A GEOMETRIA DO PURGATÓRIO LISBOETA

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O silêncio voltou à mesa. Mas já não pesava; estava vivo. Joaquim percebeu a rasteira daquela conversa. Desfazer o “eu” era uma libertação perigosa. Significava largar o sofrimento, sim, mas também abdicar de qualquer salvação. Se ele não era ninguém, as dores também não eram de ninguém. E procurar uma cura? Disparate. Uma perda de tempo.

— Sim, Fernando, eu percebo a mecânica do teu desassossego — disse Joaquim, com os dedos a tamborilar no canto da mesa. — Mas recuso-me a ceder. Eu quero manter a minha vontade. Posso perceber as tuas razões, posso perceber a arquitetura do teu raciocínio, mas recuso-me a viver ancorado na dúvida. A dúvida eterna é um inferno de espelhos. Nada se fixa.

Joaquim inclinou-se também, a voz a ganhar firmeza.

— Eu quero a certeza. Mesmo que seja teimosia. Mesmo que saiba, no fundo, que essa certeza é só uma mentira que inventei, um palácio de areia contra a maré. Não me importa. Preciso de acreditar que, quando digo “eu amo” ou “eu sofro”, há qualquer coisa aqui dentro que fica. Um sítio que junta os estilhaços do que vivo e os guarda numa gaveta. Uma gaveta que não se desfaz com a humidade da noite.

Pessoa chegou-se para a frente. O olhar dele, por trás das lentes redondas, perdeu aquele desapego habitual. Fixou-se em Joaquim. Uma intensidade súbita. Parecia o interesse de um anatomista que descobre uma veia estranha num coração aberto. Era a curiosidade de quem reconhece uma dor antiga, mas uma dor que ele próprio tinha tentado domesticar através dos poemas.

— Queres a certeza? — murmurou Pessoa. — Cuidado, meu amigo.

— A certeza é um porto, Joaquim. E o porto é o fim da viagem. O navio que entra lá e fica, deixa de ser navio. Vira terra. Um armazém de madeira podre, comido pelas cracas. Pessoa fez um gesto largo com a mão, espantando o fumo. — Tu propões um segredo ao medo. Isso é magnífico. Arrancar a alma ao medo criando um mistério teu… é a única forma digna de viver este bocadinho de tempo que nos dão. Entre o nada que fomos e o nada que seremos. Mas dizes que tens medo da ousadia? Porquê recuar agora? Se já percebeste que a realidade é uma mentira, assume o papel de autor. Inventa os teus dias. À grande. Sabendo que tudo isto não passa de fumo.

Joaquim desviou os olhos para a janela. A tarde em Lisboa estava a perder a força. Lá fora, o elétrico subia a colina. Aquele rangido de ferro velho parecia o choro da cidade. Na calçada, as pessoas passavam a correr, encolhidas nos casacos. Cada uma com a sua ilusão de solidez. Os horários, os casamentos, as contas por pagar. Ninguém via o abismo debaixo dos sapatos.

— Porque a vontade, quando é demais, mata o mistério — respondeu Joaquim, quase num sussurro. — Prefiro o gesto tímido. O silêncio que guarda o segredo sem nunca o expor à luz. Eu quero saber, Fernando. Sinto essa fome de absoluto a roer-me por dentro. Mas tenho medo. Tenho medo de que, ao decifrar o enigma todo, não sobre nada de mim. Só poucas palavras. Como aquelas que escrevi sobre esta cidade. Olhou fixamente para o poeta. — Temo que a verdade seja só um deserto de cal, onde nem a ilusão sobrevive. Se eu souber tudo, deixo de poder sonhar. E o sonho é a única pátria que me sobrou.

O homem que sabe tudo deixa de ter horizontes. Vira um arquivo morto. Um inventário de certezas que já não servem para acender o fogo de nada.

(continua)

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