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	<title>Duas Linhas</title>
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	<description>Informação online</description>
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	<title>Duas Linhas</title>
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		<title>HABITAÇÃO, PROTESTO E AUTORIDADE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Manuel Tomaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Oct 2026 15:00:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[JUSTIÇA]]></category>
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		<category><![CDATA[violência policial em Portugal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>perceber o que está a acontecer e o que os acontecimentos revelam sobre o país em que vivemos.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><br>Há momentos em que uma sociedade deve parar para olhar para si própria. Não para escolher um lado, não para distribuir culpas de acordo com as conveniências partidárias, mas para perceber o que está a acontecer e o que os acontecimentos revelam sobre o país em que vivemos.</p>



<p>Os recentes protestos pelo direito à habitação, em Lisboa e no Porto, e a intervenção policial que se seguiu à permanência dos manifestantes em espaços públicos obrigam-nos a essa reflexão.</p>



<p>Comecemos pelo essencial: ninguém deveria ter de escolher entre pagar uma renda incomportável e prescindir de condições de vida dignas. Uma casa não é apenas um imóvel, um investimento ou uma mercadoria. É o lugar onde uma pessoa constrói a sua intimidade, protege a família, descansa e encontra a segurança indispensável para organizar o futuro.</p>



<p>Não é por acaso que a Constituição da República consagra o direito à habitação e atribui ao Estado responsabilidades concretas na sua concretização. Não se trata, portanto, de uma reivindicação inventada por um movimento político, nem de uma concessão generosa de qualquer Governo. É um compromisso constitucional com os cidadãos. Quando tantos sentem que esse compromisso está longe de ser cumprido, o descontentamento não deve surpreender-nos. Deve preocupar-nos.</p>



<p>Mas compreender a revolta não significa legitimar todos os comportamentos praticados em seu nome. O direito à manifestação é uma das liberdades fundamentais de uma democracia. Permite tornar visível aquilo que o poder preferiria, por vezes, não ver. Dá voz a quem não tem acesso aos centros de decisão e obriga a sociedade a confrontar problemas que não podem ser resolvidos com declarações de circunstância.</p>



<p>Esse direito, porém, não elimina todos os outros direitos, nem dispensa o respeito pelas regras que regulam a utilização do espaço público. Uma reivindicação justa não transforma automaticamente qualquer forma de protesto num comportamento legítimo. A desobediência às determinações legais pode ter consequências, mas a legalidade de cada ordem e a proporcionalidade da resposta das autoridades também têm de poder ser escrutinadas. É aqui que começa a verdadeira dificuldade.</p>



<p>Os manifestantes não podem presumir que a justeza da sua causa lhes concede uma licença ilimitada para agir. A polícia, por seu lado, não pode confundir o cumprimento da lei com a autorização para usar a força sem necessidade, sem proporcionalidade ou sem respeito pela dignidade humana.</p>



<p>A autoridade democrática não se mede pela intensidade da força que consegue exercer. Mede-se pela capacidade de fazer cumprir a lei protegendo, simultaneamente, os direitos fundamentais. Por isso, perante imagens de confrontos, detenções e pessoas feridas, não basta repetir que a polícia cumpriu ordens ou que os manifestantes desobedeceram. É necessário apurar o que aconteceu, que ordens foram dadas, em que condições, se existiam alternativas e se a força utilizada foi estritamente necessária. A investigação anunciada à intervenção policial no Porto é, nesse sentido, importante: a responsabilidade não se presume, mas também não pode ser afastada antes de os factos serem conhecidos.</p>



<p>Há, contudo, uma questão anterior a todas estas confrontações: como chegámos a uma situação em que o acesso a uma casa se tornou, para tantos cidadãos, uma fonte permanente de angústia?</p>



<p>Não se resolve uma crise habitacional apenas com apelos à paciência, nem se cria uma política de habitação eficaz através da confrontação entre inquilinos e proprietários. É necessário construir mais habitação acessível, mobilizar os imóveis que possam efetivamente entrar no mercado, promover o arrendamento a preços compatíveis com os rendimentos e criar condições para que os proprietários tenham segurança jurídica sem que os inquilinos fiquem desprotegidos.</p>



<p>É igualmente necessário reconhecer que os interesses em presença não são todos iguais, mas também não são necessariamente incompatíveis. Um mercado de arrendamento funcional precisa de proprietários dispostos a arrendar e de inquilinos capazes de pagar rendas comportáveis. Se uma das partes fica sistematicamente exposta à insegurança, o sistema falha. Se a habitação se torna inacessível a uma parte crescente da população, falha ainda mais profundamente.</p>



<p>As alterações legislativas propostas para o arrendamento devem, por isso, ser avaliadas pelos seus efeitos concretos: aumentam a oferta? Melhoram o acesso à habitação? Protegem quem se encontra numa situação de vulnerabilidade? Garantem aos proprietários direitos legítimos? Ou transferem os custos de um problema estrutural para aqueles que têm menor capacidade de os suportar?<br>São estas as perguntas que importa responder, sem slogans e sem fidelidades partidárias.</p>



<p>Também seria um erro imaginar que a solução consiste em obrigar todos os cidadãos a aceitar, silenciosamente, uma realidade que consideram injusta. O protesto pacífico é necessário precisamente porque a democracia não se esgota no voto. Mas seria igualmente perigoso aceitar a ideia contrária: a de que a legitimidade de uma causa dispensa o cumprimento das regras comuns. Uma democracia não pode exigir respeito pela lei sem se preocupar com a justiça das condições em que os cidadãos vivem. E não pode defender a justiça social abandonando o princípio de que a lei deve valer para todos.</p>



<p>O Estado tem responsabilidades que não podem ser transferidas para a polícia. A polícia pode garantir a ordem pública dentro dos limites legais; não pode construir casas, corrigir rendas incomportáveis ou substituir uma política habitacional que tarda em responder às necessidades.</p>



<p>Quando a resposta mais visível a uma reivindicação social acaba por ser uma intervenção policial, talvez seja tempo de perguntar se não estamos a tratar a consequência enquanto adiamos a resolução da causa.</p>



<p>Não se trata de desautorizar a polícia, nem de conceder razão automática aos manifestantes. Trata-se de exigir a ambos, e sobretudo aos responsáveis políticos, o cumprimento das suas obrigações.</p>



<p>Aos cidadãos, pede-se responsabilidade no exercício dos seus direitos. Às forças de segurança, exige-se profissionalismo, contenção e respeito pela legalidade. Ao poder político, pede-se muito mais: que não se limite a administrar o conflito, que não confunda a aprovação de uma lei com a resolução de um problema e que não espere que a indignação se transforme em confronto para reconhecer a urgência de agir. Porque uma casa não é um privilégio reservado a quem pode pagar qualquer preço. É uma condição essencial de dignidade, estabilidade e liberdade.</p>



<p>E um país que não consegue garantir condições razoáveis de acesso à habitação tem de reconhecer que existe uma distância preocupante entre os direitos que proclama e a vida que os seus cidadãos conseguem efetivamente viver.</p>



