QUANDO A EXPERIÊNCIA DEIXA DE CONTAR

Há algo de profundamente contraditório na sociedade contemporânea. Nunca se falou tanto de conhecimento, competência, inovação e capital humano. Nunca as organizações investiram tanto em formação, qualificação e aprendizagem contínua. E, no entanto, assistimos diariamente a um fenómeno estranho: a desvalorização progressiva da experiência.

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imagem construída com recurso a IA

A experiência, que durante séculos foi considerada uma fonte de sabedoria e um fator de prestígio social, parece hoje ter perdido parte do seu estatuto. A velocidade tornou-se mais importante do que a profundidade. A novidade passou a valer mais do que a memória. A juventude é frequentemente apresentada como sinónimo de capacidade, enquanto a idade é muitas vezes associada a uma ideia de ultrapassagem. Trata-se de uma visão simplista e perigosa.

A experiência não é apenas a acumulação de anos. É a acumulação de situações vividas, problemas resolvidos, decisões tomadas, erros corrigidos e conhecimentos testados pela realidade. É um património construído lentamente, muitas vezes ao longo de décadas. Uma pessoa experiente não sabe apenas o que fazer. Sabe também o que não fazer. Conhece os riscos escondidos por detrás das soluções aparentemente fáceis. Reconhece sinais de alerta que os menos experientes ainda não aprenderam a identificar. Compreende as consequências de decisões que, à primeira vista, podem parecer irrelevantes. Esse conhecimento não se encontra facilmente em manuais nem em motores de pesquisa. Nasce da prática.

Contudo, muitas organizações e instituições continuam a cometer o erro de tratar a experiência como um recurso secundário. Quando um profissional atinge determinada idade, começa frequentemente a ser visto através de um filtro burocrático. A idade passa a pesar mais do que a competência. O currículo deixa de ser analisado pela riqueza do seu conteúdo e passa a ser avaliado pela data de nascimento. Perde-se assim uma parte significativa da inteligência acumulada da sociedade.
É um paradoxo particularmente evidente numa época em que a esperança média de vida aumenta e os níveis de saúde e capacidade intelectual se mantêm elevados durante mais tempo. Milhares de pessoas chegam à reforma em plena posse das suas capacidades. Continuam capazes de ensinar, orientar, criar, liderar e inovar. Mas a sociedade raramente lhes oferece canais estruturados para continuar a participar.

A consequência é dupla. Por um lado, os mais velhos sentem-se progressivamente afastados dos espaços onde poderiam continuar a contribuir. Por outro, os mais novos ficam privados de um património de conhecimento que poderia acelerar a sua aprendizagem e evitar muitos erros.
Uma sociedade madura não opõe gerações. Liga-as. Compreende que a energia da juventude e a experiência da maturidade não são forças concorrentes, mas complementares. Uma traz impulso. A outra traz direção. Uma desafia o futuro. A outra ajuda a compreendê-lo.

Quando a experiência deixa de contar, todos perdem. Perde quem é afastado prematuramente da vida ativa. Perde quem deixa de beneficiar desse conhecimento. Perdem as organizações. Perde a economia. Perde a sociedade.

O verdadeiro progresso não consiste em substituir a experiência pela juventude nem a juventude pela experiência. Consiste em criar pontes entre ambas. Porque uma comunidade que ignora os seus experientes está a desperdiçar um dos seus recursos mais valiosos. E porque há uma verdade simples que o tempo confirma repetidamente: a experiência pode não garantir todas as respostas, mas ajuda quase sempre a formular as perguntas certas.

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