– Compreendo-te bem-disse Pessoa.
O tom de voz dele perdeu aquele peso teórico. Ficou mais brando, com uma melancolia cinzenta, parecida com as tardes de outono ali na Baixa.
– O saber é um deserto, Joaquim. Quando conhecemos mesmo uma coisa, tiramos-lhe a vida. Ficamos com o invólucro. Com o desenho dela. Mas por baixo do fato desenhado a giz pelo mestre, o que sobra? O sol morno, a realidade fria. E essa realidade não quer saber dos nossos poemas ou das nossas dores para nada. Não tenhas medo das tuas “poucas palavras”. O mundo inteiro cabe num verso curto. Desde que esse verso seja a tua Lisboa. A tua forma esquisita de estar.
O poeta olhou para o cigarro a terminar.
– Tudo muda, a matéria apodrece e os impérios viram pó. Mas é o que morre em nós que nos torna únicos. A nossa finitude é o nosso selo. Só o que pode acabar é que é belo. A eternidade deve ser uma seca. Uma coisa de gesso, sem surpresas, sem a dignidade da perda.
Joaquim percebeu que tinham chegado ao fim da linha. Ali, onde a filosofia esbarra na vida. Lá fora, o Tejo engolia os tons roxos do crepúsculo. A água parecia um espelho baço, sem força.
– Então, Fernando… basta-me o segredo? — perguntou Joaquim. Um pedido mudo por um bocado de paz. Uma paz que a cabeça não lhe queria dar.
– Basta-me aceitar que sou isto? Este intervalo? Uma fresta na parede por onde o tempo sopra? – Basta-te ser – disse Pessoa. Encostou-se à cadeira e tirou a cigarreira de prata do bolso do colete. – E se achares que ser é pouco para a tua mania do absoluto… finge que és. Finge até a cabeça se cansar do teatro. Até que te deixem, finalmente, ser só um verso escrito no fumo deste café. O resto é literatura, Joaquim. E a literatura existe porque a vida não chega.
Pessoa riscou o fósforo. A penumbra do café acendeu-se por um segundo. A chama amarela iluminou-lhe o rosto vincado e a poeira que flutuava no ar. Depois, o fósforo apagou-se. O fumo subiu torto, desfazendo-se na luz fraca que vinha da rua. Joaquim ficou a olhar para aquela névoa. Percebeu aí uma coisa: a vida e a morte não eram as duas margens do Tejo. Eram a própria água a correr lá no meio. Fluida. Sem nome. Indiferente aos homens que a olhavam do cais. Saíram. A noite já tinha engolido o resto do ouro velho nas águas do rio. Lisboa, esparramada entre as colinas e o Tejo, não se iluminava para a festa. Era só pedra e cal a recolher-se no escuro. Como se a noite fosse o seu estado natural. E o dia? Um mero mal-entendido do tempo.
O ar arrefecera de golpe. Trazia do rio um hálito salgado, uma humidade que se colava às bochechas e transformava a respiração em fumo branco. Joaquim subiu a gola do casaco. Um puxão rápido.
Fernando Pessoa caminhava ao lado, leve, quase sem ruído. A silhueta comprida quase sumia ao passar pelas esquinas da Baixa. A geometria das ruas estendia-se à frente deles, feita de sombras e silêncio. Prédios todos iguais. Janelas fechadas como olhos que não queriam ver nada da noite. Ali dentro, a cidade dormia na sua rotina normal, sem fazer ideia de que dois homens vigiavam o escuro.
As pedras da calçada, gastas por tanta gente, brilhavam debaixo dos candeeiros. Pareciam placas de gelo negro. Dava a ilusão de estarem a andar em cima de um mar congelado. Um mar de pedra que podia estalar a qualquer momento, ao mínimo deslize.
– Olha para esta simetria, Joaquim – disse Pessoa, apontando o braço magro pelo alinhamento da Rua Augusta fora. – O Marquês de Pombal não redesenhou uma cidade. O que ele fez foi montar um purgatório geométrico a seguir ao cataclismo. Esta ordem toda… é só o homem cheio de medo, a tentar controlar o pânico da terra. Cada rua destas é um corredor de almas. Gente a caminhar entre o desastre que já passou e um julgamento que nunca mais chega. O poeta parou por um instante, ajeitando a aba do chapéu contra o vento do rio. – Andar aqui à noite é ser cidadão do limbo. O Marquês percebeu que a única defesa contra o caos do terramoto era a linha reta. O esquadro que divide o pânico em fatias que se conseguem gerir. Só que a linha reta mata a vida. A vida é torta, errática. Como os becos de Alfama, onde havemos de ir. Aqui nesta grelha somos prisioneiros. Uma lógica racional que nos obriga a ser eficientes. Até quando estamos perdidos. – É exatamente isso que eu sinto, Fernando. Na pele – respondeu Joaquim. Os passos dele faziam um eco seco na pedra. Um barulho oco.
