CRÓNICA SATÍRICA: “O MILAGRE DA ENERGIA SEM VÍNCULOS”

O quartel-general do progresso corporativo brilhava intensamente. Na sala de reuniões, o ar condicionado estava regulado para a temperatura exata do desapego emocional.

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imagem criada a partir de uma foto de Lewis Hine, 1920

De um lado da mesa, os executivos da Grande Petrolífera Nacional, exibindo lapelas reluzentes e metas de sustentabilidade ecológica; do outro, os embaixadores da Manpower, os alquimistas modernos capazes de transformar seres humanos em “recursos flexíveis biodegradáveis”.

— Meus senhores — começou o Diretor de Capital Humano da Petrolífera, enquanto ajustava os óculos de quem nunca viu uma bomba de combustível ao vivo. — O nosso relatório de sustentabilidade precisa de ser impecável. Queremos neutralidade carbónica para 2050, mas queremos neutralidade de vínculos contratuais já no próximo trimestre! Ter trabalhadores efetivos na nossa folha de pagamentos polui imenso o nosso balanço financeiro.

O representante da Manpower sorriu com a benevolência de quem guarda as chaves do paraíso do trabalho temporário. Abriu a sua pasta de pele sintética e retirou um folheto brilhante onde se lia: “Talent Solutions: Como ter colaboradores sem o incómodo de os conhecer pelo nome”.

— Compreendo perfeitamente — disse o homem da Manpower, com uma voz suave de locutor de call center. — Nós temos a solução biológica perfeita. Chamamos-lhe o Trabalhador Quântico. Ele existe na loja de conveniência a servir café às seis da manhã, mas tecnicamente não existe na vossa empresa. Se ele pedir um aumento de salário ou, Deus nos livre, o dia de aniversário para passar com os filhos, nós ativamos o protocolo padrão.

— E qual é o protocolo? — perguntou, curioso, o gestor da petrolífera, enquanto saboreava um café pago pelo orçamento de representação.

— Nós encolhemos os ombros com imensa empatia! — respondeu o consultor. — Dizemos-vos a vocês que o trabalhador é caro e dizemos ao trabalhador que a vossa dotação orçamental está congelada. É o ciclo perfeito da água: a culpa evapora-se e chove sempre no mesmo bolso. Se eles reclamarem dos 22 dias de férias legais, nós dizemos que cumprimos a lei com um rigor quase poético. Ir além do mínimo legal seria um insulto à matemática de Wall Street!

O Diretor da Petrolífera quase chorou de emoção. Era poesia pura. Olhou para o gráfico de lucros da empresa, que subia com a mesma força com que o combustível subia nos postos de abastecimento.

— Mas e se a Autoridade para as Condições do Trabalho vier fazer perguntas sobre postos de trabalho permanentes disfarçados de trabalho temporário? — perguntou o assistente júnior, que ainda conservava vestígios de uma consciência humana.

A sala inteira soltou uma gargalhada corporativa, daquelas que ecoam nos campos de golfe ao fim de semana. O homem da Manpower piscou o olho ao jovem.

— Meu caro, para isso serve a magia do Outsourcing. Se o contrato expirar ou se houver agitação sindical, nós simplesmente “redesenhamos a área de atuação do talento”. O trabalhador não é despedido; ele simplesmente passa a ser uma oportunidade flutuante no mercado livre. Nós vendemos flexibilidade! O mundo moderno move-se a gasóleo aditivado e contratos a termo incerto.

A reunião terminou com um aperto de mãos vigoroso. A Petrolífera garantiu mais um ano de lucros históricos com “custos de estrutura otimizados”. A Manpower garantiu mais uma comissão por cada hora de suor alheio faturada. E lá em baixo, no posto de abastecimento, um jovem com farda subcontratada limpava o para-brisas de um cliente, sem saber se no mês seguinte o seu contrato seria renovado, mas com a certeza absoluta de que a energia da empresa era, de facto, o futuro da nossa terra.

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