasóleo.

O problema talvez esteja na capacidade industrial de produzir combustíveis sintéticos. Trata-se de um processo químico, onde se misturam dióxido de carbono (que se retira do ar) e hidrogéneo (que se produz com água), resulta um gaz que liquefeito faz explosão.

Neste momento, há vários projetos de investigação industrial em curso, para se encontrar a melhor forma de produzir este e-fuel em quantidades industriais e a preços acessíveis.

DISCO VOADOR QUE VEM DE FORA DO SISTEMA SOLAR

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Imagem gráfica artística baseada na interpretação dos dados obtidos através de telescópios espaciais/ European Southern Observatory

Foi “visto” pela primeira vez em 2017, através do telescópio Pan-STARRS1 da Universidade do Hawai e chamaram-lhe Oumuamua. Ao princípio não se sabia bem o que era, na verdade talvez ainda hoje as certezas não sejam muitas. Não seria um cometa, porque não tinha cauda. E vinha de fora do sistema solar. E tinha um comportamento estranho, com acelerações fantásticas. Alguns astrónomos chegaram a pensar que estavam a olhar para uma nave espacial. Um OVNI.

Através dos dados recolhidos pelos telescópios, consegue-se medir a dimensão do objeto. Mais ou menos. No início pensava-se que teria a forma de um charuto, hoje já o desenham com uma forma arredondada e achatada. Um disco voador, com um raio variável entre os 115 e os 111 metros e uma espessura de cerca de 19 metros. Se for assim, não passará de um calhau grande.

O que o torna interessante é ser o primeiro viajante interestelar a entrar no sistema solar e a poder ser observado pelos telescópios que os terráqueos têm andado a desenvolver. O estudo desta rocha viajante poderá dizer coisas sobre outros sistemas estelares. Os cientistas pensam que o Oumuamua terá nascido da formação de um planeta. Se for possível seguir o rasto do Oumuamua, chegaremos a esse planeta. E como o Oumuamua tem gelo, água congelada, talvez esse planeta também tenha. E encontrar um planeta com água é a esperança de salvação da humanidade quando chegar a altura de abandonarmos este que temos andado a estragar.

Por tudo isto, os cientistas têm andado de olho no Oumuamua, entretidos a recolher dados que irão ser estudados num futuro próximo. Dentro de pouco tempo, Oumuamua vai deixar o sistema solar e perder-se na imensidão do cosmos. Talvez nunca regresse. Neste momento, já passou por Neptuno e aproxima-se de Urano.

O termo Oumuamua significa ‘viajante que traz notícias’, em língua nativa havaiana. Só temos de perceber o que ele nos diz.

desenho gráfico artístico do Oumuamua a reflectir luz do sol / European Southern Observatory

JACQUES RODRIGUES, DA QUINTA DA MARINHA PARA A CELA DA PJ

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Jacques e Jacques Rodrigues (pai e filho), o advogado Natalino Gonçalves e o TOC do grupo Impala, deverão continuar a dormir nas celas da Polícia Judiciária durante todo este fim-de-semana.

Detidos ontem, por suspeita de vários crimes de burla e fraudes, começaram hoje a ser ouvidos no tribunal de Sintra. O interrogatório do velho Jacques Rodrigues só começou por volta das 17 horas e, a julgar pelos interrogatórios anteriores, vai ser coisa demorada.

O grande trunfo do patrão do grupo Impala é a idade. Dificilmente um juiz irá decidir manter em prisão preventiva um velho de 83 anos. Vai tirar-lhe o passaporte e esperar que Jacques Rodrigues não tenha outro passaporte brasileiro ou angolano ou de outra nacionalidade qualquer.

O que terá levado a Polícia Judiciária a mexer-se agora foi a hipótese de Jacques Rodrigues estar prestes a abandonar o país, depois de ter posto no estrangeiro vários milhões de euros. No Brasil, por exemplo, ele tem vários investimentos, principalmente no turismo e hotelaria.

O interrogatório a Jacques Rodrigues ainda prossegue e só deverá terminar na próxima segunda-feira. Só depois de todos os suspeitos terem respondido ao juiz, haverá uma decisão quanto a medidas de coação que eles terão de cumprir enquanto se processa a instrução do processo e, eventualmente, posterior julgamento. Para já, um fim-de-semana na cela da PJ ninguém lhe tira.

POR AMOR

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A minha tia Carolina permanecia solteira até aos 50 anos. Uma tarde de Primavera apaixonava-se pelo senhor sentado no banco oposto, pintado de vermelho vivo, que lhe sorria carinhosamente no Parque, virado para as águas do Mondego.

Carinhoso era o adjectivo que ela escolhia, para mitigar a revolta faseada que ia provocando nos irmãos, à medida que acorriam lá a casa para colher pormenores. Invariavelmente perguntavam se ela tinha endoidecido: apaixonar-se por um estranho uns trinta anos mais velho, de quem nem sabia o nome…

“José de Castro, e é quanto me basta por agora. Ex-empresário de lanifícios na Covilhã, viúvo há cerca de ano e meio. Que mais querem?”.

“Empresário…- atirava o mais velho – talvez tenha umas notas guardadas e em vez de casamento, nos pague uma jantarada”.

E entrando a conversa no domínio do jocoso, já faziam a ementa com marisco, leitão e bom espumante, antes de os deixarem ir a caminho da…Quinta das Lágrimas, para passarem a noite de núpcias no quarto de D. Inês. Nem precisavam de atravessar o rio.

“Decerto tem a vida estabilizada, um palacete aqui pelas redondezas, mas tão mais velho do que tu Carolina…” – dizia-lhe o irmão Zé com a elegância de sempre.

“Veio a Coimbra com os filhos ver umas casas de repouso”.

“Ah…então deixa-o repousar e põe-te ao fresco enquanto é tempo, menina” – atirava o brincalhão do António a gaguejar, por um susto apanhado em criança.

“Sempre serás o boçal que nem apanhando na boca em pequeno, conseguiu moderar os modos “ – dizia ela pesarosa.

A mais nova só se ria. Já viúva, achava piada a irmã embeiçar-se, com meio século de vida, por um cavalheiro com mais trinta primaveras. E frisava a palavra para animar ainda mais o ambiente.

“Uma árvore centenária que te saiu ao caminho, Carolina” – dizia a irmã Aida. Tanto gostava de rir, que fizera mais de sessenta quilómetros para se juntar ao coro de gargalhadas que antecipava, mal sabia da notícia.

O rapazes eram cinco. O mais novo e um dos mais velhos ficavam silenciosos, apreensivos demais. Os outros insistiam em pedir ajuda à primeira que nascera. Ajuizada bastante, havia de pôr fim à insanidade da irmã e dar-lhe uma descasca exemplar.

“Mas qual insanidade, parvalhões…apaixonei-me uma vez na vida e não me podem tirar isso”.

E a irmã mais velha entrava, com a sisudez enfática habitual, que não deixando  de manter distâncias, lhe atraía respeitosa deferência. Vinha acompanhada do seu Afonso, um quase aristocrata alto e magro que nada sabia fazer. Caçava uns patos e perdizes, vendia meia dúzia aos restaurantes da cidade, promovia o já famoso estúdio de fotografia do irmão. Gozava a vida sem preocupações.

A mulher mandava calar a turba enlouquecida, com a mão esquerda levantada, e prestava atenção à “noiva”. Ouvia…recapitulava…

“Então ele nada tem…já repartiu os bens com os filhos e só lhe ficou uma magra reforma para pagar a casa de repouso, dizes tu”…

Carolina acenava com a cabeça, mas amava-o, insistia. Não podia deixar que o encerrassem numa casa onde lhe fechariam aquele sorriso angélico num mês.

