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	<title>Duas Linhas</title>
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	<description>Informação online</description>
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	<title>Duas Linhas</title>
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		<title>ERROS MEUS, MÁ FORTUNA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vítor Fonseca]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 23:00:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[NA OUTRA MARGEM]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No último artigo que escrevi no Duas Linhas, afirmei que o Partido Social-Democrata Sueco tinha ganhado as eleições e regressaria ao governo, em coligação com os Verdes e com os restantes partidos da esquerda. Enganei-me redondamente. O partido de extrema-esquerda optou, afinal, por abrir caminho a um governo de centro-direita em coligação com a extrema-direita. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>No último <strong><a href="https://duaslinhas.pt/2026/09/atras-dos-tempos-outros-tempos-virao/" type="link" id="https://duaslinhas.pt/2026/09/atras-dos-tempos-outros-tempos-virao/">artigo</a></strong> que escrevi no <em>Duas Linhas</em>, afirmei que o Partido Social-Democrata Sueco tinha ganhado as eleições e regressaria ao governo, em coligação com os Verdes e com os restantes partidos da esquerda. Enganei-me redondamente. O partido de extrema-esquerda optou, afinal, por abrir caminho a um governo de centro-direita em coligação com a extrema-direita. Estranho? Talvez não, pelo menos nos tempos que correm.</p>



<p>As enormes assimetrias sociais e económicas coexistem com uma incapacidade crescente dos governantes para responder aos problemas dos cidadãos. Resta saber quanto tempo durará este ensaio e como reagirão os eleitores da extrema-esquerda a esta coligação. Na crise social em que mergulharam a Europa e o mundo, os «descamisados» — tal como na Argentina de Juan Perón — procuram no caos uma saída para a crise. Assistimos ao crescimento de um radicalismo que atrai eleitores moderados. Zangados com o sistema, deslocam o voto para os partidos dos extremos. No plano mundial, as alianças são ainda mais estranhas. A sensação do ‘fim da história’, no sentido proposto por Francis Fukuyama, não se confirmou e foi mesmo uma precipitação: o triunfo das democracias liberais não aconteceu. O debate apenas mudou de eixo. De um lado, sociedades liberais assentes em democracias parlamentares. Do outro, sociedades autocráticas ou ‘democracias musculadas’.</p>



<p>Os defensores de governos autocráticos ou musculados privilegiam a segurança, mesmo com a compressão de direitos, liberdades e garantias. Os defensores das democracias parlamentares colocam esses direitos acima da opção securitária. A rigidez deste confronto alimenta a irracionalidade e deixa um oceano de cidadãos moderados à mercê das pulsões mais radicais.</p>



<p>As eleições no Brasil, com a curta vitória de Bolsonaro sobre Lula, na primeira volta, podem ser, dentro de três semanas, o barómetro para a evolução da América do Sul, e determinar a expansão da influência dos Estados Unidos da América e da administração Trump naquela zona do Mundo.</p>



<p>Na Europa, desenham-se dois caminhos, no Reino Unido pondera-se o regresso à União Europeia. Em França, coloca-se em crise a continuidade na União Europeia, quer ganhe Mélenchon, quer ganhe Marine Le Penn. Ou seja, o centro moderado implodiu.</p>



<p>Todos estes confrontos não resultam de opções ideológicas tradicionais, mas sim de modelos organizativos que passam por suprimir os direitos, liberdades e garantias, privilegiando a vertente securitária em relação à imigração e ao islamismo, ou pelo reforço das democracias parlamentares e pela capacidade de encontrar uma resposta para o fluxo migratório.</p>



<p>Os europeus têm de encontrar o caminho e optar entre quatro grandes temas: se querem manter o nível económico que alcançaram; se esse estado é possível de manter no actual quadro económico, tendo em consideração a competitividade dos países dos BRICS, nomeadamente da China; se é preferível baixar esse nível económico e assegurar o Estado de Direito; se acabam com o Estado de Direito e perdem, na mesma, o nível económico em que vivem.</p>



<p>NOTA: Alguns ex-ministros do PSD e do PS, que integraram os governos de Cavaco Silva e António Guterres, publicaram o <strong><a href="https://www.jornaldenegocios.pt/economia/politica/detalhe/empresarios-e-ex-ministros-de-cavaco-e-guterres-defendem-coligacao-ps-e-psd" type="link" id="https://www.jornaldenegocios.pt/economia/politica/detalhe/empresarios-e-ex-ministros-de-cavaco-e-guterres-defendem-coligacao-ps-e-psd">Manifesto pelo Bom Entendimento em Democracia</a>,</strong> com vista à constituição de um governo de Bloco Central. Dos nomes conhecidos, apenas um dos ministros de Guterres – Daniel Bessa- subscreve e manifesto. </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/DANIEL-BESSA-2X-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-51711" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/DANIEL-BESSA-2X-1024x576.jpg 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/DANIEL-BESSA-2X-300x169.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/DANIEL-BESSA-2X-768x432.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/DANIEL-BESSA-2X-1536x864.jpg 1536w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/DANIEL-BESSA-2X-696x392.jpg 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/DANIEL-BESSA-2X-1392x783.jpg 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/DANIEL-BESSA-2X-1068x601.jpg 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/DANIEL-BESSA-2X-1320x743.jpg 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/DANIEL-BESSA-2X.jpg 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Daniel Bessa em <a href="https://www.jornaldenegocios.pt/economia/politica/detalhe/empresarios-e-ex-ministros-de-cavaco-e-guterres-defendem-coligacao-ps-e-psd">Empresários e ex-ministros de Cavaco e Guterres defendem coligação PS e PSD &#8211; Política &#8211; Jornal de Negócios</a></figcaption></figure></div>


<p>Os outros subscritores foram ministros do PSD e conhecidos empresários próximos daquele partido. A única preocupação dos subscritores é o esvaziamento do PSD e a debandada dos apoiantes para o Chega e para o PS. Tal como escrevi, no <em><strong><a href="https://duaslinhas.pt/2026/09/atras-dos-tempos-outros-tempos-virao/" type="link" id="https://duaslinhas.pt/2026/09/atras-dos-tempos-outros-tempos-virao/">Duas Linhas</a></strong></em>, este poderá ser o reordenamento eleitoral do nosso País. Montenegro, que foi atrás do conceito <em>pisca-pisca</em>, ainda não percebeu que foi um erro fatal. Pode agradecer ao seu criador ter contribuído para o possível esvaziamento do PSD.</p>
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		<title>O PAÍS QUE SOMOS E O PAÍS QUE AINDA PODEMOS SER</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Manuel Tomaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 10:00:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[TEMPO de PENSAR]]></category>
		<category><![CDATA[o futuro de Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[pensar Portugal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um país é sempre uma obra incompleta.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um país não é apenas o seu território, a sua economia, as suas instituições ou os seus indicadores estatísticos. É também a memória que conserva, a língua que partilha, a cultura que produz, a forma como educa os seus filhos, como trata os seus velhos, como acolhe quem chega e como olha para aqueles que ficam para trás.</p>



<p>Portugal é, portanto, muito mais do que aquilo que aparece nas estatísticas. É uma experiência colectiva. E essa experiência não pode ser reduzida à ideia de crescimento económico, embora nenhum país possa ignorá-lo. Uma sociedade precisa de produzir riqueza, mas precisa também de saber para que quer essa riqueza. Precisa de modernizar-se, mas sem confundir modernização com a simples aquisição de novas tecnologias ou com a transformação acelerada dos modos de vida.</p>



