Trinta anos depois da sua criação, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa encontra-se perante uma responsabilidade que ultrapassa a celebração do seu aniversário: demonstrar que a língua que aproxima os nossos povos pode também ajudar a construir um futuro de paz, conhecimento, dignidade e desenvolvimento.
O colóquio «CPLP 30 anos – Uma Comunidade de Língua e de Futuro», ofereceu uma oportunidade para essa reflexão. Os seus três painéis — construção política e diplomática, língua portuguesa como activo global e futuro num mundo fragmentado — colocam em debate questões essenciais: o que construímos, como valorizamos aquilo que partilhamos e que Comunidade queremos deixar às próximas gerações.
Criada em Lisboa, em 17 de julho de 1996, a CPLP contou com a Guiné-Bissau entre os seus sete Estados fundadores. Essa participação constitui uma responsabilidade histórica e uma oportunidade que devemos continuar a valorizar.
Para nós, guineenses, este aniversário deve ser ocasião de reconhecimento, mas também de exigência. Pertencer à CPLP deve significar acesso a uma cooperação capaz de produzir mudanças concretas na vida das populações.
Uma construção diplomática que precisa de chegar aos cidadãos
Construir uma organização entre países com percursos históricos, dimensões económicas e prioridades diferentes exige perseverança. A língua facilita o entendimento, mas a cooperação depende de vontade política, instituições funcionais e compromissos cumpridos.
O balanço dos trinta anos deve, por isso, incluir uma pergunta concreta: em que medida a existência da CPLP melhorou as oportunidades de quem estuda, trabalha, investiga, produz ou procura cuidados de saúde?
Uma Comunidade torna-se mais próxima quando um estudante consegue concluir a sua formação, quando um professor recebe instrumentos para ensinar melhor, quando um profissional encontra condições para partilhar conhecimentos e quando uma instituição pública melhora a qualidade dos serviços que presta. É nesse terreno que a diplomacia ganha sentido para o cidadão.
A CPLP assume entre os seus princípios a paz, a democracia, o Estado de direito, os direitos humanos e a justiça social. Esses valores devem orientar uma actuação coerente, através do diálogo, da prevenção de crises e do apoio ao fortalecimento das instituições dos seus membros.
O respeito pela soberania e a solidariedade entre Estados devem favorecer uma cooperação responsável, com capacidade para escutar, compreender e contribuir para soluções duradouras.
A língua portuguesa como instrumento de conhecimento e oportunidade
Este tema recorda-nos que uma língua vive também da imaginação, da memória e da liberdade de contar o mundo. Cada povo acrescenta à língua portuguesa experiências, palavras, sensibilidades e formas próprias de expressão. Essa pluralidade constitui uma riqueza que a CPLP deve preservar.
Na Guiné-Bissau, a valorização do português deve caminhar com o respeito pelo crioulo guineense e pelas demais línguas nacionais. É através delas que muitas crianças descobrem o mundo e que as comunidades transmitem conhecimentos, afectos e valores.
Uma política educativa eficaz deve reconhecer essa realidade e criar pontes pedagógicas que facilitem a aprendizagem. O domínio do português pode ampliar o acesso ao ensino superior, à ciência, à administração e à comunicação internacional, enquanto as línguas nacionais mantêm o seu lugar na identidade e na vida colectiva.
Para transformar esse potencial em oportunidades, precisamos de professores bem preparados, materiais escolares adequados, bibliotecas acessíveis e cooperação universitária continuada. Precisamos também de conteúdos científicos e tecnológicos em português e de maior presença das nossas culturas no espaço digital.
Uma língua comum deve ajudar a reduzir desigualdades no acesso ao conhecimento. O seu valor mede-se também pela capacidade de abrir caminhos a quem dispõe de menos recursos.
O futuro num mundo fragmentado
O papel da CPLP num mundo marcado por tensões, conflitos e interesses cada vez mais difíceis de conciliar. A Comunidade dispõe de uma oportunidade singular de aproximação entre diferentes regiões. Para a aproveitar, deverá reforçar a concertação diplomática e identificar áreas em que a cooperação produza benefícios partilhados.
A segurança alimentar, a saúde pública, a educação, a protecção dos oceanos, a formação profissional e a transição digital oferecem possibilidades concretas de trabalho conjunto.
Para a Guiné-Bissau, essa agenda pode traduzir-se em apoio à produção e transformação agrícola, formação de profissionais de saúde, capacitação de professores, investigação marinha e melhoria da administração pública.
O princípio deve ser claro: cada iniciativa precisa de objectivos definidos, recursos identificados, responsabilidades assumidas e resultados avaliáveis.
Importa também promover uma cooperação económica que ajude os países a produzir mais e melhor, criar emprego e acrescentar valor aos seus recursos. A circulação de conhecimento, tecnologia e investimento deve fortalecer capacidades locais e abrir espaço às pequenas empresas, aos jovens e às mulheres.
A mobilidade merece igualmente atenção. Uma Comunidade aproxima-se dos seus cidadãos quando facilita percursos de estudo, intercâmbio científico e actividade profissional, com procedimentos claros, segurança jurídica e respeito pela dignidade das pessoas.
A perspectiva guineense e a responsabilidade do futuro
A Guiné-Bissau deve participar nesta reflexão com consciência do seu percurso e confiança naquilo que pode oferecer. Temos uma história de luta pela liberdade, uma diversidade cultural valiosa e um património natural que merece protecção e conhecimento. Esses elementos podem alimentar uma participação mais activa na cooperação cultural, científica, educativa e económica da CPLP. Mas essa participação exige também trabalho interno: instituições mais capazes, continuidade nas políticas públicas e melhor preparação para conceber e executar projectos.
A cooperação produz resultados mais sólidos quando encontra prioridades nacionais claras. Cabe-nos identificar o que precisamos, apresentar propostas consistentes e acompanhar a sua realização.
A próxima etapa da CPLP deverá ser construída com maior participação dos cidadãos. Professores, escritores, investigadores, empresários, trabalhadores, jovens e organizações sociais têm experiências e propostas que podem enriquecer o projecto comum.
Trinta anos depois, a língua continua a oferecer-nos um espaço de encontro. Cabe aos nossos países transformar esse encontro em confiança, cooperação e oportunidades.
O futuro da CPLP dependerá da sua capacidade de fazer com que a pertença à Comunidade seja sentida na vida das pessoas. Uma língua partilhada ganha força quando ajuda a construir um futuro igualmente partilhado.



