O QUE FAZER DA NOSSA HISTÓRIA

PENSAR PORTUGAL VII

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Há países que conhecem a sua História.
Há países que a celebram.
E há países que, para além de a conhecerem e celebrarem, sabem o que fazer com ela. Talvez seja esta última pergunta que devêssemos colocar a nós próprios.
Não apenas: o que aconteceu?
Mas: o que fizemos daquilo que nos aconteceu?
Porque a História não é um armazém de datas, de nomes, de batalhas, de reis, de revoluções e de acontecimentos que aprendemos na escola e depois esquecemos. A História é a matéria de que uma comunidade constrói a consciência de si própria.
Um povo sem memória pode continuar a existir.
Mas terá muito mais dificuldade em saber quem é. E talvez Portugal esteja hoje a atravessar precisamente esse território incerto: sabemos muitas coisas sobre o nosso passado, mas nem sempre sabemos o que o nosso passado significa para o nosso presente.
Não se trata de viver virado para trás. Trata-se de não caminhar para diante como se tivéssemos nascido ontem.
Portugal tem uma História demasiado longa para caber numa narrativa única.
É uma História feita de grandeza e de fracassos, de coragem e de medo, de descoberta e de perda, de abertura ao mundo e de momentos de fechamento sobre nós próprios.
Uma História de partidas e de regressos.
De emigração e de acolhimento.
De império e de descolonização.
De pobreza e de extraordinária capacidade de sobrevivência.
De ditadura e de liberdade.
De silêncio e de palavra.
De isolamento e de pertença europeia.
Uma História, enfim, profundamente humana — e, por isso mesmo, contraditória.
É precisamente essa contradição que devemos aceitar.
Um país não se torna maior por esconder aquilo de que não gosta na sua História.
Torna-se maior quando consegue olhar para ela sem medo.
A maturidade histórica começa quando deixamos de precisar de uma História perfeita para podermos gostar do país que somos.
Durante demasiado tempo, tivemos tendência para oscilar entre dois extremos.
De um lado, a nostalgia.
Do outro, o esquecimento.
A nostalgia transforma o passado numa espécie de idade de ouro onde tudo parece ter sido melhor.
O esquecimento faz exactamente o contrário: considera que tudo o que passou deixou de ter importância.
Ambas as atitudes são perigosas.
A primeira porque transforma a História em mito.
A segunda porque transforma o presente em amnésia.
E entre o mito e a amnésia fica aquilo que realmente precisamos: a memória.
Memória não é saudade.
Memória é conhecimento.
É capacidade de compreender.
É a possibilidade de reconhecer de onde viemos para podermos decidir, com maior liberdade, para onde queremos ir.
O 25 de Abril é talvez o exemplo mais evidente daquilo que uma sociedade pode fazer com a sua História.
Em 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas derrubou o regime autoritário do Estado Novo e abriu o caminho para a democratização do país.
Nos dois anos seguintes, Portugal atravessou um processo político profundamente intenso, que conduziu às eleições para a Assembleia Constituinte, à elaboração da Constituição e à institucionalização da democracia.
Mas o significado do 25 de Abril não pode ficar reduzido a uma cerimónia anual.
Não pode ser apenas uma fotografia a preto e branco.
Nem uma canção.
Nem uma frase.
Nem sequer uma data.
O 25 de Abril é, sobretudo, uma pergunta permanente sobre a liberdade.
O que fizemos da liberdade que recebemos?
O que fizemos da possibilidade de falar?
O que fizemos da possibilidade de discordar?
O que fizemos do direito de escolher?
O que fizemos da possibilidade de construir uma sociedade diferente?
A Constituição da República Portuguesa consagrou os princípios fundamentais do novo regime democrático e estabeleceu um quadro de direitos, liberdades e garantias que permanece central na vida colectiva portuguesa. Mas nenhuma Constituição, por mais importante que seja, consegue garantir sozinha a qualidade de uma democracia.
A democracia não vive apenas nas instituições.
Vive também nas pessoas.
Na forma como ouvimos quem pensa diferente.
Na maneira como usamos a liberdade.
Na responsabilidade com que falamos.
Na coragem de perguntar.
Na capacidade de discordar sem transformar o outro num inimigo.
E aqui regressamos àquilo que temos vindo a discutir: uma sociedade começa a empobrecer quando perde a qualidade da sua palavra e do seu pensamento.
Talvez tenhamos cometido outro erro.
Transformámos demasiadas vezes a História numa disputa sobre quem tem razão.
Em vez de procurarmos compreender, procuramos julgar.
Em vez de interrogarmos os acontecimentos, escolhemos rapidamente os nossos heróis e os nossos culpados.
E depois construímos narrativas confortáveis.
A História fica assim dividida entre bons e maus, vencedores e vencidos, heróis e vilões.
Mas a verdadeira História é quase sempre mais difícil.
É feita de pessoas.
E as pessoas são contraditórias.
Tomam decisões certas por razões erradas.
Tomam decisões erradas por razões que, naquele momento, lhes pareciam certas.
Mudam.
Hesitam.
Resistem.
Cedem.
Recomeçam.
Por isso, conhecer a História não deveria servir para fabricar absolvições nem condenações eternas.
Deveria servir para compreender a complexidade das escolhas humanas.
Há ainda uma outra dimensão da nossa História que raramente discutimos com a profundidade necessária: a História que desapareceu.
A História das pessoas anónimas.
Dos que partiram.
Dos que ficaram.
Dos que trabalharam.
Dos que emigraram.
Dos que combateram.
Dos que sofreram.
Dos que educaram filhos em circunstâncias difíceis.
Dos que fizeram Portugal sem nunca aparecerem nos livros.
Um país não é apenas aquilo que fizeram os seus governantes, os seus escritores, os seus militares, os seus empresários ou os seus intelectuais.
É também aquilo que fizeram milhões de homens e mulheres comuns.
São eles que dão espessura humana ao tempo.
E talvez seja por isso que uma das maiores tarefas de uma sociedade moderna seja recuperar a memória não como monumento, mas como experiência colectiva.
Hoje, quando tantas imagens chegam até nós instantaneamente, quando uma notícia pode desaparecer em minutos e quando as novas tecnologias permitem que uma pessoa produza e consuma mais informação num dia do que outras gerações poderiam imaginar numa vida inteira, corremos um risco novo.
Não é apenas o de esquecer.
É o de confundir informação com memória.
Podemos saber tudo e compreender quase nada.
Podemos ter acesso a milhões de documentos e perder a capacidade de distinguir o essencial do acessório.
Podemos conhecer a data de um acontecimento e ignorar aquilo que ele mudou.
Podemos reproduzir uma fotografia histórica e não compreender o olhar de quem nela está.
É aqui que a História volta a encontrar o pensamento.
Porque recordar não é armazenar.
Recordar é interpretar.
E interpretar exige tempo.
Exige conhecimento.
Exige comparação.
Exige dúvida.
Exige inteligência.
Talvez por isso a História seja tão importante num tempo dominado pela velocidade.
Ela obriga-nos a parar.
Há uma pergunta que deveríamos fazer com mais frequência aos nossos filhos e aos nossos netos:
O que sabem eles sobre o país que existia antes de eles nascerem?
Não para lhes impor uma memória.
Mas para lhes oferecer uma.
Porque ninguém é verdadeiramente livre se não conhecer as possibilidades e os erros daqueles que vieram antes.
Uma geração que não conhece a História fica mais dependente das narrativas que outros lhe oferecem.
E isso é particularmente importante numa época em que a informação circula com uma velocidade extraordinária e em que a fronteira entre conhecimento, opinião, entretenimento e manipulação pode tornar-se cada vez mais difícil de reconhecer.
A História pode ser uma espécie de bússola.
Não nos diz para onde devemos ir.
Mas ajuda-nos a perceber onde estamos.
Talvez seja este o grande equívoco da relação portuguesa com a História:
pensamos que ela é passado.
Não é.
A História é presente acumulado.
Está nas cidades.
Está na língua.
Está nos livros.
Está nas famílias.
Está nos hábitos.
Está na arquitectura.
Está na maneira como nos relacionamos com o poder.
Está na nossa relação com o mar.
Está na nossa relação com a Europa.
Está na nossa relação com os outros povos.
Está até na forma como nos vemos a nós próprios.
Somos, sem o sabermos muitas vezes, herdeiros de decisões tomadas há séculos.
E somos também responsáveis pelas decisões que deixarão de ser nossas para passarem a ser daqueles que vierem depois.
É por isso que pensar Portugal implica necessariamente pensar a sua História.
Não para regressar a ela.
Mas para não desperdiçar o que ela nos ensinou.
Há mais de meio século, Portugal iniciou uma nova etapa da sua História democrática.
A Constituição de 1976 consagrou os princípios fundamentais do novo Estado democrático e permanece como uma das referências institucionais centrais da nossa vida colectiva.
Mas a História não termina quando se escreve uma Constituição.
Nem quando se ganha uma eleição.
Nem quando se derruba uma ditadura.
A História continua.
Continua todos os dias.
E talvez seja essa a maior responsabilidade de uma geração: perceber que recebe um país que não começou consigo e que entregará esse país a outros.
Entre uma coisa e outra, existe a nossa passagem.
É aí que reside a responsabilidade.
Talvez seja essa a pergunta que a História nos deixa — e que nenhuma geração pode evitar:
que faremos, a partir daqui, com aquilo que recebemos?
Porque não somos apenas herdeiros de Portugal.
Somos, durante o breve intervalo da nossa existência, depositários de Portugal.
Recebemos uma língua que outros fizeram crescer, uma memória que outros viveram, uma cultura que outros criaram, uma liberdade que outros conquistaram e uma democracia que outros ajudaram a construir.
Recebemos também erros, omissões, desigualdades, feridas e contradições que não escolhemos, mas que temos a responsabilidade de compreender.
Nada disso nos pertence inteiramente.
Passa por nós.
E é precisamente por isso que cada geração tem perante a História uma obrigação que não está escrita em nenhuma lei:
não entregar às gerações seguintes um país mais pobre de consciência do que aquele que recebeu.
O futuro de Portugal não será decidido apenas nos grandes acontecimentos que um dia entrarão nos livros de História.
Será decidido também nas pequenas escolhas que fazemos quando ninguém está a escrever sobre nós.
Na educação que damos.
Na cultura que defendemos.
Na maneira como tratamos os outros.
Na qualidade da palavra que usamos.
Na exigência que colocamos no trabalho.
Na liberdade que sabemos exercer.
Na memória que escolhemos preservar.
E naquilo que recusamos esquecer.
Talvez seja esta a verdadeira dimensão do tempo histórico: cada um de nós é apenas um instante na vida de um país, mas nenhum de nós é dispensado da responsabilidade pelo instante que lhe coube viver.
É por isso que olhar para trás não deve ser um exercício de nostalgia.
Deve ser um exercício de responsabilidade.
Porque o passado já não podemos modificá-lo.
O presente, esse, ainda nos pertence.
E o futuro — esse território que parece tão distante e que, no entanto, começa todos os dias — será aquilo que formos capazes de fazer dele.
Portugal não precisa de uma nova História.
Precisa talvez de uma nova consciência da História que já tem.
Uma consciência suficientemente adulta para não esconder o que nos envergonha, suficientemente lúcida para não exagerar aquilo de que nos orgulhamos e suficientemente livre para compreender que nenhum povo está condenado a repetir eternamente os seus próprios erros.
A História não nos diz quem teremos de ser.
Mas diz-nos que já fomos muitas coisas.
E essa é uma das maiores razões para não desistirmos de ser melhores.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido de pensar Portugal.
Não procurar uma resposta definitiva para aquilo que somos.
Mas assumir a responsabilidade pela pergunta:
Que Portugal queremos deixar quando já não estivermos cá para o pensar?
Essa pergunta não pertence aos políticos.
Não pertence aos intelectuais.
Não pertence às instituições.
Pertence a todos nós.
Porque o país que amanhã chamaremos Portugal começará a ser construído hoje — nas nossas escolhas, nas nossas palavras, na nossa cultura, na educação dos nossos filhos, na memória que transmitirmos aos nossos netos e na coragem com que formos capazes de olhar para o futuro.
E talvez seja essa a mais profunda lição que a História nos oferece: nenhuma geração recebe o futuro pronto.
Cada geração recebe apenas uma parte do caminho.
E tem de decidir o que fará com ela.
É essa a nossa vez.

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