Já tem décadas. Outros trabalhos mais actualizados têm sido desenvolvidos, mas se o refiro é porque o essencial da questão – a origem mal definida do fenómeno – permanece, como permanecem essas bombas de destruição silenciosa de indivíduos, ou de instituições.
Nas éditions du Seuil de 1987, a palavra original é Rumores, conceitoigualmente vago, escorregadio, de difícil apuramento. Como dizia o autor, o objecto de estudo não é senão um eco do que se pretende apurar: um dia alguém, não se sabe quem, ou talvez sim, propaga em surdina que ouviu dizer…E quanto mais misterioso, com menos referências, até pela discrição dos lesados que não se prestam a fornecer informação sobre inverdades, mais apetecível o processo se torna ao exercício das más-línguas.
O gesto, a mímica, os sinais de fumo, o rufar do tambor, as inscrições na pedra, foram os primeiros meios de comunicação, esses com autores identificados. Mais tarde, no fim da IIª. Grande Guerra, aparece o levantamento de boatos que serviram, e servem ainda, experiências mais tristemente sofisticadas.
Começo por dizer que abomino boatos e suas manhas rasteiras. Nem todos herdaram riquezas materiais, mas alguns têm uma herança de valores e de frontalidade de que se orgulham. E tendo outras qualidades, também assumem os pequenos defeitos que não prejudicam ninguém.
Nos nossos dias o boato existe ainda mais vigoroso, representando uma arma eficaz de difamação, ou contrainformação sempre malévola, porque nunca assumida cara a cara, só atirada como areia para os pneus da informação escorregarem, ou para os olhos dos incautos deixarem de enxergar com imparcialidade. Afinal o núcleo de que se alimenta já foi, ou será, modificado mil vezes e os arautos da maledicência bem o sabem.
Assim se livram de responsabilidades do que vão murmurando de boca-a-orelha e que virá a ser rastilho facilmente inflamável. Assim se promovem uns, se difamam outros, se cria um mundo de ficção aparentemente verosímil, mas injusto e cobarde, porque levado aonde convém por pessoas de aspecto e reputação “idóneos”.
Há diferenças entre murmúrio e boato? Eu separo-os pela minha forma de agir, não porque um deles, o boato, não se sirva dessa pretensa inofensiva prática do murmúrio para parecer mais credível. As verdades não precisam de ser murmuradas, a não ser as confissões de amor que só interessam aos namorados.
Há sempre pessoas dignas mesmo nos antros mais escuros, mas já aqui referi a frase de Lord Acton, O Poder tende a corromper, que havia de afirmar-se em crescendo por questões fáceis de identificar. Que os meios políticos, onde é fácil a escalada do poder até à corrupção, usem técnicas boateiras e pouco dignas para confusões oportunistas, não me espanta. Já que “agentes culturais” em pose de vedetas, e sem conhecerem os indivíduos que julgam, o façam com base no mesmo produtor de desgaste da imagem, espanta-me e revolta-me.
Raramente levantam a voz para aplaudir o trabalho de quem ergue com esforço uma obra limpa, mas têm sempre a língua afiada para atacar, discretamente com voz melíflua e uma arma escondida, o “adversário”, ou aqueles a quem temem o valor. Quem não percebe que uma nulidade não interessa a ninguèm?
As guerras acontecem longe, mas começam perto por influência destes falsos profetas do bem-fazer nos seus mal alinhados discursos. Dá sempre jeito abater mais uma árvore pelo caminho. Mesmo que poucos saibam, ou queiram saber, o nome da árvore, sempre há quem veja que ela existe e que detém alguma importância no ecossistema sociocultural.
A regra hoje, como ontem, é bajular quem convém para reunir consensos e construir uma credibilidade balofa, porque à custa de empurrõezinhos de amigos aos seus nomes, e de empurrões maiores aos que alcunham de indesejáveis para a berma, ou para as margens.
Não alimento, não aprovo a sobranceria de quem age como se tivesse título nobiliárquico. E ainda que tivesse. Vaidade é um atributo humano saudável, se moderado. Nem defeito, nem qualidade. E depois o país é uma aldeia. Bem sabemos quem são, de onde vêm, para onde querem ir… Não merecem credibilidade ao emitirem opiniões sem fundamento, só com raiz nos boatos que dizem condenar.
Inaugurem o ciclo da dignidade, se ainda não o fizeram. Exponham críticas a quem sentem que devem fazê-lo e exponham-se às consequências. A podridão de boatos não assenta bem a líderes de instituição alguma. Deixem a destreza de construir esquemas de silenciamento de nomes, embora pretendam permanecer afastados da culpa.
Quanto aos Amigos que nos foram caros, mas são capazes de mudar para o passeio contrário para agradarem às grandes personalidades, é tempo de reconhecer que deixaram de ser Amigos.
Bem sei, todos somos vencíveis pelo cansaço.


