Ao Cuidado do Conselho de Sábios Analógicos da ARTE (Agência para a Reforma Tecnológica do Estado, I.P.)
Ao Excelentíssimo Senhor Presidente do Conselho Diretivo, Engenheiro Manuel Dias. À Vogal das Linhas Tortas, Mónica Letra, ao Vogal do Bloqueio Permanente, João Roque Fernandes
Exmos. Senhores,
É com o dedo indicador esquerdo a tremer de indignação – uma vez que o direito foi sacrificado no altar da vossa transição digital – que a recém-eleita direção do F.O.D.A.S.E.(Federação de Organizações de Demagogia e Alianças Secretas Eleitorais), toma a palavra. Acabámos de receber o vosso pedido de “averiguação forense”, onde solicitam o número de telefone que originou a chamada para a vossa linha de apoio (21 048 9010).
A vossa capacidade de transformar um problema técnico num mistério digno de Agatha Christie é, de facto, assinalável. Pedem o número de telemóvel para investigar por que razão um cidadão tem de assinar três vezes o mesmo documento? Se o vosso sistema informático exige um código por página, não precisam de um detetive privado; precisam de um programador que não tenha aprendido a codificar numa máquina de calcular de 1982.
Como o meu telemóvel original explodiu devido à radiação térmica de tanto receber SMS de validação, deixo-vos o contacto alternativo da sede do F.O.D.A.S.E. No entanto, alerto-vos: a nossa linha só atende se digitarem o código PIN ao ritmo do hino nacional.
O Triunfo do Masoquismo Estatal
A liderança de António Cadabulho assume-se profundamente fascinada pelo vosso trabalho. O Engenheiro Manuel Dias, com o seu passado na Microsoft, conseguiu o impensável: injetar o conceito de “Ecrã Azul da Morte” diretamente no sistema nervoso dos portugueses.
O vosso fluxo de trabalho digital superou a genialidade de Franz Kafka. Dividir a assinatura de um relatório de três páginas num sofrimento em três atos é puro sadismo burocrático:
- Ato I (A Ilusão): O cidadão digita o PIN da Chave Móvel Digital. Espera pelo SMS. O código chega. A primeira página está assinada. Há um brinde mental à modernização do país.
- Ato II (O Castigo): O sistema apaga o sorriso da cara do utilizador. Avança para a página dois e exige… tudo de novo. Novo PIN. Novo SMS. O suor frio começa a descer pela espinha.
- Ato III (O Colapso): Terceira página. Terceiro SMS. O cidadão já não usa os dedos; bate com a testa no teclado, chora copiosamente e pede perdão por crimes que não cometeu.
O Novo Plano Estratégico proposto pelo F.O.D.A.S.E.
Como a ARTE parece empenhada em fazer o país regressar ao ano de 1995 com internet discada, António Cadabulho propõe formalmente a fusão da vossa agência com o F.O.D.A.S.E. Para o próximo plano de desmaterialização, sugerimos a implementação imediata das seguintes medidas:
- Autenticação por Espirro: Para assinar a página quatro, o utilizador deve gravar um áudio a espirrar três vezes para provar que está vivo.
- O Selo Branco Digital: Após a introdução do quinto SMS de validação, o cidadão deve lamber o ecrã do computador para selar o documento com ADN.
- Burocracia Circular: Um sistema revolucionário onde, após assinar digitalmente, o utilizador recebe um e-mail a ordenar que imprima o PDF, o assine à mão, o digitalize e o envie por telebip.
Parabéns à Troika da Ineficiência: Manuel Dias, Mónica Letra e João Roque Fernandes. Os senhores conseguiram provar que, em Portugal, a fibra ótica serve perfeitamente para nos enforcar em alta definição.
Com os meus mais sinceros votos de que o vosso servidor mude de PIN a cada cinco segundos,
António Cadabulho
Presidente do F.O.D.A.S.E. (Federação de Organizações de Demagogia e Alianças Secretas Eleitorais)
Para os que preferem ver bonecos:





A via alternativa é o atendimento presencial, à moda antiga. Mas o processo de marcação é também todo modernaço. Marcação online, sem outra opção. Um processo confuso, logo porque exigem o dowload do plugin autenticador.gov… Conheço o caso de um jovem de 16 anos, residente na zona de Lisboa, que conseguiu marcação para tratar da renovação do CC para dia 8 de outubro… no Cadaval.