O poeta olhou para o fundo da chávena. A borra do café colada à porcelana desenhava labirintos parecidos com as ruas da Baixa.
– O desassossego não é uma doença, Joaquim (disse ele, por fim).
– É o preço de se estar acordado. O imposto que a alma paga por não se deixar adormecer no conforto da burguesia.
– Meu caro Joaquim… (Pessoa sorriu com o canto da boca).
– Mentir ao que sentimos é o primeiro passo para sermos verdadeiros. O teu erro é a ingenuidade. Achas mesmo que existe aí dentro um “eu” sólido? Uma rocha a quem deves lealdade? (O poeta fez uma pausa, olhando para as pessoas que passavam lá fora)
– Julgas-te um traidor só porque não bates certo com a tua própria emoção? Disparate. Ser fiel a um único sentimento é uma paralisia. Chamas-te a ti mesmo um pecado? Eu diria que és apenas vários homens que ainda não se conhecem. Somos muitos, Joaquim. O tipo que acorda de manhã não é o mesmo que pede o café agora. E nenhum deles tem de prestar contas ao gajo que se vai deitar logo à noite. A moral quis prender este rio numa certidão de nascimento. Querem transformar a água numa estrada de pedra. Esquecem-se de que a virtude da água é correr. É não parar.
Joaquim ouviu-o em silêncio. Aquilo soava a uma sentença antiga. Uma verdade que ele já conhecia, mas cuja execução vinha a adiar. Encostou os dedos ao mármore frio da mesa, tentando prender-se à realidade da pedra. Uma parte de si queria ceder àquela conversa de Pessoa. Queria o alívio de aceitar que ser incoerente era normal. Mas outra parte – aquela teimosia tipicamente nossa – exigia uma âncora. Alguma coisa que justificasse a dor.
– Mas eu sinto que isto não faz sentido nenhum! – atirou Joaquim (a voz saiu-lhe alta demais, partindo a calmaria do café).
– É a cabeça, Fernando. É isto. (Joaquim apontou para a própria têmpora, com os dedos a tremer ligeiramente)
– Dou por mim a vigiar o que penso. O tempo todo. É aí que me perco. Não sei simplesmente… estar. Olho para o Tejo e não vejo água nenhuma. Vejo o tempo a fugir, a minha juventude que já era, aquelas caravelas que nunca mais voltam. Sei lá. Tudo serve de pretexto para a cabeça moer.
Calou-se. Passou a palma da mão pela testa, limpando um suor frio. Lá fora, o elétrico rangeu nos carris da Baixa.
– Eu esqueço-me de quem sou. Acho que é do meu carácter, sei lá. Invento um boneco para enfrentar a rua. Mudo a voz, empertigo as costas. Mas sei o truque. Sei perfeitamente que a pose é um biombo de papelão à frente do abismo. E o que me lixa não é a máscara, Fernando. É saber que a tenho posta. A cada segundo. Saber que, se a arrancar… não fica lá nada. Nem pele, nem carne. Só escuro. Uma noite sem fim.
Pessoa não respondeu logo. Inclinou a cabeça e a luz baça da janela bateu de lado nos óculos, transformando os olhos dele em dois espelhos brancos. Deixou o cigarro arder. O fumo subia torto, pesado, a meter-se entre os dois. Parecia que o próprio desassossego tinha ganho corpo ali em cima do mármore.
– Precisamente! – atirou Pessoa, quase num baque.
– O carácter é só a máscara que usamos para esquecer que não temos rosto nenhum. Se não nos esquecêssemos de quem somos, se ficássemos ali, cara a cara com a nossa falta de substância… como é que suportávamos o tédio de ser uma coisa só? A consciência é uma lucidez que cega, Joaquim. Quem olha demasiado para as engrenagens do próprio corpo acaba por encravar a máquina.
O poeta bateu com a ponta do cigarro no cinzeiro.
– É a dúvida que move as coisas, não é a fé. A fé é a pedra que fecha o túmulo do pensamento. A dúvida é outra coisa: é o vento que limpa o céu das certezas. Obriga-te a navegar, mesmo que o destino seja ires-te abaixo na bruma. Não fujas do abismo. Aprende a decorar as paredes dele. Mapeia as correntes de ar. Transforma-o num salão onde os teus fantasmas possam dançar sem a obrigação de mostrarem o bilhete de identidade.
(continua)