<p>A democracia não se defende escolhendo entre a habitação e a lei, entre os manifestantes e a polícia. Defende-se garantindo que os direitos são respeitados, que os abusos são investigados e que os problemas que alimentam a revolta encontram respostas concretas.<br>É essa a responsabilidade de todos. Mas é, acima de tudo, a responsabilidade de quem governa.</p>
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		<title>UM MOMENTO IRREPETÍVEL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[José d'Encarnação]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Oct 2026 08:12:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[HISTÓRIAS...]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[Auditório Senhora da Boa Nova – São João do Estoril]]></category>
		<category><![CDATA[homenagem a Piñeiro Nagy]]></category>
		<category><![CDATA[música clássica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O concerto de homenagem a José António Piñeiro Nagy encheu-nos as medidas, lavou-nos a alma.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Somos, amiúde, avessos a usar lugares-comuns, porque sabemos como despidos andam do seu significado próprio. Ouso, porém, usar um deles: saímos «de alma lavada». Na verdade, essa foi, sem dúvida, a agradável sensação de quantos lotaram o Auditório Senhora da Boa Nova, na Galiza – São João do Estoril, no final da tarde de domingo, 25: o concerto de homenagem a José António Piñeiro Nagy encheu-nos as medidas, lavou-nos a alma.</p>



<p>Acrescente-se que a imagem do homenageado projetada em fundo, como que a integrar o lote de músicos, proporcionou um sentido ambiente de bem-estar, também proporcionado inclusive pela manifesta dedicação de todos e cada um dos membros da orquestra, onde o renomado clarinetista António Saiote literalmente se integrou. Realce -se que o facto de Nikolay Lalov se haver auto-dispensado de dirigir o espetáculo, deixando tal função a um primeiro-violino e ao próprio António Saiote – que muito discretamente a souberam exercer – contribuiu eficazmente para a criação dum clima de homenagem bonita, tranquila, cativante, a que todos os executantes (sentíamos) gostosamente se associaram.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="380" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-2x-1024x380.png" alt="" class="wp-image-52066" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-2x-1024x380.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-2x-300x111.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-2x-768x285.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-2x-1536x569.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-2x-696x258.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-2x-1392x516.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-2x-1068x396.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-2x-1320x489.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-2x.png 1578w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Foi bonito, Piñeiro Nagy merecia!</p>



<p>Abriu a sessão Nikolay Lalov, que emotivamente historiou o seu relacionamento com Piñeiro Nagy e o grande mérito da actividade ímpar desenvolvida pelo homenageado. No final, também o músico convidado, António Saiote, se referiu elogiosamente ao que Nagy, com tenacidade e enorme carácter inovador, lograra levar a bom termo.</p>



<p>Ouvimos, na primeira parte do espectáculo, o 2º andamento do Concerto para Clarinete e Cordas, do compositor e pianista lisboeta Armando Mota; uma ária de Joly Braga Santos (1924-1998), com extraordinário arranjo de Eduardo Seabra, pleno de delicadeza e suavidade; a bem conhecida Canção do Mar, de Ferrer Trindade, num bonito arranjo do bracarense Artur Caldeira; a eterna «Sol de Inverno», de Nóbrega e Sousa, em espetacular arranjo de Pedro Ramos e, a finalizar, Temas Portugueses para Clarinete e Cordas, de Artur Caldeira, em que diálogo entre o clarinete e as cordas, diga-se de passagem, foi verdadeiramente excepcional.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Concerto de homenagem a Piñeiro Nagy" width="696" height="392" src="https://www.youtube.com/embed/q81Vee7UAaw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div><figcaption class="wp-element-caption"><em><sub>vídeo</sub></em></figcaption></figure>



<p>Após o intervalo, ouviu-se Serenata para Cordas em Dó Maior, Opus 48, do compositor russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky, nos seus quatro andamentos (sonatina, valsa, elegia e final).</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-concerto-1024x576.png" alt="" class="wp-image-52068" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-concerto-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-concerto-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-concerto-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-concerto-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-concerto-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-concerto-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-concerto-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-concerto-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/nagy-concerto.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>Recebemos, na ocasião, o livro <em>Prima la Musica dopo le Parole</em> («primeiro, a Música; depois, as Palavras») que reúne, nas suas 244, toda a documentação referente aos 50 anos dos festivais de música, a que o homenageado esteve intrinsecamente ligado. Acompanhou-o bonita colecção dos 50 respectivos cartazes.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/livro-nagy-crop-819x1024.png" alt="" class="wp-image-52071" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/livro-nagy-crop-819x1024.png 819w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/livro-nagy-crop-240x300.png 240w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/livro-nagy-crop-768x960.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/livro-nagy-crop-696x870.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/livro-nagy-crop.png 864w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px" /></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/10/um-momento-irrepetivel/">UM MOMENTO IRREPETÍVEL</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>&#8220;NÃO CHEIRA A LISBOA&#8230; CHEIRA A DITADURA&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Leonor Freitas]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 17:19:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[JUSTIÇA]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
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		<category><![CDATA[acampada de Lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[slogan da acampada]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial em Portugal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>”Não cheira a Lisboa... cheira a ditadura!” - uma frase que nasceu espontaneamente no Rossio, no contexto de um protesto pelo direito à habitação, e que encontrou na comunidade a força para se transformar numa voz colectiva.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Escrevo este testemunho porque a memória colectiva também se faz dos relatos de quem vive os acontecimentos. Nos últimos dias, tenho visto o cântico «Cheira a ditadura» circular em vídeos, notícias e publicações, ser entoado nas ruas e chegar a pessoas que não estavam presentes no momento em que nasceu. Gostaria de deixar registada a história desse primeiro grito.</p>



<p>Estou na Acampada do Rossio desde o início. A dormir quando posso. Na madrugada de terça-feira, 20 de outubro de 2026, estava na praça com os restantes camaradas, embora sem o meu grupo habitual de amigos. Acordei sobressaltada com os avisos sonoros e a movimentação das autoridades. Ainda era de noite. Às seis da manhã, quando a polícia iniciou a primeira intervenção para desmantelar as tendas, juntámo-nos e formámos um cordão humano para proteger o acampamento e defender o nosso direito a ocupar aquele espaço público.</p>



<p>A tensão instalou-se de imediato. Estávamos ali a protestar pelo direito à habitação, perante uma intervenção policial que sentíamos como desproporcionada face à natureza pacífica da nossa presença. O avanço das forças policiais, a proximidade física, o equipamento e a barreira de fardas diante de nós tornavam difícil separar a indignação do que estávamos a viver naquele preciso momento.</p>



<p>Foi nessa linha da frente, perante o avanço da polícia, que me veio à cabeça a melodia de «Cheira a Lisboa», a canção tão ligada à identidade da cidade. A letra original já não correspondia ao que sentia. A melodia, porém, permaneceu, e a frase surgiu como uma reacção imediata ao que estava a acontecer. Gritei:</p>



<p>”Não cheira a Lisboa&#8230; cheira a ditadura!”</p>



<p>No início, foi um grito isolado. Uma pessoa que estava ao meu lado juntou-se a mim, depois outra, e depois outras mais. Em poucos instantes, a frase começou a ser repetida por quem estava ali. Encontrou um ritmo próprio e tornou-se uma resposta colectiva à intervenção policial. Não houve preparação nem uma decisão prévia de criar um cântico. Houve uma situação concreta, uma reacção espontânea e pessoas que reconheceram naquelas palavras algo que também sentiam.</p>



