UMA SOCIEDADE SEM PRAZO DE VALIDADE

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Ao longo desta série falámos de longevidade, experiência, economia, gerações e das profundas transformações que o aumento da esperança de vida está a provocar na sociedade. Falámos do valor de uma vida mais longa, mas também da responsabilidade que essa longevidade coloca perante todos nós. Talvez, por isso, seja chegada a hora da pergunta mais simples e, simultaneamente, mais incómoda: Porque continuamos a olhar para as pessoas como se tivessem uma data de validade?

A longevidade mudou.A sociedade, porém, ainda não mudou suficientemente com ela. Vivemos mais anos, muitas vezes com melhores condições físicas e intelectuais, com mais conhecimento, mais experiência e, sobretudo, com uma enorme vontade de continuar a participar.
Mas continuamos presos a uma ideia antiga de vida, organizada em compartimentos quase imutáveis: aprender, trabalhar, reformar e envelhecer.

Como se cada etapa tivesse uma fronteira definitiva. Como se, a partir de determinada idade, começasse uma espécie de território social onde já não se espera criação, iniciativa, responsabilidade, desejo ou futuro. É uma contradição extraordinária. Nunca uma sociedade teve tantas pessoas com tanta experiência acumulada e, ao mesmo tempo, parece tão determinada a tratá-las como se já nada tivessem para oferecer.

A reforma, que deveria ser uma possibilidade de reorganização da vida, transformou-se demasiadas vezes numa espécie de certificado de inutilidade social. Deixamos de trabalhar e, demasiadas vezes, deixamos também de ser vistos. Como se o nosso valor estivesse ligado ao recibo de vencimento. Como se deixássemos de contribuir para a sociedade no exacto momento em que deixamos de contribuir para o sistema produtivo.

Mas uma pessoa não é apenas aquilo que produz. É também aquilo que sabe, aquilo que transmite, aquilo que cria, aquilo que ama, aquilo que recorda e aquilo que ainda pode fazer pelos outros. É por isso que precisamos de mudar a pergunta. Em vez de perguntarmos a uma pessoa mais velha aquilo que já não consegue fazer, devíamos perguntar-lhe: O que ainda quer fazer?

Esta simples mudança de perspectiva poderia transformar muita coisa. Porque envelhecer não é desaparecer. Não é deixar de ser necessário. Não é passar silenciosamente para a margem da vida enquanto os outros decidem por nós o que devemos fazer, pensar ou sentir.
Envelhecer é continuar. Continuar a ser pai, mãe, avô, avó, amigo, companheiro, profissional, cidadão. Continuar a amar. Continuar a desejar. Continuar a rir. Continuar a indignar-se. Continuar a aprender. Continuar a criar. Continuar a dizer não quando é preciso. Continuar a dizer sim quando a vida nos chama. E, sobretudo, continuar a ter direito ao futuro. Porque esta é talvez a maior injustiça que cometemos contra quem envelhece: confundirmos o fim de algumas possibilidades com o fim de todas as possibilidades.

É verdade que há portas que se fecham. O corpo muda. O ritmo muda. Algumas perdas chegam. Algumas pessoas partem. Há coisas que já não podemos fazer como antes. Mas há outras que só se tornam possíveis porque chegámos até aqui. Há uma liberdade que nasce da experiência. Uma serenidade que não se aprende nos livros. Uma capacidade de distinguir o essencial do ruído. Uma compreensão das pessoas e da vida que só o tempo consegue oferecer. E há também uma coisa extraordinária: a possibilidade de continuar a surpreender.
Surpreender os outros. E, talvez ainda mais importante, surpreendermo-nos a nós próprios.

Uma sociedade verdadeiramente moderna deveria compreender isto. A longevidade não é apenas um desafio demográfico. Não é apenas uma questão de pensões, saúde, dependência ou sustentabilidade financeira. É uma oportunidade civilizacional. Temos diante de nós milhões de pessoas que podem continuar a contribuir para a economia, para a cultura, para a educação, para a comunidade e para as suas famílias. Pessoas que podem continuar a produzir riqueza, conhecimento, afectos e solidariedade. Mas, para isso, é preciso criar espaço.
Espaço no mercado de trabalho. Espaço na política. Espaço nas universidades. Espaço nas empresas. Espaço na cultura. Espaço na decisão.
E, sobretudo, espaço no imaginário colectivo.

Precisamos de deixar de olhar para a idade como uma fronteira. Uma pessoa de 70 anos pode começar um projecto. Uma pessoa de 80 pode aprender qualquer coisa nova. Uma pessoa de 90 pode continuar a ensinar, escrever, criar, viajar, apaixonar-se ou simplesmente decidir que quer viver intensamente o dia seguinte. Não devemos transformar estes exemplos em excepções extraordinárias. Devemos transformá-los em possibilidades naturais. Porque a idade pode condicionar algumas coisas. Mas não pode determinar o valor de uma pessoa.

Há uma enorme diferença entre envelhecer e ser envelhecido pela sociedade. O primeiro é inevitável. O segundo é uma escolha. E essa escolha pode ser mudada. Também por isso precisamos de aproximar gerações, em vez de as separar. Os jovens têm a energia, a criatividade, a irreverência e a capacidade de questionar que lhes pertencem. Os mais velhos carregam consigo aquilo que nenhuma inteligência artificial, nenhum manual e nenhuma pesquisa consegue reproduzir integralmente: a experiência de ter vivido.
Não são mundos concorrentes. São mundos complementares. Uma sociedade inteligente não desperdiça nenhum deles. Talvez seja aqui que esteja uma das maiores oportunidades do nosso tempo: construir uma verdadeira aliança entre gerações. Não uma sociedade onde os jovens substituem os mais velhos. Nem uma sociedade onde os mais velhos tentam impedir os jovens de avançar. Uma sociedade onde uns e outros compreendam que precisam uns dos outros. Porque ninguém chega ao futuro sozinho. Chegamos sempre carregando alguma coisa de quem veio antes. E deixamos sempre alguma coisa para quem vem depois. É essa continuidade que faz uma sociedade.

Por isso, não queremos apenas acrescentar anos à esperança média de vida. Queremos acrescentar esperança aos anos de vida. Queremos que uma pessoa que se reforma não sinta que a sociedade já não precisa dela. Queremos que alguém que envelhece não sinta que perdeu o direito a começar. Queremos que ninguém tenha vergonha da idade. E queremos, sobretudo, que ninguém seja convencido de que já viveu o suficiente simplesmente porque atingiu uma determinada idade.

Porque viver não é cumprir uma obrigação.
É continuar a descobrir.
Continuar a sentir.
Continuar a escolher.
Continuar a ter amanhã.
Uma sociedade sem prazo de validade não é uma sociedade que pretende negar o envelhecimento.
É precisamente o contrário.
É uma sociedade que aceita o envelhecimento como parte natural da vida, mas se recusa a transformar a idade numa sentença. Uma sociedade que sabe que há fragilidade, mas não confunde fragilidade com inutilidade. Que reconhece a dependência quando ela existe, mas não transforma todas as pessoas mais velhas em dependentes. Que protege quem precisa de ser protegido, mas preserva a autonomia de quem ainda pode decidir por si. Que oferece cuidado sem retirar dignidade. Que oferece apoio sem retirar liberdade. Que reconhece a memória sem aprisionar ninguém no passado.

Porque uma pessoa mais velha tem passado, sim. Mas tem também presente. E tem futuro.
O futuro não pertence apenas aos jovens. O futuro pertence a todos aqueles que ainda têm amanhã.
E enquanto houver amanhã, há possibilidade. Enquanto houver possibilidade, há vida.
E enquanto houver vida, ninguém tem o direito de nos declarar acabados.
Talvez seja essa a verdadeira revolução da longevidade.
Não vivermos simplesmente mais. Mas conseguirmos viver mais tempo com sentido. Não acrescentarmos apenas anos à vida. Mas acrescentarmos vida aos anos. Não mantermos as pessoas vivas por mais tempo. Mas garantirmos que possam sentir-se vivas durante mais tempo.
Há uma diferença enorme entre as duas coisas. E é nessa diferença que se joga uma parte importante do futuro da nossa sociedade. Porque um dia seremos nós a precisar desse olhar. Um dia poderemos ser nós a sentir que o mundo corre demasiado depressa, que a tecnologia já não nos espera, que o mercado de trabalho já não nos quer, que as decisões são tomadas sem nós e que alguém começa a falar connosco como se a nossa idade tivesse diminuído o nosso valor. Nesse dia, talvez não queiramos ser tratados como velhos. Talvez queiramos apenas ser tratados como aquilo que nunca deixámos de ser: pessoas.

Pessoas com memória, mas também com futuro. Pessoas com passado, mas ainda com desejos. Pessoas com rugas, cicatrizes, perdas e histórias – mas também com vontade de continuar. Pessoas que ainda querem dar. Pessoas que ainda querem receber. Pessoas que ainda querem amar. Pessoas que ainda querem ser amadas.

Porque envelhecer não significa deixar de esperar. E talvez uma das coisas mais bonitas que a longevidade nos está a ensinar seja precisamente esta: o ser humano não deixa de ter futuro porque envelhece. O futuro continua a existir enquanto houver vontade de o viver.
Por isso, uma sociedade verdadeiramente moderna não deve perguntar às pessoas mais velhas: “Quanto tempo ainda lhes resta?” Deve perguntar: “O que querem fazer com o tempo que têm?”
A diferença entre estas duas perguntas é a diferença entre uma sociedade que apenas prolonga a vida e uma sociedade que verdadeiramente a respeita. E talvez seja esse o nosso maior desafio. Construir uma sociedade onde ninguém seja descartado porque envelheceu.

Onde a experiência não seja reformada. Onde o conhecimento não tenha prazo de validade. Onde a vontade de participar não tenha idade.
Onde o amor, a amizade, o desejo, a curiosidade, a criação e a esperança não sejam considerados privilégios da juventude. Uma sociedade que compreenda, finalmente, que envelhecer não é afastarmo-nos da vida. É levar connosco toda a vida que já vivemos e continuar a acrescentar-lhe capítulos. Essa talvez seja a responsabilidade que deixamos às próximas gerações.

Não lhes deixar apenas mais anos de vida. Deixar-lhes uma sociedade onde esses anos possam ser vividos com dignidade, liberdade, utilidade, afecto e esperança. Porque um dia serão elas a envelhecer. E nesse dia descobrirão, como todos nós descobrimos, que o tempo não nos pergunta a idade para continuar a passar.
Passa.
Leva algumas coisas.
Traz outras.
Muda-nos.
Mas enquanto continuarmos aqui, enquanto houver uma manhã para acordar, uma pessoa para abraçar, uma ideia para defender, uma palavra para dizer, um lugar para conhecer ou simplesmente uma vontade de ver o dia seguinte chegar, a vida não terminou. Pode ter mudado. Pode ser mais lenta. Pode ser diferente. Mas continua a ser nossa.
E é por isso que talvez a verdadeira revolução da longevidade não seja viver mais anos. Seja conseguir construir um mundo onde esses anos continuem a pertencer a quem os vive. Uma sociedade sem prazo de validade. Porque nós também não temos.

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