– Cada esquina parece um tribunal mudo – desabafou Joaquim. – Olho para estes prédios todos iguais e pergunto-me se esta pasmaceira não é o nosso castigo. Fingimos que somos originais. Que as nossas dores são únicas. Mas a Baixa desmente tudo. Vai dar tudo ao mesmo. Somos todos arrumados nas mesmas gavetas de pedra, debaixo das mesmas telhas. O tipo do terceiro esquerdo tem os mesmos medos do gajo do segundo direito. Contam os tostões para o pão. Olham para o espelho e não se conhecem. Esta simetria é a prova de que a nossa pressa em ser alguém é um erro. Somos só cópias.
Pessoa parou. Ficou mesmo ali, debaixo da luz amarela do candeeiro a gás. O vidro da lente direita refletiu o brilho, tapando-lhe o olho com um clarão pálido. Parecia outra coisa. Uma criatura feita de papel e tinta, longe da carne e do osso.
– E qual é o mal disso? – atirou Pessoa. – O castigo só serve para quem tem a vaidade de querer ser único. Isto aqui não é o inferno, Joaquim. É um filtro. A noite limpa a cor e o barulho que o dia trouxe. Na Baixa, ninguém tem títulos ou posses. Toda a gente fica do tamanho que é: sombras a cruzar uma geometria que vai cá ficar sempre. Lisboa serve para isto. Para aprender a morrer sem espalhafato.
Deu dois passos em frente, ajustando o casaco.
– Aceitar a gaveta de pedra não é perder. É o início da cordura. Quando percebes que és igual aos outros, a angústia de ter de escolher desaparece. Já não tens de inventar justificações para estares vivo. Podes só ir na corrente. Sabendo que o teu fim vai ser tão anónimo e quadrado como estas pedras que pisamos.Voltaram a andar. O Arco da Rua Augusta crescia à frente deles, escuro contra o céu.
O Arco da Rua Augusta erguia-se à frente deles como uma enorme boca escura. Uma passagem de pedra que dava para o Terreiro do Paço, mas que ali, na penumbra, só emoldurava o vazio de uma noite sem estrelas. O vento vinha do rio. Trazia aquele marulho da água que quebrava a rigidez dos prédios todos alinhados. Uma massa líquida, escura, que não queria saber de esquadros para nada.
– Tu falas da morte como se fosse só ir perdendo peso, Fernando – disse Joaquim. Sentia o frio da calçada subir-lhe pelas solas dos sapatos. Um arrepio direto aos ossos. – Mas eu tenho medo do que fica por dizer. Se a cidade é um purgatório, nós somos as almas penadas deste sítio. Repetimos as mesmas conversas porque não encontramos a palavra final. Aquela que liberta. A minha forma esquisita é esta: não consigo calar a cabeça quando o corpo já só pede cama. Invejo os gajos que adormecem sem precisarem de dar justificações ao dia que passou. Para mim, cada noite é um balanço de perdas. Um inventário de tudo o que me ficou entalado na garganta. Por vergonha ou por orgulho. Tenho medo que a morte me apanhe a meio de uma frase. Com a boca aberta, num protesto que ninguém vai ouvir.
– O erro é esse. Procurar a palavra final – retorquiu Pessoa. Voltou a andar, devagar. Os sapatos pretos deslizavam na calçada com a facilidade de quem conhecia cada buraco e cada pedra daquela rua. – Não há palavra final, Joaquim. O poema disto tudo é partido por natureza. Esse “resíduo” de que falas… é o que de melhor tens aí dentro. É a fresta. O homem que morre com uma certeza na boca morre como um bicho cego. Mas o gajo que entra no escuro com a dúvida inteira… esse sim, faz da morte um ato de inteligência. Esta caminhada que estamos a fazer não é para chegar a lado nenhum. É só para gastar o tempo. Até que o tempo se esqueça de nós. Pessoa parou antes de sair do Arco. A perfeição não está no fim. Está no corte, naquilo que fica por acabar para manter o mistério vivo.
Chegaram ao Terreiro do Paço. A praça estava deserta. Um deserto enorme de pedra, apertado de um lado pelo casario escuro e, do outro, pelo Tejo. A água batia nos degraus de mármore do cais. Era o único som ali dentro, o único sinal de que o mundo ainda respirava. Uma pulsação regular. Escura.
Ali, na foz da cidade, a Baixa parecia abrir-se para o abismo. Joaquim e Fernando eram as últimas testemunhas de um mundo a desfazer-se na bruma. Duas figuras minúsculas no meio de uma imensidão que não queria saber deles para nada.
Caminharam para o Cais das Colunas, devagar. As duas colunas de pedra subiam da água como duas sentinelas de um portal invisível. Uma fronteira antiga entre o mundo dos homens – os que têm nome e horários – e aquela vastidão líquida que não conhece batismo. Ali, onde a pedra se afundava na água preta do rio, a geometria perfeita do Marquês de Pombal finalmente dobrava os joelhos. A ordem dava lugar à flutuação. A pedra acabava ali.