<p>A escolha não foi indiferente. «Cheira a Lisboa» evoca uma cidade, as suas ruas e uma identidade partilhada. Naquela madrugada, a adaptação da frase transformou essa referência familiar numa denúncia política. A Lisboa que cantávamos não correspondia à experiência que estávamos a viver. O contraste entre a cidade evocada pela canção e a realidade diante de nós deu à expressão a sua força imediata.</p>



<p>Nos dias seguintes, o cântico continuou a circular entre as pessoas da Acampada. Na madrugada de domingo, 25 de outubro, quando a polícia voltou a intervir, por volta das duas da manhã, ganhou uma nova dimensão. A frase passou a ouvir-se com ainda mais força, condensando a indignação perante a actuação policial e a determinação de quem se recusava a abandonar o protesto ou a deixar de se fazer ouvir.</p>



<p>Desde então, tenho acompanhado a sua circulação à distância e reconhecido as palavras que gritei naquela primeira madrugada nas vozes de pessoas que não conheço. É uma experiência singular assistir à transformação de uma reacção individual numa expressão colectiva. O que nasceu num momento delimitado, perante uma situação concreta, passou a ser repetido em circunstâncias diferentes e por pessoas que lhe atribuem um significado próprio.</p>



<p>A repetição transforma o grito em presença colectiva, e a presença colectiva torna-se, por sua vez, uma forma de resistência.</p>



<p>Há uma dimensão particularmente significativa neste processo: a linguagem da contestação nem sempre nasce em reuniões, documentos ou palavras de ordem preparadas com antecedência. Pode surgir no meio de uma madrugada, sob pressão, quando alguém encontra as palavras para nomear aquilo que está a viver. Depois, essas palavras deixam de pertencer apenas ao instante em que foram ditas. São reconhecidas, repetidas e transformadas por quem as acolhe.</p>



<p>Foi isso que aconteceu no Rossio. A frase nasceu da experiência de quem estava na praça naquela madrugada e ganhou força através das pessoas que se juntaram ao grito. O seu percurso é inseparável da história da Acampada, da mobilização pelo direito à habitação e da comunidade que se foi construindo naquele espaço.</p>



<p>Acompanhar esse percurso tem sido motivo de orgulho e alegria. Há beleza em perceber como uma expressão espontânea pode criar reconhecimento entre pessoas que partilham uma experiência, mesmo quando não se conhecem. Há também uma dimensão política nessa passagem de uma voz individual para muitas vozes: a possibilidade de transformar a indignação em linguagem comum e de encontrar, na acção colectiva, uma forma de enfrentar o isolamento e o silenciamento.</p>



<p>Naquela madrugada, às seis da manhã, gritei «Não cheira a Lisboa&#8230; cheira a ditadura!» porque aquelas palavras correspondiam ao que estava a viver. Outras pessoas juntaram-se, e o grito tornou-se um cântico. Nos dias seguintes, continuou a ecoar pelas ruas, muito para além daquele primeiro momento.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/acampada-3x-1024x576.png" alt="" class="wp-image-52057" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/acampada-3x-1024x576.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/acampada-3x-300x169.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/acampada-3x-768x432.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/acampada-3x-1536x864.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/acampada-3x-696x392.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/acampada-3x-1392x783.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/acampada-3x-1068x601.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/acampada-3x-1320x743.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/acampada-3x.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>É essa a história que gostaria de deixar registada: a de uma frase que nasceu espontaneamente no Rossio, no contexto de um protesto pelo direito à habitação, e que encontrou na comunidade a força para se transformar numa voz colectiva.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="Acampada 20 0ut 2026 e repressão policial" width="696" height="392" src="https://www.youtube.com/embed/x9gW3s-54bE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div><figcaption class="wp-element-caption">vídeo</figcaption></figure>



<p></p>
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		<title>A REELEIÇÃO DE LULA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Óscar Barbosa "Cancan"]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 09:42:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[MUNDO]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[CPLP]]></category>
		<category><![CDATA[eleições presidenciais no Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Lula da Silva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A reeleição de Lula da Silva constitui um acontecimento político de grande significado para a CPLP</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência do Brasil constitui um acontecimento político de grande significado internacional, particularmente para África, para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e, de forma muito especial, para a Guiné-Bissau.<br>Num mundo marcado por conflitos, desigualdades e profundas rivalidades geopolíticas, a continuidade de Lula poderá reforçar o papel do Brasil na defesa do multilateralismo, da cooperação Sul-Sul e de uma ordem internacional mais justa e equilibrada.</p>



<p>Para África, o novo mandato abre perspectivas de aprofundamento das relações económicas, científicas e tecnológicas com o Brasil, país que partilha com o continente profundos laços históricos, culturais e humanos. Para a CPLP, representa uma oportunidade de transformar a nossa Comunidade num verdadeiro espaço de cooperação económica, solidariedade política e desenvolvimento partilhado.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>A Guiné-Bissau perante uma oportunidade particular</strong></h4>



<p>Para a Guiné-Bissau, a continuidade de Lula poderá assumir uma importância que ultrapassa largamente a cooperação bilateral tradicional.<br>O nosso país atravessa um dos períodos mais delicados da sua história política recente. A transição institucional, a necessidade de reconciliação nacional e o imperativo de realizar eleições livres, transparentes e credíveis exigem o empenhamento responsável das forças políticas nacionais e o acompanhamento construtivo dos parceiros internacionais.</p>



<p>Neste contexto, o Brasil poderá desempenhar um papel diplomático relevante, em articulação com a CPLP, a CEDEAO, a União Africana e as Nações Unidas, contribuindo para a criação de condições favoráveis ao restabelecimento da normalidade constitucional. Não se trata de solicitar interferências nos assuntos internos da Guiné-Bissau, mas de valorizar uma cooperação política assente no respeito pela soberania nacional, na defesa da democracia e na promoção do diálogo inclusivo. A Guiné-Bissau necessita de parceiros que ajudem a construir pontes, e não de intervenções que aprofundem divisões.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>Da solidariedade histórica ao desenvolvimento concreto</strong></h4>



<p>O relacionamento com o Brasil deve igualmente adquirir uma dimensão económica e social mais ambiciosa. A experiência brasileira na agricultura tropical, na investigação científica, na formação de professores, na saúde pública e na administração do Estado constitui uma oportunidade que a Guiné-Bissau deve aproveitar de forma estratégica.<br>A cooperação com instituições brasileiras, nomeadamente nos domínios da produção de arroz, transformação do caju, formação profissional, ensino superior e modernização administrativa, poderá contribuir para reduzir a dependência externa e criar novas oportunidades para a juventude guineense.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Importa igualmente reforçar os programas de bolsas de estudo, a formação de médicos, engenheiros, professores e técnicos especializados, bem como promover investimentos e parcerias empresariais capazes de gerar emprego e valor acrescentado no nosso país.<br>A Guiné-Bissau não pode continuar a limitar-se a receber manifestações de amizade e solidariedade. Deve apresentar projectos concretos, prioridades claras e propostas de cooperação mutuamente vantajosas.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="928" height="575" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/lula-com-nino-vieira.jpg" alt="" class="wp-image-52047" style="width:928px;height:auto" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/lula-com-nino-vieira.jpg 928w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/lula-com-nino-vieira-300x186.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/lula-com-nino-vieira-768x476.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/lula-com-nino-vieira-696x431.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 928px) 100vw, 928px" /><figcaption class="wp-element-caption">Encontro do Presidente da Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira com o Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, 2007</figcaption></figure></div></div></div>
</div></div>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p><strong>Uma CPLP mais presente na Guiné-Bissau</strong></p>



