Sua Majestade tinha convocado os conselheiros, para uma reunião na Fortaleza de Cascais. Todos compareceram nas suas carruagens puxadas a dois cavalos e o meu bisavô foi acompanhado da sua filha, na altura com 13 ou 14 anos. Claro que não lhe foi permitido entrar na reunião e ficou na companhia dos cocheiros e trintanários.
Aproximou-se, com o seu longo vestido, da praia, onde viu os filhos dos pescadores, em plena liberdade, a banharem-se nas águas do Atlântico. Atreveu-se, então, a minha avó a tirar os sapatos (das “meias” nem a me atrevo a falar) e molhar, ligeiramente, os pés… mostrando assim os tornozelos, palavra que, na altura, nem sequer se usava, pois, abaixo do umbigo, tudo era apenas “o pé!”.
Quando um cocheiro avisou o meu bisavô de que a filha tinha mostrado um “tornozelo”, enfureceu-se e castigou-a: durante duas semanas, ficou proibida de sair do quarto, de falar com alguém e sem permissão para comer fruta ou sobremesa.
Foi assim que a minha avó aprendeu a palavra “tornozelo”, que até aí desconhecia. Nunca mais se esqueceu da lição e transmitiu-nos a mesma como sendo um grande segredo.
Os tempos eram outros!
Mas minha avó também se soube “defender”. Confessou aos netos que as crianças não falavam quando estavam à mesa, apenas o podiam fazer para responder a alguma questão que lhes fosse colocada por um adulto. Tinham de se apresentar com as unhas limpas e as mãos lavadas e se se portavam bem à mesa, tinham direito ao grande presente, um bombom retirado de um frasco de cristal da Boémia, que o avô generosamente dava a quem o merecia.
Sempre que era bafejada pela sorte, a minha avó corria com o bombom na mão, para o esconder numa caixinha, que apenas ela sabia onde se encontrava. Assim, quando ficava de castigo, ia ao esconderijo, e comia dois ou três chocolates para animar a alma de vez!




Outros tempos, outras modas… e educação!
Há sempre forma de se contornar uma situação difícil, mesmo uma menina vulnerável que só descobria que tinha tornozelo quando o molhava na praia e um cocheiro a denunciava.
Num colégio em Coimbra onde eu era “externa” havia umas meninas de longe “internas” que sofriam alguns castigos ligeiros quando se “portavam mal”.
Sei lá o que seria portar mal, mas sei dos castigos: viradas para a parede de mãos estendidas ao longo do corpo, enquanto as outras jantavam e brincavam um bocadinho no jardim… não saírem para o passeio até à Baixa para comer uma guloseima.
Entre todas havia duas gémeas muito idênticas que se vestiam do mesmo modo. Com a cumplicidade da cozinheira, que não gostava de ver ninguém ir para a cama sem ceia, as duas irmãs revezavam-se e cada uma só cumpria metade do castigo.
A cozinheira podia distrair os directores (um casal e a cunhada dele) enchia um bocadinho mais o prato da menina obediente, mas não podia fazer duas doses porque a equipa de “polícias” era zelosa das regras.
Em relação à guloseima, a que tinha a sorte de sair só comia metade, para trazer meia dose para a irmã. Inteligência feminina em ambos os casos.
Uma de várias curiosidades: as meninas viviam numa quinta, casaram no mesmo dia com dois irmãos e a cozinheira saiu de Coimbra para ajudar a preparar o banquete. Gostou tanto do lugar que acabou por ficar por lá…
Há mais, mas seria abusar da paciência alheia…