<p>Há uma pergunta anterior a todas as outras: que sociedade queremos construir? Talvez tenhamos passado demasiado tempo a discutir os instrumentos e pouco tempo a discutir os fins. Falamos de crescimento, competitividade, produtividade, transição digital, inteligência artificial, fundos europeus, habitação, saúde, educação e emprego. Tudo isto é necessário. Mas, por detrás de cada uma destas palavras, existe uma pergunta humana que frequentemente desaparece: como queremos que as pessoas vivam? É aqui que começa uma outra ideia de desenvolvimento.</p>



<p>Desenvolver um país não deveria significar apenas fazê-lo crescer. Deveria significar fazê-lo amadurecer. E amadurecer é aprender a reconhecer os limites, corrigir os erros, proteger o que merece ser protegido e transformar aquilo que já não responde às necessidades do presente.</p>



<p>Portugal tem uma extraordinária capacidade de adaptação. A sua história demonstra-o. Somos um país pequeno que aprendeu, muitas vezes, a sobreviver entre circunstâncias maiores do que ele. Fomos capazes de partir, de chegar, de reconstruir, de integrar, de mudar.<br>Mas essa capacidade de adaptação contém também um risco: o de nos habituarmos demasiado facilmente a sobreviver. Sobreviver não basta.</p>



<p>Uma democracia não pode limitar-se a garantir que as pessoas continuam a viver dentro das dificuldades. Tem de criar condições para que possam viver com dignidade, liberdade e esperança. E esperança não é optimismo. A esperança é uma construção política, social e cultural.<br>Nasce quando uma criança acredita que estudar pode mudar a sua vida. Quando um jovem consegue imaginar uma casa onde possa viver. Quando um trabalhador sente que o seu trabalho tem valor. Quando uma pessoa idosa não teme tornar-se invisível. Quando alguém que nasceu longe encontra em Portugal não apenas tolerância, mas possibilidade de pertença.</p>



<p>É também aí que se mede a qualidade de uma democracia. Não apenas na existência das instituições, mas naquilo que essas instituições conseguem produzir na vida concreta das pessoas. A liberdade, por si só, não resolve todas as desigualdades. Mas sem liberdade nenhuma sociedade democrática pode verdadeiramente enfrentar as desigualdades.</p>



<p>A igualdade, por sua vez, não significa que sejamos todos iguais. Significa que ninguém deveria ficar condenado à partida pela circunstância de ter nascido num determinado lugar, numa determinada família ou numa determinada condição económica.</p>



<p>E a fraternidade, palavra antiga, talvez demasiado esquecida, lembra-nos uma coisa essencial: nenhuma sociedade se sustenta apenas pela competição. Precisamos uns dos outros.</p>



<p>Talvez esta seja uma das grandes questões do nosso tempo. A sociedade portuguesa envelheceu. A família mudou. O trabalho mudou. A relação entre gerações mudou. A imigração transformou o país. A tecnologia alterou profundamente a comunicação, a aprendizagem e o próprio modo como nos relacionamos.</p>



<p>E, entretanto, continuamos muitas vezes a pensar com categorias que pertencem a um Portugal que já não existe. É necessário actualizar o nosso olhar. Não para rejeitar o passado, mas para compreendê-lo. Um país sem memória torna-se vulnerável à repetição dos seus erros. Mas um país prisioneiro da memória também pode ficar incapaz de imaginar o futuro. Entre a amnésia e a nostalgia existe um território mais exigente: a consciência histórica.</p>



<p>É nesse território que devemos procurar Portugal. Um Portugal capaz de reconhecer aquilo que recebeu das gerações anteriores e, simultaneamente, aquilo que deve entregar às gerações que ainda estão a chegar.</p>



<p>Porque nenhum país é verdadeiramente nosso. Recebemo-lo temporariamente. Cada geração recebe uma parte do país que outras construíram e deixa uma parte daquele que conseguiu transformar. É por isso que pensar Portugal é pensar também na responsabilidade de cada geração. Não apenas no que queremos receber, mas no que estamos dispostos a deixar.Talvez seja esse o verdadeiro sentido de uma comunidade nacional. Não a celebração permanente de uma identidade fechada, mas a capacidade de construir uma casa comum onde diferentes histórias possam caber.</p>



<p>Portugal já é essa casa. A questão é saber se queremos continuar a melhorá-la. E, sobretudo, se ainda somos capazes de imaginar o que ela pode vir a ser. Porque um país não morre apenas quando perde população, riqueza ou influência. Um país começa verdadeiramente a empobrecer quando deixa de imaginar o seu próprio futuro.</p>



<p>Pensar Portugal é, por isso, uma forma de não desistir dele. Não desistir significa olhar de frente para as suas fragilidades sem transformar as fragilidades em destino. Significa reconhecer o que fizemos mal sem negar o que fizemos bem. Significa compreender que nenhuma geração tem o direito de considerar o futuro como uma herança garantida. E significa, finalmente, recuperar uma palavra que talvez esteja a faltar ao nosso vocabulário público: responsabilidade. Responsabilidade perante os que vieram antes. Responsabilidade perante os que hoje vivem connosco. E responsabilidade perante aqueles que ainda não nasceram.</p>



<p>Portugal não está acabado. Nenhum país está. Um país é sempre uma obra incompleta. Talvez a sua grandeza esteja precisamente aí: na possibilidade de continuar a escrevê-lo. E é por isso que vale a pena pensar Portugal. Não para descobrir uma resposta definitiva. Mas para não deixarmos de fazer as perguntas que mantêm uma sociedade viva.</p>
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		<title>A GEOMETRIA DO PURGATÓRIO LISBOETA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jaime Redo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 09:00:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CONVERSAS COM PESSOA - AS MÁSCARAS DO RIO E DO TEMPO]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[conversas com Pessoa]]></category>
		<category><![CDATA[ensaio literário]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando pessoa]]></category>
		<category><![CDATA[heterónimos de Fernando Pessoa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O homem que sabe tudo deixa de ter horizontes</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O silêncio voltou à mesa. Mas já não pesava; estava vivo. Joaquim percebeu a rasteira daquela conversa. Desfazer o &#8220;eu&#8221; era uma libertação perigosa. Significava largar o sofrimento, sim, mas também abdicar de qualquer salvação. Se ele não era ninguém, as dores também não eram de ninguém. E procurar uma cura? Disparate. Uma perda de tempo.</p>



<p>— Sim, Fernando, eu percebo a mecânica do teu desassossego — disse Joaquim, com os dedos a tamborilar no canto da mesa. — Mas recuso-me a ceder. Eu quero manter a minha vontade. Posso perceber as tuas razões, posso perceber a arquitetura do teu raciocínio, mas recuso-me a viver ancorado na dúvida. A dúvida eterna é um inferno de espelhos. Nada se fixa.</p>



