OS BECOS VERTICAIS DE ALFAMA

CAPÍTULO VII

0
3
montagem fotográfica

Deixaram finalmente o Cais das Colunas. A humidade do Tejo tinha-se colado ao pano pesado dos sobretudos. Sentiam os corpos mais lentos, os movimentos arrastados, como se o ar de Lisboa os quisesse chumbar àquela pedra toda. Cada lufada de vento vinha fria. Um aviso de que a noite tinha entrado na hora mais escura. Aquela hora em que quem dorme descansa, e quem está acordado começa a ver fantasmas.

Ficou para trás o Terreiro do Paço e as linhas retas do Marquês – aquela mania de querer controlar o mundo com um esquadro. Os dois homens meteram-se pelos becos. Começaram a trepar a colina de Alfama. A subir, a geometria de Pombal desapareceu. Deu lugar aos caprichos da Idade Média. As ruas largas viraram vielas escuras. Os ângulos retos quebraram-se em esquinas impossíveis. Os degraus de pedra, gastos por séculos de sapatos anónimos, obrigavam as pernas a um esforço maldito.

A cabeça descansou da conversa intelectual. O corpo exigia atenção. Alfama não foi feita com a razão. Nasceu da necessidade, do tempo. Um amontoado de cal e lodo a crescer como musgo nas rochas, moldando-se à colina para sobreviver ao dia a dia. Sem planos de arquitetos. Joaquim ia à frente. Apoiava as mãos nas paredes frias e húmidas das casas. Parecia que as fachadas se inclinavam umas sobre as outras, como velhas a cochichar segredos no escuro. O cheiro da cidade mudou de golpe. Acabou-se a maresia e o cais aberto. Ali cheirava a poço, a carvão apagado, a peixe seco. Cheirava a roupa estendida que nunca mais secava e à fadiga de gerações que ali tinham nascido, amado e morrido sem nunca passarem para lá de Almada. Naquele labirinto de sombras, com poucos candeeiros a gás e o escuro metido nos vãos das portas, a discussão abstrata sobre os heterónimos perdeu a força. Esqueceu-se a metafísica. Ficou a urgência do corpo, o peso do passado. A pedra antiga parecia deitar um suor frio.

— Há qualquer coisa nestes becos que te cala as vozes, Fernando — disse Joaquim.

Parou num pequeno patamar. Dali, entre dois telhados velhos, via-se um pedaço escuro do rio. Uma nesga de água cinzenta debaixo do céu sem luz.

— O Álvaro de Campos não conseguia berrar a Ode Triunfal numa ruela destas. Mal cabe um homem de braços abertos. E o Ricardo Reis? Parecia um tonto se se pusesse a recitar versos latinos aqui em baixo, mesmo ao lado de uma bacia de água suja despejada à janela. Nestes becos não há espaço para te armares em distante. Sinto que, ao subir esta colina, estamos a escavar para trás. Diretos à infância. Àquele tempo em que a vida ainda não era um texto para ser revisto. Era só o mundo a nos entrar pelos olhos dentro. Sem pedir licença.

— Diz-me uma coisa, Fernando. No meio deste desvario de livros… o que é que sobrou do rapaz que foste lá em Durban? Ou daqueles tempos da juventude, aqui em Lisboa? Que parte tua é que os teus heterónimos não conseguiram queimar? Haverá um Fernando que não escreve nada? Um Fernando que só se lembra das coisas com aquela dor de quem perdeu a infância?

Pessoa subiu os últimos degraus. Tinha o fôlego curto. O peito assobiava-lhe por baixo do casaco – culpa do tabaco e deste frio húmido que lhe dava cabo dos pulmões. Agarrou-se ao corrimão de ferro, cheio de ferrugem. Tirou os óculos para lhes limpar o bafo da subida.  Sem óculos, o rosto dele mudou. Perdeu aquela pose de intelectual que o vidro lhe dava. Os olhos pareciam subitamente mais pequenos, redondos. Indefesos. Como os de um miúdo assustado com o escuro.

— A infância, Joaquim, é a terra dos mortos que nos esquecemos de enterrar – respondeu o poeta. A voz saiu-lhe sumida, sem a força do costume. Parecia a cal daquelas paredes: gasta, a desfazer-se. – Achas que os meus heterónimos são biombos para esconder o passado? Não são. São a única maneira de o aguentar.

Pessoa limpou as lentes à pressa, com os dedos frios.

— O rapaz que eu fui na África do Sul morreu antes de eu meter os pés no barco para Lisboa. Aquele que falava inglês perfeito e olhava para o mar Índico à espera de um destino qualquer… já era. O passado não é uma terra para onde se volta. É um cemitério onde as lápides mudam de sítio todas as noites. Se eu deixasse a memória limpa da infância entrar na minha cabeça sem o filtro da arte… eu não era poeta. O cheiro do quarto da minha avó a morrer. O piano que a minha mãe tocava antes de se casar outra vez. O silêncio estúpido que ficou em casa depois de o meu irmãozinho morrer. Se eu deixasse isso entrar assim, a cru… eu não era um escritor, Joaquim. Seria só um gajo a chorar a um canto, numa repartição de finanças. O Caeiro e o Reis são as minhas paredes. As minhas defesas contra a saudade.

— Eles limparam-me o passado da coisa mais perigosa de todas: o remorso. Mudar a dor em verso é a única maneira de lhe tirar o veneno. A literatura não é fugir. É construir uma realidade que já não nos consegue magoar.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui