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TER OU NÃO TER BERÇO

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colagem fotográfica

Toda a gente fala de Cristiano Ronaldo. Não era minha intenção fazê-lo, mas quando o presidente da Federação Portuguesa de Futebol diz que ele é um ‘ícone’ do País, eu pergunto-me se Pedro Proença sabe o significado da palavra. É que ícone, que deriva do grego, é, segundo o dicionário de Português, um ‘símbolo gráfico ou representação visual que transmite um significado de forma rápida e intuitiva’. Se formos à parte religiosa, é uma arte sacra, geralmente pintada sobre madeira, que surge na tradição cristã oriental/bizantina. Claro que no caso, nos ateremos à cultura e sociedade em que será uma pessoa ou objecto tido como símbolo máximo de uma época, como um ícone da moda ou da cultura.

Cristiano Ronaldo pode ter muitas virtudes como futebolista. Pouco percebo desta matéria, mas acredito que sim: corre muito, meteu muitos golos, etc. Sim. Pode ser um orgulho. Mas um ícone? Levou Portugal ao Mundo, como tantos outros o fizeram.

Ao longo da sua vida teve, como é sobejamente sabido, uma infância difícil. Entretanto, ganhou muito dinheiro, terá dado algum para quem mais necessitava (alguns casos sabem-se, outros dizem que foi anonimamente), ajudou a família, tratou bem do seu corpo, é atlético e etc. E oferece jóias de milhões e possui casas de outros tantos. E faz bem. Mas, o que tem a mais no seu orgulho, tem a menos na humildade.

Tenho ouvido as coisas que dizem os seus amigos (fala por interpostas pessoas, o que é mesmo muito mau) a propósito da sua saída da selecção. E pasmo. Ensinamos as crianças a que quem manda na escola são os professores; quem manda em casa são os pais. E não se fazem birras quando se é contrariado.

Não sei se Ronaldo teve razão para se aborrecer com o treinador Jorge Jesus. Do meu ponto de vista, perdeu-a toda quando, enquanto capitão da equipa, abandonou os seus homens e se enfiou no seu aviãozinho particular e fugiu. Sim, diante do confronto, Ronaldo abandonou a sua equipa e fugiu! E já não foi uma birra, foi a fuga de um suposto atleta de alta competição que não aguentou que outros o substituíssem, quiçá por serem mais jovens ou também muito talentosos. Ainda assim, o treinador pediu ou não desculpas (ainda não percebi de quê e se é verdade ou não) e os colegas pediram-lhe o regresso. Ronaldo manda recados por terceiros e, aparentemente, só voltará se o treinador for despedido. Eu sei que ele detém muito dinheiro na Media Capital e que os canais Now, CMTV, CNN e TVI precisam de ‘obedecer à voz do dono’. Mas ainda fico estupefacta… (Até parecem as ‘entrevistas exclusivas’ feitas quase todos os dias ao presidente do Chega).

O homem que quis conhecer Donald Trump e que vive nas Arábias pensará que é dono da Selecção Nacional? Talvez seja mesmo isso, já que até o primeiro-ministro (valha-me Deus!) se meteu ao barulho. Alguém que pensa que o dinheiro é um estatuto. Outros jogadores (julgo que ouvi falar em dois) que tiveram a mesma atitude, sofreram as consequências e não eram capitães da equipa. Como se pode pedir a um capitão, que abandonou uma equipa, que regresse?

Ah!, sim, explicam-me amigos que é um problema de dinheiro. Ronaldo é patrocínios, é marca, é essas coisas todas. Então não tem de ser educado, nem correcto? E, quando o ridículo não tem nome, passa a ser um ‘ícone’? Eu, que tenho mais idade, dava-lhes já com verdadeiros ícones, como Camões, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, Vasco da Gama, Egas Moniz, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, José Saramago, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Paula Rego e da inexcedível Amália Rodrigues; falamos de Almada Negreiros, de Manoel de Oliveira; e para que não se diga que é só cultura e não desporto, falamos de Eusébio, do fantástico Jorge Costa, de Carlos Lopes, de Rosa Mota e tantos outros.

Outros amigos interrogam-se como pode dizer que só vem quando o treinador sair: Jorge Jesus tem contrato até 2030. Por essa altura, Ronaldo terá 44 anos…

Independentemente do que possa fazer nas Arábias, Ronaldo, que tinha a porta grande escancarada, sai pela do galinheiro. Não aprendeu nada com outros, incluindo Messi. Não passa de um tipo com dinheiro, mas sem ‘berço’, o tal que o dinheiro não lhe deu.

MAÇONS BENEMÉRITOS E DESPEJOS ODIOSOS

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Sem a ajuda de Jorge Afonso, mui prestável técnico do arquivo da Câmara Municipal de Loures,  esta crónica jamais teria sido escrita e, por isso, deveria ser também assinada por ele, pois Jorge Afonso teve a gentileza de me ajudar cabalmente a pôr os pontos nos is.

Quem mandou construir os edifícios inacabados existentes na vetusta Quinta do Guarda-Mor foi o proprietário dos Armazéns Grandella, o empresário e filantropo Francisco de Almeida Grandella (1853-1934).

Saíram os seus projectos da prancheta do célebre arquitecto Rosendo Carvalheira (1861-1919), a quem se ficaria também a dever o então chamado Sanatório de Santana, na Parede (Cascais), de magnífica traça arquitetónica.

Grandella deixou muitos edifícios por acabar. Já aqui contámos a fabulosa história do Sanatório Albergaria para tuberculosos no Cerro de Montachique, no mesmo concelho de Loures.

A primeira pedra dos edifícios de Camarate deve ter sido lançada no início do século XX. Ou, talvez, nos finais do século XIX.

A ideia de Grandella seria instituir ali uma casa de repouso. Por alguma razão a obra não foi concluída. Mas, segundo rezam os documentos arquivados na Câmara Municipal de Loures, ter ali uma casa de repouso voltou a ser ideia dos proprietários que sucederam a Grandella.

Em 1974, José Maria Gonçalves, na qualidade de “proprietário” da Fundação Santa Maria da Silva apresenta novos pedidos de alteração à propriedade, acrescentando um edifício de traça semelhante ao alterado e um, mais baixo, para garagem de ambulâncias e instalação do pessoal afecto à, agora, clínica, que aí se propunha edificar.

Mesmo sem terem sido concluídos, os edifícios foram utilizados pelo IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) em 1975, para receber “retornados” das colónias africanas que se tornaram independentes. Seiscentas pessoas viveram ali, em edifícios inacabados, não sabemos em que condições sanitárias, até meados dos anos de 1990.

Em 1993, o tribunal decide a desocupação total dos edifícios. Os ocupantes são despejados com alguma violência e forte presença policial, despejo que teve larga repercussão na Comunicação Social, houve quem lhe chamasse “O escândalo de Camarate”, aliás, reportagens televisivas foram várias.

imagens relativas a reportagens da RTP em 1993 sobre os despejos de Camarate

A Fundação Santa Maria da Silva recupera a posse da propriedade e, até ao momento (Outubro de 2026), não foi realizada qualquer obra de recuperação.

Embora localizados numa das várias quintas nobres existentes nos arredores da capital, os edifícios degradados que parecem vigiar o campo santo de Camarate nada têm de sacrossanto histórico que remonte a prístinos séculos. São, como vimos, obras inacabadas, com pouco mais de um século, e a intenção de virem a constituir um «Lar Panorâmico» (de facto, a vista dali é deveras panorâmica), com vertente de lar, um, e de residência de pessoal, o outro, não se insere numa lógica predominante de benemerência. Hoje, o lar ao lado do cemitério seria uma oportunidade rara de rentabilizar o negócio…

Os edifícios e o cemitério, fotografia de outubro de 2026

ERROS MEUS, MÁ FORTUNA

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No último artigo que escrevi no Duas Linhas, afirmei que o Partido Social-Democrata Sueco tinha ganhado as eleições e regressaria ao governo, em coligação com os Verdes e com os restantes partidos da esquerda. Enganei-me redondamente. O partido de extrema-esquerda optou, afinal, por abrir caminho a um governo de centro-direita em coligação com a extrema-direita. Estranho? Talvez não, pelo menos nos tempos que correm.

As enormes assimetrias sociais e económicas coexistem com uma incapacidade crescente dos governantes para responder aos problemas dos cidadãos. Resta saber quanto tempo durará este ensaio e como reagirão os eleitores da extrema-esquerda a esta coligação. Na crise social em que mergulharam a Europa e o mundo, os «descamisados» — tal como na Argentina de Juan Perón — procuram no caos uma saída para a crise. Assistimos ao crescimento de um radicalismo que atrai eleitores moderados. Zangados com o sistema, deslocam o voto para os partidos dos extremos. No plano mundial, as alianças são ainda mais estranhas. A sensação do ‘fim da história’, no sentido proposto por Francis Fukuyama, não se confirmou e foi mesmo uma precipitação: o triunfo das democracias liberais não aconteceu. O debate apenas mudou de eixo. De um lado, sociedades liberais assentes em democracias parlamentares. Do outro, sociedades autocráticas ou ‘democracias musculadas’.

Os defensores de governos autocráticos ou musculados privilegiam a segurança, mesmo com a compressão de direitos, liberdades e garantias. Os defensores das democracias parlamentares colocam esses direitos acima da opção securitária. A rigidez deste confronto alimenta a irracionalidade e deixa um oceano de cidadãos moderados à mercê das pulsões mais radicais.

As eleições no Brasil, com a curta vitória de Bolsonaro sobre Lula, na primeira volta, podem ser, dentro de três semanas, o barómetro para a evolução da América do Sul, e determinar a expansão da influência dos Estados Unidos da América e da administração Trump naquela zona do Mundo.

Na Europa, desenham-se dois caminhos, no Reino Unido pondera-se o regresso à União Europeia. Em França, coloca-se em crise a continuidade na União Europeia, quer ganhe Mélenchon, quer ganhe Marine Le Penn. Ou seja, o centro moderado implodiu.

Todos estes confrontos não resultam de opções ideológicas tradicionais, mas sim de modelos organizativos que passam por suprimir os direitos, liberdades e garantias, privilegiando a vertente securitária em relação à imigração e ao islamismo, ou pelo reforço das democracias parlamentares e pela capacidade de encontrar uma resposta para o fluxo migratório.

Os europeus têm de encontrar o caminho e optar entre quatro grandes temas: se querem manter o nível económico que alcançaram; se esse estado é possível de manter no actual quadro económico, tendo em consideração a competitividade dos países dos BRICS, nomeadamente da China; se é preferível baixar esse nível económico e assegurar o Estado de Direito; se acabam com o Estado de Direito e perdem, na mesma, o nível económico em que vivem.

NOTA: Alguns ex-ministros do PSD e do PS, que integraram os governos de Cavaco Silva e António Guterres, publicaram o Manifesto pelo Bom Entendimento em Democracia, com vista à constituição de um governo de Bloco Central. Dos nomes conhecidos, apenas um dos ministros de Guterres – Daniel Bessa- subscreve e manifesto.

Os outros subscritores foram ministros do PSD e conhecidos empresários próximos daquele partido. A única preocupação dos subscritores é o esvaziamento do PSD e a debandada dos apoiantes para o Chega e para o PS. Tal como escrevi, no Duas Linhas, este poderá ser o reordenamento eleitoral do nosso País. Montenegro, que foi atrás do conceito pisca-pisca, ainda não percebeu que foi um erro fatal. Pode agradecer ao seu criador ter contribuído para o possível esvaziamento do PSD.

O PAÍS QUE SOMOS E O PAÍS QUE AINDA PODEMOS SER

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Um país não é apenas o seu território, a sua economia, as suas instituições ou os seus indicadores estatísticos. É também a memória que conserva, a língua que partilha, a cultura que produz, a forma como educa os seus filhos, como trata os seus velhos, como acolhe quem chega e como olha para aqueles que ficam para trás.

Portugal é, portanto, muito mais do que aquilo que aparece nas estatísticas. É uma experiência colectiva. E essa experiência não pode ser reduzida à ideia de crescimento económico, embora nenhum país possa ignorá-lo. Uma sociedade precisa de produzir riqueza, mas precisa também de saber para que quer essa riqueza. Precisa de modernizar-se, mas sem confundir modernização com a simples aquisição de novas tecnologias ou com a transformação acelerada dos modos de vida.

Há uma pergunta anterior a todas as outras: que sociedade queremos construir? Talvez tenhamos passado demasiado tempo a discutir os instrumentos e pouco tempo a discutir os fins. Falamos de crescimento, competitividade, produtividade, transição digital, inteligência artificial, fundos europeus, habitação, saúde, educação e emprego. Tudo isto é necessário. Mas, por detrás de cada uma destas palavras, existe uma pergunta humana que frequentemente desaparece: como queremos que as pessoas vivam? É aqui que começa uma outra ideia de desenvolvimento.

Desenvolver um país não deveria significar apenas fazê-lo crescer. Deveria significar fazê-lo amadurecer. E amadurecer é aprender a reconhecer os limites, corrigir os erros, proteger o que merece ser protegido e transformar aquilo que já não responde às necessidades do presente.

Portugal tem uma extraordinária capacidade de adaptação. A sua história demonstra-o. Somos um país pequeno que aprendeu, muitas vezes, a sobreviver entre circunstâncias maiores do que ele. Fomos capazes de partir, de chegar, de reconstruir, de integrar, de mudar.
Mas essa capacidade de adaptação contém também um risco: o de nos habituarmos demasiado facilmente a sobreviver. Sobreviver não basta.

Uma democracia não pode limitar-se a garantir que as pessoas continuam a viver dentro das dificuldades. Tem de criar condições para que possam viver com dignidade, liberdade e esperança. E esperança não é optimismo. A esperança é uma construção política, social e cultural.
Nasce quando uma criança acredita que estudar pode mudar a sua vida. Quando um jovem consegue imaginar uma casa onde possa viver. Quando um trabalhador sente que o seu trabalho tem valor. Quando uma pessoa idosa não teme tornar-se invisível. Quando alguém que nasceu longe encontra em Portugal não apenas tolerância, mas possibilidade de pertença.

É também aí que se mede a qualidade de uma democracia. Não apenas na existência das instituições, mas naquilo que essas instituições conseguem produzir na vida concreta das pessoas. A liberdade, por si só, não resolve todas as desigualdades. Mas sem liberdade nenhuma sociedade democrática pode verdadeiramente enfrentar as desigualdades.

A igualdade, por sua vez, não significa que sejamos todos iguais. Significa que ninguém deveria ficar condenado à partida pela circunstância de ter nascido num determinado lugar, numa determinada família ou numa determinada condição económica.

E a fraternidade, palavra antiga, talvez demasiado esquecida, lembra-nos uma coisa essencial: nenhuma sociedade se sustenta apenas pela competição. Precisamos uns dos outros.