<p>Joaquim inclinou-se também, a voz a ganhar firmeza.</p>



<p>— Eu quero a certeza. Mesmo que seja teimosia. Mesmo que saiba, no fundo, que essa certeza é só uma mentira que inventei, um palácio de areia contra a maré. Não me importa. Preciso de acreditar que, quando digo &#8220;eu amo&#8221; ou &#8220;eu sofro&#8221;, há qualquer coisa aqui dentro que fica. Um sítio que junta os estilhaços do que vivo e os guarda numa gaveta. Uma gaveta que não se desfaz com a humidade da noite.</p>



<p>Pessoa chegou-se para a frente. O olhar dele, por trás das lentes redondas, perdeu aquele desapego habitual. Fixou-se em Joaquim. Uma intensidade súbita. Parecia o interesse de um anatomista que descobre uma veia estranha num coração aberto. Era a curiosidade de quem reconhece uma dor antiga, mas uma dor que ele próprio tinha tentado domesticar através dos poemas.</p>



<p>— Queres a certeza? — murmurou Pessoa. — Cuidado, meu amigo.</p>



<p>— A certeza é um porto, Joaquim. E o porto é o fim da viagem. O navio que entra lá e fica, deixa de ser navio. Vira terra. Um armazém de madeira podre, comido pelas cracas. Pessoa fez um gesto largo com a mão, espantando o fumo. — Tu propões um segredo ao medo. Isso é magnífico. Arrancar a alma ao medo criando um mistério teu&#8230; é a única forma digna de viver este bocadinho de tempo que nos dão. Entre o nada que fomos e o nada que seremos. Mas dizes que tens medo da ousadia? Porquê recuar agora? Se já percebeste que a realidade é uma mentira, assume o papel de autor. Inventa os teus dias. À grande. Sabendo que tudo isto não passa de fumo. </p>



<p>Joaquim desviou os olhos para a janela. A tarde em Lisboa estava a perder a força. Lá fora, o elétrico subia a colina. Aquele rangido de ferro velho parecia o choro da cidade. Na calçada, as pessoas passavam a correr, encolhidas nos casacos. Cada uma com a sua ilusão de solidez. Os horários, os casamentos, as contas por pagar. Ninguém via o abismo debaixo dos sapatos. </p>



<p>— Porque a vontade, quando é demais, mata o mistério — respondeu Joaquim, quase num sussurro. — Prefiro o gesto tímido. O silêncio que guarda o segredo sem nunca o expor à luz. Eu quero saber, Fernando. Sinto essa fome de absoluto a roer-me por dentro. Mas tenho medo. Tenho medo de que, ao decifrar o enigma todo, não sobre nada de mim. Só poucas palavras. Como aquelas que escrevi sobre esta cidade. Olhou fixamente para o poeta. — Temo que a verdade seja só um deserto de cal, onde nem a ilusão sobrevive. Se eu souber tudo, deixo de poder sonhar. E o sonho é a única pátria que me sobrou.</p>



<p>O homem que sabe tudo deixa de ter horizontes. Vira um arquivo morto. Um inventário de certezas que já não servem para acender o fogo de nada.</p>



<p><sub>(continua)</sub></p>
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		<title>ESTIVE COM ELA, CONHEÇO-A</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vítor Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2026 08:00:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[O ESTADO da ARTE]]></category>
		<category><![CDATA[POLÍTICA]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[crescimento da extrema-direita em Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[regime de Salazar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>tive o “privilégio de conversar” com ela</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Foi há pouco tempo? Por acaso até não, que tive o “privilégio de conversar” com ela… verdade verdadinha, nem dava para trocar “falas”. Perguntam-me sempre, por ser já “entardecido”, como ela era, no principio, se se impunha, se quando aparecia mexia com todos… respondo sempre que sim, que não era uma presença, que por um momento que fosse, passasse despercebida, não, sabia-se logo quando chegava, nem um só de todos nós, passava “ao lado dela” sem a sentir. Era impossível. Dava-se conta na maneira de estar, até no falar de cada um de nós. Impôs-se sempre.</p>



<p>Mas, lá vêem as vossas perguntas, pessoal mais recente nesta vida: “Passava-se bem com ela?” Eu franzo o sobrolho, encolho os ombros, faço compassos de espera, a pensar no que vou dizer e…</p>



<p>Vamos lá a ver, tivemos uma posição social que não lhe deu hipótese de estar entre nós, já lá vão 5 décadas, ela era na altura uma velha condenada a desaparecer, estávamos radiantes…</p>



<p>&#8211; “Eh, eh, deixe lá esses tempos, até parece um Professor de História, o que queremos saber é se a conheceu, conhece, se foi amigo dela e como é que ela foi ou é, para si!&#8230;”</p>



<p>&#8211; Como calculam, não posso deixar de não falar da infância dela, claro que não vou falar da sua mãe… nem vou falar sequer, de uns “novos parentes” que a querem ver novamente na “passerelle” e até nos dizem, que não, que não a conhecem&#8230; Como é que é possível querer o desconhecido… é-se tão imbecil assim? Penso definitivamente que nos querem fazer uma surpresa… É uma rapaziada que não conheço bem, mas com a força que dão ao seu aparecimento na ribalta, outra vez… Conheço-a sim senhor e de forma muito próxima, nem imaginam o quanto… Vivi mesmo “ombro a ombro” com ela, claro, não estive no seu patamar, na altura pensávamos ser perene, acabei por passar um mau bocado, eu e a família, aliás como tantas outras. Ela era “intocável”, como se diz. Posso afirmar que a conheci, com toda a propriedade.</p>



<p>&#8211; Ora, é daí que a queremos conhecer. Deixe os eventos, a História, o “agora” é que vale!</p>



<p>&#8211; Mas algumas passagens terão que ser ditas, Não se descreve ninguém assim, de qualquer jeito. Não se consegue caracterizar o que quer que seja sem nos situarmos na “personagem”.</p>



<p>&#8211; Então, convive-se ou não, com ela? É ou não, uma “personagem” simples ou é complexa?</p>



<p>&#8211; Apresenta-se sempre simples, chega, porque foi “chamada” pela ignorância e por uma suposta necessidade, muitas vezes não é suposta, é uma necessidade real, fruto de muita incompetência que nos leva à necessidade…</p>



<p>&#8211; Não está a ser objectivo. Está a rodear. Ela tem ou não interesse, é necessária, pelo que nos parece, sim!</p>



<p>&#8211; Não! Não tem interesse nenhum, só vai atrofiar a vida de todos. O que nos poderá parecer uma mudança social para melhor não o é, vamos dizer, depois da actuação dela no terreno: “Chega! Não podemos continuar assim!” Mas vai ser tarde para todos, o que se pensava serem melhorias de vida, vão ser “aconchegos” para a “elite” criada por ela, o povo não vai conseguir levantar a cabeça até porque não temos recursos financeiros, recursos vindos do subsolo, veja-se dos poucos que temos, a teimosia em não deixarmos que se explorem…</p>



<p>&#8211; Ah, também é desses que querem “destruir” a paisagem, colocando-lhe marcos de suposta evolução?</p>



<p>&#8211; Todo os povos cuidam de si próprios com atenção redobrada aos seus recursos, de uma forma científica-tecnológica sem lugar a experimentalismos “políticos”…</p>



<p>&#8211; Mas afinal, não disse o nome de quem queremos saber, já estamos a ver que é uma “coisa” muito má, será que nós, os mais avoadores, não devemos saber, pelo menos o nome dela, já que nos informam que é muito má socialmente?</p>



