Há recantos ainda na serra vizinha onde pastores criam gados deixando perceber a inocência de um tempo quase bíblico que um dia haverão de tornar-se sítios de visita como se de verdadeiro Museu se tratasse.
Não. Não foi terra de Viriato. Por mais que a grande serra lhe tivesse dado abrigo, lá longe. O que surpreende em Manteigas nem é, de todo, o seu casario, embora se goste de o ver, o mais antigo, aninhado à volta das duas igrejas, como se fossem mães-galinha abrigando filhos pequenos. O que mais surpreende é esse vale soberbo por onde desce o rio Zêzere, que o povo chama de Ribeira, mais no alto, por onde se despenham águas de trovoadas, por onde correm águas de degelo, que fertilizam os campos da encosta cheios de socalcos até onde o homem conseguiu subir rompendo matagais que sobem depois em agradáveis manchas o resto da serra, até onde podem.

Da história antiga de Manteigas pouco se sabe. O imaginário popular remete para o tempo dos Mouros e conta ainda uma “história” de uma formosa mourinha encantada no lugar de Alfátema.
D. Sancho I deu-lhe foral em 1188 e D. Manuel renovou-o em 1514. E entre a agricultura e a pastorícia cresceu aquele povo que se desenvolve particularmente com a indústria dos lanifícios a partir do séc. XVIII beneficiando da energia das águas do Zêzere e da matéria-prima abundante vinda dos rebanhos da serra.

Gosta-se de ver o casario de Manteigas, o mais antigo que se aninha como pintos à beira da mãe-galinha de uma igreja, enterrado neste covão fundo e belo.


Lá dentro vale a pena visitar as suas igrejas. A igreja de S. Pedro, matriz de uma das freguesias, com festa de Nossa Senhora da Graça e a igreja de Santa Maria, matriz de outra freguesia, com a festa do Senhor do Calvário.
E há uma capelinha dedicada a Nossa Senhora dos Verdes e a de Santo António e a de S. Lourenço, esta longe, na serra. Monumento civil notável é o solar dito a “Casa das Obras”, do 3°. quartel do séc. XVIII.
Há ainda o mistério das suas caldas, onde rebentam águas quentes debaixo desta terra que se cobre tanta vez de neve. Depois são as surpreendentes belezas naturais que a partir de Manteigas e nos seus termos se apresentam, apetecíveis, universo turístico de tal valia que não defraudará qualquer visitante. Pode ser até um mero Viveiro de Trutas. Ou é, a poucos quilómetros o Poço do Inferno, cujo caminho é território de Parque Natural. Maravilha da natureza esse despejar da Ribeira de Leandros, numa fragorosa cascata de luz coada por ramagem forte e onde o inverno gelado constrói, como adornos de cristal, os riozinhos de água que se despejam de tão alto.
Isto bastaria para visitar Manteigas, que, depois, convida a olhar dentro dos seus termos tão amplos essas outras naturais maravilhas que são as impressionantes construções da serra – o Cântaro Magro, o Cântaro Gordo e o Cântaro Raso, belas na sua nudez primitiva tanto quanto são belos cobertos de mantos de neve, assim reinando sobre território imenso, espécie de reis fantasmagóricos que souberam criar, como jardim para o seu inverno, o frondoso parque de bétulas do Covão da Ametade.

O resto da terra onde Manteigas domina ainda fica para descoberta do visitante curioso, indagador.



