OS CAMINHOS EM CRUZ

Viseu fica para além de todas as memórias como uma cidade encruzilhada e os horizontes do seu povoamento parecem vir do princípio do tempo, tal é a solidez da cidade, a força que se desprende do rijo granito das muralhas e dos templos e das moradas dos homens, das mais antigas.

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Viseu. A cidade vista de Nascente (Foto Germano, anos 50)

Ergue-se do planalto, referência absoluta para os homens que viviam para aquém das grandes montanhas, a Estrela e o Caramulo, o Buçaco, a Nave e a Lapa, ou para quem atravessava estes territórios que desde o Neolítico se povoaram de cultivadores que adoraram a Terra-Mãe e sepultaram seus mortos nos dólmens que hoje nos espantam pela frequência e grandeza.

Os metalúrgicos do bronze e do ferro ocuparam com as suas armas da guerra e do trabalho quase todas as colinas em redor e Viseu nasceu porventura do esforço de um punhado desta gente. E deixaram testemunhos, hoje visíveis, na colina que foi geratriz da cidade, lá onde assenta a Catedral. Só os romanos marcaram com uma força singular os termos da cidade desde o século II antes de Cristo. Viriato é uma figura histórica desse tempo, emblema de uma resistência entre o passado e presente, de estrangeiros e de autóctones. Mas em Viseu ele é antes o herói de um quase mito de origem.

As sete vias que saíam da cidade eram caminhos de ir e de vir, as que entraram na cidade foram o cardo e o decumanus de uma cidade reordenada no seu urbanismo, revigorada por tecnologias agrícolas e artesãs, por uma paz que desencadeou um comércio fecundo que se tornou, para sempre, o melhor signo da urbe.

Viseu foi terreno fértil para as lutas entre mouros e cristãos interessados na sua posse. História lembrada por velhas fontes árabes diz que Almançor, no século X, acampou nas defesas da Cava, nas margens da cidade e daqui conduziu, em raivosa arrancada, os seus homens e os soldados que os condes cristãos seus aliados lhe forneceram, sobre Santiago de Compostela. Atingiu duramente o baluarte de uma fé e de uma cultura que se reforçavam mutuamente, mas esta vitória apenas retardou o triunfo cristão que em meados do século seguinte definitivamente atingiu Viseu.

Os primeiros reis portugueses lembram a cidade no quadro de uma acção política mais longínqua. Dão-lhe foral, estabeleceram certamente uma feira, favoreceram os bispos que levantaram a Catedral românica. A dinastia de Avis sanciona com força de lei a grande feira, um dos seus príncipes tornou-se o primeiro duque, os seus homens do campo ou dos ofícios foram os primeiros lutadores em África.

A cidade manuelina representa o triunfo de uma nação. Bispos cultos como Ortiz de Vilhegas ou D. Miguel da Silva deixaram marcas culturais que hoje simbolicamente se reconhecem na Abóbada dos nós da Catedral e no seu Claustro renascentista. Mas há fabulosas obras de ourives e a mais singular escola de pintura de uma nação pequena à volta de Vasco Fernandes, na primeira metade de século XVI, pouco antes de se ter construído o Colégio, o Paço-Seminário que quatrocentos anos depois se tornou no Museu que recebeu tão prestimosa herança.

Viseu. Catedral. Abóbada dos nós (Séc. XVI)

Viseu vive depois o triunfo do barroco com palácios e igrejas cobertas de ouro, vai de par com caminhos sempre novos, até hoje que volta a ser cruz de grandes vias, território em franco crescimento.

Nos velhos caminhos romanos que resistiram quase até hoje, passaram mil romeiros de Santiago. Juntavam-se aqui, vindos do Centro, para fazer o caminho na direcção do Norte tendo por rumo o túmulo sagrado do apóstolo. Os peregrinos dormiam em pousadas pobres da cidade ou batiam às portas dos mosteiros que eram albergue por uma noite. Muitos procuravam a Catedral e o Paço onde um bispo esmoler e um cabido generoso distribuía esmolas de pão e de vinho ou parcas moedas.

Velhos papéis de Arquivo são eloquentes testemunhos desta caridade efectiva, destes passos que a fé guiava. Há ainda uma história para fazer, a desta gente que passava, os olhos fitos em Santiago, os olhos fitos nas torres das catedrais do caminho que reproduziam a outra como madre, o testemunho passado a outros romeiros, das curvas dos caminhos, dos sítios de agasalho. Um dia os peregrinos deixaram quase de tomar estes rumos.

Voltam agora a animar-se os caminhos. Mas já nem sempre é a mesma fé que guia todos. Só os fundamentos da memória são iguais, o património, a herança dos avós. Mas em Viseu é sempre hora de parar, de colocar de lado o bordão de viajante, de sentir a história à sombra de um monumento, de saborear pão e vinho, de conversar com um homem feito amigo.

Para sempre em Viseu.

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