Toda a gente fala de Cristiano Ronaldo. Não era minha intenção fazê-lo, mas quando o presidente da Federação Portuguesa de Futebol diz que ele é um ‘ícone’ do País, eu pergunto-me se Pedro Proença sabe o significado da palavra. É que ícone, que deriva do grego, é, segundo o dicionário de Português, um ‘símbolo gráfico ou representação visual que transmite um significado de forma rápida e intuitiva’. Se formos à parte religiosa, é uma arte sacra, geralmente pintada sobre madeira, que surge na tradição cristã oriental/bizantina. Claro que no caso, nos ateremos à cultura e sociedade em que será uma pessoa ou objecto tido como símbolo máximo de uma época, como um ícone da moda ou da cultura.
Cristiano Ronaldo pode ter muitas virtudes como futebolista. Pouco percebo desta matéria, mas acredito que sim: corre muito, meteu muitos golos, etc. Sim. Pode ser um orgulho. Mas um ícone? Levou Portugal ao Mundo, como tantos outros o fizeram.
Ao longo da sua vida teve, como é sobejamente sabido, uma infância difícil. Entretanto, ganhou muito dinheiro, terá dado algum para quem mais necessitava (alguns casos sabem-se, outros dizem que foi anonimamente), ajudou a família, tratou bem do seu corpo, é atlético e etc. E oferece jóias de milhões e possui casas de outros tantos. E faz bem. Mas, o que tem a mais no seu orgulho, tem a menos na humildade.
Tenho ouvido as coisas que dizem os seus amigos (fala por interpostas pessoas, o que é mesmo muito mau) a propósito da sua saída da selecção. E pasmo. Ensinamos as crianças a que quem manda na escola são os professores; quem manda em casa são os pais. E não se fazem birras quando se é contrariado.
Não sei se Ronaldo teve razão para se aborrecer com o treinador Jorge Jesus. Do meu ponto de vista, perdeu-a toda quando, enquanto capitão da equipa, abandonou os seus homens e se enfiou no seu aviãozinho particular e fugiu. Sim, diante do confronto, Ronaldo abandonou a sua equipa e fugiu! E já não foi uma birra, foi a fuga de um suposto atleta de alta competição que não aguentou que outros o substituíssem, quiçá por serem mais jovens ou também muito talentosos. Ainda assim, o treinador pediu ou não desculpas (ainda não percebi de quê e se é verdade ou não) e os colegas pediram-lhe o regresso. Ronaldo manda recados por terceiros e, aparentemente, só voltará se o treinador for despedido. Eu sei que ele detém muito dinheiro na Media Capital e que os canais Now, CMTV, CNN e TVI precisam de ‘obedecer à voz do dono’. Mas ainda fico estupefacta… (Até parecem as ‘entrevistas exclusivas’ feitas quase todos os dias ao presidente do Chega).
O homem que quis conhecer Donald Trump e que vive nas Arábias pensará que é dono da Selecção Nacional? Talvez seja mesmo isso, já que até o primeiro-ministro (valha-me Deus!) se meteu ao barulho. Alguém que pensa que o dinheiro é um estatuto. Outros jogadores (julgo que ouvi falar em dois) que tiveram a mesma atitude, sofreram as consequências e não eram capitães da equipa. Como se pode pedir a um capitão, que abandonou uma equipa, que regresse?
Ah!, sim, explicam-me amigos que é um problema de dinheiro. Ronaldo é patrocínios, é marca, é essas coisas todas. Então não tem de ser educado, nem correcto? E, quando o ridículo não tem nome, passa a ser um ‘ícone’? Eu, que tenho mais idade, dava-lhes já com verdadeiros ícones, como Camões, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, Vasco da Gama, Egas Moniz, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, José Saramago, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Paula Rego e da inexcedível Amália Rodrigues; falamos de Almada Negreiros, de Manoel de Oliveira; e para que não se diga que é só cultura e não desporto, falamos de Eusébio, do fantástico Jorge Costa, de Carlos Lopes, de Rosa Mota e tantos outros.
Outros amigos interrogam-se como pode dizer que só vem quando o treinador sair: Jorge Jesus tem contrato até 2030. Por essa altura, Ronaldo terá 44 anos…
Independentemente do que possa fazer nas Arábias, Ronaldo, que tinha a porta grande escancarada, sai pela do galinheiro. Não aprendeu nada com outros, incluindo Messi. Não passa de um tipo com dinheiro, mas sem ‘berço’, o tal que o dinheiro não lhe deu.



