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REVELAÇÕES & OUTRAS MERDAS

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Nicolau Maquiavel , Jean-Jacques Rousseau e Michel Foucault . Composição gráfica.

Porque a Sua Abnegação é uma Ratoeira

Tentar abnegar o sistema político atual é um exercício de uma ingenuidade comovente. O leitor acredita piamente que, ao cruzar os braços e recusar o jogo, está a ser um rebelde original. Na verdade, está apenas a cumprir, à risca, o guião escrito por três fantasmas que gerem a sua existência.

1. A Gargalhada de Maquiavel: A Abnegação como Submissão Voluntária

O velho Nicolau Maquiavel observa a sua “plena diferença” e sorri com um cinismo paternalista. Para o Príncipe moderno, o cidadão abnegado é o maior milagre administrativo de sempre. Ao retirar-se da ágora por uma questão de pureza moral, o leitor não está a boicotar o poder; está a limpá-lo de obstáculos.

  • A lição maquiavélica: O poder detesta o vácuo. Se o leitor abdica do seu espaço por “nojo” do sistema, a única consequência real é que o seu vizinho menos escrupuloso passa a governar a sua vida. A sua abnegação não é um protesto; é uma rendição disfarçada de superioridade intelectual. O Príncipe agradece o seu silêncio oportuno.

2. A Ratoeira de Rousseau: O Contrato que Nunca Assinou, Mas Paga

O leitor pergunta: “Como poderei fazer parte dum sistema se o abnego veemente?” Jean-Jacques Rousseau responde-lhe com a cláusula mais leonina da história da humanidade: o Contrato Social. O leitor nunca assinou este contrato, não leu as letras miúdas, mas nasceu carimbado por ele.

  • A lição rousseauísta: Segundo Rousseau, para ser livre, o indivíduo deve alienar-se totalmente a favor da comunidade (a “Vontade Geral”). Se o leitor tenta ser “totalmente diferente”, o sistema considera-o um erro de digitação social. A democracia rousseauísta tem um requinte satírico: ela obriga-o a ser livre nos termos dela. Se recusar ser livre dentro do rebanho, será “forçado a ser livre” através da exclusão, do ostracismo ou do manicómio. A sua vontade individual é um luxo que a Vontade Geral consome ao pequeno-almoço.

3. A Jaula de Foucault: A Biopolítica do Corpo Abnegado

Aqui reside o golpe de misericórdia na sua revolta. Michel Foucault entra na sala para lhe explicar que a sua “abnegação” chega atrasada: o sistema já se apropriou de si antes mesmo de o leitor aprender a dizer “não”.

  • A lição foucaultiana: O leitor acha que o poder é um político num palácio. Foucault ri-se. O poder é a clínica que o registou ao nascer, a escola que moldou a sua postura, o hospital que vigia a sua saúde e o algoritmo que prevê a sua depressão. A sua “abnegação” ocorre dentro de uma linguagem e de um corpo que o próprio Estado produziu. Mesmo quando o leitor se isola na sua total interdição, está a usar os conceitos de “liberdade” e “diferença” que o próprio poder normalizou. O leitor não está fora do sistema; o leitor é a parede da ala psiquiátrica do sistema.

A Resposta à Pergunta Proibida

Qual é a alternativa para o atual sistema político?

A alternativa, vista pelos olhos deste trio, é de um niilismo sublime. Não há alternativa externa, porque não há “fora”. A única alternativa é aceitar a esquizofrenia política:

Viver como um Príncipe Sem Trono (Maquiavel), que finge obedecer ao Contrato Sagrado (Rousseau), enquanto sabota subtilmente as Métricas dos Corpos (Foucault). É a resistência não através do isolamento, mas através da ironia absoluta: cumprir todas as regras de forma tão literal e robótica que o próprio sistema acabe por entrar em curto-circuito por excesso de zelo.

FALTA DE AR

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Não posso crer. A Oxigénio deixou de dar-me música para respirar. O botão do play fica ali a rodar a rodar, mas a música não arranca. Nem um pio. Apenas o irritante barulho da vida lá fora.

Envio uma mensagem ao Paulo, tranquilamente diz-me que a ouve “na boa”, irrita-me a tranquilidade da escrita. Ainda acrescenta que o Benfica está a ganhar, como nesse momento isso me servisse de consolo. Além de já saber que o Benfica ganha sempre, desde que eu não assista ao jogo. Ele mora na Amadora eu em Lisboa, portanto o problema é local. Óbvio!

A rádio vive em comunhão comigo, é exclusiva, não precisa de cama, comida ou roupa lavada. É minha companhia diária. É perfeita. Fui à procura de uma solução chamada João e o seu o rol de hipóteses técnicas.
Here we go! Vai a definições, som, saída, desliga e liga a coluna Bluetooth, liga e desliga o Mac, qual é o modelo da coluna, qual o modelo do Mac, a versão do MacOS, abre outro navegador, fecha o navegador. Abre uma janela privada. Talvez o navegador esteja a bloquear a reprodução automática, ou então a rádio utiliza um formato de streaming AAC ou HLS que está a falhar no navegador, ou ainda há um problema específico do navegador, o Safari pode ocasionalmente ter este comportamento com alguns streams!

João, deixa-me enrolar um cigarro, isto é um stress. Nunca aconteceu antes… Primeira vez? Ok, espera. Experimenta abrir a rádio no teu telemóvel. Usa o WiFi. Nada? E com os dados móveis? Nada também? E, vamos tentar perceber outra coisa: abre a Radar no Mac e no telemóvel, são ambas rádios do mesmo grupo económico. Não dá também? Voilá!!! O problema não está no teu equipamento, está no streaming das rádios. Se a rádio toca na Amadora, não toca em nenhum dos teus dispositivos, a solução paira no ar! Envia já um email a explicar tudinho.

Ok, João vou enviar já. Mais uma vez obrigada pela persistência. Um beijo grande. Dois. Queres vir cá jantar amanhã? Ok, desta vez para outra caldeirada, vale?

Olho de novo para o site com o botão irritante a rodar e nenhum som. Preciso tanto da Oxigénio para respirar, tanto. Acendo outro cigarro e vou digerindo a aventura.
Às vezes não vale de nada reiniciar a vida, às vezes não somos nós que temos de nos formatar, a resolução está lá fora. Às vezes focamo-nos tanto nos nossos defeitos, limitações, nas dúvidas, nos receios, no nosso umbigo, que não percebemos que a solução está mesmo à frente nariz.

Abro o site da RTP, quero ver o que se passou no mundo enquanto nada se passou nada por aqui. Trump, Irão, exames nacionais, Venezuela… está tudo na mesma.
Volto, por mera teimosia, ao site da Oxigénio. Envio um sms: João Voltou!
Levanto o volume. Levanto a atitude. Já não me falta ar

OS ROMANOS EM CASCAIS

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A história de Cascais conta com um novo e valioso capítulo. Os conceituados arqueólogos Guilherme Cardoso e José d’Encarnação lançaram o livro “A Presença Romana em Cascais: Um Território da Lusitânia Ocidental”. Editada pela Associação Cultural de Cascais, a obra sintetiza mais de 20 anos de rigorosa investigação arqueológica sobre o concelho.

A sessão de lançamento decorreu no Casal Saloio de Outeiro de Polima (Centro de Interpretação do Espaço Rural de Cascais). O evento reuniu amigos, admiradores e estudiosos, servindo também de palco para celebrar o Dia Internacional da Arqueologia.

Esta publicação reveste-se de um duplo significado. Por um lado, celebra os 50 anos de atividade da Associação Cultural de Cascais em prol do património local. Por outro, reforça o compromisso contínuo dos autores com a partilha do conhecimento, um trabalho de proximidade que ambos mantêm também no espaço de opinião Duas Linhas, onde José d’Encarnação assume uma presença proeminente e de referência.

Mais do que um registo científico, este livro é um património de todos os cascalenses, essencial para compreender a identidade e as raízes do território.

POESIA DE COMBATE

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INFAUSTO SERVIL

Tu, o infausto servil,
essa carcaça oca que deambula e não habita,
tu, que te dizes presente mas não és:
Sabe que nenhum Deus reclamará a tua sombra.
Não há altar para o que nunca teve substância,
nem redenção para o escravo que ama as suas correntes.

Serás, vezes sem conta,
uma abstração moldada pelo medo,
um rasto de pó numa engrenagem cega.
Pouco importa o teu grito ou o teu silêncio,
pois ergueste o teu templo sobre certezas que não tens.
O teu fôlego é um mentir de ti mesmo,
uma máscara colada ao vazio,
um inventário de tudo o que não és.

Olha para as tuas mãos:
estão sujas de tempo e de submissão.
Se queres a vida, ama o Mundo na sua fúria e no seu cansaço,
ama-o como quem aceita o naufrágio, sem esperança de porto.
E humilha-te, enfim.
Não a humildade dos fracos, mas a dos lúcidos,
a daqueles que sabem que o “Eu” é a maior das mentiras.

Acende a candeia com o óleo do teu próprio desengano.
Ilumina-te de uma luz que queime, que desfaça o acessório,
até que reste apenas o osso, o frio e o rigor.
Só na mais solene e cruel convicção da tua insignificância
poderá brotar, talvez, uma libertação.

Não esperes misericórdia nem retorno.
A existência é o sentido único da lâmina:
uma verdade que se corta em tudo o que se vive.
O resto é o servilismo dos mortos que esqueceram de deitar-se.

O Cântico da Escudela Universal: Da Fome à Unidade

Em tempos se construíram cidades e vilas de pedra e ego,
Onde o pobre vive de escudela na mão, em perpétuo rogo.
O rico, arquiteto de espelhos, do suor alheio se alimenta,
Enquanto a cidade, em seu brilho, a própria miséria sustenta.
Ó Povos destroçados, que nas margens medonhas caminhais,
Por que buscais em Deuses esquecidos a paz que vós mesmos negais?

Vós, que escreveis a proemial história com mãos calejadas,
Aventais motivos vãos e seitas em rotas estilhaçadas.
Navegais em rios estreitos, temendo a imensidão do mar,
E destronais os sonhos sentidos antes mesmo de os ousar.
A escudela que carregais não é apenas o fardo da fome,
É o símbolo de uma Humanidade que esqueceu o seu próprio nome.

Por que não ser Único? Por que a vergonha sorri sem coragem,
Enquanto evocais destrezas que são apenas miragem?
O pobre guarda o seu aforro e um cantar que é terno e profundo,
Mas o povo, em seitas dividido, permanece órfão do mundo.
Sibilai o longo caminho, mas não como quem vai vencido,
Pois quem vive na separação, morre sem nunca ter vivido.

Oh rico Povo, de alma imensa e voz de séculos unida,
Que a vossa grata voz desperte para a profecia da vida!
Que a escudela se torne o cálice de um sentido afável e novo,
Onde não haja mais rico ou pobre, mas apenas um único Povo.
Uni-vos nos novos caminhos, para além do medo e do olvido,
Pois só na Humanidade inteira o destino será cumprido.

O CAPITAL HUMANO ESQUECIDO

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Vivemos numa época em que o conhecimento é apresentado como o recurso mais valioso para o desenvolvimento económico, científico e social. Fala-se da economia do conhecimento, da inovação e do talento como os motores do futuro. Contudo, quando milhões de pessoas atingem a idade da maior maturidade intelectual e profissional, deixam de ser vistas como um ativo e passam a ser tratadas como um custo.
É um paradoxo difícil de compreender.

Uma sociedade investe durante décadas na formação dos seus cidadãos. Acompanha-os desde a escola até à universidade, promove especializações, incentiva a aprendizagem ao longo da vida e beneficia da experiência que cada profissão vai acumulando. Mas, precisamente quando esse património humano atinge o seu ponto mais elevado de conhecimento, muitas dessas pessoas são empurradas para a margem.
Não porque perderam competência.
Não porque deixaram de pensar.
Não porque deixaram de criar.
Apenas porque envelheceram.

Este é um dos maiores desperdícios do nosso tempo.
O verdadeiro capital de uma sociedade não está apenas nas infraestruturas, na tecnologia ou nos recursos financeiros. Está, acima de tudo, nas pessoas. E entre essas pessoas encontram-se milhares de homens e mulheres que acumularam décadas de experiência, de capacidade de decisão, de memória institucional, de sentido crítico e de sabedoria prática.
Ignorar esse património é desperdiçar riqueza.

As sociedades mais inteligentes serão aquelas que souberem criar novas formas de participação para quem continua a querer contribuir. Não se trata de impedir reformas nem de obrigar ninguém a trabalhar para além da sua vontade. Trata-se de abrir portas a quem deseja continuar a ensinar, a orientar, a inovar, a aconselhar ou simplesmente a colocar a sua experiência ao serviço da comunidade.
A longevidade alterou profundamente a condição humana. Hoje, muitas pessoas chegam aos setenta ou oitenta anos com saúde, lucidez e uma enorme capacidade de intervenção. Persistir em modelos sociais construídos para uma realidade demográfica do século passado significa desperdiçar um dos maiores recursos do século XXI.

O futuro não depende apenas da energia dos mais jovens. Depende também da inteligência coletiva que nasce quando a juventude e a experiência trabalham lado a lado.
Precisamos de abandonar a ideia de que a idade marca o fim da utilidade social. Pelo contrário, pode representar o início de uma nova forma de participação, menos condicionada pela carreira e mais orientada para a transmissão de conhecimento, para a mentoria, para o voluntariado qualificado e para a construção de projetos com significado.
Nenhum país se pode dar ao luxo de desperdiçar o seu capital humano mais experiente.
Valorizar esse património não é um gesto de solidariedade para com os mais velhos. É um investimento inteligente no futuro de toda a sociedade.
Porque uma nação que esquece os seus cidadãos mais experientes não perde apenas memória. Perde capacidade de construir o amanhã.

A ROMARIA DE SANTO ANTÓNIO DOS CABAÇOS

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Mangualde. S. Gosmado. Capela de Santo António dos Cabaços. (Séc. XVIII)

Na planura austera da Serra dos Cabaços, onde assenta o pequeno povoado de S. Gosmado, do Município de Mangualde, lá onde já ninguém corta lenhas de lareira nem vagabundeiam gados como antigamente, levantou o pároco José Rebelo de Mesquita – que, à data de 9 de Junho de 1758, assinava o texto das Memórias Paroquiais, que o Marquês de Pombal, através de circular enviada ao seu bispo, lhe solicitara – uma pequena capela de planta sextavada ao jeito do barroco então em moda.

E é esse solícito pastor de almas, que não de rebanhos, quem nos fala da importância do lugar no longo texto que assina:

À ermida de Santo António de Cabaços acodem muitos fiéis cristãos em romaria todos os dias do ano, e nos dias santos em maior número, oferecendo ao mesmo santo muitas ofertas de dinheiro, trigo, centeio, milho, feijões, borregos, porcos vivos e muitas cabeças de carne de porco, ovos, mel, azeite, cera, e mortalhas, tudo com grande abundância.

Nesse caminho de transumância, que levava os rebanhos à Serra do Montemuro e, hoje, apenas se percorre e celebra como festa, se instituíra, decerto, uma espontânea prática devocional a Santo António, que o povo tomara como patrono dos seus gados e animais domésticos e que o atento pároco oficialmente sacraliza com o levantamento da capela, que se tornou local de devoção popular.

Mangualde. S. Gosmado. Capela de Santo António dos Cabaços. Romaria dos gados. (volta no sentido sinistrorsum)

No dia 13 de Junho de cada ano, o dia que o calendário dedica a Santo António, ali vem o povo de uma larga redondeza, cumprindo votos ou tão só atraídos pela mística do lugar. E ali vêm, de há séculos, agora mantendo a tradição, os pastores que ainda resistem.

Vestem com os tradicionais enfeites de festa, cores garridas e lãs de cores, chocalhos que impressionam pela grandeza e pelo soar festivo, o rebanho que conduzem, como promessa antiga, o velho cão por companheiro e, à meia tarde, sob os curiosos olhares da gente, inicia-se a tradicional romaria de cada um dos rebanhos à volta da popular ermida.

Evocando velha tradição, a primeira volta conduzida à volta da capela faz-se no sentido sinistrorsum, mágico caminho que prevenirá potencial desgraça que possa acontecer ao rebanho. E, só depois da primeira volta completa, o rebanho retorna, caminhando no sentido dextrorsum, uma e outra vez, dando depois lugar ao rebanho seguinte.

E o voto fica cumprido com a oferta de um cordeiro ao santo tutelar. O sacerdote fará depois, de acordo com o texto do ritual, a bênção dos rebanhos, que voltarão à sua serra.

Ao findar da tarde, de sob as tendas montadas onde se partilharam merendas e conversas, despedem-se os romeiros. Muitos deles prometerão voltar.

Festa de Santo António dos Cabaços (procissão)

A “SORTE AO JOGO” NÃO É PARA TODOS

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A velocidade com que a engrenagem institucional se move depende, quase sempre, de quem está na mira. Em meados de julho de 2026, a Casa Branca agiu com uma rapidez cirúrgica para afastar Gabriel Perez, o operador de teleponto que utilizou o acesso privilegiado aos discursos de Donald Trump para lucrar cerca de 100 mil dólares na plataforma de apostas Kalshi. O erro de Perez foi tratar a política como um casino de cartas marcadas. Mas o verdadeiro escândalo não é o que o operador fez no ponto eletrónico; é o que a família presidencial e os seus aliados fazem, à luz do dia, nos mercados financeiros globais.

O “Pequeno Delito” de 100 Mil Dólares

O caso de Perez é inacreditável. Durante meses, o técnico apostou na bolsa pelo que lia nos discursos do Presidente, antes de serem públicos. Chegava a corrigir as suas apostas em tempo real quando Trump decidia improvisar a meio do discurso. Foi travado pela própria plataforma de apostas. A casa Branca disse que se tratava de “uma vergonha”. A mensagem foi clara: usar informação confidencial para ganho pessoal é intolerável. Pelo menos, para os funcionários do escalão inferior.

O “Grande Negócio” de Milhões

Enquanto Perez foi despedido e corre o risco de vir a ser julgado e condenado, pouco antes deste escândalo, o próprio Donald Trump admitiu publicamente que os seus filhos tiveram “informações internas” ao negociar ações impactadas por decisões da Casa Branca.

A escala aqui é incomparável. Investigações da BBC e relatórios do Comité Judiciário da Câmara revelaram mais de 3.600 transações financeiras suspeitas em Wall Street, realizadas minutos antes de anúncios presidenciais sobre tarifas ou decretos económicos. A isto somam-se centenas de milhões de dólares gerados pela família Trump no setor das criptomoedas, coincidindo com decisões da administração para travar investigações federais contra empresas do setor.

A Blindagem do Poder

Quando o próprio presidente utiliza a rede Truth Social para escrever “ESTA É UMA EXCELENTE ALTURA PARA COMPRAR!!!” mesmo antes de assinar isenções fiscais para essas mesmas empresas, a barreira entre a governação e o insider trading deixa de existir.

Juridicamente, Perez é um alvo fácil. É um pequeno funcionário público que violou regras contratuais e do mercado regulado. Já o presidente e a sua família movem-se numa zona cinzenta onde as leis de insider trading são historicamente difíceis de aplicar a cargos políticos eletivos, especialmente quando a própria administração luta nos tribunais para desregulamentar e centralizar o controlo destas plataformas.

O caso do operador de teleponto e as suspeitas sobre a família Trump expõem a anatomia da ética na política atual em Washington. Um funcionário é suspenso por ganhar 100 mil dólares ao ler antecipadamente um discurso. Entretanto, movimentações de milhões de dólares que moldam o mercado financeiro com base em decretos presidenciais são tratadas como mero “instinto empresarial”. No teatro do poder, Perez foi punido por ler o guião mais cedo, mas os autores do guião continuam a lucrar em grande.

A MÁSCARA DO OPORTUNISMO

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montagem fotográfica

O excerto de Repensar Portugal, da autoria do Padre Manuel Antunes, constitui uma das críticas mais acutilantes e intemporais à futilidade do oportunismo político e à fragilidade das convicções democráticas na história do pensamento português contemporâneo. Escrita num período de profunda transição e instabilidade ideológica, a obra disseca com precisão cirúrgica a fauna política que se alimenta das crises nacionais. O autor expõe a hipocrisia de agentes que instrumentalizam causas nobres para benefício estritamente pessoal, transformando a governação e o debate público num palco de vaidades e de usurpação de poder.

(…) E ainda hoje. Demasiado bem conhece o País os “socialistas” eletivos dos próprios interesses, os zelotes de si mesmos, os saduceus da própria pátria a pretexto de um futuro melhor, de uma ideologia ” universalista” e terrorista. Como demasiado bem conhece os democratas provisórios de todas as bandas que apenas o são enquanto não conseguem impor a própria ditadura. Como demasiado bem conhece os oportunistas de todas as cores, do negro ao vermelho, que não perdem ocasião para se locupletarem com as desgraças da Pátria. (…)

Manuel Antunes In – Repensar Portugal

No primeiro plano da sua denúncia, Manuel Antunes foca-se nos “socialistas” eletivos, indivíduos que adotam o rótulo do progresso social apenas como uma máscara para salvaguardar os seus próprios privilégios. Ao apelidá-los de “zelotes de si mesmos” e “saduceus da própria pátria”, o pensador estabelece uma analogia com figuras bíblicas associadas ao fanatismo cego e ao legalismo hipócrita. O texto alerta para o perigo das ideologias que se vendem como “universalistas”, mas que escondem uma matriz terrorista e dogmática, sacrificando a realidade concreta e o bem-estar dos cidadãos em nome de uma utopia abstrata e impositiva.

A análise estende-se depois aos “democratas provisórios”, uma categoria política cuja atualidade permanece assustadora. Trata-se daqueles que defendem as regras da liberdade e do pluralismo apenas enquanto estas servem de veículo para alcançar o poder. Manuel Antunes desmascara a volatilidade deste compromisso cívico, sublinhando que tais atores políticos abandonam a postura democrática no instante em que reúnem as condições necessárias para edificar a sua própria ditadura. A democracia surge aqui não como um valor absoluto, mas como uma mera conveniência tática e transitória.

A abrangência da crítica atinge o seu zénite quando o autor aborda o espetro dos oportunistas “de todas as cores, do negro ao vermelho”. Com esta expressão, o ensaísta recusa fixar a corrupção moral a apenas uma fação partidária, demonstrando que o aproveitamento sem escrúpulos cruza todo o arco ideológico, dos extremismos de direita aos de esquerda. O oportunismo político surge como uma patologia transversal, onde a retórica serve apenas para camuflar o desejo primordial de enriquecimento, influência e autopromoção à custa do erário público e do sacrifício coletivo.

Em suma, este fragmento de Repensar Portugal transcende o seu contexto histórico original para se assumir como um tratado de ética política universal. Manuel Antunes não se limita a constatar a degradação do debate público, mas convoca o País a uma vigilância cívica permanente contra aqueles que se “locupletam com as desgraças da Pátria”. O texto permanece um aviso solene de que a sobrevivência de uma comunidade livre e justa depende da capacidade dos seus cidadãos distinguirem o verdadeiro serviço público da demagogia egoísta e parasitária.

Padre Manuel Antunes

O REBENTO

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fotomontagem

Filho de um industrial do calçado, o Vicente cresceu num mundo erguido pela fortuna que o pai construíra ao longo de cinquenta anos de trabalho árduo, couro curtido e pele de vaca. Estudou nos melhores colégios e universidades internacionais, frequentou os mais exclusivos círculos da elite económica, política e cultural. O dinheiro era-lhe tão natural quanto a própria existência. Vivia sem amarras de espécie alguma.

Um dia, porém, o pai anunciou que chegara a altura de assumir responsabilidades na empresa.

— O Homem não nasceu para ser escravo — respondeu o Vicente. — Nasceu para despertar.

O pai ficou uns instantes em silêncio. Depois perguntou:

— E quem paga esse despertar?

O Vicente sorriu. Como podia o pai compreender? Vivia naquela fábrica. Trabalho, tabalho, trabalho. Nunca fizera outra coisa. Faltava-lhe mundo.

Meses mais tarde, enviou-me uma fotografia diante de uma autocaravana verde-musgo. A legenda dizia apenas: “Finalmente livre!”

Seguiram-se os anos da conversão. Nepal, Índia, Butão, Tailândia, Costa Rica, Brasil, Bali. Ecovilas. Comunidades regenerativas. Retiros de silêncio. Meditação. Jejuns. Roupas de algodão orgânico que pareciam encontradas num contentor. Gurus com quem aprendeu a desconfiar do açúcar, do glúten, da lactose e, sobretudo, de quem persistia em cometer o ato selvagem de os consumir. Pecados modernos.

Em contrapartida, confiava plenamente em si próprio. Não no Vicente, personagem ultrapassada, mas em Bodhin.

— Agora sou Bodhin. Significa “aquele que despertou” — esclareceu quando nos reencontrámos anos mais tarde.

Aconteceu num festival de verão. Bodhin descera do seu retiro perdido na serra para dar uma oficina sobre escrita intuitiva: “Os teus sentimentos e emoções interessam”, intitulava-se. Um sucesso, tal como o eram os 32 títulos publicados e assinados por Mestre Bodhin.

Convidou-me para almoçar. Aceitei. Tinha saudades do Vicente: das férias no iate ao largo da Costa Amalfitana e das ilhas gregas, das noites de festa em Ibiza e Las Vegas e, quem diria agora, das viagens para conhecer as melhores churrascarias da Argentina, do Brasil e dos Estados Unidos.

Pediu por mim. Há hábitos que não desaparecem facilmente. Uma salada com ar refrescante mas de pouco sustento. Pedi que acrescentassem ovo cozido.

Bodhin não disse nada. Limitou-se a olhar com ar de reprovação.

— É das minhas galinhas — disse imediatamente a senhora. — Andam completamente à solta. São galinhas felizes.

O Vicente teria dado uma gargalhada. Bodhin limitou-se a escutar, com serenidade e compaixão. A mais absoluta superioridade moral.

Quando o prato chegou, o meu ovo vinha coberto de pequenos rebentos que não consegui identificar. Perguntei se eram de soja. Na verdade, era-me indiferente. Estava apenas a fazer conversa. Bodhin sorriu. Escolheu cuidadosamente um único rebento. Cheirou-o. Observou-o contra a luz. Depois mastigou-o lentamente.

— Não é soja. Feijão-mungo é mais crocante. A rúcula tem um toque amargo.

O veredito:

— É alfafa.

E, não fosse eu ficar com dúvidas do seu conhecimento, puxou do telemóvel topo de gama e mostrou-me as imagens que o comprovavam. No final, pediu kombucha para ambos. Nem me atrevi a sugerir um café, receando cometer alguma heresia gastronómica.

Acompanhei-o depois até à sua nova casa. O Ferrari das autocaravanas.

— Consome menos. Passo muito tempo isolado, longe de tudo. Tenho de ter frigorífico, computador, rede. Os meus alunos. Os seguidores. Os editores…

Vicente e Bodhin eram afinal a mesma planta. O rebento apenas mudara de vaso.

PORTUGAL NO TABULEIRO DA GUERRA OU NO PALCO DA LUSOFONIA?

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Com um orgulho que quase faz esquecer as listas de espera das urgências hospitalares, o Estado anunciou que atingimos finalmente a meta sagrada da NATO que é destinar 2% do nosso Produto Interno Bruto (PIB) para as despesas militares. Na atual cimeira da NATO em Ancara Portugal afirmou que o ano passado e de acordo com os padrões NATO, os 2,01 por cento do PIB, o equivalente a 6 mil milhões de euros foram atingidos.

É um feito extraordinário para um país onde o maior perigo costeiro costuma ser a erosão das praias ou o preço do peixe fresco. Enquanto os cofres públicos se abrem com uma fluidez invejável para enviar milhões em assistência militar para o leste europeu, o cidadão comum assiste a um espetáculo de ilusionismo orçamental. Para a Defesa e para os blindados que alimentam a forte e próspera indústria metalúrgica de Berlim ou Paris, há sempre linhas de crédito sem burocracia. Já para o Serviço Nacional de Saúde, para os reformados que tentam esticar pensões de miséria até ao final do mês, ou para os sem-abrigo que multiplicam as suas tendas pelas capitais lusas, a resposta estatal é a clássica melodia da austeridade e da “escassez de recursos”.

A engrenagem de Berlim e a nossa “austeridade atlântica”

Há uma ironia profunda na forma como o dinheiro dos impostos portugueses é canalizado para esta cruzada moderna. Sob o pretexto de proteger os valores democráticos, o erário público financia indiretamente um complexo industrial-militar que serve, prioritariamente, os grandes interesses do E3 (Portugal serve mais as agendas da França, Alemanha e Reino Unido e do complexo industrial-militar do que a proteção real do cidadão comum). É reconfortante saber que, enquanto um idoso em Portugal escolhe entre comprar medicamentos ou pagar o aquecimento, algures num escritório em Frankfurt se celebram os dividendos da indústria pesada!

Filosoficamente, a paz ocidental foi reduzida a um paradoxo romano: si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara a guerra). O Estado português adoptou esta máxima com o fervor dos convertidos, esquecendo-se de que a verdadeira paz não se constrói empilhando munições, mas sim edificando dignidade social. Uma sociedade que investe mais voluntariamente na engenharia da destruição externa do que na saúde e no bem-estar interno padece de uma inversão crónica de valores. A segurança de uma nação mede-se pela robustez do seu tecido social e não pelo calibre dos seus obuses.

Da trincheira europeia ao abraço lusófono

Se o destino dos nossos impostos é expandir a nossa influência e garantir a estabilidade, por que motivo o Estado insiste em olhar para o mundo através da mira de uma espingarda apontada ao leste, em vez de olhar através da luneta da nossa própria história? Portugal possui uma plataforma diplomática, cultural e económica única que não necessita de tanques para se impor e que é a Lusofonia.

Em vez de subsidiar os interesses geoestratégicos da Europa Central, os recursos nacionais colheriam muito melhor proveito se fossem direcionados para empreendimentos de cooperação cultural, científica e económica dentro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Financiar infraestruturas de saúde partilhadas, investir na transição energética em parceria com Moçambique ou Angola, ou criar fundos de apoio social e de habitação que dignifiquem os povos que partilham a nossa língua seriam verdadeiros investimentos numa cultura de paz. Faz muito mais sentido construir pontes com quem partilha o nosso idioma do que cavar trincheiras para agradar a Berlim e a Bruxelas.

Trocar o fardamento cinzento da NATO pela diplomacia cultural do mar não é apenas uma escolha moral pois corresponde a uma urgência prática. Afinal, para um país plantado à beira-mar, faz muito mais sentido construir pontes de desenvolvimento com quem partilha o nosso idioma do que cavar trincheiras para sustentar o grande capital europeu. Resta saber se o Terreiro do Paço prefere continuar a ser o bom aluno de Berlim ou voltar a ser o coração do seu próprio mundo.