EXPORTAÇÃO DE ACAMPADAS

É assim: eu não ia escrever sobre isto, mas as declarações do primeiro-ministro deixaram-me, no mínimo, muito incomodada.

0
50

Recentemente vi, salvo erro, no Facebook, uma frase que pedia que quem mentisse fosse expulso do Parlamento. Ouvindo Luís Montenegro, penso que já devia ter saído.

De facto, no seu discurso em que nada disse, depois de acampadas e cargas policiais, como se nunca tivessem existido, apelou a manifestações pacíficas como se a violência não tivesse sido do governo (é ele quem manda nas polícias) mas sim dos manifestantes.

E uma frase deixou-me particularmente irritada: ‘não há razão em Portugal para se importarem modelos de protestos violentos. (…) Tudo deve ser feito para evitar qualquer confronto indesejável’. Os tais protestos em que, repito, a violência só foi policial, atente-se ao número de feridos e de prisões. Os feridos, continuam vítimas do sistema. Os detidos, aparentemente, não terão qualquer consequência, depois da decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa.

Mas vamos centrar-nos na frase da importação de ‘modelos de protestos violentos’. Queria Montenegro referir-se às acampadas em França e em Espanha. Pois terá o primeiro-ministro de concordar que, neste caso, foram Espanha e França quem copiou o modelo português.

De facto, Portugal deu início às acampadas. Todavia, as anteriores, não tiveram intervenção policial. Quer dizer, em 2010 registaram-se várias acampadas, devido à prospecção petrolífera no Algarve e à exploração de lítio, em defesa do clima e da natureza.

Em 2011 foi levada a cabo a Acampada dos Indignados, no Rossio, para contestar a austeridade. Durou várias semanas, com assembleias populares contra o desemprego e as políticas económicas da Troika.

Em 2020, chefs da restauração ocuparam, mesmo, o espaço junto à Assembleia da República durante cerca de uma semana. Esta iniciativa contou até com greves de fome, pedindo apoios ao sector, na sequência da pandemia de COVID 19.

No mesmo ano, a Juventude Social-Democrata organizou uma manifestação com tendas em frente ao Ministério do Ensino Superior, em Lisboa, em plena pandemia.

Em 2023 foi a vez de professores acamparem, reivindicando recuperação integral do tempo de serviço, congelado entre 2011 e 2017.

Em Janeiro, a Fenprof apelou aos docentes, que ficaram em tendas durante sete dias e noites junto ao Ministério da Educação. Dezenas de professores responderam e estiveram presentes, contando com o apoio da PSP, que delimitou o espaço, para os proteger.

Em Fevereiro do mesmo ano, professores e trabalhadores não docentes responderam ao STOP e ficaram em frente à Assembleia da República durante quatro noites. Ali estiveram mais de 60 pessoas em 20 tendas.

Em Abril, ainda o STOP concentrou à volta de 30 tendas no Rossio e no Largo de Camões.

Em Março, em Armação de Pêra, no Algarve, mais de 20 professores instalaram, durante três noites, 16 tendas junto à escola EB 2,3 local. Em simultâneo, em Viana do Castelo, docentes protestaram da mesma forma junto à Escola Secundária de Santa Maria Maior.

Em Fevereiro, em Braga, estiveram 20 tendas do movimento ‘Os mesmos de sempre a pagar’, junto ao Banco de Portugal, já em protesto contra o aumento dos preços da habitação e dos encargos associados aos créditos. O movimento ‘Porta a Porta’ repetiu a iniciativa seis meses depois.

Em 2024, estudantes universitários de Coimbra ocuparam o espaço público com 15 tendas instaladas em frente à Faculdade de Letras, para defenderem a causa palestiniana e o fim das parcerias da universidade com instituições israelitas. O mesmo sucedeu na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e na de Psicologia, em Lisboa.

Em Setembro, teve início no Porto uma acampada, que durou 43 dias, junto à Câmara Municipal. Os Sapadores Bombeiros do Porto reivindicavam, entre outras coisas, a revisão da carreira profissional. O então presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, manifestou solidariedade com as reivindicações apresentadas.

Já este ano, estudantes do Instituto Superior Técnico instalaram tendas junto à instituição para protestarem contra os custos da habitação.

Por isso, Montenegro pode antes gabar-se de que espanhóis e franceses aprenderam e copiaram o modelo português de protesto. Mas, ao contrário do que sucedeu naqueles países, a violência veio da parte do governo e não dos manifestantes.

Aliás, no seu discurso hipócrita e patético do princípio da semana, finalmente, reconheceu a existência de uma crise na habitação. O que não reconheceu foi a culpa do governo nos desacatos. Como nunca reconhece as alternativas que se lhe oferecem no sentido de resolver ou minimizar a proposta de Lei das Rendas, que aprovou com o Chega. Claro que este partido, que todos sabemos ser um cata-vento, pode agora roer-lhe a corda ou, como tem dito, apoiar a ‘solução’ policial.

Montenegro deve sair de casa, da sua bolha com dezenas de imóveis, e ir mesmo dialogar com os manifestantes. Que mais não fosse, deveria ouvir as mães que estiveram nas acampadas.

Segue-se agora o filme da acampada versus Feira de Natal. A ver vamos o que aprenderam os governantes.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui