O RIO QUE DESFAZ A MARGEM

Capítulo V

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composição gráfica

Joaquim estacou a poucos passos da água. O rio deitava um cheiro denso a sal, a lodo e a viagens antigas. Na escuridão daquela noite escura, sem estrelas, a outra margem era só uma hipótese. Três ou quatro pontos de luz a piscar lá longe, quase engolidos pelo nevoeiro. Aquela imensidão líquida calava o barulho todo da cidade. Era o tempo a passar, sem relógios.

— Olha para lá daquela linha escura, Fernando — murmurou Joaquim, apontando com o queixo para o breu do Mar de Palha.

— O que é que nos espera quando a cabeça falhar de vez? Passamos a vida a polir disfarces, a discutir o carácter, o fingimento…, mas a verdade da morte está nesta água que desfaz tudo. Haverá um “além-rio” onde as nossas poucas palavras ganham sentido? Ou a morte é só este silêncio a apagar a memória da luz?

Joaquim respirou fundo, o ar frio a queimar-lhe o peito.

— Tenho medo que a limpeza seja total. Que nem o arrependimento fique. Se calhar, esta nossa pressa em procurar um sentido é só uma rasteira da natureza. Aprendemos a falar, mas não sabemos o que dizer.

Pessoa deu um passo em frente. Parou mesmo no limite do último degrau seco. A água lambia o mármore, a dois dedos da sola dos sapatos pretos. O poeta não olhava para a outra margem. Olhava para baixo. Para o reflexo partido dos candeeiros da praça a boiar na água como moedas de ouro falso. Tesouros de trazer por casa que a corrente desfazia e refazia a cada segundo.

— O teu erro, meu caro Joaquim — disse Pessoa, sem desviar os olhos da água —, é essa mania do olhar geográfico. — Procuras um “além” como se procurasses uma rota nova para as Índias — disse Pessoa.

— Uma paragem onde os homens se desdobram e recebem um prémio ou um castigo. Mas a morte não é a outra margem, Joaquim. A morte é o rio. É deixares de precisar de uma margem.

O poeta manteve os olhos fixos na água preta.

— O além não tem cenários novos. É só o fim da distância entre quem olha e o que é olhado. Quando morreres, não vais cruzar o Tejo para ver Lisboa de longe. Vais virar água. Vais virar nevoeiro. Vais ser o esquecimento total desta forma que usaste na terra. A margem é só vaidade. O rio é que é a verdade. Querer guardar a identidade depois de morrer é palermice. É querer que o fumo fique com a forma do cigarro depois de se espalhar no ar.

— Mas essa limpeza total… isso não é negar o que somos? — atirou Joaquim.

Sentiu uma vertigem física. Deu um passo atrás, afastando-se da água. O rio puxava por ele.

— Se viramos água… se a dor, a cabeça e este bocadinho de tempo se desfazem na indiferença do mundo, então andamos aqui a brincar ao teatro — disse Joaquim.

— Para que serviu carregar o peso do mundo nas costas? O fim de quem pensou e de quem não quis saber é o mesmo. Fica tudo reduzido a pedra. Estar acordado perde o sentido se o vácuo final for igual para o sábio e para o ignorante.

Pessoa voltou-se para ele. A luz fraca da noite deixou-lhe o rosto lívido, quase imóvel.

— E porque é que a nossa humanidade havia de ter um privilégio no universo, Joaquim? — perguntou Pessoa.

— A utilidade é uma treta. Um conceito de merceeiro que nós inventámos para aguentar o tédio daqueles escritórios na Rua dos Douradores. O universo não cria coisas para ter lucro. Cria pelo puro prazer de mudar. De variar. A utilidade de teres pensado não estava no fim da viagem. Estava no facto de teres estado acordado enquanto caminhavas.

— O facto de um homem ter olhado para o Tejo nesta noite de 1926 e ter sentido o peso da sua própria estranheza… isso é um acontecimento absoluto. A água que nos desfaz não apaga o facto de termos estado aqui. Só nos liberta do cansaço. O esquecimento não é perder, Joaquim. É um descanso. A trégua que a matéria dá ao espírito que se fartou de fingir.

(continua)

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