Sarah Friedland é um dos casos mais interessantes. A realizadora norte-americana, judia, recebeu em setembro de 2024, no Festival de Veneza, o Leão do Futuro pelo seu filme Familiar Touch. No discurso de agradecimento, utilizou o palco da sua consagração internacional para dizer que falava no 336.º dia do “genocídio de Israel em Gaza” e para manifestar solidariedade com o povo palestiniano. Houve reacções e ataques públicos. Quanto a eventuais consequências profissionais, Friedland ainda não quis falar delas. E essa escolha merece ser respeitada, apesar de beneficiar o infrator. Para a história fica, para já, que uma realizadora judia decidiu utilizar um dos palcos mais prestigiados do cinema mundial para denunciar o genocídio que o povo da Palestina está a enfrentar.

O caso de Tadhg Hickey. O comediante irlandês transformou o activismo pela Palestina numa parte importante da sua intervenção pública. Em Maio de 2025, a sua conta principal no Instagram, com cerca de 300 mil seguidores, foi eliminada. Hickey afirmou que não recebeu qualquer aviso prévio. O seu percurso noutras plataformas digitais foi ainda mais complicado, com bloqueios no TikTok e no YouTube. Aqui já não estamos apenas perante a possibilidade abstracta de uma carreira prejudicada por opiniões políticas: estamos perante contas, conteúdos e canais que desapareceram ou sofreram restrições severas.

Nicole Jenes. Actriz e criadora de conteúdos tem denunciado repetidamente aquilo que considera censura às suas publicações sobre a Palestina.

A Human Rights Watch documentou mais de mil casos de remoção ou supressão indevida de conteúdos pró-palestinianos no Facebook e no Instagram em 2023, identificando, entre outros mecanismos, eliminação de publicações, suspensão de contas, restrição de funcionalidades e aquilo que se convencionou chamar shadow banning: a redução significativa da visibilidade de conteúdos sem que o utilizador seja necessariamente informado. Não se trata, portanto, de uma questão inventada por Jenes ou por activistas palestinianos. É uma realidade suficientemente documentada por organizações independentes de direitos humanos.
Depois há Iyah May, cantora australiana. O seu caso leva a questão para dentro da própria indústria musical. May lançou Karmageddon, uma canção que confronta, entre outras coisas, a morte de crianças pelos militares de Israel.
Segundo o relato que acompanha o seu percurso profissional, recusou alterar a letra desta e de outras canções e acabou por perder o contrato com a editora e com o empresário. Passou a trabalhar de forma independente. É um caso particularmente interessante porque a consequência não é uma conta apagada por um algoritmo: é a ruptura com uma estrutura profissional da indústria cultural.


E há Julia Mai, artista islandesa, cuja intervenção pela Palestina tem sido igualmente explícita. Em 2026, continuava a desenvolver projectos artísticos de solidariedade com a Palestina e a utilizar a sua arte para chamar a atenção para Gaza. No seu caso, porém, há uma diferença importante: temos um vídeo da própria Julia Mai, onde ela denuncia uma ameaça de morte. Não é só o silenciamento institucional ou algorítmico. É intimidação pessoal.

Cinco pessoas. Cinco histórias diferentes. Uma realizadora. Um comediante. Uma criadora digital. Uma cantora. Uma artista. Nenhuma representa formalmente um governo ou uma organização política. São profissionais da cultura que decidiram falar. Perante um caso tão flagrante de execução de crimes de guerra e contra a Humanidade, deviam ser elogiados e não censurados.
Para além da ação conjugada do Estado que promove um genocídio, temos a tecnologia posta ao dispor dos interesses desse Estado, a que se soma a cobardia de instituições, empresas de comunicação social, editoras, e outros, que receiam perder receitas de financiadores, receiam retaliações políticas, receiam polémicas, temos profissionais que preferem não correr riscos, anunciantes que não querem problemas e gente que aprende, observando o que acontece aos outros, quais são os limites do discurso que os donos-disto-tudo consideram aceitável. É assim que “eles” tentam construir um muro de silêncio.
Sem entrar em teorias da conspiração, é evidente que existe uma ação orgânica global, com base política, para calar vozes inconvenientes. Em Gaza e no Líbano mataram mais de 250 jornalistas e ativistas nas redes sociais. Na Cisjordânia prenderam-nos. Na Europa e na América cortam-lhes o pio. É um trabalho sistemático, multifacetado, orientado através de patrocinadores, diplomatas, patrões, influencers, assassinos fardados e outros idiotas úteis, que nos mostra o preço a pagar no modo de vida ou até na segurança pessoal, quando alguém decide lutar contra a prepotência e a injustiça.