Talvez esta seja uma das grandes questões do nosso tempo. A sociedade portuguesa envelheceu. A família mudou. O trabalho mudou. A relação entre gerações mudou. A imigração transformou o país. A tecnologia alterou profundamente a comunicação, a aprendizagem e o próprio modo como nos relacionamos.

E, entretanto, continuamos muitas vezes a pensar com categorias que pertencem a um Portugal que já não existe. É necessário actualizar o nosso olhar. Não para rejeitar o passado, mas para compreendê-lo. Um país sem memória torna-se vulnerável à repetição dos seus erros. Mas um país prisioneiro da memória também pode ficar incapaz de imaginar o futuro. Entre a amnésia e a nostalgia existe um território mais exigente: a consciência histórica.

É nesse território que devemos procurar Portugal. Um Portugal capaz de reconhecer aquilo que recebeu das gerações anteriores e, simultaneamente, aquilo que deve entregar às gerações que ainda estão a chegar.

Porque nenhum país é verdadeiramente nosso. Recebemo-lo temporariamente. Cada geração recebe uma parte do país que outras construíram e deixa uma parte daquele que conseguiu transformar. É por isso que pensar Portugal é pensar também na responsabilidade de cada geração. Não apenas no que queremos receber, mas no que estamos dispostos a deixar.Talvez seja esse o verdadeiro sentido de uma comunidade nacional. Não a celebração permanente de uma identidade fechada, mas a capacidade de construir uma casa comum onde diferentes histórias possam caber.

Portugal já é essa casa. A questão é saber se queremos continuar a melhorá-la. E, sobretudo, se ainda somos capazes de imaginar o que ela pode vir a ser. Porque um país não morre apenas quando perde população, riqueza ou influência. Um país começa verdadeiramente a empobrecer quando deixa de imaginar o seu próprio futuro.

Pensar Portugal é, por isso, uma forma de não desistir dele. Não desistir significa olhar de frente para as suas fragilidades sem transformar as fragilidades em destino. Significa reconhecer o que fizemos mal sem negar o que fizemos bem. Significa compreender que nenhuma geração tem o direito de considerar o futuro como uma herança garantida. E significa, finalmente, recuperar uma palavra que talvez esteja a faltar ao nosso vocabulário público: responsabilidade. Responsabilidade perante os que vieram antes. Responsabilidade perante os que hoje vivem connosco. E responsabilidade perante aqueles que ainda não nasceram.

Portugal não está acabado. Nenhum país está. Um país é sempre uma obra incompleta. Talvez a sua grandeza esteja precisamente aí: na possibilidade de continuar a escrevê-lo. E é por isso que vale a pena pensar Portugal. Não para descobrir uma resposta definitiva. Mas para não deixarmos de fazer as perguntas que mantêm uma sociedade viva.

A GEOMETRIA DO PURGATÓRIO LISBOETA

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O silêncio voltou à mesa. Mas já não pesava; estava vivo. Joaquim percebeu a rasteira daquela conversa. Desfazer o “eu” era uma libertação perigosa. Significava largar o sofrimento, sim, mas também abdicar de qualquer salvação. Se ele não era ninguém, as dores também não eram de ninguém. E procurar uma cura? Disparate. Uma perda de tempo.

— Sim, Fernando, eu percebo a mecânica do teu desassossego — disse Joaquim, com os dedos a tamborilar no canto da mesa. — Mas recuso-me a ceder. Eu quero manter a minha vontade. Posso perceber as tuas razões, posso perceber a arquitetura do teu raciocínio, mas recuso-me a viver ancorado na dúvida. A dúvida eterna é um inferno de espelhos. Nada se fixa.

Joaquim inclinou-se também, a voz a ganhar firmeza.

— Eu quero a certeza. Mesmo que seja teimosia. Mesmo que saiba, no fundo, que essa certeza é só uma mentira que inventei, um palácio de areia contra a maré. Não me importa. Preciso de acreditar que, quando digo “eu amo” ou “eu sofro”, há qualquer coisa aqui dentro que fica. Um sítio que junta os estilhaços do que vivo e os guarda numa gaveta. Uma gaveta que não se desfaz com a humidade da noite.

Pessoa chegou-se para a frente. O olhar dele, por trás das lentes redondas, perdeu aquele desapego habitual. Fixou-se em Joaquim. Uma intensidade súbita. Parecia o interesse de um anatomista que descobre uma veia estranha num coração aberto. Era a curiosidade de quem reconhece uma dor antiga, mas uma dor que ele próprio tinha tentado domesticar através dos poemas.

— Queres a certeza? — murmurou Pessoa. — Cuidado, meu amigo.

— A certeza é um porto, Joaquim. E o porto é o fim da viagem. O navio que entra lá e fica, deixa de ser navio. Vira terra. Um armazém de madeira podre, comido pelas cracas. Pessoa fez um gesto largo com a mão, espantando o fumo. — Tu propões um segredo ao medo. Isso é magnífico. Arrancar a alma ao medo criando um mistério teu… é a única forma digna de viver este bocadinho de tempo que nos dão. Entre o nada que fomos e o nada que seremos. Mas dizes que tens medo da ousadia? Porquê recuar agora? Se já percebeste que a realidade é uma mentira, assume o papel de autor. Inventa os teus dias. À grande. Sabendo que tudo isto não passa de fumo.