<p>O novo mandato de Lula poderá também constituir uma oportunidade para reforçar a responsabilidade colectiva da CPLP perante os desafios guineenses. A nossa Comunidade não deve limitar-se a acompanhar as crises políticas através de comunicados e declarações diplomáticas.<br>Deve procurar contribuir activamente, dentro das suas competências e em respeito pela soberania dos Estados, para o fortalecimento das instituições democráticas, a formação de recursos humanos e o desenvolvimento económico dos seus membros.</p>



<p>No caso da Guiné-Bissau, seria particularmente importante promover uma iniciativa concertada de cooperação que associasse o Brasil, Portugal e os restantes parceiros lusófonos em torno de prioridades nacionais bem definidas. A estabilidade política da Guiné-Bissau e o seu desenvolvimento económico devem ser encarados como objectivos complementares e inseparáveis.</p>
</div></div>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Uma responsabilidade que também é nossa</strong></h4>



<p>A reeleição de Lula abre possibilidades, mas não dispensa os guineenses das suas próprias responsabilidades. Nenhum parceiro internacional poderá substituir a vontade política nacional, o respeito pelas instituições, a reconciliação entre os cidadãos e o compromisso efectivo com a democracia.<br>Compete-nos transformar as oportunidades diplomáticas em programas de desenvolvimento, mobilizar investimentos, valorizar os nossos recursos humanos e construir um Estado capaz de responder às necessidades da população.<br>A importância do novo mandato de Lula para a Guiné-Bissau deverá medir-se, sobretudo, pela capacidade de transformar a amizade histórica entre os nossos povos em realizações concretas. O Brasil poderá ser um parceiro estratégico na construção de uma Guiné-Bissau mais estável, democrática, produtiva e socialmente justa. Mas essa construção terá de ser, antes de tudo, obra dos próprios guineenses.</p>



<p></p>
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		<title>OS DIREITOS QUE CONQUISTÁMOS, OS DIREITOS QUE LHES NEGAMOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos Narciso]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 00:00:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[LIFESTYLE]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[acampadas]]></category>
		<category><![CDATA[Liberdade de Expressão]]></category>
		<category><![CDATA[manifestações pelo direito à habitação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Olho com perplexidade para as tentativas de colar os protestos dos jovens a interesses partidários</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Comprei duas casas, até hoje. A primeira ficou num divórcio e tive de comprar uma segunda. Fiz uma licenciatura e um mestrado. A licenciatura saiu-me cara, porque frequentei uma universidade privada, mas era a solução para conseguir estudar num regime pós-laboral. Trabalhava e ganhava o suficiente para pagar. Não conto isto por vaidade, mas porque me parece importante recordar que, apesar das dificuldades, havia uma relação entre o trabalho, o rendimento e a possibilidade de concretizar projetos de vida.</p>



<p>A democracia abriu portas. Com a democratização do ensino, a universidade deixou de ser um espaço reservado quase exclusivamente às elites. A possibilidade de estudar, adquirir conhecimentos e melhorar as condições de vida tornou-se mais acessível. Também os direitos laborais deixaram de ser uma concessão patronal para passarem a ser uma matéria de reivindicação e luta. Fui delegado sindical, fiz parte de conselhos de redação. Os jornalistas sempre foram avessos a greves, mas nos anos 80 fiz a primeira greve da RTP. Em 2002, voltei a lutar, desta vez contra a prepotência patronal e a má gestão na SIC. Não me arrependo de nenhuma dessas lutas. E não me lembro de ter precisado de autorização de um partido, de um comité central ou de uma comissão política para perceber o que estava mal e decidir que era preciso tentar fazer alguma coisa.</p>



<p>É por isso que olho com perplexidade para as tentativas de colar os protestos dos jovens a interesses partidários. Há sempre quem procure, por detrás de uma manifestação, a mão de um partido, a agenda de uma organização ou a estratégia de alguém que pretende tirar dividendos políticos. Pode acontecer. Mas essa obsessão em encontrar uma conspiração por detrás de cada movimento de contestação acaba por revelar uma dificuldade em aceitar o mais simples: as pessoas também são capazes de pensar pela própria cabeça, identificar os seus problemas e sair à rua para os denunciar.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Os jovens que hoje protestam pela habitação não precisam que alguém lhes explique que não conseguem pagar uma renda com o salário que recebem. Sabem-no por experiência própria. Não precisam de um partido para lhes dizer que a precariedade lhes rouba o futuro, que trabalhar não chega para ter uma casa ou que adiar indefinidamente a autonomia não é propriamente um projeto de vida. Basta-lhes olhar para as contas ao fim do mês.</p>



<p>A crise da habitação é evidente. Os salários, sobretudo os mais baixos, continuam a ser insuficientes para garantir condições de vida dignas. Quem ganha menos de mil euros mensais tem uma margem de manobra cada vez mais estreita, sobretudo quando uma parte desproporcionada do rendimento é absorvida pela renda de casa ou mesmo do quarto. E há um problema que vai muito além do presente: salários baixos significam também contribuições mais baixas e, amanhã, pensões mais reduzidas. Estamos a criar condições para uma crise social que não se limitará aos jovens de hoje. Acabará por atingir a sociedade inteira.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Perante este cenário, seria de esperar que a discussão se concentrasse nas razões do protesto e nas soluções possíveis. Mas não. Uma parte da conversa pública parece mais preocupada com o cabelo, os piercings, as roupas e os hábitos dos manifestantes do que com aquilo que os levou a acampar e a protestar.</p>



<p>Conheci isto antes. Ainda antes do 25 de Abril, um colega de escola foi detido por um agente da polícia por causa da roupa que usava: calças à boca de sino, camisa florida e um blusão com franjas nas mangas. Uma indumentária indecorosa, segundo os critérios da época. Hoje, ninguém deveria ser olhado de lado por usar piercings ou pintar o cabelo de azul. Felizmente não podem levar as pessoas para a esquadra por terem o cabelo verde, a lei já não dá cobertura a esse tipo de arbitrariedade. Mas a discriminação não precisa de estar escrita na lei para continuar a existir. Basta que permaneça na cabeça de quem confunde a sua ideia de decência com uma norma universal de comportamento.</p>



<p>As críticas à aparência dos jovens que participam nas acampadas são, em muitos casos, uma versão atualizada de velhos preconceitos. Como se o cabelo colorido, os piercings ou uma roupa pouco convencional retirassem legitimidade às reivindicações de quem os usa. Como se a apresentação pessoal fosse um certificado de competência cívica. E como se a irreverência fosse incompatível com a capacidade de trabalhar, estudar, constituir família ou assumir responsabilidades.</p>



<p>Aquele meu colega de escola é hoje gestor de empresas na indústria têxtil. Aquele blusão com franjas não lhe impediu a vida profissional, nem o condenou à marginalidade. Talvez fosse apenas um rapaz que se vestia de maneira diferente, antecipando modas que mais tarde se tornariam banais. A história é um bom antídoto contra a arrogância de quem julga conhecer uma pessoa pela roupa que traz vestida.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Há ainda as insinuações sobre o consumo de drogas nas acampadas. Suspeito de que muitas dessas observações vêm de pessoas que nunca frequentaram um festival de música ou que preferem esquecer o que por lá viram ou experimentaram. Ganza fumámos muitos, embora nem todos. Alguns preferiam o álcool, que tem a vantagem de ser uma droga legal e socialmente aceite. A distinção legal existe e não deve ser ignorada, mas a indignação seletiva diz-nos muito sobre os preconceitos de quem a manifesta. Há consumos que provocam escândalo e outros que, mesmo quando causam problemas graves, são tratados como parte normal da vida social.</p>



<p>A legitimidade de um protesto não depende da aparência dos manifestantes, dos seus gostos ou dos hábitos que têm na vida privada. Depende, antes de mais, dos problemas que denunciam e da razão que lhes assiste. E é isso que é preciso discutir de forma a encontrar as soluções possíveis.</p>



<p>52 anos depois do 25 de abril, depois de termos beneficiado dos avanços sociais e da liberdade política, parece-me estranho que alguém diga aos mais novos de que devem aceitar, em silêncio, condições de vida que tornam cada vez mais difícil construir um futuro.</p>



<p>Não sei se os jovens de hoje conseguirão conquistar aquilo que procuram. Sei que têm razões para lutar. E sei também que uma sociedade que começa por desvalorizar os seus protestos, depois ridiculariza a sua aparência e acaba a suspeitar das suas intenções corre o risco de nunca discutir seriamente o essencial.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Versão vídeo:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="Lutar pelos direitos" width="696" height="392" src="https://www.youtube.com/embed/Gq45yTClx4w?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div><figcaption class="wp-element-caption">vídeo</figcaption></figure>
</div></div>
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		<title>FALTA DE CASAS E IMIGRAÇÃO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Margarida Maria]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2026 10:38:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[POLÍTICA]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[TINTA PERMANENTE]]></category>
		<category><![CDATA[direito à habitação]]></category>
		<category><![CDATA[manifestações pelo direito à habitação]]></category>
		<category><![CDATA[política de habitação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Agora, as casas de 300 mil desapareceram: custam 600 mil. Com os vistos Gold foram transaccionados cerca de 11 mil imóveis.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Tenho ouvido o argumento de que há falta de casas porque Portugal está cheio de imigrantes, ou que, por causa dos mesmos, as casas encareceram. Fico a pensar e volto atrás no tempo e fixo-me em Outubro de 2012. Exactamente, 2012, quando surgiram os vistos Gold.</p>



<p>Nessa altura, ninguém se queixou dos imigrantes. Eram ricos e tinham de gastar 500 mil euros para obterem a dita autorização de residência. Supostamente, deveriam ter investido ou em casas ou na criação de novos postos de trabalho. Claro que investiram em casas. Apartamentos que custavam 300 e 400 mil euros, rapidamente subiram para os 500 mil. Mais vistos Gold. Dez anos mais tarde, por quanto podiam ser vendidas estas casas? Claro que os imigrantes não ficariam a perder.</p>



<p>Porque os vistos Gold eram válidos por dez anos. Dez anos em que cidadãos de fora da União Europeia tinham visto de residência em Portugal e podiam circular livremente na Europa.</p>



<p>A maioria deles eram chineses, que adquiram vários apartamentos, muitos foram alugados sem recibo, para rentabilizar as casas onde não viviam os proprietários. Muitos nem pagavam os condomínios e as obrigações contratuais das habitações, incluindo o que respeita aos impostos relativos a imóveis arrendados.</p>



<p>Fomo-nos ficando com eles, as casas a aumentarem de preço, os alugueres a subirem e tudo o que diz respeito a esta situação.</p>



<p>Portanto, agora a ‘culpa’ é dos imigrantes. Até pode ser, mas não dos que vieram trabalhar em busca de uma vida melhor e sem os quais não haverá mão-de-obra para a construção civil. Talvez seja mesmo da indiscriminação com que foram dados vistos Gold, a quem não vinha fazer nada pelo País, mas sim gerir os seus próprios interesses e ganhar dinheiro à nossa custa.</p>



<p>Agora, as casas de 300 mil desapareceram: custam 600 mil. Com os vistos Gold foram transaccionados cerca de 11 mil imóveis.</p>



<p>Em Outubro de 2023 (Governo de António Costa) deixou de ser possível obter a dita Autorização de Residência para Atividade de Investimento (ARAI) somente pela compra de imóveis. Mas os vistos Gold continuam a ser uma forma de cidadãos exteriores à UE conseguirem residência em Portugal, agora, supostamente, com investimento qualificado. Nestes casos, cinco anos depois, podem ser cidadãos portugueses.</p>



<p>Por isso, nas manifestações, os que tenham sotaque ou falem um português arrevesado, todos podem ser residentes. Só que possivelmente aqueles manifestantes são ‘parentes pobres’ da imigração.</p>



<p>Ah! E há a palhaçada de um governante que afirmou ouvir que falavam todos brasileiro (esqueceu-se que é português do Brasil) e afinal era a passagem de uma manifestação de apoio a Lula da Silva…</p>
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		<title>O RESSOAR DA QUEDA: TRATADO METAFÍSICO SOBRE A DIGESTÃO DA REVOLTA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 23:00:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CRÍTICAS E PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[JUSTIÇA]]></category>
		<category><![CDATA[LIFESTYLE]]></category>
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		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<category><![CDATA[crónicas sarcásticas]]></category>
		<category><![CDATA[o romantismo das revoluções]]></category>
		<category><![CDATA[revolução]]></category>
		<category><![CDATA[tirania]]></category>
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					<description><![CDATA[<p> O problema filosófico da revolta é que o chicote muda de mão, mas raramente muda de função.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ora, olhai para nós, excelsos pensadores de trazer por casa, de punho erguido e rima na ponta da língua. Que belo e terrível espetáculo este, onde o trágico da opressão se resolve com a elegância de um soneto de cordel.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>A Dialética do Chouriço e do Absoluto</strong></h4>



<p>Dizeis que os séculos pesam mais que os anos. É uma belíssima hipérbole para impressionar os tiranos no café central. Mas perguntemos, com a devida vénia epistemológica: o tirano tem tempo para ler prosa crua enquanto conta o dinheiro dos impostos sobre o brio e o estudo? A história ensina-nos que o opressor não teme a vossa estrofe; teme, sim, o dia em que o preço do pão suba tanto que o povo decida usar os muros que ele ergueu para afiar as foices.</p>



<p>Quereis que o juízo seja o açoite. Muito bem. Mas quem segura o cabo? O problema filosófico da revolta é que o chicote muda de mão, mas raramente muda de função. O oprimido de hoje é o burocrata de amanhã, que passará o carimbo da censura com a mesma firmeza com que outrora segurava o escudo do grito. É a eterna astúcia da razão, ou talvez apenas a velha e boa hipocrisia humana.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>A Estética da Maré e o Azar dos Muros</strong></h4>



<p>Prometeis uma &#8220;madrugada nova&#8221; e uma &#8220;maré que não para&#8221;. A metafísica da água é fascinante: limpa tudo, mas deixa a terra enlameada. O povo, com as suas espáduas curvadas, marchará com passo largo e estrondo alto. É uma coreografia magnífica para um documentário histórico do futuro. Contudo, convém notar a ironia existencial: quando o futuro for finalmente tomado &#8220;num último assalto&#8221;, ele transforma-se imediatamente em presente. E o presente, como todos sabemos, é aquela rotina aborrecida onde é preciso voltar a semear o trigo, limpar as ruas e pagar a conta final que o destino somou — com juros de mora.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>O Paradoxo da Luz Explosiva</strong></h4>



<p>Terminais com a visão apocalíptica da &#8220;luz que explode em cada mão&#8221;. Do ponto de vista estritamente conceptual, ter uma explosão na mão parece doloroso e pouco prático para quem tem de lavrar o chão logo a seguir. Se já não haverá prosa, nem escárnio, nem luto, o que nos resta? O silêncio dos triunfantes. E o silêncio, meus caros revolucionários, é a matéria-prima de que os novos tiranos gostam para começar a construir os seus próprios muros seguros.</p>



<p>Colhamos, pois, o fruto da revolta. Mas guardemos o caroço, não vá a terra continuar seca e a madrugada nascer com nevoeiro.</p>
</div></div>
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		<title>O BAILE DA PINHATA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vítor Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 18:22:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nas sociedades recreativas, faziam-se os bailes da pinha, que eram sempre muito concorridos.</p>
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<p>Acredita-se que esta tradição tenha origem na China. Nas celebrações do Ano Novo Chinês, sendo o navegador Marco Pólo o principal responsável pela divulgação dessa tradição, e a sua expansão pela Europa. Em Itália adaptou-se o nome para “pignatta&#8221; e manteve a sua vertente religiosa, ajustando-se às festas da Páscoa</p>



<p>Em Portugal, parece ser uma tradição que se constituiu por influência de Espanha, se nos reportarmos a uma notícia publicada num jornal de Elvas, o Transtagano, de 24 de Fevereiro de 1861, onde se escreveu: “Este é o nome que tem o baile de máscaras que, no reino vizinho, pelo menos em Badajoz, costuma ter lugar no primeiro domingo da Quaresma”. A dar fé neste documento, nessa época a tradição dos bailes da pinhata ainda não estava implantada em Portugal</p>



<p>Para muitos autores, o baile da pinha está intrinsecamente relacionado com o Carnaval e com a Páscoa, ao ser chegada a terça-feira e depois do Enterro do Entrudo, também designado como Enterro de Bacalhau, a mocidade, embalada pelos dias de folia, custava-lhe a despedida do Carnaval. Por isso, procurava a todo o custo prolongá-lo evitando mergulhar no período de abstinência que se ia seguir até à Páscoa. Assim, a meio da Quaresma, nas sociedades recreativas, faziam-se os bailes da pinha, que eram sempre muito concorridos. Com o tempo foi-se assumindo maior flexibilidade na data, para ir, assim, ao encontro dos foliões mais “necessitados”.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="675" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/baile-da-pinhata-2x-1024x675.png" alt="" class="wp-image-51990" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/baile-da-pinhata-2x-1024x675.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/baile-da-pinhata-2x-300x198.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/baile-da-pinhata-2x-768x506.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/baile-da-pinhata-2x-1536x1012.png 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/baile-da-pinhata-2x-696x459.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/baile-da-pinhata-2x-1392x917.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/baile-da-pinhata-2x-1068x704.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/baile-da-pinhata-2x-1320x870.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/baile-da-pinhata-2x.png 1639w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>


<p>O baile consiste numa cerimónia de passagem de testemunho do Rei e da Rainha eleitos no ano anterior. Com a sala esplendorosamente decorada e repleta de gente, o momento solene da abertura do baile dá-se com a chegada do Rei e Rainha do baile, acompanhados pelos respectivos vassalos e aias ou damas de honra. A fantasia e riqueza dos trajes dependem muito da imaginação, do brio dos organizadores e das personagens. Dois grandes bolos oferecidos pelo par real são servidos com bebida a acompanhar. Fazem-se leilões como em todos os bailes e dança-se alegremente até altas horas da noite</p>



<p>Às altas horas da madrugada, é chegado o momento de maior expectativa, de grande emoção. Trata-se da &#8220;dança da pinha&#8221; ou &#8220;dança da fita&#8221;. Só os pares (solteiros) que compraram as fitas, que previamente foram numeradas por sorteio ou leiloadas, é que podem dançar. A enorme pinha de madeira encontra-se pendurada ao tecto no meio da sala, envolvida por dezenas de fitas que pendem. A dança da pinha pode durar uma hora e tem por finalidade abrir a pinha. Ao longo da dança, o animador do baile vai anunciando, por ordem, o número do par, a pinha é descida à altura de se puxar uma fita. A dança dura até que &#8220;a fita premiada&#8221; acciona um mecanismo de abertura da pinha, soltando os brindes que se encontram no seu interior.</p>



<p>O significado católico das &#8220;Pinhatas&#8221; refere-se basicamente à luta entre o bem e contra o mal, em que o mal é representado pela “Pinha” e os brindes a graça que se recebe com o perdão dos pecados. Na sua origem, a “Pinha&#8221; era uma estrela de sete bicos, os quais simbolizam os sete pecados mortais. As &#8220;Pinhatas&#8221; são vistosas e com muitas cores, simbolizam o atractivo das tentações e do pecado.</p>
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		<title>A CASA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Regina Anacleto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 13:08:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
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		<category><![CDATA[casa de família]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>António Dias, filho de António Dias Pires e de Theresa da Costa, casou na igreja matriz de Arganil no dia 18 de setembro de 1873 com Antónia Augusta Nogueira, filha de José Lourenço Nogueira e de Maria Theresa de Oliveira. Ele tinha 28 anos e ela, que nasceu em 1855, 18 o que, face à [&#8230;]</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>António Dias, filho de António Dias Pires e de Theresa da Costa, casou na igreja matriz de Arganil no dia 18 de setembro de 1873 com Antónia Augusta Nogueira, filha de José Lourenço Nogueira e de Maria Theresa de Oliveira. Ele tinha 28 anos e ela, que nasceu em 1855, 18 o que, face à legislação da época, a considerava menor e obrigou a que seu pai e tutor desse autorização para que o matrimónio se consumasse.</p>



<p>No ano seguinte, António Dias deu início à construção de uma casa, situada naquela vila, na Rua Dr. Veiga Simões, número 6 e colocou sobre a verga da porta uma inscrição, em pedra, com a seguinte epígrafe: “1875 &#8211; A. DIAS”.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="569" height="253" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/portada.jpg" alt="" class="wp-image-51966" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/portada.jpg 569w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/portada-300x133.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 569px) 100vw, 569px" /></figure></div>


<p>Estamos perante uma casa de construção corrente, com paredes exteriores de alvenaria de pedra argamassada com barro, composta por piso térreo, primeiro e segundo andares sobrepujados por um sótão.</p>
</div></div>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>USOS E COSTUMES</strong></h4>



<p>No piso térreo existiam dois compartimentos separados por “paredes” de taipa, neste caso de palha e barro a preencher o espaço entre os enxaiméis. Na primeira loja, guardava-se lenha já cortada e pronta a ser utilizada.</p>



<p>Na outra loja, a loja de dentro, como era conhecida, encontravam-se as pias e as talhas para colocar o azeite. As talhas, bastante grandes, eram de barro e as pias, uma de granito e a outra de pedra de Ançã tinham capacidade de 400 e de 300 litros, respetivamente. Também se encontravam aí, dependuradas no teto, umas tábuas onde eram colocados os queijos e a broa.</p>



<p>As queijeiras vinham, todos os sábados, a pé, de Santa Ovaia, com as cestas à cabeça. Traziam queijos, manteiga branca e manteiga amarela, bem como, no inverno, requeijão. O queijo comprado untava-se com uma mistura de azeite e colorau e colocava-se a secar nas referidas tábuas.</p>



<p>Também naquela dependência se fazia o sabão, amalgamando borras de azeite com potassa e colocando a mistura em formas de lata com formato de barra. Depois do produto estar seco, desenformava-se e cortava-se em nacos. Os arcazes do milho encostavam-se à parede e as talhas das azeitonas retalhadas ficavam ao lado.</p>



<p>Nas traseiras destas duas lojas existia um pátio que se encontrava sempre coberto de mato.</p>



<p>O primeiro andar albergava a cozinha, a sala de jantar e a sala de visitas. Como a casa não tinha quarto de banho existia um pequeno cubículo com uma espécie de banco corrido, onde se abria um buraco redondo que vazava diretamente para o pátio.</p>



<p>A cozinha, no início, devia ter tido lareira, posteriormente substituída por um “moderno” fogão de brasas, com duas fornalhas. As brasas vinham da serra, em sacos tapados com carqueja, à cabeça das carvoeiras. A par com esta estrutura existia um fogão de ferro, com a caldeira de bronze embutida. Todos os sábados a criada a fazia brilhar, esfregando-a com solarina.</p>



<p>Como não existia água canalizada, tornava-se necessário ir à fonte buscá-la, em cântaros de barro que, quando chegavam a casa, eram colocados na cantareira. Na cozinha existia ainda um alçapão por onde, quando um porco &nbsp;habitava o pátio, era lançada a comida para uma pia que lhe ficava na prumada.</p>



<p>Era nesta divisão que, semanalmente se amassava, numa gamela, a broa; uma mistura de farinha de trigo e de milho, a que se juntava água, sal e fermento. Antes de a deixar levedar retirava-se uma pequena porção de massa para uma tijela, cobria-se com farinha, e ficava a fermentar até à semana seguinte. Quando a massa estava leveda, a criada levava a gamela para o forno comunitário, tendia umas bolas e espetava-lhe uma palheta de lata, o sinal identificativo das broas da casa.</p>



<p>Na cozinha também, ao domingo, se preparava a barrela da roupa. Esta era dobrada e colocada numa bacia de zinco ou de cobre com lascas de sabão à mistura. Seguidamente, vertia-se sobre este preparado, de forma a ele ficar bem molhado, água a ferver. Na segunda feira, pala manhã, a criada colocava a bacia na cabeça e rumava à ribeira de Folques, a fim de aí lavar a roupa que, seguidamente, corava e secava.</p>



<p>Na sala de jantar, para além da mesa oval. de vinhático, e das respetivas cadeiras, existia um louceiro e um aparador, ambos com alçado. </p>



<p>Por sua vez, na sala de visitas encontrava-se um canapé de palhinha, duas cadeiras de braços e mais quatro (ou seis) de assento normal, uma mesa redonda pé de galo e uma mesa de encostar.</p>



<p>Como não havia luz elétrica, a iluminação era feita com azeite, utilizando candeias ou candeeiros de três bicos. Quando apareceu a iluminação a petróleo, na sala de visitas existia um candeeiro, belo exemplar com pé de mármore encrustado em metal amarelo.</p>



<p>No segundo andar localizavam-se os quartos. As paredes interiores eram todas de tabique, revestidas a escaiola de muito boa qualidade.</p>



<p>A casa terminava com um sótão esconso, coberto com telhas assentes num barrote central de onde partiam ripas. Guardavam-se lá as batatas e, numas grandes caixas de madeira cobertas com rede, as uvas.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="800" height="543" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/Fonte-de-Amandos-02.jpg" alt="" class="wp-image-51975" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/Fonte-de-Amandos-02.jpg 800w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/Fonte-de-Amandos-02-300x204.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/Fonte-de-Amandos-02-768x521.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/Fonte-de-Amandos-02-696x472.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><figcaption class="wp-element-caption">a casa é a primeira do lado direito da fotografia que data de 1907</figcaption></figure></div>


<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<h4 class="wp-block-heading"><strong>A DESERTIFICAÇÃO HUMANA</strong></h4>



<p>O casal António Dias e Antónia Augusta Nogueira teve seis filhos; a mais velha, Elvira, nasceu a 11 de novembro de 1874 e foi batizada no dia 14 de janeiro do ano seguinte. Casou com José batista de Carvalho a 14 de maio de 1902.</p>



<p>Em 1896 Antónia Augusta Nogueira viu-se na necessidade de se deslocar a Lisboa, a fim de ser operada a um cancro intestinal ou a um mioma e acabou por morrer no bloco operatório. Enquanto se encontrava na capital a aguardar tratamento escreveu (já sabia ler e escrever) à filha Elvira várias cartas, dando as mais diversas instruções, sobretudo relacionadas com os afazeres caseiros e assinava as missivas com um pomposo Dona Antónia Augusta Nogueira. Esta filha e o marido herdaram a casa que tem o letreiro a sobrepujar a verga da porta de entrada.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="957" height="631" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/Vista-aerea.jpg" alt="" class="wp-image-51971" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/Vista-aerea.jpg 957w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/Vista-aerea-300x198.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/Vista-aerea-768x506.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/Vista-aerea-696x459.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 957px) 100vw, 957px" /></figure></div>


<p>A vista aérea que tem o sombreado amarelo dá para perceber melhor a dimensão da propriedade. Todo aquele quarteirão era meu. Vendi-o porque não tinha capacidade económica de o manter. A &#8220;casa do PS&#8221; necessitava de grandes obras de restauro e consolidação. Não vislumbrava possibilidade de, posteriormente, a alugar. A outra, com 16 assoalhadas, 4 casas de banho, 29 metros de frente, varandas, terraço e uma arrecadação que ocupava metade da casa, dava-me o rendimento do aluguer das lojas, mas pagos os impostos o que restava era insuficiente para obras de manutenção. </p>



<p>Os filhos não queriam ir para Arganil. Já não têm lá amigos. Os netos, muito menos. Não mora ninguém no centro da vila e eu quando ia para lá, ficava só naquele casarão e podia gritar à vontade, porque ninguém me ouvia. Tenho comigo um grande desgosto e, depois de me ter defeito das casas, nunca mais passei por aquela zona.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="765" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-1024x765.png" alt="" class="wp-image-51979" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-1024x765.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-300x224.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-768x574.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-696x520.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-1392x1040.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-1068x798.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-265x198.png 265w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-530x396.png 530w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-1320x987.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps.png 1445w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">imagens do Google maps</figcaption></figure>
</div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="798" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-2-1024x798.png" alt="" class="wp-image-51980" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-2-1024x798.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-2-300x234.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-2-768x598.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-2-696x542.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-2-1068x832.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-2-1320x1029.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/foto-google-maps-2.png 1386w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
</div>
</div>
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		<title>OS BECOS VERTICAIS DE ALFAMA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jaime Redo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Oct 2026 14:00:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CONVERSAS COM PESSOA - AS MÁSCARAS DO RIO E DO TEMPO]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[conversas com Pessoa]]></category>
		<category><![CDATA[ensaio literário]]></category>
		<category><![CDATA[heterónimos de Fernando Pessoa]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoa e Joaquim]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O passado não é uma terra para onde se volta. É um cemitério.</p>
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<p>Deixaram finalmente o Cais das Colunas. A humidade do Tejo tinha-se colado ao pano pesado dos sobretudos. Sentiam os corpos mais lentos, os movimentos arrastados, como se o ar de Lisboa os quisesse chumbar àquela pedra toda. Cada lufada de vento vinha fria. Um aviso de que a noite tinha entrado na hora mais escura. Aquela hora em que quem dorme descansa, e quem está acordado começa a ver fantasmas. </p>



<p>Ficou para trás o Terreiro do Paço e as linhas retas do Marquês &#8211; aquela mania de querer controlar o mundo com um esquadro. Os dois homens meteram-se pelos becos. Começaram a trepar a colina de Alfama. A subir, a geometria de Pombal desapareceu. Deu lugar aos caprichos da Idade Média. As ruas largas viraram vielas escuras. Os ângulos retos quebraram-se em esquinas impossíveis. Os degraus de pedra, gastos por séculos de sapatos anónimos, obrigavam as pernas a um esforço maldito. </p>



<p>A cabeça descansou da conversa intelectual. O corpo exigia atenção. Alfama não foi feita com a razão. Nasceu da necessidade, do tempo. Um amontoado de cal e lodo a crescer como musgo nas rochas, moldando-se à colina para sobreviver ao dia a dia. Sem planos de arquitetos. Joaquim ia à frente. Apoiava as mãos nas paredes frias e húmidas das casas. Parecia que as fachadas se inclinavam umas sobre as outras, como velhas a cochichar segredos no escuro. O cheiro da cidade mudou de golpe. Acabou-se a maresia e o cais aberto. Ali cheirava a poço, a carvão apagado, a peixe seco. Cheirava a roupa estendida que nunca mais secava e à fadiga de gerações que ali tinham nascido, amado e morrido sem nunca passarem para lá de Almada. Naquele labirinto de sombras, com poucos candeeiros a gás e o escuro metido nos vãos das portas, a discussão abstrata sobre os heterónimos perdeu a força. Esqueceu-se a metafísica. Ficou a urgência do corpo, o peso do passado. A pedra antiga parecia deitar um suor frio.</p>



<p>— Há qualquer coisa nestes becos que te cala as vozes, Fernando — disse Joaquim.</p>



<p>Parou num pequeno patamar. Dali, entre dois telhados velhos, via-se um pedaço escuro do rio. Uma nesga de água cinzenta debaixo do céu sem luz.</p>



<p>— O Álvaro de Campos não conseguia berrar a Ode Triunfal numa ruela destas. Mal cabe um homem de braços abertos. E o Ricardo Reis? Parecia um tonto se se pusesse a recitar versos latinos aqui em baixo, mesmo ao lado de uma bacia de água suja despejada à janela. Nestes becos não há espaço para te armares em distante. Sinto que, ao subir esta colina, estamos a escavar para trás. Diretos à infância. Àquele tempo em que a vida ainda não era um texto para ser revisto. Era só o mundo a nos entrar pelos olhos dentro. Sem pedir licença.</p>



<p>— Diz-me uma coisa, Fernando. No meio deste desvario de livros&#8230; o que é que sobrou do rapaz que foste lá em Durban? Ou daqueles tempos da juventude, aqui em Lisboa? Que parte tua é que os teus heterónimos não conseguiram queimar? Haverá um Fernando que não escreve nada? Um Fernando que só se lembra das coisas com aquela dor de quem perdeu a infância? </p>



<p>Pessoa subiu os últimos degraus. Tinha o fôlego curto. O peito assobiava-lhe por baixo do casaco &#8211; culpa do tabaco e deste frio húmido que lhe dava cabo dos pulmões. Agarrou-se ao corrimão de ferro, cheio de ferrugem. Tirou os óculos para lhes limpar o bafo da subida.&nbsp; Sem óculos, o rosto dele mudou. Perdeu aquela pose de intelectual que o vidro lhe dava. Os olhos pareciam subitamente mais pequenos, redondos. Indefesos. Como os de um miúdo assustado com o escuro. </p>



<p>— A infância, Joaquim, é a terra dos mortos que nos esquecemos de enterrar &#8211; respondeu o poeta. A voz saiu-lhe sumida, sem a força do costume. Parecia a cal daquelas paredes: gasta, a desfazer-se. &#8211; Achas que os meus heterónimos são biombos para esconder o passado? Não são. São a única maneira de o aguentar.</p>



<p>Pessoa limpou as lentes à pressa, com os dedos frios.</p>



<p>— O rapaz que eu fui na África do Sul morreu antes de eu meter os pés no barco para Lisboa. Aquele que falava inglês perfeito e olhava para o mar Índico à espera de um destino qualquer&#8230; já era. O passado não é uma terra para onde se volta. É um cemitério onde as lápides mudam de sítio todas as noites. Se eu deixasse a memória limpa da infância entrar na minha cabeça sem o filtro da arte&#8230; eu não era poeta. O cheiro do quarto da minha avó a morrer. O piano que a minha mãe tocava antes de se casar outra vez. O silêncio estúpido que ficou em casa depois de o meu irmãozinho morrer. Se eu deixasse isso entrar assim, a cru&#8230; eu não era um escritor, Joaquim. Seria só um gajo a chorar a um canto, numa repartição de finanças. O Caeiro e o Reis são as minhas paredes. As minhas defesas contra a saudade.</p>



<p>— Eles limparam-me o passado da coisa mais perigosa de todas: o remorso. Mudar a dor em verso é a única maneira de lhe tirar o veneno. A literatura não é fugir. É construir uma realidade que já não nos consegue magoar.</p>



<p><sup><strong>(continua)</strong></sup></p>



<p></p>
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