A cooperação entre RTP e Lusa não começou agora. A partilha de instalações em algumas delegações no estrangeiro existe há muitos anos. Em países como Timor-Leste, Angola ou Guiné-Bissau, por exemplo, essa realidade é conhecida. Do mesmo modo, sempre existiu uma relação comercial bem definida: a Lusa produzia informação e a RTP era um dos seus clientes.
É precisamente por isso que o memorando levanta dúvidas que continuam sem resposta.
Se a cooperação se limitar à utilização conjunta de edifícios, equipamentos ou outros recursos logísticos, pouco mudará em relação ao que já acontecia em várias delegações. Nesse caso, o memorando formaliza práticas existentes, mas dificilmente justifica o destaque mediático que lhe foi dado.
Se, pelo contrário, a colaboração passar a abranger a produção jornalística, então estamos perante uma alteração de natureza completamente diferente. Nesse cenário, importa saber onde termina a relação comercial entre as duas empresas e onde começa uma eventual produção conjunta de conteúdos.
No evento de assinatura do memorando, o administrador da RTP disse que não havia miscenização da produção noticiosa nem da independência editorial. Mas não ouvimos uma palavra dos diretores de Informação e eles estavam lá, sentados e calados. Não deixa de ser curioso que tenham sido os administradores a assumir o protagonismo da comunicação, recorrendo a expressões genéricas como “sinergias”, “eficiência” ou “otimização de recursos”, enquanto os diretores de informação permaneceram em silêncio. Se o memorando tiver implicações essencialmente administrativas, compreende-se. Mas se envolver mudanças na forma como o trabalho jornalístico será desenvolvido, seria expectável que os responsáveis editoriais explicassem ao público o alcance dessas alterações.

Há ainda um outro aspeto, que considero interessante: porque foi isto transformado em notícia? As empresas assinam memorandos de entendimento com frequência, muitos dos quais nunca chegam ao conhecimento público. Quando uma entidade decide convocar jornalistas, emitir comunicado e dar destaque institucional a um memorando, normalmente pretende transmitir uma mensagem. A questão é perceber qual.
O texto do memorando não foi divulgado. É secreto? O que sabemos é o que vem nas notícias produzidas, que foram vagas e imprecisas.
Talvez exista uma explicação simples para tudo isto: mostrar serviço, sinalizar ao Governo que estão alinhadas com a política de racionalização de recursos públicos. Se for isto, não deixa de ser triste…
Todas as dúvidas se resumem numa pergunta fundamental: que procedimentos jornalísticos passarão a ser feitos de forma diferente na RTP e na Lusa a partir da entrada em vigor deste memorando de entendimento?
Enquanto essa pergunta não for respondida, continuará a ser difícil perceber a ideia.