Joaquim desviou os olhos para a janela. A tarde em Lisboa estava a perder a força. Lá fora, o elétrico subia a colina. Aquele rangido de ferro velho parecia o choro da cidade. Na calçada, as pessoas passavam a correr, encolhidas nos casacos. Cada uma com a sua ilusão de solidez. Os horários, os casamentos, as contas por pagar. Ninguém via o abismo debaixo dos sapatos.

— Porque a vontade, quando é demais, mata o mistério — respondeu Joaquim, quase num sussurro. — Prefiro o gesto tímido. O silêncio que guarda o segredo sem nunca o expor à luz. Eu quero saber, Fernando. Sinto essa fome de absoluto a roer-me por dentro. Mas tenho medo. Tenho medo de que, ao decifrar o enigma todo, não sobre nada de mim. Só poucas palavras. Como aquelas que escrevi sobre esta cidade. Olhou fixamente para o poeta. — Temo que a verdade seja só um deserto de cal, onde nem a ilusão sobrevive. Se eu souber tudo, deixo de poder sonhar. E o sonho é a única pátria que me sobrou.

O homem que sabe tudo deixa de ter horizontes. Vira um arquivo morto. Um inventário de certezas que já não servem para acender o fogo de nada.

(continua)

ESTIVE COM ELA, CONHEÇO-A

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A agente «Leninha», conhecida torturadora da PIDE, no tempo do ditador Salazar. Tornou-se num dos símbolos do regime. Esta imagem serve de exemplo para a narrativa da crónica.

Foi há pouco tempo? Por acaso até não, que tive o “privilégio de conversar” com ela… verdade verdadinha, nem dava para trocar “falas”. Perguntam-me sempre, por ser já “entardecido”, como ela era, no principio, se se impunha, se quando aparecia mexia com todos… respondo sempre que sim, que não era uma presença, que por um momento que fosse, passasse despercebida, não, sabia-se logo quando chegava, nem um só de todos nós, passava “ao lado dela” sem a sentir. Era impossível. Dava-se conta na maneira de estar, até no falar de cada um de nós. Impôs-se sempre.

Mas, lá vêem as vossas perguntas, pessoal mais recente nesta vida: “Passava-se bem com ela?” Eu franzo o sobrolho, encolho os ombros, faço compassos de espera, a pensar no que vou dizer e…

Vamos lá a ver, tivemos uma posição social que não lhe deu hipótese de estar entre nós, já lá vão 5 décadas, ela era na altura uma velha condenada a desaparecer, estávamos radiantes…

– “Eh, eh, deixe lá esses tempos, até parece um Professor de História, o que queremos saber é se a conheceu, conhece, se foi amigo dela e como é que ela foi ou é, para si!…”

– Como calculam, não posso deixar de não falar da infância dela, claro que não vou falar da sua mãe… nem vou falar sequer, de uns “novos parentes” que a querem ver novamente na “passerelle” e até nos dizem, que não, que não a conhecem… Como é que é possível querer o desconhecido… é-se tão imbecil assim? Penso definitivamente que nos querem fazer uma surpresa… É uma rapaziada que não conheço bem, mas com a força que dão ao seu aparecimento na ribalta, outra vez… Conheço-a sim senhor e de forma muito próxima, nem imaginam o quanto… Vivi mesmo “ombro a ombro” com ela, claro, não estive no seu patamar, na altura pensávamos ser perene, acabei por passar um mau bocado, eu e a família, aliás como tantas outras. Ela era “intocável”, como se diz. Posso afirmar que a conheci, com toda a propriedade.

– Ora, é daí que a queremos conhecer. Deixe os eventos, a História, o “agora” é que vale!

– Mas algumas passagens terão que ser ditas, Não se descreve ninguém assim, de qualquer jeito. Não se consegue caracterizar o que quer que seja sem nos situarmos na “personagem”.

– Então, convive-se ou não, com ela? É ou não, uma “personagem” simples ou é complexa?

– Apresenta-se sempre simples, chega, porque foi “chamada” pela ignorância e por uma suposta necessidade, muitas vezes não é suposta, é uma necessidade real, fruto de muita incompetência que nos leva à necessidade…

– Não está a ser objectivo. Está a rodear. Ela tem ou não interesse, é necessária, pelo que nos parece, sim!

– Não! Não tem interesse nenhum, só vai atrofiar a vida de todos. O que nos poderá parecer uma mudança social para melhor não o é, vamos dizer, depois da actuação dela no terreno: “Chega! Não podemos continuar assim!” Mas vai ser tarde para todos, o que se pensava serem melhorias de vida, vão ser “aconchegos” para a “elite” criada por ela, o povo não vai conseguir levantar a cabeça até porque não temos recursos financeiros, recursos vindos do subsolo, veja-se dos poucos que temos, a teimosia em não deixarmos que se explorem…

– Ah, também é desses que querem “destruir” a paisagem, colocando-lhe marcos de suposta evolução?

– Todo os povos cuidam de si próprios com atenção redobrada aos seus recursos, de uma forma científica-tecnológica sem lugar a experimentalismos “políticos”…

– Mas afinal, não disse o nome de quem queremos saber, já estamos a ver que é uma “coisa” muito má, será que nós, os mais avoadores, não devemos saber, pelo menos o nome dela, já que nos informam que é muito má socialmente?

– Sendo avoados, e por mais que vos diga o que se passou na altura em que era tão jovem como vós o sois agora, insistem em querer afundar-se num lamaçal social e dizer, mas já tarde: “Chega! Não é possível este tormento!” Bom, de qualquer maneira… o nome dela é Autocracia e é casada com o Absolutismo.

– Ah… já ouvi isso…

– Adianta o que vos é informado? O que vos disse?

IRMÃOS DE SOMBRA E SAUDADE

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Miguel de Unamuno e Teixeira de Pascoaes

Miguel de Unamuno manteve uma relação profunda, afetiva e intelectual com Portugal, país que visitou inúmeras vezes e que descreveu formalmente como a sua “segunda pátria espiritual”. Numa época em que a Espanha vivia culturalmente de costas voltadas para o território vizinho, o pensador e reitor da Universidade de Salamanca cruzou a fronteira com o firme propósito de construir pontes, tornando-se o maior embaixador e tradutor da cultura e da literatura portuguesa em solo espanhol. Esta ligação não se limitava a uma curiosidade turística; tratava-se de uma verdadeira necessidade metafísica de comunhão com o lirismo e a interioridade que ele encontrava na alma lusa.

A sua ligação mais célebre, duradoura e literariamente produtiva deu-se com o poeta Teixeira de Pascoaes, o grande líder do movimento do Saudosismo. A amizade entre ambos assentava numa profunda afinidade eletiva, uma vez que partilhavam uma obsessão mística pelo mistério da existência, pela dor do tempo que passa e pela busca incessante da imortalidade. Unamuno via em Pascoaes o “irmão espiritual” que não encontrava em Espanha, o que o levou a visitar repetidas vezes a Casa de Pascoaes, em Amarante. Ali, em longas caminhadas junto ao rio Tâmega e sob a sombra da Serra do Marão, os dois escritores discutiam literatura, religião e o destino dos povos ibéricos.

Enquanto Pascoaes teorizava sobre a Saudade como a essência espiritual e o motor de regeneração da alma portuguesa — um sentimento que une o passado, o presente e o futuro numa ânsia de eternidade —, Unamuno contrapunha-o com o seu próprio conceito do “sentimento trágico da vida”, assente na luta agónica e desesperada entre a fé e a razão. A vasta correspondência trocada entre os dois autores ao longo de décadas constitui um dos testemunhos epistolares mais ricos do início do século XX, revelando também uma solidariedade humana profunda, visível quando Pascoaes se tornou uma das vozes públicas mais ativas em defesa de Unamuno aquando do seu exílio político na ilha de Fuerteventura, em 1924.

Esta convivência alimentava o ideal unamuniano do Iberismo, que não preconizava uma união política ou administrativa entre as duas nações, mas sim uma fraternidade cultural e espiritual onde cada povo preservasse estritamente a sua identidade. Unamuno chamava a esta união utópica uma “infraterna aliança”, acreditando que a melancolia, o intimismo e o panteísmo natural dos portugueses serviriam de contrapeso ideal ao misticismo trágico, dogmático e rústico das terras de Castela.

Para além de Pascoaes, o intelectual espanhol conviveu e influenciou várias das mentes mais brilhantes de Portugal. Dedicou ensaios vibrantes a Antero de Quental, por cujos Sonetos nutria uma admiração quase religiosa, identificando nele o exemplo máximo do calvário interior e da tragédia íntima ibérica. Manteve também uma amizade estreita com Guerra Junqueiro, visitando-o com frequência na sua quinta no Douro para admirar a força profética e telúrica da sua poesia, e privou com Eugénio de Castro, que o introduziu nos círculos literários e académicos de Coimbra. Embora a sua relação com Fernando Pessoa não tenha sido de proximidade pessoal, o poeta dos heterónimos conhecia profundamente o pensamento do espanhol, partilhando com ele o fascínio em torno do mito do sebastianismo e da desconstrução da identidade nacional. Toda esta riqueza e respeito pelo caráter do povo, pela língua, pelo fado e pela paisagem lusa ficaram imortalizados na sua obra “Por Tierras de Portugal y de España”, consolidando o seu papel como o pensador espanhol que mais intimamente compreendeu e amou Portugal.

Miguel de Unamuno

ESTRANGEIRA NA AVENIDA DA LIBERDADE

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Olhar para o edifício do Diário de Notícias é sempre um aperto no coração. Nunca compreenderei o facto de não terem ali feito um museu da Imprensa ou alguma coisa do género. Não sei o que se passa agora na velha sala verde, onde decorriam reuniões, nos gabinetes, na cantina, ou no espaço da redacção. Não sei se no lugar da minha secretária estará uma cama ou uma banheira. E é sempre uma dor.