E a mais velha pronunciava a sentença que deixava os outros mudos. “A nossa irmã tem direito e idade bastante para decidir a vida dela. Se houver problemas – e olhava-a no fundo dos olhos  – saberá que poucos aqui lhe darão  apoio”….

Carolina assentia com a cabeça. Esperava a venda da casa da mãe, a parte insignificante que lhe cabia depois da divisão por cada um dos nove. E o casamento celebrava-se no fim de Setembro, na igreja de um povoado distante, perto da morada de Aida. Ambos discretos, ele de fato de lã cinzento de corte impecável e camisa branca, ela com um ramo de flores campestres na mão direita, rente ao vestido curto azul-céu, de algodão e lã.

Aida oferecia o almoço no terraço da moradia, tapado com panais e flores amarelas pendentes. Coisas da Ana, a mais nova, a mais alta e a mais louca. Apareciam cinco irmãos, sozinhos ou com as famílias, e não havia marisco. Só queijos e presunto para entrada e muito cabrito assado. Depois vinham morar para a Rua Alexandre Herculano, que me ficava na rota da escola para casa.

E era assim que eu conhecia o José de Castro, com o mais lindo sorriso que um jovem de muita idade pode ter. Mesmo de boca fechada, riam os olhos quando fixava o rosto de cada um. A tia Carolina tratava-o com o carinho inexcedível de quem ama. “Queres mais um chá, meu amor?”

Mas as dificuldades vieram. As reformas não chegavam para fazer frente à doença pulmonar do José de Castro, quando passava os oitenta e cinco. Ainda moravam uns meses na minha casa, depois aqui e ali à medida da vontade da família. Até que um dia a tia Carolina decidia fazer biscoitos para pessoas amigas tornadas clientes habituais, e engrossar o magro orçamento de ambos.

Voltavam à casa perto dos Arcos do Jardim, com um terraço minúsculo forrado de calçada portuguesa. No canto que acolhia o sol, ao fim da tarde, o José ficava na cadeira de verga forrada de almofadas de linho cru, com uma manta nas pernas a ler um policial.

Às vezes passava um bocadinho da tarde com eles. Vinha à cozinha vigiar o chá com a minha tia e aspirar o aroma dos biscoitos, que apeteciam mal saíam do forno – os mais bonitos para um lado, destinados aos sacos de papel, os imperfeitos para o outro, para serem consumidos ali mesmo.

Perguntava-lhe se conseguia tratar de tudo sozinha: dar-lhe banho, carregá-lo até à cama, cumprir os preceitos médicos rigorosos.

“Ele ajuda, minha querida…e por Amor tudo se faz”.

E fez…Carinhosamente tratou dele até o ver partir com 91 anos, repetindo pela ultima vez o beijo na boca que todos os dias ele reclamava com os mesmos olhos sorridentes. Tudo por Amor. E nem por um momento se arrependeu da decisão, ou desejou abrandar o peso da rotina para escapar às obrigações.

Quem hoje embrulha com tal pureza o sentimento?

RUSGA EM RANHOLAS, JACQUES RODRIGUES DETIDO

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Corre a notícia de que Jacques Rodrigues foi hoje detido pela Polícia Judiciária. O patrão da Impala é suspeito de burlas e fraudes, nomeadamente dívidas à Segurança Social, dívidas a trabalhadores despedidos, insolvência fraudulenta de sociedades, num total a rondar os 100 milhões de euros de calotes.

Nada disto é novidade, Jacques Rodrigues anda nas bocas do mundo há muito tempo, mas a justiça é lenta, como se sabe. Eventualmente, acaba por agir, como parece estar a ser o caso.

Segundo relata a TVI/CNN Portugal, há outros detidos, suspeitos de compadrio e associação com Jacques Rodrigues nos esquemas que a PJ investiga. Esses esquemas, passariam pela viciação da contabilidade de várias empresas que, em pescadinha-de-rabo-na-boca, desviavam receitas, obrigações contratuais e impostos de umas para as outras, de modo a ocultar lucros e evitar responsabilidades.

Jacques Rodrigues, dono de títulos como as revistas Nova Gente, Maria ou TV 7 Dias, é um dos mais odiados patrões da Comunicação Social pelo modo como sempre se relacionou com quem trabalhou para ele.

ERICEIRA, CAMPISTAS FORÇADOS A ABANDONAR O PARQUE

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A Ericeira está cheia de turistas, a maioria estrangeiros. Portugueses há poucos e, daqui em diante, haverá menos ainda, depois do encerramento do parque de campismo.

A Câmara Municipal de Mafra quer remodelar o parque e decidiu fechar para obras. O problema é que há dezenas de utentes deste parque de campismo que lançaram âncora ali há muitos anos e, agora, não têm para onde ir.

Não falamos apenas de campistas. Há muitos casos de pessoas que habitavam no parque a tempo inteiro. Ali era a casa deles. Não se trata apenas de pessoas que gostam de ar livre e contacto com a natureza. Muitos dos residentes são pessoas pobres, sem capacidade para pagar as rendas de casa que hoje os senhorios pedem. Pessoas que juntaram umas moedas e compraram roulottes em terceira mão, ou as chamadas mobile-homes (casas móveis) ou que viviam, simplesmente, em tendas.

Notícia SIC

A maioria destes residentes são reformados com pensões baixas ou desempregados. Viver num parque de campismo não sai caro. A diária é a preços acessíveis e não há contas de água e luz para pagar. Agora, andam à procura de novo lugar para viver. O que não é fácil de encontrar. E por isso protestam.

Notícia do Correio da Manhã

A Câmara Municipal de Mafra tem tido uma atitude de frieza perante estas dificuldades. Até agora, limitou-se a prorrogar o prazo para os campistas retirarem os seus equipamentos. Mas, depois de abril, o que lá estiver será levado coercivamente pelos serviços camarários para outro lugar.

Os campistas dizem que se a autarquia tem um lugar onde esses equipamentos possam ficar guardados, nem que seja temporariamente apenas, poderia disponibilizar esse serviço em vez de optar por medidas coercivas e de tomada de posse das roulottes, que os campistas consideram ser um abuso de poder.

A autarquia diz, ainda, que o parque de campismo é um local de lazer, para férias, mas não local para residência permanente. Ninguém contesta isto, mas a verdade é que o parque tem servido de habitação permanente e nunca a Câmara Municipal impediu essa utilização. Aliás, essas pessoas têm contratos anuais de permanência no parque. Contratos sempre renovados, até que em 2023 não foram.

Notícia Jornal de Mafra

Pequena biografia de Cândido Ferreira (1949-2023)

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O início da sua vida profissional, em 1973, ainda hoje marca muitos ex-alunos, colaboradores e pacientes: em Cantanhede, sua terra natal; em Pombal, perante o assinalável desenvolvimento no SMP, em 1976; na Lousã, “perdido” por serras esquecidas em dedicação ao Serviço público; e nos HUC, onde, após estágio em Lyon, em 1980, desencadeou a primeira colheita de órgão de cadáver, tendo sido o único médico com formação específica a apoiar o primeiro transplante bem-sucedido em Portugal.

Sentindo-se cingido no exercício de funções, em 1982 optou por uma carreira autónoma na área da diálise, tendo sido responsável por um número impressionante de tratamentos e por uma consulta externa que, durante 25 anos, serviu 5% da população nacional em acordo quase benévolo com o SNS. Recusando sempre acumular funções públicas e privadas, jamais concorreu a apoios públicos e nunca cobrou quaisquer honorários nem aceitou alvíssaras dos milhares de pacientes que cuidou, deixando “marca” que ainda hoje muitos recordam – a de “médico dos pobres”.

