BOATOS

É o título de um livro de Jean-Nöel Kapferer que usa como subtítulo a frase O MEIO DE COMUNICAÇÃO MAIS VELHO DO MUNDO

6
376

Já tem décadas. Outros trabalhos mais actualizados têm sido desenvolvidos, mas se o refiro é porque o essencial da questão – a origem mal definida do fenómeno – permanece, como permanecem essas bombas de destruição silenciosa de indivíduos, ou de instituições.

Nas éditions du Seuil de 1987, a palavra original é Rumores, conceitoigualmente vago, escorregadio, de difícil apuramento. Como dizia o autor, o objecto de estudo não é senão um eco do que se pretende apurar: um dia alguém, não se sabe quem, ou talvez sim, propaga em surdina que ouviu dizer…E quanto mais misterioso, com menos referências, até pela discrição dos lesados que não se prestam a fornecer informação sobre inverdades, mais apetecível o processo se torna ao exercício das más-línguas.

O gesto, a mímica, os sinais de fumo, o rufar do tambor, as inscrições na pedra, foram os primeiros meios de comunicação, esses com autores identificados. Mais tarde, no fim da IIª. Grande Guerra, aparece o levantamento de boatos que serviram, e servem ainda, experiências mais tristemente sofisticadas.

Começo por dizer que abomino boatos e suas manhas rasteiras. Nem todos herdaram riquezas materiais, mas alguns têm uma herança de valores e de frontalidade de que se orgulham. E tendo outras qualidades, também assumem os pequenos defeitos que não prejudicam ninguém.

Nos nossos dias o boato existe ainda mais vigoroso, representando uma arma eficaz de difamação, ou contrainformação sempre malévola, porque nunca assumida cara a cara, só atirada como areia para os pneus da informação escorregarem, ou para os olhos dos incautos deixarem de enxergar com imparcialidade. Afinal o núcleo de que se alimenta já foi, ou será, modificado mil vezes e os arautos da maledicência bem o sabem.

Assim se livram de responsabilidades do que vão murmurando de boca-a-orelha e que virá a ser rastilho facilmente inflamável. Assim se promovem uns, se difamam outros, se cria um mundo de ficção aparentemente verosímil, mas injusto e cobarde, porque levado aonde convém por pessoas de aspecto e reputação “idóneos”.

Há diferenças entre murmúrio e boato? Eu separo-os pela minha forma de agir, não porque um deles, o boato, não se sirva dessa pretensa inofensiva prática do murmúrio para parecer mais credível. As verdades não precisam de ser murmuradas, a não ser as confissões de amor que só interessam aos namorados.

Há sempre pessoas dignas mesmo nos antros mais escuros, mas já aqui referi a frase de Lord Acton, O Poder tende a corromper, que havia de afirmar-se em crescendo por questões fáceis de identificar. Que os meios políticos, onde é fácil a escalada do poder até à corrupção, usem técnicas boateiras e pouco dignas para confusões oportunistas, não me espanta. Já que “agentes culturais” em pose de vedetas, e sem conhecerem os indivíduos que julgam, o façam com base no mesmo produtor de desgaste da imagem, espanta-me e revolta-me.

Raramente levantam a voz para aplaudir o trabalho de quem ergue com esforço uma obra limpa, mas têm sempre a língua afiada para atacar, discretamente com voz melíflua e uma arma escondida, o “adversário”, ou aqueles a quem temem o valor. Quem não percebe que uma nulidade não interessa a ninguèm?

As guerras acontecem longe, mas começam perto por influência destes falsos profetas do bem-fazer nos seus mal alinhados discursos. Dá sempre jeito abater mais uma árvore pelo caminho. Mesmo que poucos saibam, ou queiram saber, o nome da árvore, sempre há quem veja que ela existe e que detém alguma importância no ecossistema sociocultural.

A regra hoje, como ontem, é bajular quem convém para reunir consensos e construir uma credibilidade balofa, porque à custa de empurrõezinhos de amigos aos seus nomes, e de empurrões maiores aos que alcunham de indesejáveis para a berma, ou para as margens.

Não alimento, não aprovo a sobranceria de quem age como se tivesse título nobiliárquico. E ainda que tivesse. Vaidade é um atributo humano saudável, se moderado. Nem defeito, nem qualidade. E depois o país é uma aldeia. Bem sabemos quem são, de onde vêm, para onde querem ir… Não merecem credibilidade ao emitirem opiniões sem fundamento, só com raiz nos boatos que dizem condenar.

Inaugurem o ciclo da dignidade, se ainda não o fizeram. Exponham críticas a quem sentem que devem fazê-lo e exponham-se às consequências. A podridão de boatos não assenta bem a líderes de instituição alguma. Deixem a destreza de construir esquemas de silenciamento de nomes, embora pretendam permanecer afastados da culpa.

Quanto aos Amigos que nos foram caros, mas são capazes de mudar para o passeio contrário para agradarem às grandes personalidades, é tempo de reconhecer que deixaram de ser Amigos.

Bem sei, todos somos vencíveis pelo cansaço.

6 COMENTÁRIOS

  1. Um dos males maiores dos nossos dias, o boato. Maria Helena Ventura escalpeliza-o a fundo, caracteriza muito bem quem a tal se presta, identifica de forma magnífica as consequências sociais, e individuais, do boato, ou do rumor, também não os distingo.
    Tenho para mim que o principal móbil do boato reside na avidez de auto-promoção pelo viés do desmerecimento, quando não da destruição, do outro. É mais fácil, mais rápido e está mais à mão de quem não tem valores nem princípios do que um esforço pessoal de aprendizagem, conhecimento, aperfeiçoamento – leva tempo, exige esforço e dedicação…Mas será que conseguem dormir descansados?!

  2. (…)Tenho para mim que o principal móbil do boato reside na avidez de auto-promoção pelo viés do desmerecimento, quando não da destruição, do outro. É mais fácil, mais rápido e está mais à mão de quem não tem valores nem princípios do que um esforço pessoal de aprendizagem, conhecimento, aperfeiçoamento – leva tempo, exige esforço e dedicação…Mas será que conseguem dormir descansados?!
    Amei e reli este Teu artigo , Maria Helena. Obrigada por ele.

  3. Maria Clarinda, bom dia.
    Esta parte que citas pertence ao excelente comentário de Margarida Chagas Lopes.
    Agradeço muito a ambas o facto de virem e de terem a generosidade de ler o meu texto.
    Um excelente dia para cada uma.

  4. Uma crónica muito boa sobre um tema que sempre foi um dos maiores cancros das sociedades aqui muito bem tratado. Parabéns à autora que o foi buscar longe e o relaciona com fatos dos nossos dias o que quer dizer que continua atual e destrutivo.

  5. SINGELAMENTE TENHO ORGULHO EM ASSINAR POR BAIXO.
    PARABÉNS PELA FRONTALIDADE.
    ABRAÇO DE MUITA SINCERIDADE, SENHORA DOUTORA HELENA VENTURA PEREIRA.
    VOU PARTILHAR NA MINHA MODESTA PÁGINA.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui