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TRUMP FALOU DE INTERFERÊNCIAS DA CHINA E DA RÚSSIA NAS ELEIÇÕES AMERICANAS

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grafismo e montagem fotográfica

As palavras importam. Entre uma campanha de propaganda nas redes sociais e a adulteração de votos existe um abismo. Chamar ‘interferência’ às duas coisas sem as distinguir pode ser uma forma de confundir os cidadãos e de os preparar para aceitar mudanças profundas nas regras do jogo eleitoral.

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Antes de tudo, talvez convenha colocar a questão da forma mais simples possível. Trump anunciou documentos que, segundo afirma, provarão interferências da China, da Rússia e do Irão nas eleições americanas. Mas a primeira pergunta não é se esses documentos existem. A primeira pergunta é outra: de que interferência está Trump a falar? Porque “interferência” pode significar muitas coisas.

Quando ouvimos o Presidente dos Estados Unidos afirmar que potências estrangeiras interferiram nas eleições, é natural imaginar o pior: urnas adulteradas, votos alterados, máquinas eletrónicas manipuladas, resultados falsificados. Seria um atentado direto à democracia.

Mas será disso que se trata? Até hoje, não foram apresentadas provas públicas de que qualquer potência estrangeira tenha alterado a contagem de votos numa eleição presidencial norte-americana. Nem a Rússia, nem a China, nem o Irão. Nem ninguém.

O que as agências de informação americanas têm descrito ao longo dos últimos anos é algo diferente: campanhas de influência. Contas falsas nas redes sociais, bots, publicidade dirigida, desinformação, divulgação de documentos obtidos por meios ilícitos, amplificação de temas que dividem a sociedade americana. Em suma, tentativas de influenciar a opinião pública. É uma diferença fundamental, até porque não será preciso vir um chinês para fazer esse tipo de ações políticas. Influenciar um eleitor não é o mesmo que manipular o seu voto.

Caso contrário, seria necessário concluir que todos os dias há interferências nas eleições americanas: pela Fox News, pela CNN, pelos grandes grupos económicos, pelas plataformas digitais, pelos sindicatos, pelas igrejas, pelas universidades, pelos milionários que financiam campanhas eleitorais e pelos próprios partidos políticos.

E há uma ironia difícil de ignorar. Os Estados Unidos acusam frequentemente outros países de procurarem moldar a opinião pública americana. Ao mesmo tempo, Washington investe há décadas milhões de dólares em programas de “promoção da democracia”, apoio a meios de comunicação, organizações não-governamentais, fundações e projetos políticos espalhados pelo mundo. Uns chamar-lhe-ão diplomacia. Outros chamar-lhe-ão influência política. Em muitos países, chamar-lhe-ão ingerência.

É por isso que os documentos prometidos por Trump terão de ser lidos com extremo cuidado. Se neles estiver escrito que a China desenvolveu campanhas de influência nas redes sociais, isso não equivale a dizer que a China alterou o resultado das eleições. Se neles constarem operações de propaganda atribuídas à Rússia, isso não significa que a Rússia tenha manipulado urnas ou contado votos.

Antes de aceitar conclusões bombásticas, talvez valha a pena exigir respostas a perguntas muito simples: quem ordenou esta investigação? Que tipo de interferência procurava? Que metodologia foi utilizada? E, sobretudo, estamos perante provas de fraude eleitoral ou apenas perante evidências de operações de influência, algo que, em maior ou menor escala, faz hoje parte da disputa geopolítica entre as grandes potências?

Tudo isto pode ser um mero jogo de palavras. Neste tipo de política, a verdade pouco importa.

HOMENS SÃO 94% DA POPULAÇÃO RECLUSA

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O rosto masculino da agressão revela-se de forma gritante nas estatísticas: os homens dominam as tabelas do abismo, representando 94% da população reclusa e concentrando os mais alarmantes índices de violência. Perante este cenário, impõe-se uma conclusão inadiável: precisamos de uma mudança de paradigma. Não se trata de substituir o masculino (androgénico) pelo feminino, mas de transcender a lógica vigente, rumo a um novo modelo, feminino-masculino, que reconheça a complementaridade como alicerce do desenvolvimento humano e social.

A coexistência harmoniosa entre a feminilidade e a masculinidade, tanto nos homens como nas mulheres e na própria organização da sociedade, é hoje inviabilizada por uma matriz profundamente enraizada que molda o nosso pensamento e a nossa existência. Esta matriz, de feição exclusivamente masculina, confinou o elemento feminino aos domínios do natural e do religioso, despojando-o do seu legítimo lugar na esfera pública e intelectual. Paralelamente, ao impor uma mentalidade materialista e práticas orientadas unicamente para o progresso funcional, a eficiência e o lucro, esta estrutura reprime a dimensão espiritual e emocional do ser humano.

As mulheres, para ocuparem espaços de decisão, são muitas vezes coagidas a atuar contra o seu próprio princípio feminino, integrando-se apenas ao nível do funcionamento mecânico da sociedade, um mecanismo cujo leme permanece firmemente nas mãos do masculino. O homem age, assim, quase exclusivamente sobre os sintomas da desumanização, mas nunca sobre as causas profundas que alimentam a brutalidade, a beligerância e a indiferença perante o sofrimento.

Como documenta Boris von Hessen na sua obra “O que os homens custam”, os homens são responsáveis pelo dobro dos acidentes rodoviários, pela maioria esmagadora dos crimes e por 94% da população prisional. São eles os protagonistas de 75% das mortes relacionadas com o álcool e de mais de 80% dos casos de violência doméstica. Para além do sofrimento humano incalculável, estes dados traduzem-se em custos sociais astronómicos. Estamos perante uma realidade que clama por uma reflexão radical.

Face a esta realidade sombria e à aptidão bélica de uma sociedade que privilegia uma cultura de guerra em detrimento de uma cultura de paz, impõe-se uma pergunta incómoda e urgente: o que é que correu mal connosco, homens? Porque razão nos agarramos, com tamanha obstinação, a esta matriz masculina, sem a questionar, e nos apegamos a papéis que sistematicamente recompensam a dureza, a dominância e a exagerada propensão para o risco? Se não rompermos com este padrão arcaico, todas as estratégias de prevenção e as reformas institucionais se tornarão letra morta, servindo apenas para paliar os estragos ou, pior ainda, para consolidar e perpetuar a própria matriz que gera o problema.

(crónica adaptada do original publicado em Pegadas do Tempo)

AS FOTOGRAFIAS QUE CONTINUAM SEM RESPOSTA

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Donald Trump foi condenado por um tribunal norte-americano a indemnizar Jean Carroll em cerca de cinco milhões de dólares por abuso sexual e difamação. Não se trata de um rumor das redes sociais nem de uma acusação política. Trata-se de uma decisão judicial.

Esse facto não prova que Trump tenha cometido outros abusos. Mas transporta a certeza de que qualquer suspeita nesta matéria não deve ser afastada.

É por isso que continuam a suscitar inquietação as fotografias antigas em que Trump surge ao lado de Jeffrey Epstein rodeado por jovens cuja aparência é marcadamente juvenil. Essas imagens circulam há anos, foram reproduzidas milhares de vezes e acabaram por perder, em muitos casos, a sua origem documental.

Legalmente, uma fotografia não demonstra um crime. Mesmo que seja autêntica, prova apenas que determinadas pessoas estiveram juntas num determinado lugar e num determinado momento. Para sustentar uma acusação seriam necessários outros elementos: a identificação das pessoas retratadas, a confirmação da idade que tinham, testemunhos, documentos ou outros meios de prova.

Mas também seria intelectualmente desonesto fingir que essas fotografias nada significam. Constituem, no mínimo, um motivo legítimo para fazer perguntas. Quem eram aquelas jovens? Que idade tinham? Quem tirou as fotografias? Em que circunstâncias? Porque nunca foram plenamente contextualizadas?

publicado em AS FARRAS DE TRUMP

Não sabemos responder a essas perguntas. Também não sabemos, apenas olhando para as imagens, se aquelas jovens eram menores de idade. Sabemos apenas aquilo que qualquer pessoa vê: parecem crianças.

E enquanto ninguém responder às perguntas essenciais, continuará a existir uma diferença entre aquilo que um tribunal pode dar como provado e aquilo que a opinião pública considera profundamente perturbador.

