Campas a perder de vista, quase a invadir a paisagem envolvente! Saudades, lamentos, esperanças, datas de nascimento e morte, «ETERNA SAUDADE», «TÃO CEDO QUE TU PARTISTE» – tudo isso viria a ser gravado no mármore pela perícia do canteiro. Era preciso um canteiro. Ou mais. O pessoal do Marmorista do Lumiar, por exemplo, foi um dos que viria a pontificar no mester. Cruz, sim, poderia gravar-se ou mesmo esculpir. «Mas, senhora, não lhe parece que um coração ficava bem? A mostrar a todos quanto amor ali para sempre ficava perpetuado?»… E o campo santo acabou por ficar pintalgado de corações marmóreos, polidos, exultando na brancura do mármore de Estremoz/Vila Viçosa. Sensibilizaram-me esses corações.
– Que horas são, meu senhor?
A inesperada pergunta fez-me voltar à realidade do mundo de cá. Surgira, quase a medo, de uma das duas ciganas integralmente revestidas da negridão da partida, decerto há uns dias, de um dos familiares. Ali estavam, seguramente, desde que o guarda lhes franqueara o portão. Sentadas na berma da avenida central, à sombra fresca de uma das poucas árvores subsistentes.
– São quase 11, Amiga!

Olharam uma para a outra, sem comentários. A fazerem contas, porventura, do tempo que ainda ali estariam. Se alguém mais do seu clã viria fazer-lhes companhia e chorar.
Minutos após minutos, rompia o silêncio o forte roncar esforçado de um avião a descolar. Recordei 4 de dezembro de 1980, trágico, ocorrido a dois passos dali, justamente após a descolagem. Tal como nesse dia, também agora um som forte era portador de sonhos, vontades de mudança, amores, tristezas… E lá se perderam todos na lonjura.

Chegou o carro funerário.
A barreira ergueu-se. Entrou. Seguimos em silenciosa marcha lenta até ao crematório. Último olhar ao caixão, na recordação – para mim – da camaradagem, das cumplicidades, das peripécias por que ambos, colegas de curso há 50 anos, havíamos passado. A vénia ritual aquiescente da viúva e, devagar, a urna deslizou para o seu destino.
A saudade viera para ficar. Os aviões continuaram a descolar. As ciganas ainda lá estavam, em silêncio.
Desse triste arrabalde de Lisboa vou querer recordar, acima de tudo, aqueles corações de mármore. Muito mais fortes, dolorosos e sinceros que os emojis perturbadores do meu cotidiano…




