FAUSTINO

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– Ó avô, porque é que tu mostras sempre o bilhete ou o passe errado?

– Sabes, neto: o revisor passa o dia a inspecionar passes. A maior parte das vezes, nem lhe dizem «Bom dia!» nem «Boa tarde!». Uma vida monótona. À noite, ao jantar, nada tem pra contar à mulher ou à namorada ou aos filhos. Assim, hoje, sempre poderá dizer «Imaginem que, esta tarde, um velho queria enganar-me e mostrou-me o passe errado. fora do prazo! Tive de o obrigar a ver nos bolsos tudo, até que lá encontrou o verdadeiro!».

O Faustino é, de facto, assim. No bairro onde vive, não consegue cruzar-se com rapaz, senhora, homem, seja quem seja, trabalhador da garagem ou senhor bem posto de fato e gravata em jeito de engenheiro, sem lhes falar.  Um bairro periférico, onde, por mais estranho que pareça, a maior parte das pessoas ainda se conhecem, mas onde  passam diariamente muitas outras que não são do bairro: vêm ao hospital, à estação dos correios, a uma das oficinas de automóveis, à pastelaria, ao restaurante, ao minimercado… Ao cruzar-se com esses forasteiros, na paragem do autocarro por exemplo, Faustino não deixa de os saudar. Da maior parte sai um «Bom dia!» ou uma «Boa tarde!». impregnados de admiração, a denunciar quanto se não esperava a saudação. Não é raro, porém, que a surpresa leve a um «Olá! Boa tarde!», a revelar contentamento. Raro também é haver quem não corresponda, estrangeiro que seja.

Faustino, porém, vai mais longe.

A noite fora chuvosa, depois de um dia deste Junho de intenso calor. Nessa manhã, que acordara chuvosa também, Faustino cruzou-se com a senhora de calção e manga curta:

– Vamos esconjurar a chuva, vizinha?

–Vamos, pois!

E ambos sorriram.

Nos corredores do hospital, já o ouvi acrescentar à senhora grávida com que se cruzou na escada: «Que tenha uma boa hora!». «Obrigado!» – surge sempre, admirado, o sorriso!

Ou ao ancião que se protege da chuva: «Ela hoje não molha, amigo!». «Ai, molha, molha! É de molhar tolos!».

Parar diante da criancinha que chora, agarrada à mãe, e fazer-lhe uma fosquinha – e o choro passa! E a mãe sorri.

Na passadeira da rua, quando o carro pára, a fim de o deixar passar, apressa-se a correr, numa de, na brincadeira, ter medo de ser atropelado, sorridente, só para ver o sorriso do condutor! Melhor, se for da condutora! E agradece sempre.

Na caixa do supermercado, perscruta sub-repticiamente a etiqueta identificativa do funcionário e saúda-o pelo nome. Recebe o habitual sorriso admirado e as contas até correm melhor!…

Aos 70 e poucos anos, Faustino resiste a viver isolado.

2 COMENTÁRIOS

  1. ABRAÇO SOLIDÁRIO PARA O SENHOR “FAUSTINO”, COM SAÚDE E PAZ, NA COMPANHIA DA FAMÍLIA E DOS MUITOS AMIGOS QUE SABE CONQUISTAR NO SEU DIA-A-DIA
    POR MUITOS E BONS ANOS…

  2. Salvam-nos os Faustinos deste mundo, cordiais, simpáticos, dispostos a mudar a sisudez e o cinzentismo de alguns que nasceram azedos, de outros a quem a vida vai retirando o gosto de viver, como pedaço a pedaço de carne.
    Conheço e aprecio Faustinos tão crentes na divindade, que ao desejarem uma boa hora à futura mãe, estão certos de que a terá. Mas também conheço Faustinos que vão à Missa, comungam, mas não apreciam a vulnerabilidade de quem faz das tripas coração para agradecer, à sua maneira, as gentilezas que recebe.
    E no momento de demonstrarem solidariedade, que é isso que a sua fé lhes recomenda, usam as técnicas de silenciamento (dos) e votação ao ostracismo (aos) que ousaram discordar de alguma coisa.
    Adorei ler esta pequena crónica com tanto que se lhe diga e também desejo as maiores alegrias ao/s Sr/s Faustino/s que serviu, ou lhe serviram de modelo (à crónica, claro).
    Uma santa tarde para todos.
    Um abraço.

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