Três anos depois, já ninguém pode dizer que não sabe. Israel deixou cair a máscara da “única democracia do Médio Oriente” e mostrou aquilo que durante décadas muitos preferiram não ver: um Estado assente na ocupação, no apartheid e na violência sistemática contra os palestinianos. Em Gaza, o genocídio prossegue diante dos olhos do mundo. A contabilidade oficial dos mortos, já na ordem das dezenas de milhares, é provavelmente muito inferior à realidade de uma destruição que transformou cidades inteiras em ruínas.
O mistério já não é Israel. O mistério são as democracias que continuam a assistir. Estados que fizeram do direito internacional uma bandeira continuam a manter relações políticas, económicas e militares com um Estado que ocupa territórios, promove colonatos ilegais e destrói sistematicamente um povo. Falam de diálogo, de negociações e de uma futura solução política como se ainda estivéssemos perante um conflito convencional entre duas partes equivalentes. Como se fosse possível negociar com quem transforma a destruição do território e a expulsão da sua população num instrumento político.
As sanções são poucas, tardias e quase caricaturais. Incidem sobretudo sobre produtos provenientes dos colonatos ilegais e, mesmo essas medidas mínimas, são recusadas ou adiadas por vários países. É a maneira encontrada pelas democracias para parecerem indignadas sem correrem o risco de incomodar demasiado Israel.
Gaza vai desaparecendo do discurso
O território foi devastado. Casas, hospitais, escolas, ruas, bairros inteiros deixaram de existir. Milhares de pessoas continuam feridas, sem tratamento adequado. Há fome, sede, frio, calor e doenças. Há famílias inteiras a viver em tendas rasgadas, entre escombros, sem saber se terão comida no dia seguinte. E continuam a morrer pessoas.
Mas o mundo parece ter decidido esperar. Esperar por uma solução razoável. Esperar por um novo processo de paz. Esperar talvez que os escombros desapareçam da televisão e que Gaza deixe de incomodar.
Só que Gaza não desapareceu. Continua ali. E cada dia que passa sem uma ação política à altura da dimensão da tragédia transforma a neutralidade em cumplicidade.
Três anos depois, já não há grande coisa para compreender sobre Israel. Falta compreender as democracias que continuam a assistir aos crimes que Israel repete, agora, no Líbano e na Cisjordânia.