Pioneiro na extensão de cuidados de hemodiálise, sobretudo a diabéticos, além dos sete projetos pessoais em que se empenhou, CF nunca regateou apoio tanto a clínicas privadas como aos hospitais públicos de Lisboa, Santarém, Bragança, Vila Real, Luanda e até Abidjan. Sempre atento a novos avanços científicos, orientou a formação de largas centenas de técnicos de diálise, organizou encontros médicos em Leiria, percorreu o mundo a conhecer numerosas unidades de referência e participou em congressos nacionais e internacionais, onde apresentou dezenas de comunicações. Em 2009, a equipa que dirigiu obteve, no Congresso da Sociedade Internacional de Nefrologia de Londres, o diploma de “Melhor Trabalho” na área da investigação clínica, ao qual a NDT, a revista europeia da especialidade, dedicou diversas traduções.

A qualidade do desempenho humano, técnico, científico e profissional mereceu-lhe o reconhecimento de profissionais de todos os continentes, traduzidos na atribuição de prémios de prestígio, nacionais e internacionais, enquanto empresário da saúde; de empresas de certificação e de avaliação de clínicas de diálise, que adotaram alguns dos seus critérios inovadores; de dezenas de delegações que visitaram o seu Serviço, entre elas a OM dirigida pelo seu Bastonário; da Escola Superior de Enfermagem de Leiria, que presidiu a uma sessão em sua homenagem e a que aderiram os Presidentes da Câmara e da Assembleia Municipal; dos doentes e suas famílias, reconhecimento expresso em inquéritos de opinião, nos quais também foi pioneiro; em revistas de doentes renais, que consideraram as suas clínicas como “modelares”; da generalidade dos seus ex-colegas e colaboradores, que fazem questão da sua presença em eventos memorativos; e de ex-pacientes e amigos que organizaram homenagens de despedida nas quais, significativa e espontaneamente, se envolveram mais de mil pessoas.

Leal a Hipócrates, Cândido Ferreira elege como referência moderna Linhares Furtado que, em 2021, o honrou com a doação de um quadro da sua autoria para o Museu de Arte e Colecionismo de Cantanhede, que acolhe um copioso e eclético espólio artístico reunido e doado por Cândido Ferreira àquele Município. Outros ilustres médicos, como Levy Guerra e Diniz de Freitas, seus professores, e também os colegas António Travassos, Ana Bela Couceiro e Rufino Ribeiro integrarão um pequeno espaço aí dedicado a artistas médicos portugueses. Em 2012, coordenou uma homenagem a Alexis Carrell, à qual se associaram outros notáveis colegas.

Em 2007, criou, em Leiria, um museu dedicado à Nefrologia e Diálise, que doou à SPN. Colabora, desde 2017, com o Município de Setúbal, doando centenas de peças arqueológicas que abrangem toda a História local. Em 2018, doou à Junta de Freguesia da Urra dois núcleos museológicos, tendo, por isso, sido agraciado com a Medalha de Mérito.

Democrata e humanista, integrou, como independente, o Executivo Distrital do MDP, de Coimbra, tendo sido detido por atividades contra a ditadura. Caído o regime, foi eleito “coordenador político” da Câmara de Cantanhede, “cargo” no qual conduziu, de forma reconhecidamente exemplar, a transição autárquica para a democracia. Em 2019, a Assembleia Municipal atribuiu-lhe um “Voto de Louvor”, subscrito por todos os seus membros.

Optando sempre pela carreira médica – sua “paixão” desde a infância – recusou, em 1975, integrar a Assembleia Constituinte em lista do Partido Socialista. Não obstante, entre 1985 e 2005, envolver-se-ia em atividades políticas, tendo sido Presidente Distrital do PS e triplicado o número de votos do partido, enquanto candidato à Câmara de Leiria. Assumindo a vereação do Desporto, aí realizou, entre 90 e 91, um trabalho que mereceu o único louvor, e por unanimidade, do Executivo Municipal de Leiria, no século XX, além de várias distinções dos clubes e associações desportivas e culturais do concelho. Encarando essas funções como um dever cívico, sempre declinou prémios, vencimentos ou, sequer, senhas de presença, mesmo enquanto membro do CA dos SMAS de Leiria.