<p>&#8211; Sendo avoados, e por mais que vos diga o que se passou na altura em que era tão jovem como vós o sois agora, insistem em querer afundar-se num lamaçal social e dizer, mas já tarde: “Chega! Não é possível este tormento!” Bom, de qualquer maneira… o nome dela é Autocracia e é casada com o Absolutismo.</p>



<p>&#8211; Ah… já ouvi isso…</p>



<p>&#8211; Adianta o que vos é informado? O que vos disse?</p>
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		<title>IRMÃOS DE SOMBRA E SAUDADE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alfredo Quintas]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Oct 2026 23:00:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CRÍTICAS E PROSAS]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[Iberismo]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel de Unamuno]]></category>
		<category><![CDATA[Teixeira de Pascoaes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Miguel de Unamuno e Teixeira de Pascoaes</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p></p>



<p>Miguel de Unamuno manteve uma relação profunda, afetiva e intelectual com Portugal, país que visitou inúmeras vezes e que descreveu formalmente como a sua &#8220;segunda pátria espiritual&#8221;. Numa época em que a Espanha vivia culturalmente de costas voltadas para o território vizinho, o pensador e reitor da Universidade de Salamanca cruzou a fronteira com o firme propósito de construir pontes, tornando-se o maior embaixador e tradutor da cultura e da literatura portuguesa em solo espanhol. Esta ligação não se limitava a uma curiosidade turística; tratava-se de uma verdadeira necessidade metafísica de comunhão com o lirismo e a interioridade que ele encontrava na alma lusa.</p>



<p>A sua ligação mais célebre, duradoura e literariamente produtiva deu-se com o poeta Teixeira de Pascoaes, o grande líder do movimento do <em>Saudosismo</em>. A amizade entre ambos assentava numa profunda afinidade eletiva, uma vez que partilhavam uma obsessão mística pelo mistério da existência, pela dor do tempo que passa e pela busca incessante da imortalidade. Unamuno via em Pascoaes o &#8220;irmão espiritual&#8221; que não encontrava em Espanha, o que o levou a visitar repetidas vezes a Casa de Pascoaes, em Amarante. Ali, em longas caminhadas junto ao rio Tâmega e sob a sombra da Serra do Marão, os dois escritores discutiam literatura, religião e o destino dos povos ibéricos.</p>



<p>Enquanto Pascoaes teorizava sobre a <em>Saudade</em> como a essência espiritual e o motor de regeneração da alma portuguesa — um sentimento que une o passado, o presente e o futuro numa ânsia de eternidade —, Unamuno contrapunha-o com o seu próprio conceito do &#8220;sentimento trágico da vida&#8221;, assente na luta agónica e desesperada entre a fé e a razão. A vasta correspondência trocada entre os dois autores ao longo de décadas constitui um dos testemunhos epistolares mais ricos do início do século XX, revelando também uma solidariedade humana profunda, visível quando Pascoaes se tornou uma das vozes públicas mais ativas em defesa de Unamuno aquando do seu exílio político na ilha de Fuerteventura, em 1924.</p>



<p>Esta convivência alimentava o ideal unamuniano do <em>Iberismo</em>, que não preconizava uma união política ou administrativa entre as duas nações, mas sim uma fraternidade cultural e espiritual onde cada povo preservasse estritamente a sua identidade. Unamuno chamava a esta união utópica uma &#8220;infraterna aliança&#8221;, acreditando que a melancolia, o intimismo e o panteísmo natural dos portugueses serviriam de contrapeso ideal ao misticismo trágico, dogmático e rústico das terras de Castela.</p>



<p>Para além de Pascoaes, o intelectual espanhol conviveu e influenciou várias das mentes mais brilhantes de Portugal. Dedicou ensaios vibrantes a Antero de Quental, por cujos <em>Sonetos</em> nutria uma admiração quase religiosa, identificando nele o exemplo máximo do calvário interior e da tragédia íntima ibérica. Manteve também uma amizade estreita com Guerra Junqueiro, visitando-o com frequência na sua quinta no Douro para admirar a força profética e telúrica da sua poesia, e privou com Eugénio de Castro, que o introduziu nos círculos literários e académicos de Coimbra. Embora a sua relação com Fernando Pessoa não tenha sido de proximidade pessoal, o poeta dos heterónimos conhecia profundamente o pensamento do espanhol, partilhando com ele o fascínio em torno do mito do sebastianismo e da desconstrução da identidade nacional. Toda esta riqueza e respeito pelo caráter do povo, pela língua, pelo fado e pela paisagem lusa ficaram imortalizados na sua obra &#8220;Por Tierras de Portugal y de España&#8221;, consolidando o seu papel como o pensador espanhol que mais intimamente compreendeu e amou Portugal.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img decoding="async" width="624" height="418" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/image.png" alt="" class="wp-image-51682" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/image.png 624w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/image-300x201.png 300w" sizes="(max-width: 624px) 100vw, 624px" /><figcaption class="wp-element-caption">Miguel de Unamuno</figcaption></figure></div><p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/10/irmaos-de-sombra-e-saudade/">IRMÃOS DE SOMBRA E SAUDADE</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>ESTRANGEIRA NA AVENIDA DA LIBERDADE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Margarida Maria]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Oct 2026 09:07:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[TINTA PERMANENTE]]></category>
		<category><![CDATA[Baixa de Lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[comércio de Lisboa]]></category>
		<category><![CDATA[turismo em Lisboa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na cidade onde vivo há mais de 50 anos, a estrangeira sou eu</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Olhar para o edifício do <em>Diário de Notícias</em> é sempre um aperto no coração. Nunca compreenderei o facto de não terem ali feito um museu da Imprensa ou alguma coisa do género. Não sei o que se passa agora na velha sala verde, onde decorriam reuniões, nos gabinetes, na cantina, ou no espaço da redacção. Não sei se no lugar da minha secretária estará uma cama ou uma banheira. E é sempre uma dor.</p>



<p>Mas lá fui avenida abaixo. Ouço falar português do Brasil, inglês, alemão, francês. Não ouço falar português. Ninguém olha para o outro, homens e mulheres, mais velhos e mais novos, de auriculares, indiferentes a quem passa.</p>



<p>Mais abaixo, há agarrados ao telemóvel, como se o mundo acabasse daí a pouco. Uns falam mais alto, outros numa irritação difícil de conter. Uma mulher pára no semáforo, mesmo ao meu lado. Não quer que a filha saia à noite. Todos ficámos a saber a história e eu tenho vontade de lhe dizer que seja mais discreta.</p>



<p>As lojas são todas estrangeiras, todas de luxo. Qualquer par de sapatos custa mais de 600 euros. Qualquer saia custa mais de 800 euros. Qualquer coisa, seja qual for, nunca tem preço abaixo dos 500 euros.</p>



<p>As pessoas continuam a cruzar-se. Uma mulher sorri e a pessoa que me ultrapassa pergunta à outra se será maluca. Não entendo porquê. Será porque sorriu?</p>



<p>Passo no edifício de Tony Miranda. Ora aqui está um português que se mantém na avenida. Só mais uma loja do género é portuguesa. E há o <em>Hard Rock Cafe</em>. Os pequenos restaurantes, os cafés onde tantas vezes tomei pequeno-almoço, ou comi um croquete para enganar a fome à hora do almoço, tudo desapareceu. Agora é só luxo.</p>



<p>Os restaurantes têm todos nomes estrangeiros e, nas ementas, nem aparece o preço. Quem quiser que use o <em>qrcode</em>. Lá está o velho <em>Pinóquio</em>, também com o tal <em>qrcode</em>, a esconder os preços.</p>



<p>Atravesso. Passo às estátuas e lá está outra vez o <em>qrcode</em>, como se todos tivessem telemóvel, ou soubessem funcionar com aquilo. Ah! Espera, isto é mais para estrangeiros…</p>



<p>Já ali, avenida acima, há uma clínica e um hotel com nome português e, felizmente, o Partido Comunista.</p>



<p>Aproximo-me da banca dos jornais. Uma velhota, sentada numa cadeira de praia, encara-me e pergunta: ‘canaielpiu?’ Não entendo e ela repete: ‘canaielpiu?’. Decifro o ‘can I help you’ e faço questão de lhe responder alto: Não, muito obrigada. Não preciso de nada. E desarvorei zangada por ali fora.</p>



<p>Já eram quase 9 horas e eu tinha um compromisso. Percebo que a maioria das empregadas de limpeza das lojas de luxo são brasileiras. Descem escadas com as esfregonas em punho e vão acordar os sem-abrigo que passaram a noite nas arcadas. Não são agressivas. Um ligeiro toque e eles acordam. Resmungam um: ‘já vou’.</p>



<p>Andam diversos varredores a limpar, até as folhas dos plátanos. Pena que em outras ruas da cidade não seja assim…</p>



<p>Uma hora mais tarde, hei-de subir novamente a avenida, entre <em>tuk-tuks</em> e turistas a saírem dos hotéis. Já tenho a minha dose de tristeza: na Avenida da Liberdade, na cidade onde vivo há mais de 50 anos, a estrangeira sou eu.</p>
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		<title>UMA ARTE DE MULHER</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alberto Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Oct 2026 09:00:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Economia e Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[UM CRONISTA DE PROVÍNCIA]]></category>
		<category><![CDATA[artesanato]]></category>
		<category><![CDATA[bordados de Tibaldinho]]></category>
		<category><![CDATA[Mangualde]]></category>
		<category><![CDATA[Tibaldinho]]></category>
		<category><![CDATA[tradição]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Antigamente bordavam, com a poesia toda, as vestes alvas da intimidade da mulher.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Tibaldinho é um pequeno povoado da freguesia de Alcafache, conhecida ao longe pelas suas águas termais que rebentam, quentes, sulfurosas, penhor de saúde, à beira do rio Dão.</p>



<p>Tibaldinho tem jeito de aldeia implantada na meia encosta soalheira, na margem esquerda do rio e a sua fama advém-lhe dos especiosos bordados que ali tiveram berço, parece, e onde permanecem, activos, graças ao fervor e amor das bordadeiras.</p>



<p>Mulheres com filhos criados, raparigas na idade núbil, crianças de idade tenrinha cultivam esta arte do bordado desde há um tempo longo, que terá séculos, mas é nos finais do século XIX que se encontra, com suficiência, o rasto deste lavor de arte, que hoje ainda se mantém operoso, ora classificado, o bordado, como produção certificada, tendo a Câmara Municipal de Mangualde, como entidade promotora, e uma região abrangente que inclui os municípios de Mangualde, Nelas e Viseu.</p>



<p>É esta arte secular que eu evoco, com alguma poesia, no meu texto.</p>



<p>Quando a mulher é rapariga nova, borda e sonha ao mesmo tempo, recorta corações no linho cru ou no pano de algodão, alvoroçada, porque o seu desenho é como um poema numa carta de amor.</p>



<p>Quando a mulher é já mulher, casada e cansada das lides da vida borda e recorda, ela é firme no amor maduro e a beleza que absorve da paisagem coloca-a toda em seu bordado.</p>



<p>As bordadeiras são artesãs. Mulheres da aldeia, sentam-se na varanda ou nos balcões soalheiros e aproveitam toda a luz da tarde. Estendem no regaço panos de linho ou de algodão, riscam desenhos, bordados são os pontos miudinhos dados com saber, dedos ligeiros conduzindo a agulha que deixa sempre o rasto de obra-prima.</p>



<p>E bordam, bordam enxovais de noivas com lençóis floridos e almofadas com monogramas festivos e panos redondos para o centro das mesas e toalhas de chá para mesas de ricos e toalhas de altar, de Páscoa, de baptizado, que antigamente se guardavam em baús de lata com raminhos de alfazema.</p>



<p>Bordam lenços, panos de tabuleiro, camisinhas de criança. Antigamente bordavam, com a poesia toda, as vestes alvas da intimidade da mulher.</p>



<p>A riqueza dos motivos que elas bordam tem só o gosto popular. Os símbolos foram inventados há mil anos e perduram, o significado é denso e linear ao mesmo tempo e a alma da gente compreende-os tão bem como as primeiras coisas.</p>



<p>São rosas, corações, estrelas. Hastes florais com pétalas que se desfolham, às vezes. Enleios que se dobram como gestos envergonhados, crivos que lembram os velhos filtros de amor, óculos que deixam passar a magia da luz.</p>



<p>Os desenhos das bordadeiras ficam sempre a brincar sob o nosso olhar.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="1024" height="774" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/bordados-2-1024x774.png" alt="" class="wp-image-51651" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/bordados-2-1024x774.png 1024w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/bordados-2-300x227.png 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/bordados-2-768x580.png 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/bordados-2-696x526.png 696w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/bordados-2-1392x1052.png 1392w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/bordados-2-1068x807.png 1068w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/bordados-2-1320x998.png 1320w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/10/bordados-2.png 1429w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">bordado de Tibaldinho</figcaption></figure></div>


<p></p>
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		<item>
		<title>O PREÇO DE ESTAR ACORDADO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jaime Redo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Oct 2026 14:00:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CONVERSAS COM PESSOA - AS MÁSCARAS DO RIO E DO TEMPO]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[conversas com Pessoa]]></category>
		<category><![CDATA[ensaio literário]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando pessoa]]></category>
		<category><![CDATA[heterónimos de Fernando Pessoa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O desassossego não é uma doença</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>O poeta olhou para o fundo da chávena. A borra do café colada à porcelana desenhava labirintos parecidos com as ruas da Baixa. </p>



<p>&#8211; O desassossego não é uma doença, Joaquim (disse ele, por fim).</p>



<p>&#8211; É o preço de se estar acordado. O imposto que a alma paga por não se deixar adormecer no conforto da burguesia.</p>



<p>&#8211; Meu caro Joaquim… (Pessoa sorriu com o canto da boca). </p>



<p>&#8211; Mentir ao que sentimos é o primeiro passo para sermos verdadeiros. O teu erro é a ingenuidade. Achas mesmo que existe aí dentro um &#8220;eu&#8221; sólido? Uma rocha a quem deves lealdade? (O poeta fez uma pausa, olhando para as pessoas que passavam lá fora)&nbsp;</p>



<p>&#8211; Julgas-te um traidor só porque não bates certo com a tua própria emoção? Disparate. Ser fiel a um único sentimento é uma paralisia. Chamas-te a ti mesmo um pecado? Eu diria que és apenas vários homens que ainda não se conhecem. Somos muitos, Joaquim. O tipo que acorda de manhã não é o mesmo que pede o café agora. E nenhum deles tem de prestar contas ao gajo que se vai deitar logo à noite. A moral quis prender este rio numa certidão de nascimento. Querem transformar a água numa estrada de pedra. Esquecem-se de que a virtude da água é correr. É não parar.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Joaquim ouviu-o em silêncio. Aquilo soava a uma sentença antiga. Uma verdade que ele já conhecia, mas cuja execução vinha a adiar. Encostou os dedos ao mármore frio da mesa, tentando prender-se à realidade da pedra. Uma parte de si queria ceder àquela conversa de Pessoa. Queria o alívio de aceitar que ser incoerente era normal. Mas outra parte &#8211; aquela teimosia tipicamente nossa &#8211; exigia uma âncora. Alguma coisa que justificasse a dor. </p>



<p>&#8211; Mas eu sinto que isto não faz sentido nenhum! &#8211; atirou Joaquim (a voz saiu-lhe alta demais, partindo a calmaria do café).</p>



<p>&#8211; É a cabeça, Fernando. É isto. (Joaquim apontou para a própria têmpora, com os dedos a tremer ligeiramente)</p>



<p>&nbsp;&#8211; Dou por mim a vigiar o que penso. O tempo todo. É aí que me perco. Não sei simplesmente&#8230; estar. Olho para o Tejo e não vejo água nenhuma. Vejo o tempo a fugir, a minha juventude que já era, aquelas caravelas que nunca mais voltam. Sei lá. Tudo serve de pretexto para a cabeça moer.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>Calou-se. Passou a palma da mão pela testa, limpando um suor frio. Lá fora, o elétrico rangeu nos carris da Baixa.</p>



<p>&#8211; Eu esqueço-me de quem sou. Acho que é do meu carácter, sei lá. Invento um boneco para enfrentar a rua. Mudo a voz, empertigo as costas. Mas sei o truque. Sei perfeitamente que a pose é um biombo de papelão à frente do abismo. E o que me lixa não é a máscara, Fernando. É saber que a tenho posta. A cada segundo. Saber que, se a arrancar&#8230; não fica lá nada. Nem pele, nem carne. Só escuro. Uma noite sem fim.</p>



<p>Pessoa não respondeu logo. Inclinou a cabeça e a luz baça da janela bateu de lado nos óculos, transformando os olhos dele em dois espelhos brancos. Deixou o cigarro arder. O fumo subia torto, pesado, a meter-se entre os dois. Parecia que o próprio desassossego tinha ganho corpo ali em cima do mármore. </p>



<p>&#8211; Precisamente! &#8211; atirou Pessoa, quase num baque.</p>



<p>&#8211; O carácter é só a máscara que usamos para esquecer que não temos rosto nenhum. Se não nos esquecêssemos de quem somos, se ficássemos ali, cara a cara com a nossa falta de substância&#8230; como é que suportávamos o tédio de ser uma coisa só? A consciência é uma lucidez que cega, Joaquim. Quem olha demasiado para as engrenagens do próprio corpo acaba por encravar a máquina.</p>
</div></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<p>O poeta bateu com a ponta do cigarro no cinzeiro. </p>



<p>&#8211; É a dúvida que move as coisas, não é a fé. A fé é a pedra que fecha o túmulo do pensamento. A dúvida é outra coisa: é o vento que limpa o céu das certezas. Obriga-te a navegar, mesmo que o destino seja ires-te abaixo na bruma. Não fujas do abismo. Aprende a decorar as paredes dele. Mapeia as correntes de ar. Transforma-o num salão onde os teus fantasmas possam dançar sem a obrigação de mostrarem o bilhete de identidade.</p>
</div></div>



<p><sub><strong><a href="https://duaslinhas.pt/2026/10/a-geometria-do-purgatorio-lisboeta/" type="link" id="https://duaslinhas.pt/2026/10/a-geometria-do-purgatorio-lisboeta/">(continua)</a></strong></sub></p>
</div></div>



<p></p>
<p>O conteúdo <a href="https://duaslinhas.pt/2026/10/o-preco-de-estar-acordado/">O PREÇO DE ESTAR ACORDADO</a> aparece primeiro em <a href="https://duaslinhas.pt">Duas Linhas</a>.</p>
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		<title>CRISTIANO RONALDO, PORTUGAL E A GESTÃO DOS EGOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Manuel Tomaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 12:13:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Desporto]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[TEMPO de PENSAR]]></category>
		<category><![CDATA[Cristiano Ronaldo]]></category>
		<category><![CDATA[futebol]]></category>
		<category><![CDATA[Jorge Jesus]]></category>
		<category><![CDATA[seleção nacional de futebol]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O ego de Cristiano Ronaldo. O ego de Jorge Jesus. Choque frontal de egos.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há episódios no futebol que ultrapassam largamente o futebol. O que aconteceu em torno de Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus e da Seleção Portuguesa é um desses casos.</p>



<p>Não porque Cristiano Ronaldo esteja acima da Seleção — não está. Não porque tenha direito adquirido a ser titular — não tem. E muito menos porque a dimensão extraordinária da sua carreira lhe conceda uma espécie de imunidade perante as decisões de um treinador.</p>



<p>Mas precisamente porque estamos a falar de Cristiano Ronaldo, de uma das maiores figuras da história do futebol mundial e, sobretudo, de alguém que construiu a sua relação com a Seleção ao longo de duas décadas, este episódio exigia mais do que uma decisão técnica. Exigia inteligência humana.</p>



<p>E é aí que começa a verdadeira questão. Entre a autoridade e o respeito. Jorge Jesus tem o direito &#8211; e a responsabilidade &#8211; de escolher quem joga. Um treinador que não possa tomar decisões técnicas deixa de ser treinador.</p>



<p>Cristiano Ronaldo, por seu lado, pode discordar, pode sentir-se injustiçado, pode até reagir emocionalmente. É humano. O que não pode é transformar a sua extraordinária história num argumento de autoridade sobre a equipa. Mas há uma diferença fundamental entre reconhecer isto e reduzir tudo a uma questão de ego.</p>



<p>Cristiano Ronaldo construiu uma carreira que não nasceu de privilégios. Nasceu de uma extraordinária capacidade de trabalho, de disciplina, de sacrifício, de uma vontade quase obsessiva de superar-se e de uma relação excepcional com a bola e com o jogo. É um exímio na arte do domínio da bola, do gesto técnico, da finalização e da transformação da vontade em desempenho.</p>



<p>Foi campeão europeu por Portugal em 2016. É o jogador com mais internacionalizações e mais golos pela Seleção. A sua dimensão ultrapassa o futebol português e pertence já à história do futebol mundial. Reconhecer tudo isto não significa conceder-lhe privilégios. Significa apenas que uma figura desta dimensão não pode ser tratada como se fosse um jogador qualquer.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>A difícil relação com o tempo</strong></h4>



<p>Há outra questão que não pode ser ignorada: o tempo.</p>



<p>Cristiano Ronaldo construiu a sua identidade profissional sobre a ideia de que o esforço pode vencer quase tudo. Treinou mais, cuidou mais do corpo, exigiu mais de si próprio e transformou a ambição numa forma de existência. Mas há uma adversidade contra a qual nem o trabalho mais extraordinário consegue vencer definitivamente: o tempo.</p>



<p>A idade modifica o corpo, a velocidade, a recuperação, a capacidade de repetição, a importância de determinados movimentos. E modifica também a percepção que o próprio jogador tem de si.</p>



<p>Talvez uma das maiores dificuldades de um campeão seja precisamente esta: perceber que continuar a ser extraordinário não significa necessariamente continuar a ser o mesmo jogador.</p>



<p>É aqui que o ego entra na equação. Ronaldo tem um ego enorme. Seria absurdo fingir que não. Mas reduzir toda a sua personalidade ao ego seria igualmente absurdo. Porque o mesmo ego que pode produzir reações difíceis de compreender é também parte da força que o levou a querer ser melhor todos os dias, a suportar críticas, derrotas e enormes exigências físicas durante tantos anos.</p>



<p>O problema não é ter ego. O problema começa quando o ego deixa de estar ao serviço da equipa. E isso vale para todos.</p>



<p><strong>A conversa que talvez tivesse evitado tudo</strong></p>



<p>É precisamente por isso que, antes de qualquer exposição pública, deveria existir uma conversa privada. Uma conversa de homens. Sem câmaras. Sem jornalistas. Sem comunicados. Sem necessidade de alguém sair vencedor.</p>



<p>Jorge Jesus poderia explicar a Ronaldo, com frontalidade, que uma decisão técnica não significa uma desvalorização da sua história. Ronaldo poderia dizer aquilo que sente, sem que isso fosse imediatamente transformado numa afronta à autoridade.</p>



<p>E a Federação deveria estar suficientemente próxima para perceber quando uma divergência técnica começa a transformar-se num problema institucional.</p>



<p>É assim que se administram personalidades fortes. Não humilhando-as. Não cedendo-lhes. Não alimentando-lhes o ego. Mas estabelecendo limites com respeito.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>A responsabilidade da Federação</strong></h4>



<p>É aqui que a Federação Portuguesa de Futebol tem uma responsabilidade que vai muito além da organização de jogos. Uma Federação não deve apenas convocar jogadores, organizar estágios e tratar da logística da Seleção. Tem também uma responsabilidade institucional sobre o ambiente humano em que a equipa trabalha.</p>



<p>Quando existem personalidades desta dimensão &#8211; um treinador com autoridade, um jogador com uma história gigantesca e uma instituição que representa o país &#8211; a gestão dos conflitos não pode começar depois de o conflito chegar à praça pública. É preciso antecipá-los.</p>



<p>E talvez estas sejam as palavras que melhor definem o problema: gestão dos egos. O ego de Cristiano Ronaldo. O ego de Jorge Jesus. O ego institucional da Federação. Nenhum deles pode ser maior do que a Seleção.</p>



<p>E nós, que observamos? Há ainda uma responsabilidade nossa: daqueles que comentam, escrevem, analisam e julgam. Não me refiro à imprensa como um bloco. Há jornalistas e comentadores que conhecem profundamente o futebol, que sabem distinguir factos de interpretações e que tratam as pessoas com equilíbrio. Mas existe também uma tendência crescente para explicar personalidades complexas através de palavras simples.</p>



<p>E aqui encontramos um certo analfabetismo interpretativo do nosso tempo: a dificuldade em compreender aquilo que não cabe facilmente numa explicação rápida.</p>



<p>Ronaldo é reduzido ao ego. Ou à arrogância. Ou à incapacidade de aceitar a idade. Ou à dificuldade em aceitar uma decisão.</p>



<p>Talvez algumas dessas características possam fazer parte da realidade. Mas nenhuma delas, isoladamente, explica uma personalidade construída ao longo de quarenta anos de vida e de mais de duas décadas de futebol ao mais alto nível.</p>



<p>Saber quantos golos um jogador marcou não significa conhecer o homem. E conhecer algumas das suas reações públicas também não significa conhecer aquilo que se passa dentro dele.</p>



<p>A crítica é legítima. A caricatura não. A imprensa tem o direito de questionar Ronaldo. Tem o direito de questionar Jorge Jesus. Tem o direito de questionar a Federação. Mas quanto maior é a figura que se analisa, maior deveria ser também a responsabilidade de quem a analisa. Menos certezas instantâneas. Mais contexto. Menos diagnóstico de personalidade. Mais compreensão dos factos. Menos julgamento moral. Mais inteligência.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>O que Ronaldo poderia ter feito</strong></h4>



<p>Ronaldo poderia ter feito aquilo que muitas vezes se pede aos grandes jogadores: aceitar a decisão, mesmo discordando dela, e colocar a sua frustração ao serviço da equipa. Não seria fácil. Mas talvez fosse esse o verdadeiro gesto de grandeza.</p>



<p>Porque existe uma diferença entre ter razão sobre aquilo que sentimos e saber o que fazer com aquilo que sentimos. Um campeão não deixa de ser campeão por sentir-se ferido. Mas pode diminuir a sua própria grandeza se permitir que a ferida seja maior do que a missão. E a missão chama-se Portugal.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>O que Jorge Jesus poderia ter feito</strong></h4>



<p>Jorge Jesus tinha autoridade para tomar a decisão técnica. Mas autoridade não é apenas poder decidir. É também saber comunicar a decisão. Um treinador trabalha com homens, não com peças de uma máquina. E quando se trata de uma figura como Cristiano Ronaldo, a dimensão simbólica da decisão não pode ser ignorada.</p>



<p>Não significa tratar Ronaldo de maneira privilegiada. Significa reconhecer que determinadas decisões exigem uma comunicação proporcional à sua importância. A firmeza não é incompatível com a delicadeza. E a autoridade não diminui quando sabe respeitar quem tem à sua frente.</p>



<p>E a Federação? A Federação tinha talvez a responsabilidade mais difícil: impedir que uma questão entre jogador e treinador se transformasse numa questão entre Ronaldo e Portugal. Porque é isso que está em causa.</p>



<p>Não podemos permitir que uma divergência pessoal, técnica ou institucional adquira uma dimensão nacional que ninguém desejou. Portugal não pode ficar refém dos egos de quem representa Portugal. Ronaldo não está acima de Portugal. Jorge Jesus não está acima de Portugal. A Federação também não está acima de Portugal. A Seleção está acima de todos eles.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>O verdadeiro risco</strong></h4>



<p>O verdadeiro risco deste episódio não é saber quem teve razão. Essa é precisamente a pergunta mais fácil e talvez a menos importante. O verdadeiro risco é transformar uma divergência que poderia ter sido resolvida através de diálogo numa fratura pública. Porque, quando isso acontece, todos perdem alguma coisa.</p>



<p>Ronaldo perde porque uma parte da sua extraordinária história pode ficar associada a uma saída amarga. Jorge Jesus perde porque a sua autoridade técnica pode passar a ser discutida através do conflito pessoal. A Federação perde porque a sua capacidade de gestão fica inevitavelmente sob escrutínio. Mas, acima de todos, perde a Seleção. E quando perde a Seleção, perde Portugal.</p>



<p>Não se trata de escolher um vencedor É demasiado fácil escolher um lado. Os que não gostam de Ronaldo encontrarão neste episódio a confirmação daquilo que já pensavam dele. Os que admiram Ronaldo encontrarão argumentos para considerar injusta qualquer decisão que o contrarie. Os que apoiam Jorge Jesus defenderão a autoridade do treinador. Os que desconfiam da Federação encontrarão mais uma razão para criticá-la. E assim construímos trincheiras.</p>



<p>Mas uma Seleção não se constrói com trincheiras. Constrói-se com inteligência, disciplina, respeito e sentido de missão.</p>



<p>Cristiano Ronaldo deu demasiado a Portugal para que a sua história possa ser reduzida a uma conferência de imprensa, a uma decisão técnica ou a uma guerra de egos. Isso não significa poupá-lo à crítica. Significa criticá-lo à altura daquilo que ele representa. E o mesmo vale para Jorge Jesus. Um treinador com autoridade deve ser capaz de tomar decisões difíceis, mas também de gerir pessoas difíceis. E vale ainda mais para a Federação. Porque uma instituição que representa Portugal tem obrigação de saber quando uma questão deixa de ser apenas futebol e passa a ser uma questão de coesão nacional.</p>



<p>No fim, há uma coisa maior O futebol passa. Os treinadores passam. Os presidentes passam. Os jogadores passam. Mas a memória de uma geração fica.</p>



<p>Cristiano Ronaldo ficará na história do futebol português. Jorge Jesus também ficará associado a uma determinada fase da Seleção. E a Federação continuará a existir muito depois de todos nós termos deixado de discutir este episódio.</p>



<p>Por isso, talvez a pergunta certa não seja: Quem ganhou? Talvez seja: O que poderíamos ter feito melhor para que Portugal não perdesse?</p>



<p>Portugal não precisa de vencedores desta disputa. Precisa que ninguém permita que a disputa se torne maior do que Portugal.</p>
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		<title>OS CAMINHOS EM CRUZ</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alberto Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 08:30:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Gadgets]]></category>
		<category><![CDATA[SOCIEDADE]]></category>
		<category><![CDATA[UM CRONISTA DE PROVÍNCIA]]></category>
		<category><![CDATA[História de Viseu]]></category>
		<category><![CDATA[Viseu]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>territórios que desde o Neolítico se povoaram de cultivadores</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ergue-se do planalto, referência absoluta para os homens que viviam para aquém das grandes montanhas, a Estrela e o Caramulo, o Buçaco, a Nave e a Lapa, ou para quem atravessava estes territórios que desde o Neolítico se povoaram de cultivadores que adoraram a Terra-Mãe e sepultaram seus mortos nos dólmens que hoje nos espantam pela frequência e grandeza.</p>



<p>Os metalúrgicos do bronze e do ferro ocuparam com as suas armas da guerra e do trabalho quase todas as colinas em redor e Viseu nasceu porventura do esforço de um punhado desta gente. E deixaram testemunhos, hoje visíveis, na colina que foi geratriz da cidade, lá onde assenta a Catedral. Só os romanos marcaram com uma força singular os termos da cidade desde o século II antes de Cristo. Viriato é uma figura histórica desse tempo, emblema de uma resistência entre o passado e presente, de estrangeiros e de autóctones. Mas em Viseu ele é antes o herói de um quase mito de origem.</p>



<p>As sete vias que saíam da cidade eram caminhos de ir e de vir, as que entraram na cidade foram o <em>cardo</em> e o <em>decumanus</em> de uma cidade reordenada no seu urbanismo, revigorada por tecnologias agrícolas e artesãs, por uma paz que desencadeou um comércio fecundo que se tornou, para sempre, o melhor signo da urbe.</p>



<p>Viseu foi terreno fértil para as lutas entre mouros e cristãos interessados na sua posse. História lembrada por velhas fontes árabes diz que Almançor, no século X, acampou nas defesas da Cava, nas margens da cidade e daqui conduziu, em raivosa arrancada, os seus homens e os soldados que os condes cristãos seus aliados lhe forneceram, sobre Santiago de Compostela. Atingiu duramente o baluarte de uma fé e de uma cultura que se reforçavam mutuamente, mas esta vitória apenas retardou o triunfo cristão que em meados do século seguinte definitivamente atingiu Viseu.</p>



<p>Os primeiros reis portugueses lembram a cidade no quadro de uma acção política mais longínqua. Dão-lhe foral, estabeleceram certamente uma feira, favoreceram os bispos que levantaram a Catedral românica. A dinastia de Avis sanciona com força de lei a grande feira, um dos seus príncipes tornou-se o primeiro duque, os seus homens do campo ou dos ofícios foram os primeiros lutadores em África.</p>



<p>A cidade manuelina representa o triunfo de uma nação. Bispos cultos como Ortiz de Vilhegas ou D. Miguel da Silva deixaram marcas culturais que hoje simbolicamente se reconhecem na Abóbada dos nós da Catedral e no seu Claustro renascentista. Mas há fabulosas obras de ourives e a mais singular escola de pintura de uma nação pequena à volta de Vasco Fernandes, na primeira metade de século XVI, pouco antes de se ter construído o Colégio, o Paço-Seminário que quatrocentos anos depois se tornou no Museu que recebeu tão prestimosa herança.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="827" height="552" src="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/09/viseu-catedral.jpg" alt="" class="wp-image-51628" srcset="https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/09/viseu-catedral.jpg 827w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/09/viseu-catedral-300x200.jpg 300w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/09/viseu-catedral-768x513.jpg 768w, https://duaslinhas.pt/wp-content/uploads/2026/09/viseu-catedral-696x465.jpg 696w" sizes="auto, (max-width: 827px) 100vw, 827px" /><figcaption class="wp-element-caption">Viseu. Catedral. Abóbada dos nós (Séc. XVI)</figcaption></figure></div>


<p>Viseu vive depois o triunfo do barroco com palácios e igrejas cobertas de ouro, vai de par com caminhos sempre novos, até hoje que volta a ser cruz de grandes vias, território em franco crescimento.</p>



<p>Nos velhos caminhos romanos que resistiram quase até hoje, passaram mil romeiros de Santiago. Juntavam-se aqui, vindos do Centro, para fazer o caminho na direcção do Norte tendo por rumo o túmulo sagrado do apóstolo. Os peregrinos dormiam em pousadas pobres da cidade ou batiam às portas dos mosteiros que eram albergue por uma noite. Muitos procuravam a Catedral e o Paço onde um bispo esmoler e um cabido generoso distribuía esmolas de pão e de vinho ou parcas moedas.</p>



<p>Velhos papéis de Arquivo são eloquentes testemunhos desta caridade efectiva, destes passos que a fé guiava. Há ainda uma história para fazer, a desta gente que passava, os olhos fitos em Santiago, os olhos fitos nas torres das catedrais do caminho que reproduziam a outra como madre, o testemunho passado a outros romeiros, das curvas dos caminhos, dos sítios de agasalho. Um dia os peregrinos deixaram quase de tomar estes rumos.</p>



<p>Voltam agora a animar-se os caminhos. Mas já nem sempre é a mesma fé que guia todos. Só os fundamentos da memória são iguais, o património, a herança dos avós. Mas em Viseu é sempre hora de parar, de colocar de lado o bordão de viajante, de sentir a história à sombra de um monumento, de saborear pão e vinho, de conversar com um homem feito amigo.</p>



<p>Para sempre em Viseu.</p>



<p></p>
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