Ficaram calados. Só se ouvia a água a bater nas colunas. Duas pedras a guardar a entrada para sítio nenhum. Joaquim tirou os olhos do rio e olhou para o perfil de Pessoa. O vento vinha do largo, o frio cortante da madrugada no Atlântico. Mas Joaquim sentia outra coisa a queimar-lhe a garganta. Uma urgência de rasgar aquela teoria literária toda e tocar no homem que estava escondido ali atrás.
— Falas da morte com a leveza de quem dita uma frase bonita, Fernando — atirou Joaquim. A voz saiu-lhe seca. — Mas tu não esperaste pelo caixão para te desfazeres. Tu partiste-te em bocados ainda em vivo. Criaste guardiões para a tua solidão, deste-lhes nomes, vidas, caligrafias diferentes. Caeiro, Reis, Campos… esse bando de fantasmas com que encheste o teu deserto. Deu um passo em frente, colando o olhar no poeta. — Pergunto-te aqui, sem disfarces: essa tua mania de falar em várias vozes curou-te o tédio de seres um só? Ou foi uma condenação pior do que a morte? Armaste-te em mestre de uma ilusão que te engoliu. Dizes que és livre porque és muitos, mas eu só vejo um prisioneiro. Um prisioneiro que multiplicou as celas para não admitir que perdeu a chave.
Pessoa não respondeu logo. Tirou o chapéu, deixando que o vento lhe despachasse o cabelo fino. Olhou para as duas colunas, imóvel. Parecia procurar nelas o equilíbrio que a pergunta do Joaquim lhe tinha roubado. Quando falou, a voz vinha de longe. Parecia sair de um quarto alugado, a meio da noite, quando a cidade toda já dorme.
— Chamas-lhe condenação, Joaquim, porque ainda estás agarrado a essa mania de que temos de ser um só — respondeu Pessoa. — Achas que o normal é ser uma pessoa inteira, fechada nas quatro paredes de um nome. Para mim, o inferno era ficar preso ao Fernando Pessoa. A esse empregado de escritório que traduz cartas comerciais na Baixa e assina recibos de ordenado. O poeta limpou os óculos à ponta do casaco. — Os meus heterónimos não foram um truque de literatura. Foram a minha única hipótese de não dar em doido. Dividi-me para não rebentar com o tédio. Se eu fosse só eu, a cabeça já tinha estoirado. Multiplicar as vozes foi o meu balão de oxigénio. Quando o desassossego aperta demais o Pessoa, passo a caneta ao Campos. Quando o Campos ameaça queimar o papel com aquela febre dele, viro-me para o sossego do Reis. Não é uma prisão, Joaquim. É a minha única liberdade.
— Mas a que preço, Fernando? — Joaquim deu um passo em frente. Olhou-o nos olhos, de perto. — Tu não os inventaste apenas. Tu acreditaste neles. Tu viraste eles. Quando o Álvaro de Campos berra naquelas odes, é o teu medo de agir que está ali a sangrar. Quando o Ricardo Reis se arma em estátua indiferente, é o teu pânico de amar que se esconde debaixo dos versos certinhos. E o Alberto Caeiro… o Caeiro foi o teu mestre impossível. O tipo que via as coisas sem pensar. Uma pureza que tu, com essa mania de dar voltas à cabeça, sabias perfeitamente que nunca ias cheirar. — Tu não te curaste, Fernando — atirou Joaquim. — Criaste um hospício dentro de ti. Cada heterónimo é só um louco a gritar numa cela. E tu? Tu és o carcereiro que fica no escuro a ouvir o barulho. O preço de seres imortal foi matares o teu próprio coração. Preferiste virar um arquivo a ser um homem.
O silêncio caiu sobre o Cais das Colunas. Pesado. O Tejo continuava ali, com aquele marulho eterno e igual. Um fundo de lodo e sal que já tinha ouvido os queixumes de meio mundo ao longo dos séculos. Pessoa ajeitou os óculos. Os dedos tremeram-lhe ligeiramente. O meio sorriso voltou-lhe à cara, mas vinha cansado. Uma fadiga velha, de quem parecia carregar o peso do futuro antes do tempo.
— E quem te disse, meu caro Joaquim… — Pessoa falou baixo, a voz fria — que o carcereiro não prefere o barulho das celas ao silêncio de uma prisão vazia? Olhou de soslaio para o rio. — Sim. O Campos é o meu histerismo. O Reis é a minha cobardia vestida de versos clássicos. E o Caeiro… o Caeiro é o remorso. A minha culpa por não conseguir ser uma árvore ou uma pedra. Estão todos cheios da minha incapacidade de viver no mundo real. Mas ao dar-lhes vida… eu deitei os venenos fora.
— O preço foi alto, admito — disse Pessoa. — Já não sei quem sou. Se olhar para o espelho, só vejo uma máscara de outra máscara. Sou um ponto de encontro de gente que não existe. Mas diz-me lá: e se esta dispersão for a única forma verdadeira de imortalidade? O poeta chegou-se mais à beira da água. — A morte pode apagar o Fernando Pessoa. Com certeza. Mas o que é que ela faz à fúria das máquinas do Campos? Ou ao sossego pagão do Reis? Ao morrer em tantos gajos, Joaquim… se calhar enganei a morte. Virei literatura. E a literatura já não precisa da carne para respirar.
Joaquim abanou a cabeça. Estava cansado. Percebeu que era impossível ganhar um debate a um homem que tinha feito da sua própria ausência um forte.
— Enganaste a morte? — murmurou Joaquim, com a voz desfeita pelo vento do rio. — Ou limitaste-te a antecipar o teu próprio funeral? — Tu morreste um bocado cada vez que um deles pegou na caneta, Fernando. O que é que sobra de ti aqui neste cais? Um eco partido. Nada mais.
Pessoa olhou para o fumo do cigarro. O vento da madrugada desfazia tudo num segundo.
— Sobra o que sempre houve, Joaquim: nada. Mas um nada que teve o desplante de cantar a sua própria ausência. E isso, quando já não houver mais nada para falar, é a única vitória contra o tempo.
(continua)



