MURMÚRIOS…

Também a palavra ‘murmúrios’ assume significados bem diferentes conforme o espaço e o tempo em que se usa.

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Numa comunidade – qualquer que ela seja! – constar a existência de murmúrios é, de um modo geral, mau indício. Algo a não merecer generalizado consenso e, daí, a conversa à puridade, na esperança de que, paulatinamente, o desagrado ouse vir ao de cima e quem manda possa, finalmente, agir. É mau esse murmúrio, denuncia falta de coragem e nefasto será se se arrastar.

Na sessão de massagem, Zuleica opta, naturalmente, por inundar o ambiente de serenas melodias, murmúrio de violinos, dolências de saxofone, a flauta do Rão Kyao, uma tecla de piano de timbre a esvoaçar…

Murmúrios há também numa Sala Snoezelen, espaço de estimulação multisensorial que induz relaxamento e bem-estar físico e emocional: luzes, sons, cores, texturas, aromas a proporcionar múltiplos estímulos; todos os sentidos a ficarem envolvidos, ambiente de tranquilidade, de segurança, proteção e conforto.

Gosto da brisa a beijar ao de leve os ramos da buganvília em flor e as pétalas espreguiçam-se e deixam-se embalar no volteio até ao chão. Um murmúrio imaginado, esse.

Quero o mergulho da água a cair na malga negra de Bisalhães. Um chapinhar brincalhão. A suavidade de um motor a acompanhar os minutos do porvir. Ecoarão os murmúrios da fonte sem parar. Jamais terão o ritmo do meu pedalar; mas tal desconcerto é música suave a carregar energia para a jornada prestes a iniciar: atabafará palavras ríspidas, respostas desabridas e ânsias que se não conseguem reprimir. Perpassarão sempre aqueles matinais murmúrios no ar. Abençoados!

Recordo a Fonte da Tareja, em S. Brás de Alportel, a deixar-me o eco dessa eloquente quadra de Bernardo de Passos:

Evoco Augusto Gil: «Batem leve, levemente | Como quem chama por mim». É o murmúrio que o chama: «Fui ver. A neve caía | do azul cinzento do céu. | Branca e leve branca e fria»…

Escreveu Lídia Jorge A Costa dos Murmúrios. Certamente inspirada, diria eu, nos sons do seu/nosso Barrocal: abelhas a poisar na esteva (inaudível fremir de doce contentamento), descompassado pingar da água a rever da parede de poço antigo, no lamento do lençol freático a fenecer… Afinal, não: Lídia foi para outros murmúrios sérios – o contraste entre o que se escrevia oficialmente sobre a guerra colonial e aquilo que realmente se passava no terreno. Captar o último murmúrio, antes que, para sempre, se queira fazer silêncio. Não são os da água os murmúrios de Lídia Jorge, são os da História – o que apenas se capta, e de maneira imperfeita, por baixo do discurso oficial: rumores, vozes marginais, memórias, silêncios, coisas que não foram ditas ou deliberadamente ocultadas, as vozes subterrâneas da memória… Um murmúrio que, provindo da aragem invisível, se passeava no ar em ondas amplas, e falava, mas muito  pouco se ouvia – que a água murmura sem querer dizer nada; nós é que escutamos nela alguma coisa; já os murmúrios de Lídia Jorge queriam dizer – mas foram atabafados.

Capa do livro «A Costa dos Murmúrios»

É contínuo o murmúrio da água; é fragmentado o da História. Um corre. O outro fica, desaparece, reaparece, chega-nos deformado; mas ambos nos obrigam a aproximar o ouvido.

Sussurrando, murmuro, ao longo do dia, na cantilena de um fado antigo, a embalar silêncio de reflexão. Na verdade, porém, aqueles sete minutos iniciais para palmilhar, parado, uma sacrossanta légua, de fonte a murmurar a meu lado, constituem panaceia contra o buzinar do condutor impaciente, o intermitente ladrado do cão irrequieto, o alvoroço do rádio alto do jovem apressado a bradar ao bairro «Cheguei! Passei!»…

Fica, porém, lá no fundo – e, de vez em quando, emerge – esse lado oculto da História – que se murmura e que nem sempre se ousa contar!

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