O TALISMÃ VOADOR

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adaptação de um cartoon de Hélder Dias

Houve quem dissesse que Luís Montenegro era um talismã da seleção nacional. Não deixa de ser uma ideia simpática, própria das páginas de desporto, mas agora há que reconhecer que não resultou.

O primeiro-ministro assistiu presencialmente a três jogos de Portugal no Mundial. Para lá e para cá, atravessou seis vezes o oceano Atlântico. A primeira viagem teve o carácter de visita oficial aos Estados Unidos. As outras já não. Foi como “adepto talismã”. A pergunta não é se um chefe de Governo pode assistir a um jogo da seleção. Pode. A pergunta é outra: precisava de assistir a três? E se Portugal tivesse passado, a quantos jogos Montenegro teria ido?

Governar um país não é acompanhar uma equipa em digressão. O primeiro-ministro não é o décimo segundo jogador, nem um amuleto institucional que tenha de ocupar um lugar na tribuna para que Portugal marque golos.

Cada uma destas viagens mobilizou inevitavelmente recursos públicos. Se foram utilizados voos comerciais, acompanhados por uma comitiva de segurança e assessoria, uma estimativa prudente aponta para um custo global entre 120 mil e 185 mil euros. Se, como é perfeitamente plausível, foi utilizado um avião da Força Aérea Portuguesa (solução mais compatível com a flexibilidade exigida à agenda de um chefe de Governo), o custo total poderá situar-se entre 300 mil e 500 mil euros. São estimativas, não números oficiais.

Dir-se-á que são valores irrelevantes perante um Orçamento do Estado de dezenas de milhares de milhões de euros. Talvez. Mas a ética na gestão do dinheiro público nunca começou pelos grandes números. Começa pelos pequenos gestos e pelo exemplo de quem governa.

Se Montenegro é realmente um talismã, talvez valha a pena levá-lo também para as listas de espera do SNS, para os atrasos na Justiça ou para as crises da habitação. Aí, o país agradecer-lhe-ia muito mais a presença do que numa bancada de um Mundial.

Um primeiro-ministro pode gostar de futebol. O que não deve fazer é dar a ideia de que confunde representação institucional com lugar cativo na tribuna.

cartoon original de Hélder Dias

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