Em 2011, declinou o pedido de diversos socialistas para se candidatar a Secretário-Geral do PS contra a linha então dominante. Em 2015, face à insistência de muitos cidadãos, assumiu uma candidatura à Presidência da República que, alvo de distorções e discriminação, quase passou despercebida. Nestas “intrusões” pela política privou, entre outros, com personalidades como Isabel e Hortense Allende, Filipe Gonzalez, Mitterrand, Mário Soares, Zenha, Nobre da Costa, Alegre, Eanes, António Costa e o SG da ONU, António Guterres.

Produziu milhares de artigos de opinião, acolhidos em jornais, revistas e redes sociais, tendo-se cedo destacado na revista Opção, de Artur Portela Filho, em pleno PREC. Efetuou também inúmeras intervenções públicas, incluindo na rádio e na TV. Ligado aos meios artísticos e culturais, a partir de 1994 destacou-se nas áreas do romance, conto, crónica e ensaio, tendo-se associado à Associação Portuguesa de Escritores, a convite da Direção. Em 2009, liderou um movimento cívico que, no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, ganhou uma reclamação contra o EP.

Em 1994, fundou a APAR, ONG que luta pela dignificação da Justiça e pela Reinserção Social dos reclusos e suas famílias. Em 2019, foi por ela distinguido como Sócio de Mérito e, mais tarde, eleito Presidente do Conselho Consultivo. É também sócio n.º 1 da ONG Santa Maria da Vitória, que promove ajuda às antigas colónias portuguesas.

Em 2007, num retorno à vida rural, adquiriu uma exploração agrícola no Alentejo, dedicando-se à produção pecuária e de vinhos, os quais logo mereceram prémios em todos os concursos em que participaram. Em 2013, concluiu uma unidade de Agroturismo, a Casa da Urra, que continua a expandir sem quaisquer apoios oficiais e que foi distinguida, já em 2022, com as melhores classificações atribuídas pela Booking e Airbnb.

Reconhecido pelo seu voluntarismo e generosidade, colabora com várias autarquias e, a convite do reputado médico José Tereso, aderiu à Confraria dos Sabores da Gândara. Em 2010, foi também entronizado “Confrade de Honra” da Confraria Gastronómica Nabos e Companhia. Sócio de diversas associações desportivas e culturais, participa em vários Movimentos cívicos independentes e de solidariedade, nacionais e internacionais, que amiúde o convidam para entrevistas ou como palestrante, tendo efetuado inúmeras intervenções públicas, incluindo em órgãos de Comunicação Social. Recentemente, aderiu à SEDES, uma organização à qual esteve ligado Miller Guerra, ilustre médico que igualmente conheceu. O convite para a adesão partiu do atual Presidente, o médico Álvaro Beleza e de um dos antigos fundadores, José Roquette.

Na noite de fim do ano de 2017, encerrou a sua carreira médica simbolicamente no Serviço de Urgência da Clínica que sempre dirigiu. Mas, em 2020, perante a pandemia, voluntariou-se para, em teletrabalho, integrar a Linha SOS 24 e, face à ausência de resposta e ao caos instalado, não resistiu em “voltar a vestir a bata de médico”.

Fontes: “Nos Bastidores da Medicina”, de 2018; “A Poluição Atmosférica”, revista “Capa e Batina”, de abril de 1971; “A Transplantação em Portugal”, de 2018; “Pegadas Recentes”, de 2018; “O Poder da Oração e Seus Efeitos”, de 2012: “A Psiquiatria é uma Ciência?”, revista oficial da Ordem dos Médicos, março-abril de 2010; “Covid-19 – A Tempestade Perfeita”, 2.ª edição de 2022; Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso; Santa Maria da Vitória.