Mas lá fui avenida abaixo. Ouço falar português do Brasil, inglês, alemão, francês. Não ouço falar português. Ninguém olha para o outro, homens e mulheres, mais velhos e mais novos, de auriculares, indiferentes a quem passa.

Mais abaixo, há agarrados ao telemóvel, como se o mundo acabasse daí a pouco. Uns falam mais alto, outros numa irritação difícil de conter. Uma mulher pára no semáforo, mesmo ao meu lado. Não quer que a filha saia à noite. Todos ficámos a saber a história e eu tenho vontade de lhe dizer que seja mais discreta.

As lojas são todas estrangeiras, todas de luxo. Qualquer par de sapatos custa mais de 600 euros. Qualquer saia custa mais de 800 euros. Qualquer coisa, seja qual for, nunca tem preço abaixo dos 500 euros.

As pessoas continuam a cruzar-se. Uma mulher sorri e a pessoa que me ultrapassa pergunta à outra se será maluca. Não entendo porquê. Será porque sorriu?

Passo no edifício de Tony Miranda. Ora aqui está um português que se mantém na avenida. Só mais uma loja do género é portuguesa. E há o Hard Rock Cafe. Os pequenos restaurantes, os cafés onde tantas vezes tomei pequeno-almoço, ou comi um croquete para enganar a fome à hora do almoço, tudo desapareceu. Agora é só luxo.

Os restaurantes têm todos nomes estrangeiros e, nas ementas, nem aparece o preço. Quem quiser que use o qrcode. Lá está o velho Pinóquio, também com o tal qrcode, a esconder os preços.

Atravesso. Passo às estátuas e lá está outra vez o qrcode, como se todos tivessem telemóvel, ou soubessem funcionar com aquilo. Ah! Espera, isto é mais para estrangeiros…

Já ali, avenida acima, há uma clínica e um hotel com nome português e, felizmente, o Partido Comunista.

Aproximo-me da banca dos jornais. Uma velhota, sentada numa cadeira de praia, encara-me e pergunta: ‘canaielpiu?’ Não entendo e ela repete: ‘canaielpiu?’. Decifro o ‘can I help you’ e faço questão de lhe responder alto: Não, muito obrigada. Não preciso de nada. E desarvorei zangada por ali fora.

Já eram quase 9 horas e eu tinha um compromisso. Percebo que a maioria das empregadas de limpeza das lojas de luxo são brasileiras. Descem escadas com as esfregonas em punho e vão acordar os sem-abrigo que passaram a noite nas arcadas. Não são agressivas. Um ligeiro toque e eles acordam. Resmungam um: ‘já vou’.

Andam diversos varredores a limpar, até as folhas dos plátanos. Pena que em outras ruas da cidade não seja assim…

Uma hora mais tarde, hei-de subir novamente a avenida, entre tuk-tuks e turistas a saírem dos hotéis. Já tenho a minha dose de tristeza: na Avenida da Liberdade, na cidade onde vivo há mais de 50 anos, a estrangeira sou eu.

UMA ARTE DE MULHER

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Tibaldinho é um pequeno povoado da freguesia de Alcafache, conhecida ao longe pelas suas águas termais que rebentam, quentes, sulfurosas, penhor de saúde, à beira do rio Dão.

Tibaldinho tem jeito de aldeia implantada na meia encosta soalheira, na margem esquerda do rio e a sua fama advém-lhe dos especiosos bordados que ali tiveram berço, parece, e onde permanecem, activos, graças ao fervor e amor das bordadeiras.

Mulheres com filhos criados, raparigas na idade núbil, crianças de idade tenrinha cultivam esta arte do bordado desde há um tempo longo, que terá séculos, mas é nos finais do século XIX que se encontra, com suficiência, o rasto deste lavor de arte, que hoje ainda se mantém operoso, ora classificado, o bordado, como produção certificada, tendo a Câmara Municipal de Mangualde, como entidade promotora, e uma região abrangente que inclui os municípios de Mangualde, Nelas e Viseu.

É esta arte secular que eu evoco, com alguma poesia, no meu texto.

Quando a mulher é rapariga nova, borda e sonha ao mesmo tempo, recorta corações no linho cru ou no pano de algodão, alvoroçada, porque o seu desenho é como um poema numa carta de amor.

Quando a mulher é já mulher, casada e cansada das lides da vida borda e recorda, ela é firme no amor maduro e a beleza que absorve da paisagem coloca-a toda em seu bordado.

As bordadeiras são artesãs. Mulheres da aldeia, sentam-se na varanda ou nos balcões soalheiros e aproveitam toda a luz da tarde. Estendem no regaço panos de linho ou de algodão, riscam desenhos, bordados são os pontos miudinhos dados com saber, dedos ligeiros conduzindo a agulha que deixa sempre o rasto de obra-prima.

E bordam, bordam enxovais de noivas com lençóis floridos e almofadas com monogramas festivos e panos redondos para o centro das mesas e toalhas de chá para mesas de ricos e toalhas de altar, de Páscoa, de baptizado, que antigamente se guardavam em baús de lata com raminhos de alfazema.

Bordam lenços, panos de tabuleiro, camisinhas de criança. Antigamente bordavam, com a poesia toda, as vestes alvas da intimidade da mulher.

A riqueza dos motivos que elas bordam tem só o gosto popular. Os símbolos foram inventados há mil anos e perduram, o significado é denso e linear ao mesmo tempo e a alma da gente compreende-os tão bem como as primeiras coisas.

São rosas, corações, estrelas. Hastes florais com pétalas que se desfolham, às vezes. Enleios que se dobram como gestos envergonhados, crivos que lembram os velhos filtros de amor, óculos que deixam passar a magia da luz.

Os desenhos das bordadeiras ficam sempre a brincar sob o nosso olhar.

bordado de Tibaldinho

O PREÇO DE ESTAR ACORDADO

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fotomontagem

O poeta olhou para o fundo da chávena. A borra do café colada à porcelana desenhava labirintos parecidos com as ruas da Baixa.

– O desassossego não é uma doença, Joaquim (disse ele, por fim).

– É o preço de se estar acordado. O imposto que a alma paga por não se deixar adormecer no conforto da burguesia.

– Meu caro Joaquim… (Pessoa sorriu com o canto da boca).

– Mentir ao que sentimos é o primeiro passo para sermos verdadeiros. O teu erro é a ingenuidade. Achas mesmo que existe aí dentro um “eu” sólido? Uma rocha a quem deves lealdade? (O poeta fez uma pausa, olhando para as pessoas que passavam lá fora) 

– Julgas-te um traidor só porque não bates certo com a tua própria emoção? Disparate. Ser fiel a um único sentimento é uma paralisia. Chamas-te a ti mesmo um pecado? Eu diria que és apenas vários homens que ainda não se conhecem. Somos muitos, Joaquim. O tipo que acorda de manhã não é o mesmo que pede o café agora. E nenhum deles tem de prestar contas ao gajo que se vai deitar logo à noite. A moral quis prender este rio numa certidão de nascimento. Querem transformar a água numa estrada de pedra. Esquecem-se de que a virtude da água é correr. É não parar.

Joaquim ouviu-o em silêncio. Aquilo soava a uma sentença antiga. Uma verdade que ele já conhecia, mas cuja execução vinha a adiar. Encostou os dedos ao mármore frio da mesa, tentando prender-se à realidade da pedra. Uma parte de si queria ceder àquela conversa de Pessoa. Queria o alívio de aceitar que ser incoerente era normal. Mas outra parte – aquela teimosia tipicamente nossa – exigia uma âncora. Alguma coisa que justificasse a dor.

– Mas eu sinto que isto não faz sentido nenhum! – atirou Joaquim (a voz saiu-lhe alta demais, partindo a calmaria do café).

– É a cabeça, Fernando. É isto. (Joaquim apontou para a própria têmpora, com os dedos a tremer ligeiramente)

 – Dou por mim a vigiar o que penso. O tempo todo. É aí que me perco. Não sei simplesmente… estar. Olho para o Tejo e não vejo água nenhuma. Vejo o tempo a fugir, a minha juventude que já era, aquelas caravelas que nunca mais voltam. Sei lá. Tudo serve de pretexto para a cabeça moer.

Calou-se. Passou a palma da mão pela testa, limpando um suor frio. Lá fora, o elétrico rangeu nos carris da Baixa.

– Eu esqueço-me de quem sou. Acho que é do meu carácter, sei lá. Invento um boneco para enfrentar a rua. Mudo a voz, empertigo as costas. Mas sei o truque. Sei perfeitamente que a pose é um biombo de papelão à frente do abismo. E o que me lixa não é a máscara, Fernando. É saber que a tenho posta. A cada segundo. Saber que, se a arrancar… não fica lá nada. Nem pele, nem carne. Só escuro. Uma noite sem fim.

Pessoa não respondeu logo. Inclinou a cabeça e a luz baça da janela bateu de lado nos óculos, transformando os olhos dele em dois espelhos brancos. Deixou o cigarro arder. O fumo subia torto, pesado, a meter-se entre os dois. Parecia que o próprio desassossego tinha ganho corpo ali em cima do mármore.

– Precisamente! – atirou Pessoa, quase num baque.

– O carácter é só a máscara que usamos para esquecer que não temos rosto nenhum. Se não nos esquecêssemos de quem somos, se ficássemos ali, cara a cara com a nossa falta de substância… como é que suportávamos o tédio de ser uma coisa só? A consciência é uma lucidez que cega, Joaquim. Quem olha demasiado para as engrenagens do próprio corpo acaba por encravar a máquina.

O poeta bateu com a ponta do cigarro no cinzeiro.

– É a dúvida que move as coisas, não é a fé. A fé é a pedra que fecha o túmulo do pensamento. A dúvida é outra coisa: é o vento que limpa o céu das certezas. Obriga-te a navegar, mesmo que o destino seja ires-te abaixo na bruma. Não fujas do abismo. Aprende a decorar as paredes dele. Mapeia as correntes de ar. Transforma-o num salão onde os teus fantasmas possam dançar sem a obrigação de mostrarem o bilhete de identidade.

(continua)