Sem a ajuda de Jorge Afonso, mui prestável técnico do arquivo da Câmara Municipal de Loures, esta crónica jamais teria sido escrita e, por isso, deveria ser também assinada por ele, pois Jorge Afonso teve a gentileza de me ajudar cabalmente a pôr os pontos nos is.
Quem mandou construir os edifícios inacabados existentes na vetusta Quinta do Guarda-Mor foi o proprietário dos Armazéns Grandella, o empresário e filantropo Francisco de Almeida Grandella (1853-1934).
Saíram os seus projectos da prancheta do célebre arquitecto Rosendo Carvalheira (1861-1919), a quem se ficaria também a dever o então chamado Sanatório de Santana, na Parede (Cascais), de magnífica traça arquitetónica.
Grandella deixou muitos edifícios por acabar. Já aqui contámos a fabulosa história do Sanatório Albergaria para tuberculosos no Cerro de Montachique, no mesmo concelho de Loures.
A primeira pedra dos edifícios de Camarate deve ter sido lançada no início do século XX. Ou, talvez, nos finais do século XIX.
A ideia de Grandella seria instituir ali uma casa de repouso. Por alguma razão a obra não foi concluída. Mas, segundo rezam os documentos arquivados na Câmara Municipal de Loures, ter ali uma casa de repouso voltou a ser ideia dos proprietários que sucederam a Grandella.
Em 1974, José Maria Gonçalves, na qualidade de “proprietário” da Fundação Santa Maria da Silva apresenta novos pedidos de alteração à propriedade, acrescentando um edifício de traça semelhante ao alterado e um, mais baixo, para garagem de ambulâncias e instalação do pessoal afecto à, agora, clínica, que aí se propunha edificar.
Mesmo sem terem sido concluídos, os edifícios foram utilizados pelo IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) em 1975, para receber “retornados” das colónias africanas que se tornaram independentes. Seiscentas pessoas viveram ali, em edifícios inacabados, não sabemos em que condições sanitárias, até meados dos anos de 1990.
Em 1993, o tribunal decide a desocupação total dos edifícios. Os ocupantes são despejados com alguma violência e forte presença policial, despejo que teve larga repercussão na Comunicação Social, houve quem lhe chamasse “O escândalo de Camarate”, aliás, reportagens televisivas foram várias.

A Fundação Santa Maria da Silva recupera a posse da propriedade e, até ao momento (Outubro de 2026), não foi realizada qualquer obra de recuperação.
Embora localizados numa das várias quintas nobres existentes nos arredores da capital, os edifícios degradados que parecem vigiar o campo santo de Camarate nada têm de sacrossanto histórico que remonte a prístinos séculos. São, como vimos, obras inacabadas, com pouco mais de um século, e a intenção de virem a constituir um «Lar Panorâmico» (de facto, a vista dali é deveras panorâmica), com vertente de lar, um, e de residência de pessoal, o outro, não se insere numa lógica predominante de benemerência. Hoje, o lar ao lado do cemitério seria uma oportunidade rara de rentabilizar o negócio…





