A COREOGRAFIA DO BASTÃO DE DOIS GUMES

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O paradoxo da segurança nacional atingiu o seu auge de eficácia, no preciso momento em que o Sr. Silva, ainda a tentar recuperar do despejo forçado da sua tenda no Rossio, decidiu caminhar até ao Largo do Camões. Para sua surpresa, a mesma praça que horas antes tinha sido limpa com o rigor pelo Corpo de Intervenção estava agora novamente cheia. Mas desta vez, os homens que seguravam os megafones eram exatamente os mesmos que, na véspera, seguravam os bastões.

O bailado da governação moderna ganhou uma nova e fascinante camada de ironia:

  • O Turno da Noite: O agente destacado para remover habitações precárias e garantir que o espaço público serve exclusivamente o turismo de luxo cumpre as ordens do Governo com zelo profissional. O espaço fica limpo, a estatística fica salva, a ordem fica reposta.
  • O Turno do Dia: O mesmo agente despe o colete tático, veste uma camisola de civil e junta-se ao desfile em direção a São Bento. O motivo? O seu próprio ordenado não lhe permite pagar um T0 na periferia de Lisboa, descobrindo que a crise imobiliária é imune à autoridade policial.

O Sr. Silva assistiu à marcha da PSP e da GNR rumo à residência do Primeiro-Ministro com um misto de confusão e iluminação. No fundo, a “desmerdificação” do sistema tinha alcançado um circuito fechado perfeito. O Estado paga um salário tão curto que os polícias não conseguem pagar casa; em resposta, os polícias são enviados para despejar os cidadãos que também já não conseguem pagar casa; e, no fim do dia, os polícias manifestam-se contra o Estado porque partilham exatamente o mesmo destino imobiliário daqueles que acabaram de despejar.

À porta de São Bento, os sindicatos exigiam a revisão do estatuto remuneratório e o cumprimento das promessas de valorização. No entanto, a genialidade da gestão atual reside no facto de que as respostas às manifestações já vêm pré-programadas num guião de comunicação circular. Se os polícias protestam por melhores salários, o Ministério lamenta a falta de “peso político” para dar o aumento, mas elogia a eficácia dos agentes na manutenção da ordem pública.

O Sr. Silva aproximou-se de um dos manifestantes e perguntou, com genuína curiosidade:
— Então, se amanhã o Governo mandar desimpedir esta rua onde vocês estão a protestar, como é que fazem?
O agente olhou para ele, suspirou e respondeu:
— Passamos o megafone ao colega do lado, pomos o capacete e cumprimos a ordem. A eficácia do sistema exige que sejamos nós próprios a reprimir o nosso próprio descontentamento.

Tudo muito ágil. Tudo muito limpo. A burocracia do Estado moderno não resolve a fome, nem a habitação, nem os salários; mas garante que a coreografia entre quem bate e quem leva seja executada com a maior dignidade orçamental possível.

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