VISÃO PERISCÓPICA DO ESTADO

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Aqui está o relatório do periscópio sobre a anatomia subaquática do Leviatã Lusitano.

Setor Norte: O Convés de Comando (A Visão Macroeconómica)

  • O Periscópio deteta: Uma elite política que confunde “governar” com “gerir fundos europeus”.
  • O Alvo: Bruxelas é o farol. O Estado português funciona como um intermediário que recebe fundos comunitários em formato digital e os converte em rotundas, relatórios de consultoria e promessas eleitorais.
  • A Ilusão de Ótica: Os gráficos oficiais sobem sempre. O PIB cresce, o turismo bate recordes, mas a frota de barcos salva-vidas (o povo) continua a meter água pela proa.

Setor Este: A Sala das Máquinas (A Burocracia Profunda)

  • O Periscópio deteta: Uma rede impenetrável de institutos, direções-gerais, observatórios e secretarias de Estado criadas para observar problemas em vez de os resolver.
  • O Peso Efetivo: O Estado é o maior empregador do país, o que cria um paradoxo. Metade da população trabalha para pagar o salário da outra metade que está ocupada a emitir as licenças que impedem a primeira metade de produzir riqueza.
  • O Radar da Eficiência: Um sistema de agendamento prévio que exige que prevejas a tua necessidade de renovar o Cartão de Cidadão com seis meses de antecedência.

Setor Sul: A Linha de Flutuação (A Carga Fiscal e o Povo)

  • O Periscópio deteta: O cidadão comum a fazer apneia fiscal prolongada.
  • A Dinâmica de Captura: O Estado português tem olhos de lince para cobrar e braços de preguiça para devolver. Se deves 10€ às Finanças, és caçado por um algoritmo de inteligência artificial de última geração. Se o Estado te deve 1000€, o processo entra num arquivo físico guardado por um funcionário que está de baixa médica.
  • O Lastro: O peso do Estado converteu o ordenado médio num mito urbano. O salário bruto entra na conta bancária como um herói e sai como um sobrevivente após os descontos para a Segurança Social e IRS.

 Setor Oeste: O Horizonte dos Serviços (O Naufrágio Social)

  • O Periscópio deteta: Infraestruturas públicas que funcionam com base no voluntarismo e na boa vontade de quem lá trabalha.
  • A Saúde: Hospitais onde a triagem de Manchester devia ter uma cor nova (o cinzento-esperança) para quem vai passar a noite nas cadeiras de plástico.
  • A Justiça: Um submarino pesado que se move tão devagar no fundo do mar que, quando dita uma sentença, o crime já prescreveu, o réu já faleceu e o advogado já se reformou.

BILHETES DOURADOS

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O futebol construiu a sua dimensão global precisamente por ser um desporto popular, jogado e vivido pelas classes trabalhadoras. No entanto, os jogos mais emblemáticos são hoje comercializados como produtos premium, com preços semelhantes aos de experiências de luxo.

Quando o bilhete mais barato para a final do Mundial custa cinco ou seis mil euros, e os melhores lugares ultrapassam largamente esse valor, as ofertas para se ir à bola deixam de ser gestos de cortesia.

Há poucos dias, o Duas Linhas questionou os custos das deslocações do primeiro-ministro aos três jogos da seleção portuguesa no Mundial. A questão mantém-se. Quem pagou os bilhetes?

Se foram adquiridos pelo Estado, os cidadãos têm o direito de conhecer a despesa. Se foram oferecidos, importa saber por quem e a que título. Porque, afinal, estamos a falar de ofertas de milhares de euros.

publicado em O TALISMÃ VOADOR

A discussão não diz respeito apenas a Luís Montenegro. Vale para qualquer governante, autarca, deputado ou dirigente público. Não podemos aceitar como normal que um político receba bilhetes que custam vários milhares de euros.

A que título o Estado permite que os seus representantes aceitem benefícios desta ordem de valor? Creio que os políticos que se sentam na Assembleia da República deveriam trabalhar no sentido de regular este tráfico. No fundo, se a representação nacional for considerada essencial em determinados jogos de futebol, o Estado tem a obrigação de pagar essa despesa e não aceitar ofertas de milhares de euros.

Acaba de ser criado um novo ditador popular: não há bilhetes grátis para ir à bola.

A SOLIDÃO INFINITA

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A coisa passou-se assim: Franz Xaver Kappus escrevinhava uns versos e decidiu enviar alguns ao consagrado poeta Rainer Maria Rilke. Foi o início de uma troca de correspondência que, 20 anos depois, foi transformada neste livro.

Pelo que se depreende da leitura, o poeta Rilke não gostava de enganar ninguém. Logo na primeira carta, desencoraja o jovem poeta, recusa avaliar os poemas enviados, e escreveu isto: “não me pergunte se os seus versos são bons; pergunte antes se conseguiria viver sem os escrever. Se a resposta for sim, então não deve ser poeta. Se for não, então deve organizar toda a sua vida em torno dessa necessidade interior.”

A segunda carta aprofunda essa ideia. Diz Rilke que à excepção da Bíblia e da poesia de Jens Peter Jacobsen, os livros de outros autores podem ser interessantes, mas não fundamentais.

Há um aparente paradoxo nesta história, se por um lado Rilke parece desencorajar o jovem, por outro está a tentar salvá-lo de uma motivação errada. Não lhe diz “não escreva”. Diz-lhe: só escreva se escrever for tão inevitável como respirar.

O resultado foi que Franz Xaver Kappus nunca se dedicou à poesia. Acabou por seguir a carreira militar e publicou estas cartas apenas depois da morte de Rilke. É interessante notar que Kappus optou por não publicar as suas próprias cartas. Apenas conhecemos as perguntas e inquietações que dirigiu a Rilke através das respostas deste. Isso faz com que o livro tenha uma estrutura muito particular: lemos apenas metade da conversa, mas a outra metade é suficientemente sugerida para percebermos o diálogo.

Sem Kappus nunca conheceríamos estas cartas. Consciente do seu valor preservou-as durante mais de duas décadas. Acabou por desempenhar um papel decisivo na história da literatura, embora permaneça quase invisível na obra que tornou célebre.

Há uma ideia de que não gosto, mas que considero muito forte, quando Rilke afirma que as obras de arte “são de uma solidão infinita”. É demasiada angústia, demasiado sofrimento, e creio que não precisa de ser assim. O criador pode ser uma pessoa feliz.

MIGUEL MORGADO E A TENTAÇÃO DE JULGAR À DISTÂNCIA

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Há questões legítimas a discutir: a legalidade da prisão preventiva, a competência do Tribunal Militar para julgar um civil, o respeito pelos direitos de defesa, o acesso a advogados, familiares e assistência médica. Se esses direitos estiverem a ser violados, as autoridades guineenses têm o dever de corrigir a situação e de prestar esclarecimentos.

Mas existe uma diferença entre denúncias da defesa e da família e factos comprovados. Um comentador não deve apresentar como certezas acusações que ainda carecem de verificação independente, nem substituir-se aos tribunais na apreciação da legalidade do processo.

Também o percurso académico e político de Domingos Simões Pereira não constitui prova da sua inocência. Num Estado de Direito, ninguém deve ser perseguido por razões políticas, mas também ninguém deve estar acima da lei por ter exercido altas funções ou beneficiar de prestígio internacional.

Particularmente discutível foi a ideia de que Domingos Simões Pereira representa “a única esperança” da Guiné-Bissau. Nenhuma democracia saudável depende de um homem providencial, e nenhum comentador estrangeiro pode escolher quem encarna o futuro de um povo soberano.

Igualmente problemática foi a defesa de uma intervenção das autoridades portuguesas sobre um processo judicial interno. Portugal pode acompanhar a situação e defender o respeito pelos direitos humanos, mas a Guiné-Bissau é um Estado soberano. A cooperação internacional não deve transformar-se numa relação paternalista em que Lisboa surge como tutora de uma antiga colónia.

A posição responsável é outra: exigir um processo justo, respeito integral pelas garantias constitucionais e transparência das autoridades, sem transformar suspeitos em culpados nem arguidos em intocáveis. Defender o Estado de Direito significa proteger os direitos fundamentais, mas também respeitar a independência dos tribunais e evitar que a convicção política substitua a prova.

