Neste 19 de Outubro de 2026, completam-se quarenta anos sobre a tragédia de Mbuzini, em território sul-africano, onde se despenhou o avião que transportava o primeiro Presidente de Moçambique independente. Com ele morreram outras 34 pessoas. Recordar esta data é homenagear todas as vítimas e reconhecer a dimensão humana e política de uma perda que ultrapassou as fronteiras moçambicanas.
Samora pertencia à geração de dirigentes africanos para quem a liberdade era uma tarefa concreta, conquistada com organização, coragem e sacrifício. À frente da FRELIMO, participou na condução da luta contra o colonialismo português e tornou-se, em 1975, o primeiro Presidente do país independente. A sua trajectória ficou igualmente ligada à solidariedade com os povos da África Austral que ainda enfrentavam a dominação racial e colonial.
Para nós, guineenses, essa história tem uma ressonância particular. Reconhecemos nela as aspirações de uma geração que ousou desafiar a ordem colonial e afirmar o direito dos nossos povos a governarem o seu próprio destino. A Guiné-Bissau e Moçambique partilham essa memória de resistência, de sofrimento e de esperança.
Mas a memória da libertação coloca-nos uma pergunta exigente: o que fizemos, e o que continuamos a fazer, da liberdade conquistada?
A independência abriu o caminho à soberania. Cabe às sucessivas gerações transformar essa soberania em escolas que ensinem, hospitais que tratem, justiça que proteja e instituições que sirvam. O valor da liberdade mede-se também na vida quotidiana de quem trabalha, de quem procura cuidados médicos e de quem espera uma oportunidade para os seus filhos. É nesta exigência que a evocação de Samora pode encontrar a sua maior actualidade.
A sua dimensão africana manifestou-se particularmente no apoio à luta contra o apartheid. Moçambique acolheu combatentes sul-africanos e associou a sua própria liberdade à libertação dos povos vizinhos. Essa solidariedade permanece reconhecida na memória oficial da África do Sul democrática.
Era uma escolha de grande alcance: compreender que a segurança e a dignidade de um povo não se consolidam com indiferença perante a opressão do outro. Num continente tantas vezes dividido por interesses externos, rivalidades e fronteiras herdadas, esse sentido de responsabilidade comum merece ser preservado.
A homenagem, contudo, exige rigor. Samora Machel foi um dirigente histórico, com uma obra que deve ser estudada nas suas realizações e nas suas contradições. O seu período de governação conheceu também práticas repressivas, incluindo detenções e abusos associados aos chamados centros de reeducação. Reconhecer esta realidade permite uma reflexão mais séria sobre a distância que pode surgir entre os ideais de emancipação e o exercício do poder.
Os heróis da libertação não precisam de uma história sem perguntas. Precisam de uma história honesta, capaz de transmitir às novas gerações tanto a coragem das suas escolhas como as consequências dos seus erros. Também por isso, quarenta anos depois, Mbuzini continua a exigir esclarecimento.
A Comissão Margo atribuiu o desastre a erro dos pilotos. Uma investigação soviética sustentou a hipótese de um falso radiofarol ter desviado o avião da sua rota. Posteriormente, a Comissão de Verdade e Reconciliação sul-africana declarou não ter encontrado provas conclusivas que confirmassem qualquer dessas explicações, assinalando elementos circunstanciais que punham em causa as conclusões da Comissão Margo.
Estas divergências obrigam-nos a distinguir suspeita, hipótese e prova. Não permitem apresentar como definitivamente demonstrada uma responsabilidade que as investigações citadas não estabeleceram. Sustentam, porém, a legitimidade de continuar a procurar respostas. As famílias das vítimas merecem essas respostas. Moçambique merece-as. A história africana também.
O tempo decorrido deve reforçar o compromisso com a preservação dos arquivos, o exame rigoroso dos testemunhos e o acesso à documentação relevante. A verdade histórica exige trabalho paciente, independência e coragem para enfrentar aquilo que os documentos possam revelar.
Na Guiné-Bissau, esta evocação deve igualmente levar-nos a olhar para as nossas responsabilidades. A melhor forma de respeitar os combatentes da liberdade é cuidar do país que ajudaram a tornar possível. É impedir que o Estado seja apropriado por interesses particulares. É defender a dignidade dos cidadãos, respeitar a divergência e fazer da autoridade pública um instrumento de serviço.
A juventude africana tem direito a conhecer os nomes e os percursos daqueles que lutaram pela independência. Tem também direito a exigir que essa herança se traduza em oportunidades, participação e condições de vida dignas.
Quarenta anos depois da tragédia, Samora Machel permanece uma referência incontornável da história de Moçambique e das lutas africanas de libertação. A sua memória interpela-nos sobre a solidariedade, a soberania e a responsabilidade de governar.
Neste aniversário, curvamo-nos perante Samora e perante todos os que perderam a vida em Mbuzini. Fazemo-lo com respeito pela sua memória, com exigência de verdade e com a consciência de que a liberdade precisa de ser cuidada todos os dias.
A luta continua: pela verdade, pela dignidade dos povos e por uma independência que se cumpra na vida de cada cidadão.
19 de Outubro de 2026



