Ano a ano, quando era criança, no último dia de Maio, eu ia com meus pais, todos os anos, à romaria de Nosso Senhor dos Caminhos, que tinha a sua Capela nas Rãs, uma pequena povoação do concelho do Sátão a que se associam hoje as povoações de Romãs e Decermilo. Beira Alta plena.
Partíamos às seis horas, ainda manhã alta e sonolenta, na camioneta da carreira e, trinta quilómetros andados, estávamos nas Rãs. Descíamos agora a pé, meia hora a bom andar, até ao Santuário do Senhor dos Caminhos, levantado num chão com cercania de pinheiros, não longe do curso do rio Vouga, que tem nascente perto, a dois passos da Senhora da Lapa e que ali corre ainda devagar.
Havia já tendas armadas no lugar, ouvia-se o bru-á-á da gente em rodopio, romeiros que, de joelhos, davam voltas à capela e outros, como nós, entrando na capela, davam as três voltas rituais em redor do altar-mor, que isso permitia a arquitectura do lugar. Meu pai entregava umas moedas, por esmola, ao mordomo sentado numa mesa ali ao pé e trazia para casa o “registo” do Senhor dos Caminhos no seu altar, impresso em cor azul que minha mãe, ao chegar a casa, colava no frontal com massa de pão e ali ficava até à próxima romaria.
A procissão vinha da aldeia, Santo Lenho sob o pálio, a banda seguindo a tocar, foguetes no ar a estralejar, anjinhos no seu lento caminhar, um mar de gente e os andores com imagens que pareciam naturais e que contavam a caminhada de Cristo para o Calvário, imagens de uma cenografia exemplar a deslumbrar meus olhos de criança. Havia, depois, aquela longa cerimónia, a missa e o sermão, missa cantada com a banda a acompanhar. Gente apertada na capela. Incenso perfumando o ar. Ao findar da cerimónia, meio-dia já passado, voltava o alegre vozear da gente.


A gente sentava-se numa mesa de taberna improvisada. Cheirava bem, ao abrir-se uma bolsa de retalhos, onde vinha o galo assado, o salpicão, pastéis de bacalhau e as fritas que hoje chamamos rabanadas. Comprava-se ao vendeiro o vinho que (supostamente) era do Dão e os pães de trigo de quatro quartos, que, ainda hoje, comprados na Lapa, sabem bem.
Demorava-se a gente no terreiro. Encontravam-se por lá amigos certos com os quais os adultos se entretinham a falar. Armados numa vara, um homem circulava vendendo os eternos “moinhos de papel”, de cores vistosas, que nós chamávamos “ventoinhas” e que uma brisa leve fazia rodopiar. Em tendas pequeninas, que os mordomos deixavam armar em lugar já marcado por velha tradição, as doceiras vendiam confeitos e beijinhos, rebuçados, doce da Teixeira, cavacas e santinhas doces com imagem de papel.
E, quando a tarde caía, demorada, subíamos a ladeira por onde toda a gente vinha a pé e esperávamos, na estrada, a meio da aldeia, a paragem da camioneta que vinha de Viseu e nos levava.