O DISCURSO DE PAULO RANGEL MUDOU. A DIPLOMACIA RARAMENTE MUDA POR ACASO.

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Há poucas semanas, o chefe da diplomacia portuguesa colocava a tónica na necessidade de restaurar a normalidade democrática, defendia novas eleições e enquadrava a posição portuguesa nas decisões da CPLP, da CEDEAO e da União Africana. O discurso era essencialmente jurídico e institucional, assente na defesa da ordem constitucional.

Hoje, porém, sem renunciar a esses princípios, Paulo Rangel afirma algo politicamente muito significativo: “A Guiné-Bissau faz parte do ADN da CPLP.” Esta frase não é um simples exercício de cortesia diplomática.

É o reconhecimento de uma evidência histórica e política: não existe CPLP sem a Guiné-Bissau. O país participou na fundação da organização, desempenhou um papel determinante na afirmação do espaço lusófono e continua a ser uma referência incontornável da história comum dos povos de língua portuguesa.

Mais importante ainda, o ministro acrescenta que todos os Estados-membros desejam ultrapassar rapidamente a atual situação. Esta mensagem revela que a preocupação deixou de ser apenas a aplicação de sanções ou a reafirmação de princípios. Passou também a ser a procura de uma solução política que permita restabelecer a normalidade das relações entre a Guiné-Bissau e a CPLP.

Isto demonstra que a diplomacia portuguesa entrou numa nova fase. Os princípios permanecem os mesmos, mas o método evoluiu. Portugal percebe que um isolamento prolongado dificilmente contribuirá para estabilizar a Guiné-Bissau. Pelo contrário, o diálogo, a cooperação e a reaproximação institucional podem criar melhores condições para que o país reencontre um quadro de normalidade política.

Também merece destaque outro aspeto: Paulo Rangel passou a enfatizar o respeito pela soberania do povo guineense. Esta referência afasta qualquer ideia de soluções impostas do exterior e aproxima Portugal de uma lógica de facilitação diplomática, em vez de uma postura predominantemente sancionatória.

Naturalmente, esta mudança de tom não significa que Portugal tenha reconhecido automaticamente todas as opções políticas das atuais autoridades de transição. Também não significa que tenham desaparecido as reservas relativamente ao processo político guineense. Significa, isso sim, que Lisboa parece reconhecer uma realidade incontornável: nenhuma solução será duradoura sem diálogo, sem inclusão e sem um entendimento progressivo entre a Guiné-Bissau e os seus parceiros internacionais.

A diplomacia vive de sinais. E quando um ministro afirma que um país suspenso faz parte do “ADN” da organização que o suspendeu, está a enviar um sinal político muito claro: existe vontade de reconstruir pontes.

Cabe agora às autoridades guineenses corresponder a esse sinal, criando condições que reforcem a confiança internacional, consolidem as instituições e permitam que a Guiné-Bissau volte a ocupar plenamente o lugar que historicamente lhe pertence na CPLP. Em política externa, tão importante como ter razão é saber criar as condições para transformar essa razão em entendimento.

ARQUEÓLOGO DE CASCAIS

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A Câmara Municipal de Cascais atribuiu o nome do arqueólogo Guilherme Cardoso a uma rotunda na Amoreira, assinalando um percurso de várias décadas dedicado ao estudo do património arqueológico do concelho. A cerimónia decorreu a 10 de julho, numa iniciativa conjunta da Câmara e da Junta de Freguesia de Alcabideche.

Guilherme Cardoso desenvolve trabalho de investigação em Cascais desde o início da década de 1970. Participou na identificação, estudo e valorização de alguns dos mais importantes sítios arqueológicos da região, como a villa romana de Freiria, a villa romana de Outeiro de Polima e o sítio arqueológico de Miroiço, em colaboração com outros investigadores, entre eles José d’Encarnação. A sua produção científica ajudou a consolidar o conhecimento sobre a ocupação humana do território de Cascais ao longo de vários milénios.

A atribuição do seu nome a uma rotunda não acrescenta nada ao trabalho já realizado. Mas fixa no espaço público o nome de alguém cujo contributo consistiu precisamente em revelar e preservar a memória de muitos outros que viveram estas terras muito antes de nós.

O Calvário das Três Assinaturas (Cartão de Cidadão)

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Ao Cuidado do Conselho de Sábios Analógicos da ARTE (Agência para a Reforma Tecnológica do Estado, I.P.)

Ao Excelentíssimo Senhor Presidente do Conselho Diretivo, Engenheiro Manuel Dias. À Vogal das Linhas Tortas, Mónica Letra, ao Vogal do Bloqueio Permanente, João Roque Fernandes

Exmos. Senhores,

É com o dedo indicador esquerdo a tremer de indignação – uma vez que o direito foi sacrificado no altar da vossa transição digital – que a recém-eleita direção do F.O.D.A.S.E.(Federação de Organizações de Demagogia e Alianças Secretas Eleitorais), toma a palavra. Acabámos de receber o vosso pedido de “averiguação forense”, onde solicitam o número de telefone que originou a chamada para a vossa linha de apoio (21 048 9010).

A vossa capacidade de transformar um problema técnico num mistério digno de Agatha Christie é, de facto, assinalável. Pedem o número de telemóvel para investigar por que razão um cidadão tem de assinar três vezes o mesmo documento? Se o vosso sistema informático exige um código por página, não precisam de um detetive privado; precisam de um programador que não tenha aprendido a codificar numa máquina de calcular de 1982.

Como o meu telemóvel original explodiu devido à radiação térmica de tanto receber SMS de validação, deixo-vos o contacto alternativo da sede do F.O.D.A.S.E. No entanto, alerto-vos: a nossa linha só atende se digitarem o código PIN ao ritmo do hino nacional.

O Triunfo do Masoquismo Estatal

A liderança de António Cadabulho assume-se profundamente fascinada pelo vosso trabalho. O Engenheiro Manuel Dias, com o seu passado na Microsoft, conseguiu o impensável: injetar o conceito de “Ecrã Azul da Morte” diretamente no sistema nervoso dos portugueses.

O vosso fluxo de trabalho digital superou a genialidade de Franz Kafka. Dividir a assinatura de um relatório de três páginas num sofrimento em três atos é puro sadismo burocrático:

  • Ato I (A Ilusão): O cidadão digita o PIN da Chave Móvel Digital. Espera pelo SMS. O código chega. A primeira página está assinada. Há um brinde mental à modernização do país.
  • Ato II (O Castigo): O sistema apaga o sorriso da cara do utilizador. Avança para a página dois e exige… tudo de novo. Novo PIN. Novo SMS. O suor frio começa a descer pela espinha.
  • Ato III (O Colapso): Terceira página. Terceiro SMS. O cidadão já não usa os dedos; bate com a testa no teclado, chora copiosamente e pede perdão por crimes que não cometeu.

O Novo Plano Estratégico proposto pelo F.O.D.A.S.E.

Como a ARTE parece empenhada em fazer o país regressar ao ano de 1995 com internet discada, António Cadabulho propõe formalmente a fusão da vossa agência com o F.O.D.A.S.E. Para o próximo plano de desmaterialização, sugerimos a implementação imediata das seguintes medidas:

  1. Autenticação por Espirro: Para assinar a página quatro, o utilizador deve gravar um áudio a espirrar três vezes para provar que está vivo.
  2. O Selo Branco Digital: Após a introdução do quinto SMS de validação, o cidadão deve lamber o ecrã do computador para selar o documento com ADN.
  3. Burocracia Circular: Um sistema revolucionário onde, após assinar digitalmente, o utilizador recebe um e-mail a ordenar que imprima o PDF, o assine à mão, o digitalize e o envie por telebip.

Parabéns à Troika da Ineficiência: Manuel Dias, Mónica Letra e João Roque Fernandes. Os senhores conseguiram provar que, em Portugal, a fibra ótica serve perfeitamente para nos enforcar em alta definição.

Com os meus mais sinceros votos de que o vosso servidor mude de PIN a cada cinco segundos,

António Cadabulho

Presidente do F.O.D.A.S.E. (Federação de Organizações de Demagogia e Alianças Secretas Eleitorais)

Para os que preferem ver bonecos: