OVAS DE BACALHAU OU CAVIAR

Estava, tranquilamente, a ver a Tia Cátia, no 24 Kitchen, quando ela disse que iria cozinhar “ovas de bacalhau que poderiam substituir o caviar”. A formulação pareceu-me, à primeira vista, apenas uma curiosidade culinária. Contudo, a ideia da substituição revelou-se uma metáfora útil para pensar na vida política portuguesa.

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A questão, afinal, não está em saber se uma coisa pode ocupar o lugar de outra, está em perceber se essa substituição altera a substância ou se apenas troca a aparência, mantendo a lógica de fundo.

É essa a tese que aqui importa analisar: após o 25 de Abril, surgiram novos personagens na cena política. Entre esses personagens tivemos o exemplo claro do conceito de caviar em política: qualidade, pensamento, cultura, coragem.

A metáfora culinária permite, assim, formular uma pergunta: quando se troca o nome do ingrediente, muda-se também a receita? A teoria da substituição é aplicável à política?

Com a Revolução do 25 de Abril, parte da classe política do regime derrubado não desapareceu: reposicionou-se, adaptou o discurso e diluiu-se pelos diversos partidos. A mudança de embalagem partidária não implicou, por si só, uma ruptura total com os hábitos, os interesses e os mecanismos de influência que já estruturavam o poder.

Pelo contrário, conseguiu-se assegurar que o corporativismo, pedra basilar do Estado Novo, tivesse continuidade com uma concepção diferente, mas estruturalmente semelhante. Esse conceito foi assimilado pela nova classe política como uma forma de corporação solidária, independente da ligação partidária, à qual só ascendiam os escolhidos.

Com excepção do período posterior ao 25 de Abril, marcado pela consolidação dos partidos políticos, a ascensão política iniciou-se nas juventudes partidárias, que abriam caminho até ao topo da pirâmide. A meritocracia foi liminarmente afastada da vida política e o caviar foi desaparecendo.

A integração deste conceito estrutural do anterior regime na nova ordem política terá sido um dos maiores erros da Revolução dos Cravos: os militares e os partidos políticos que se instalaram no País não conseguiram cortar a ligação umbilical entre a democracia nascente, o corporativismo e o sistema político-administrativo que diziam ter derrubado. E as ovas de bacalhau foram crescendo, substituindo o caviar.

O corporativismo permaneceu como cimento invisível do novo regime e permitiu que uma nova elite controlasse o Estado, à medida que a democracia se consolidava.

Os detentores da superestrutura do Estado passaram a assumir-se como caviar, apesar de, na sua maioria, não passarem de ovas de bacalhau. Esta é a desgraça deste País, como escrevia Sebastião da Gama: “Meu país desgraçado! … E no entanto há Sol a cada canto e não há Mar tão lindo noutro lado”.

Um País perdido no passado e longe de um futuro que nunca terá, apenas por um motivo, a total incapacidade de transformar ovas de bacalhau em caviar. A festa do PSD, no fim-de-semana no Pontal, foi o espelho da incapacidade de, em tempo algum, cozinhar ovas de bacalhau e fazê-las passar por caviar.

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