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O RESSOAR DA QUEDA: TRATADO METAFÍSICO SOBRE A DIGESTÃO DA REVOLTA

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montagem fotográfica com obras de Banksy

Ora, olhai para nós, excelsos pensadores de trazer por casa, de punho erguido e rima na ponta da língua. Que belo e terrível espetáculo este, onde o trágico da opressão se resolve com a elegância de um soneto de cordel.

A Dialética do Chouriço e do Absoluto

Dizeis que os séculos pesam mais que os anos. É uma belíssima hipérbole para impressionar os tiranos no café central. Mas perguntemos, com a devida vénia epistemológica: o tirano tem tempo para ler prosa crua enquanto conta o dinheiro dos impostos sobre o brio e o estudo? A história ensina-nos que o opressor não teme a vossa estrofe; teme, sim, o dia em que o preço do pão suba tanto que o povo decida usar os muros que ele ergueu para afiar as foices.

Quereis que o juízo seja o açoite. Muito bem. Mas quem segura o cabo? O problema filosófico da revolta é que o chicote muda de mão, mas raramente muda de função. O oprimido de hoje é o burocrata de amanhã, que passará o carimbo da censura com a mesma firmeza com que outrora segurava o escudo do grito. É a eterna astúcia da razão, ou talvez apenas a velha e boa hipocrisia humana.

A Estética da Maré e o Azar dos Muros

Prometeis uma “madrugada nova” e uma “maré que não para”. A metafísica da água é fascinante: limpa tudo, mas deixa a terra enlameada. O povo, com as suas espáduas curvadas, marchará com passo largo e estrondo alto. É uma coreografia magnífica para um documentário histórico do futuro. Contudo, convém notar a ironia existencial: quando o futuro for finalmente tomado “num último assalto”, ele transforma-se imediatamente em presente. E o presente, como todos sabemos, é aquela rotina aborrecida onde é preciso voltar a semear o trigo, limpar as ruas e pagar a conta final que o destino somou — com juros de mora.

O Paradoxo da Luz Explosiva

Terminais com a visão apocalíptica da “luz que explode em cada mão”. Do ponto de vista estritamente conceptual, ter uma explosão na mão parece doloroso e pouco prático para quem tem de lavrar o chão logo a seguir. Se já não haverá prosa, nem escárnio, nem luto, o que nos resta? O silêncio dos triunfantes. E o silêncio, meus caros revolucionários, é a matéria-prima de que os novos tiranos gostam para começar a construir os seus próprios muros seguros.

Colhamos, pois, o fruto da revolta. Mas guardemos o caroço, não vá a terra continuar seca e a madrugada nascer com nevoeiro.

O BAILE DA PINHATA

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Acredita-se que esta tradição tenha origem na China. Nas celebrações do Ano Novo Chinês, sendo o navegador Marco Pólo o principal responsável pela divulgação dessa tradição, e a sua expansão pela Europa. Em Itália adaptou-se o nome para “pignatta” e manteve a sua vertente religiosa, ajustando-se às festas da Páscoa

Em Portugal, parece ser uma tradição que se constituiu por influência de Espanha, se nos reportarmos a uma notícia publicada num jornal de Elvas, o Transtagano, de 24 de Fevereiro de 1861, onde se escreveu: “Este é o nome que tem o baile de máscaras que, no reino vizinho, pelo menos em Badajoz, costuma ter lugar no primeiro domingo da Quaresma”. A dar fé neste documento, nessa época a tradição dos bailes da pinhata ainda não estava implantada em Portugal

Para muitos autores, o baile da pinha está intrinsecamente relacionado com o Carnaval e com a Páscoa, ao ser chegada a terça-feira e depois do Enterro do Entrudo, também designado como Enterro de Bacalhau, a mocidade, embalada pelos dias de folia, custava-lhe a despedida do Carnaval. Por isso, procurava a todo o custo prolongá-lo evitando mergulhar no período de abstinência que se ia seguir até à Páscoa. Assim, a meio da Quaresma, nas sociedades recreativas, faziam-se os bailes da pinha, que eram sempre muito concorridos. Com o tempo foi-se assumindo maior flexibilidade na data, para ir, assim, ao encontro dos foliões mais “necessitados”.

O baile consiste numa cerimónia de passagem de testemunho do Rei e da Rainha eleitos no ano anterior. Com a sala esplendorosamente decorada e repleta de gente, o momento solene da abertura do baile dá-se com a chegada do Rei e Rainha do baile, acompanhados pelos respectivos vassalos e aias ou damas de honra. A fantasia e riqueza dos trajes dependem muito da imaginação, do brio dos organizadores e das personagens. Dois grandes bolos oferecidos pelo par real são servidos com bebida a acompanhar. Fazem-se leilões como em todos os bailes e dança-se alegremente até altas horas da noite

Às altas horas da madrugada, é chegado o momento de maior expectativa, de grande emoção. Trata-se da “dança da pinha” ou “dança da fita”. Só os pares (solteiros) que compraram as fitas, que previamente foram numeradas por sorteio ou leiloadas, é que podem dançar. A enorme pinha de madeira encontra-se pendurada ao tecto no meio da sala, envolvida por dezenas de fitas que pendem. A dança da pinha pode durar uma hora e tem por finalidade abrir a pinha. Ao longo da dança, o animador do baile vai anunciando, por ordem, o número do par, a pinha é descida à altura de se puxar uma fita. A dança dura até que “a fita premiada” acciona um mecanismo de abertura da pinha, soltando os brindes que se encontram no seu interior.

O significado católico das “Pinhatas” refere-se basicamente à luta entre o bem e contra o mal, em que o mal é representado pela “Pinha” e os brindes a graça que se recebe com o perdão dos pecados. Na sua origem, a “Pinha” era uma estrela de sete bicos, os quais simbolizam os sete pecados mortais. As “Pinhatas” são vistosas e com muitas cores, simbolizam o atractivo das tentações e do pecado.

A CASA

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António Dias, filho de António Dias Pires e de Theresa da Costa, casou na igreja matriz de Arganil no dia 18 de setembro de 1873 com Antónia Augusta Nogueira, filha de José Lourenço Nogueira e de Maria Theresa de Oliveira. Ele tinha 28 anos e ela, que nasceu em 1855, 18 o que, face à legislação da época, a considerava menor e obrigou a que seu pai e tutor desse autorização para que o matrimónio se consumasse.

No ano seguinte, António Dias deu início à construção de uma casa, situada naquela vila, na Rua Dr. Veiga Simões, número 6 e colocou sobre a verga da porta uma inscrição, em pedra, com a seguinte epígrafe: “1875 – A. DIAS”.

Estamos perante uma casa de construção corrente, com paredes exteriores de alvenaria de pedra argamassada com barro, composta por piso térreo, primeiro e segundo andares sobrepujados por um sótão.

USOS E COSTUMES

No piso térreo existiam dois compartimentos separados por “paredes” de taipa, neste caso de palha e barro a preencher o espaço entre os enxaiméis. Na primeira loja, guardava-se lenha já cortada e pronta a ser utilizada.

Na outra loja, a loja de dentro, como era conhecida, encontravam-se as pias e as talhas para colocar o azeite. As talhas, bastante grandes, eram de barro e as pias, uma de granito e a outra de pedra de Ançã tinham capacidade de 400 e de 300 litros, respetivamente. Também se encontravam aí, dependuradas no teto, umas tábuas onde eram colocados os queijos e a broa.

As queijeiras vinham, todos os sábados, a pé, de Santa Ovaia, com as cestas à cabeça. Traziam queijos, manteiga branca e manteiga amarela, bem como, no inverno, requeijão. O queijo comprado untava-se com uma mistura de azeite e colorau e colocava-se a secar nas referidas tábuas.

Também naquela dependência se fazia o sabão, amalgamando borras de azeite com potassa e colocando a mistura em formas de lata com formato de barra. Depois do produto estar seco, desenformava-se e cortava-se em nacos. Os arcazes do milho encostavam-se à parede e as talhas das azeitonas retalhadas ficavam ao lado.

Nas traseiras destas duas lojas existia um pátio que se encontrava sempre coberto de mato.

O primeiro andar albergava a cozinha, a sala de jantar e a sala de visitas. Como a casa não tinha quarto de banho existia um pequeno cubículo com uma espécie de banco corrido, onde se abria um buraco redondo que vazava diretamente para o pátio.

A cozinha, no início, devia ter tido lareira, posteriormente substituída por um “moderno” fogão de brasas, com duas fornalhas. As brasas vinham da serra, em sacos tapados com carqueja, à cabeça das carvoeiras. A par com esta estrutura existia um fogão de ferro, com a caldeira de bronze embutida. Todos os sábados a criada a fazia brilhar, esfregando-a com solarina.

Como não existia água canalizada, tornava-se necessário ir à fonte buscá-la, em cântaros de barro que, quando chegavam a casa, eram colocados na cantareira. Na cozinha existia ainda um alçapão por onde, quando um porco  habitava o pátio, era lançada a comida para uma pia que lhe ficava na prumada.

Era nesta divisão que, semanalmente se amassava, numa gamela, a broa; uma mistura de farinha de trigo e de milho, a que se juntava água, sal e fermento. Antes de a deixar levedar retirava-se uma pequena porção de massa para uma tijela, cobria-se com farinha, e ficava a fermentar até à semana seguinte. Quando a massa estava leveda, a criada levava a gamela para o forno comunitário, tendia umas bolas e espetava-lhe uma palheta de lata, o sinal identificativo das broas da casa.

Na cozinha também, ao domingo, se preparava a barrela da roupa. Esta era dobrada e colocada numa bacia de zinco ou de cobre com lascas de sabão à mistura. Seguidamente, vertia-se sobre este preparado, de forma a ele ficar bem molhado, água a ferver. Na segunda feira, pala manhã, a criada colocava a bacia na cabeça e rumava à ribeira de Folques, a fim de aí lavar a roupa que, seguidamente, corava e secava.

Na sala de jantar, para além da mesa oval. de vinhático, e das respetivas cadeiras, existia um louceiro e um aparador, ambos com alçado. 

Por sua vez, na sala de visitas encontrava-se um canapé de palhinha, duas cadeiras de braços e mais quatro (ou seis) de assento normal, uma mesa redonda pé de galo e uma mesa de encostar.

Como não havia luz elétrica, a iluminação era feita com azeite, utilizando candeias ou candeeiros de três bicos. Quando apareceu a iluminação a petróleo, na sala de visitas existia um candeeiro, belo exemplar com pé de mármore encrustado em metal amarelo.

No segundo andar localizavam-se os quartos. As paredes interiores eram todas de tabique, revestidas a escaiola de muito boa qualidade.

A casa terminava com um sótão esconso, coberto com telhas assentes num barrote central de onde partiam ripas. Guardavam-se lá as batatas e, numas grandes caixas de madeira cobertas com rede, as uvas.

a casa é a primeira do lado direito da fotografia que data de 1907

A DESERTIFICAÇÃO HUMANA

O casal António Dias e Antónia Augusta Nogueira teve seis filhos; a mais velha, Elvira, nasceu a 11 de novembro de 1874 e foi batizada no dia 14 de janeiro do ano seguinte. Casou com José batista de Carvalho a 14 de maio de 1902.

Em 1896 Antónia Augusta Nogueira viu-se na necessidade de se deslocar a Lisboa, a fim de ser operada a um cancro intestinal ou a um mioma e acabou por morrer no bloco operatório. Enquanto se encontrava na capital a aguardar tratamento escreveu (já sabia ler e escrever) à filha Elvira várias cartas, dando as mais diversas instruções, sobretudo relacionadas com os afazeres caseiros e assinava as missivas com um pomposo Dona Antónia Augusta Nogueira. Esta filha e o marido herdaram a casa que tem o letreiro a sobrepujar a verga da porta de entrada.

A vista aérea que tem o sombreado amarelo dá para perceber melhor a dimensão da propriedade. Todo aquele quarteirão era meu. Vendi-o porque não tinha capacidade económica de o manter. A “casa do PS” necessitava de grandes obras de restauro e consolidação. Não vislumbrava possibilidade de, posteriormente, a alugar. A outra, com 16 assoalhadas, 4 casas de banho, 29 metros de frente, varandas, terraço e uma arrecadação que ocupava metade da casa, dava-me o rendimento do aluguer das lojas, mas pagos os impostos o que restava era insuficiente para obras de manutenção.

Os filhos não queriam ir para Arganil. Já não têm lá amigos. Os netos, muito menos. Não mora ninguém no centro da vila e eu quando ia para lá, ficava só naquele casarão e podia gritar à vontade, porque ninguém me ouvia. Tenho comigo um grande desgosto e, depois de me ter defeito das casas, nunca mais passei por aquela zona.

imagens do Google maps

OS BECOS VERTICAIS DE ALFAMA

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montagem fotográfica

Deixaram finalmente o Cais das Colunas. A humidade do Tejo tinha-se colado ao pano pesado dos sobretudos. Sentiam os corpos mais lentos, os movimentos arrastados, como se o ar de Lisboa os quisesse chumbar àquela pedra toda. Cada lufada de vento vinha fria. Um aviso de que a noite tinha entrado na hora mais escura. Aquela hora em que quem dorme descansa, e quem está acordado começa a ver fantasmas.

Ficou para trás o Terreiro do Paço e as linhas retas do Marquês – aquela mania de querer controlar o mundo com um esquadro. Os dois homens meteram-se pelos becos. Começaram a trepar a colina de Alfama. A subir, a geometria de Pombal desapareceu. Deu lugar aos caprichos da Idade Média. As ruas largas viraram vielas escuras. Os ângulos retos quebraram-se em esquinas impossíveis. Os degraus de pedra, gastos por séculos de sapatos anónimos, obrigavam as pernas a um esforço maldito.

A cabeça descansou da conversa intelectual. O corpo exigia atenção. Alfama não foi feita com a razão. Nasceu da necessidade, do tempo. Um amontoado de cal e lodo a crescer como musgo nas rochas, moldando-se à colina para sobreviver ao dia a dia. Sem planos de arquitetos. Joaquim ia à frente. Apoiava as mãos nas paredes frias e húmidas das casas. Parecia que as fachadas se inclinavam umas sobre as outras, como velhas a cochichar segredos no escuro. O cheiro da cidade mudou de golpe. Acabou-se a maresia e o cais aberto. Ali cheirava a poço, a carvão apagado, a peixe seco. Cheirava a roupa estendida que nunca mais secava e à fadiga de gerações que ali tinham nascido, amado e morrido sem nunca passarem para lá de Almada. Naquele labirinto de sombras, com poucos candeeiros a gás e o escuro metido nos vãos das portas, a discussão abstrata sobre os heterónimos perdeu a força. Esqueceu-se a metafísica. Ficou a urgência do corpo, o peso do passado. A pedra antiga parecia deitar um suor frio.

— Há qualquer coisa nestes becos que te cala as vozes, Fernando — disse Joaquim.

Parou num pequeno patamar. Dali, entre dois telhados velhos, via-se um pedaço escuro do rio. Uma nesga de água cinzenta debaixo do céu sem luz.

— O Álvaro de Campos não conseguia berrar a Ode Triunfal numa ruela destas. Mal cabe um homem de braços abertos. E o Ricardo Reis? Parecia um tonto se se pusesse a recitar versos latinos aqui em baixo, mesmo ao lado de uma bacia de água suja despejada à janela. Nestes becos não há espaço para te armares em distante. Sinto que, ao subir esta colina, estamos a escavar para trás. Diretos à infância. Àquele tempo em que a vida ainda não era um texto para ser revisto. Era só o mundo a nos entrar pelos olhos dentro. Sem pedir licença.

— Diz-me uma coisa, Fernando. No meio deste desvario de livros… o que é que sobrou do rapaz que foste lá em Durban? Ou daqueles tempos da juventude, aqui em Lisboa? Que parte tua é que os teus heterónimos não conseguiram queimar? Haverá um Fernando que não escreve nada? Um Fernando que só se lembra das coisas com aquela dor de quem perdeu a infância?

Pessoa subiu os últimos degraus. Tinha o fôlego curto. O peito assobiava-lhe por baixo do casaco – culpa do tabaco e deste frio húmido que lhe dava cabo dos pulmões. Agarrou-se ao corrimão de ferro, cheio de ferrugem. Tirou os óculos para lhes limpar o bafo da subida.  Sem óculos, o rosto dele mudou. Perdeu aquela pose de intelectual que o vidro lhe dava. Os olhos pareciam subitamente mais pequenos, redondos. Indefesos. Como os de um miúdo assustado com o escuro.

— A infância, Joaquim, é a terra dos mortos que nos esquecemos de enterrar – respondeu o poeta. A voz saiu-lhe sumida, sem a força do costume. Parecia a cal daquelas paredes: gasta, a desfazer-se. – Achas que os meus heterónimos são biombos para esconder o passado? Não são. São a única maneira de o aguentar.

Pessoa limpou as lentes à pressa, com os dedos frios.

— O rapaz que eu fui na África do Sul morreu antes de eu meter os pés no barco para Lisboa. Aquele que falava inglês perfeito e olhava para o mar Índico à espera de um destino qualquer… já era. O passado não é uma terra para onde se volta. É um cemitério onde as lápides mudam de sítio todas as noites. Se eu deixasse a memória limpa da infância entrar na minha cabeça sem o filtro da arte… eu não era poeta. O cheiro do quarto da minha avó a morrer. O piano que a minha mãe tocava antes de se casar outra vez. O silêncio estúpido que ficou em casa depois de o meu irmãozinho morrer. Se eu deixasse isso entrar assim, a cru… eu não era um escritor, Joaquim. Seria só um gajo a chorar a um canto, numa repartição de finanças. O Caeiro e o Reis são as minhas paredes. As minhas defesas contra a saudade.

— Eles limparam-me o passado da coisa mais perigosa de todas: o remorso. Mudar a dor em verso é a única maneira de lhe tirar o veneno. A literatura não é fugir. É construir uma realidade que já não nos consegue magoar.

MOINHOS DE VENTO

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Às oito e dezassete, a rotunda da entrada da cidade estava parada, como todas as manhãs. Ela travou atrás de uma carrinha, puxou o travão de mão e subiu um pouco o volume do rádio.

– … com sessenta e um por cento dos votos apurados, a diferença entre os dois candidatos é agora inferior a um ponto percentual…

Às sete, enquanto aquecia o leite, tinha ouvido a mesma voz dizer quarenta e dois por cento. Às sete e meia, cinquenta e três…

– … na Ucrânia, o balanço mais recente dos bombardeamentos da madrugada aponta para vinte e uma vítimas mortais e mais de cinquenta feridos…

Ao pequeno-almoço eram quatro. Entre o galão e a rotunda, dezassete pessoas tinham passado de feridas a mortas, ou de vivas a mortas, ou, simplesmente, de não contadas a contadas. Até chegar ao escritório, haveria de surgir um número novo, redondo, bom para os títulos.

– A crise da habitação agrava-se. Segundo uma associação de inquilinos, os jovens já não conseguem viver nas cidades onde nasceram. Em Lisboa, os preços voltam a bater máximos históricos.

– E agora o trânsito. No Porto, circulação muito condicionada na VCI, com filas a perder de vista no sentido da Ponte da Arrábida.

E já a contagem de votos voltava a ser notícia quando reparou nas mãos crispadas no volante, nos tendões salientes. Os ombros contraídos. A respiração curta, à espera da próxima atualização. Em sentinela, mobilizada para uma guerra que não era a sua, para umas eleições em que não votava, atenta aos engarrafamentos numa cidade onde não estava.

Desligou o rádio.

Às nove, a reunião. A convocatória dizia das 9h00 às 10h00. Com sorte, acabará à hora de almoço. Aproveitou a fila parada para espreitar a ordem de trabalhos.

Apenas o som dos motores ao ralenti, o sopro do ar condicionado e, de vez em quando, o toque breve de uma buzina.

A fila avançou três metros. Ela avançou três metros.

Ponto um: instalação de televisões no bar e na cantina. O Dr. Pompeu, da administração, defenderá que as televisões não se justificam, por serem uma fonte de distração. A Dra. Carrapatoso, representante dos trabalhadores, defenderá a sua colocação nos dois espaços. Experiente, saberá que a proposta passará se sugerir que, além da programação habitual, se transmitam também notícias da própria empresa, com a devida cobertura da extraordinária liderança do Dr. Pompeu.

Ponto dois: reorganização de gabinetes, para acomodar os novos colaboradores. Será o ponto mais delicado, embora no papel pareça simples. Três pessoas terão de mudar de gabinete e ficar duas portas mais longe do chefe. Duas portas. A Paula fará as contas em passos, falará de «sinais», perguntará se aquilo não será uma avaliação de desempenho disfarçada. A Dra. Carrapatoso invocará o problema no joelho e as dificuldades de mobilidade que o percurso adicional lhe causará. Outros descobrirão que a distância até ao gabinete da chefia comprometerá a rapidez na resolução de assuntos urgentes. O Eng. Raposo ficará em silêncio, como sempre. Guardará os comentários para depois. Para o corredor.

Ponto três: conteúdos da newsletter da semana. Cinco propostas para quatro espaços, e nenhum autor disposto a abdicar da sua notícia ou a vê-la adiada para a semana seguinte. O responsável pelo gabinete de comunicação proporá a redução do tamanho das fotografias, para que caibam todas. A ideia provocará indignação geral. A discussão será longa. Muito longa. Quanto ao desfecho, ninguém se atreverá a prevê-lo.

Ponto quatro: diversos. Os malfadados diversos. Haverá, como sempre, alguém com um assunto inadiável, como a mudança da marca do café da máquina. É nos diversos que está o diabo. E será precisamente então, quando todos já derem a reunião por encerrada, que a Dra. Pardalão, a única perfeitamente consciente da inutilidade de todos, incluindo a sua, proporá, como sempre, a criação de uma comissão. Para rever um qualquer formulário, absolutamente fundamental, cuja nova versão apresentará na reunião seguinte, com um travessão novo ou com as letras das alíneas trocadas por números. A comissão será aprovada por unanimidade.

Às oito e cinquenta e cinco chegou finalmente à empresa. O senhor Albano saiu da guarita com o café na mão e levantou a cancela. Era assim há onze anos.

Ela baixou o vidro.

– Bom dia, senhor Albano.

– Muito bom dia, doutora.

Por cima do ombro dele, viu o seu lugar no parque, o terceiro a contar da entrada, vazio, à espera dela.

Hoje, porém, não entrou. Deu lentamente a volta à pequena rotunda em frente à guarita e viu pelo retrovisor o senhor Albano parado, com a cancela no ar, sem perceber. Acenou-lhe e seguiu.

Regressou a casa. Descalçou-se, pousou a mala e foi direita à estante. Sem hesitar, deitou a mão ao volume grosso da prateleira de cima, entalado entre dois outros que também nunca abrira. Notou como a lombada vermelha estava desbotada pela luz da janela.

Sentou-se no sofá.

Às nove e vinte, o telemóvel vibrou. Era a secretária da direção: Senhora doutora, a reunião já começou. Informo que vamos prosseguir.

Respondeu: Não contem comigo.

A resposta veio em segundos: Com certeza. Fica registado.

Nem uma pergunta. Nem um porquê.

Tirou o som ao telemóvel e pousou-o na mesa, com o ecrã virado para baixo. Ajeitou-se, encostou a cabeça e deixou as mãos repousarem lentamente sobre o livro. Ficou assim por instantes, até os ombros relaxarem e a respiração acalmar.

Passou os dedos pela capa. Abriu-o devagar. A lombada estalou. Das folhas amareladas subiu o cheiro a papel envelhecido.

Começou a ler:

“Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me…”

MATA-SE O BICHO, ACABA A PEÇONHA

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Do conflito fanático entre as crenças resultam amiúde destruições inúteis e lamentáveis. Em todos os tempos e lugares.  Desnecessário será falar de estátuas que se apeiam, de monumentos que se espedaçam – na presunção de que, assim se mata o bicho, se acaba a peçonha e mais facilmente tudo se leva de vencida.

No tempo dos Romanos, condenava-se a memória do imperador indigno martelando-lhe o nome nas inscrições em sua honra: era a damnatio memoriae.

Vieram os Cristãos e deceparam-se as estátuas de imperadores, de nobres e de divindades e – não raro! – esse mármore no forno viria a ser transformado em cal.

Mostra-se no Centro de Interpretação de Penedono, em lugar de destaque – e com razão! –  tosco baixo-relevo de uma figura humana, adossada ao que sabemos ser, pela tipologia, um altar romano. Pedro Manuel Sobral de Carvalho, no Roteiro Arqueológico do Concelho de Penedono, editado pela Câmara Municipal de Penedono em 1989, diz (p. 79) que a peça estava «num pequeno casebre, junto à Quinta da Arca, a cerca de 1 km a sul da aldeia de Arcas», freguesia de Granja, informando que a imagem era «localmente adorada como Santa Apolónia». «Tem uma veste visível ao cobrir as ancas», adianta Pedro Carvalho, «a cabeça possui orelhas salientes, olhos bem cavados e boca; não tem cabelo nem nariz; os braços acompanham o corpo até ao ventre, onde inflectem e unem. As pernas, sem pés, assentam numa base».

Não se explica a razão da escolha de Santa Apolónia – que a haverá – mas o certo é que, na verdade, segundo o Hagiológio, esta virgem e mártir que viveu em Alexandria, no século III, celebrada a 9 de Fevereiro, é invocada como a padroeira dos dentistas, da cirurgia dentária e de quem sofre de dores de dentes, pelo que é frequentemente iconograficamente representada a segurar uma tenaz ou um alicate com um dente. Na Península Ibérica, o culto à santa está fortemente disseminado em paróquias rurais e urbanas de comunidades do Norte (Galiza, Astúrias, País Basco, Castela e Leão); recorde-se que a designação de Santa Apolónia para a conhecida estação de Lisboa deriva do facto de ter sido construída no local onde existia um convento com esse nome.

Pese embora essa crença, o baixo-relevo nada tem a ver com a mártir, porque faz parte integrante de um altar (votivo ou funerário) romano. Votivo, se dedicado a uma divindade, que, nesse caso, podia ter sido representada no baixo-relevo; se funerário, a imagem seria a do defunto.

Nesse âmbito, porém, o fanatismo (ou a ignorância) entraram em acção, pois que todo o texto original romano em latim, gravado na face dianteira do altar foi integralmente picado, para que do período pagão vestígio agora não restasse mais.

A palavra TURIIVS que, por estar inscrita no capitel, milagrosamente escapou ao camartelo aí está a denunciar a origem: Tureus, ou Tureius como tem sido amiudadamente assinalado dos livros da especialidade, é um antropónimo da época romana, que etimologicamente remonta, todavia, ao período pré-romano.

É bem sabido que às pedras – sobretudo as que ostentam letreiros – foi dado o privilégio de terem uma mensagem a transmitir. Esta, da Quinta da Arca, Granja, Penedono, na sua singeleza, tem, na verdade, uma história para contar.

(em co-autoria com José Carlos Santos)

A POLÍCIA NÃO MUDA

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De repente, sem que houvesse qualquer motivo, os polícias saíram das carrinhas, alguns deles com cães pastor-alemão, e vai de bater, ao acaso, em todos os que lhes apareciam à frente. Muitos jovens fugiram para a praia, com os policiais em perseguição. Os agentes da autoridade não hesitaram e invadiram o areal. E, como se veio a saber mais tarde, os veraneantes, entre os quais se encontravam familiares e amigos de personagens do regime, não escaparam ao vendaval de pancadaria e levaram umas boas bastonadas. Poder-se-ia dizer que foi uma espécie de ‘justiça poética’.

Outros fugiram pela avenida do Casino Estoril, sempre com os polícias no seu encalço. A polícia não queria, apenas, impedir o concerto. Queria bater, sem dó nem piedade, nos jovens que ali estavam, ou em quem lhes aparecesse à frente. Uma espécie de punição que lhes servisse de exemplo.

A intervenção do corpo de intervenção da PSP, na Praça D. João I, no Porto, pela calada da madrugada, sem que as televisões estivessem presentes, transportou-me para o ano de 1972.  No local já estava um número reduzido de manifestantes. Não houve provocações, nem agressões aos polícias e, mesmo assim, a intervenção musculada foi bem violenta. Como dizia um conhecido comentador, via-se que ‘estavam a bater com gosto’. Podemos dizer que receberam ordens, claro que sim. O ‘exterminador implacável’ foi bem vocal quanto à intervenção. Curiosamente, depois de ver as consequências acobardou-se e, possivelmente, irá sacudir a água do capote e dizer que não teve nada a ver com a violência da PSP. O normal desta classe de políticos de geração espontânea ou de fast food. Mas os responsáveis operacionais não estão isentos. Esperaram que as televisões saíssem, que estivessem menos manifestantes. E deram, certamente, ordens para agir com força.  Porém, esqueceram-se que existem telemóveis e que a intervenção poderia ser filmada.  Diante da exposição mediática da intervenção brutal do corpo de intervenção, em que aproveitaram a oportunidade para ‘molhar a sopa’, apareceram, de imediato, nas televisões, os especialistas em segurança e ex-directores nacionais da PSP a explicar o inexplicável. Todos eles viram uma realidade virtual, construída por eles e para eles. Felizmente existem telemóveis e, azar dos azares, uma equipa da RTP filmou toda a sequência do ataque.

O princípio da razoabilidade não foi aplicado nesta intervenção. A Constituição da República Portuguesa (CRP) atribui direitos fundamentais aos cidadãos, direitos esses que podem ser comprimidos pelo legislador para a proteção de outros direitos fundamentais ou de outros interesses constitucionalmente protegidos. Porém, o legislador está limitado por vários princípios, entre os quais se conta o da ‘razoabilidade’. Na ponderação entre os direitos protegidos e os interesses públicos em presença, o legislador está impedido de deixar o titular de um direito fundamental desprovido de proteção legal e numa situação intolerável, ou seja, privado do direito fundamental que lhe foi constitucionalmente atribuído. Os manifestantes exerceram o direito constitucional plasmado no artigo 45º da Constituição da República Portuguesa. E resistiram no exercício de outro direito plasmado no artigo 21º da CRP. Qual foi o direito violado pelos manifestantes? E se violaram algum direito qual a ponderação que foi feita entre esses direitos?

Sem resposta para esta questão, voltamos à violência da intervenção. Que não me espanta, porque a natureza não se muda, e a polícia também não.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: O FUTURO AINDA É HUMANO

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A Inteligência Artificial entrou nas nossas vidas sem pedir licença. Está nas empresas, nas universidades, nos hospitais, nas redacções, nas escolas e nos serviços públicos. Escreve, traduz, calcula, investiga, programa e responde. Faz em segundos tarefas que, até há pouco, exigiam horas de trabalho humano.
Mas a questão decisiva não é saber até onde chegarão as máquinas. É perceber o que acontecerá ao homem quando uma máquina começar a fazer coisas que, durante séculos, considerámos manifestações da inteligência humana.
A história da tecnologia é também a história da transformação do trabalho, das sociedades e das relações entre as pessoas. A diferença, agora, é que não estamos apenas a automatizar a força física ou tarefas repetitivas. Estamos a entrar no território do pensamento, da linguagem, da criação e da decisão. O que está em causa não é apenas uma revolução tecnológica. É uma questão de civilização.

O trabalho e a condição humana

A Inteligência Artificial pode libertar-nos de tarefas inúteis, melhorar os cuidados de saúde, democratizar o acesso ao conhecimento e ajudar a resolver problemas que ultrapassam a capacidade individual. Seria absurdo ignorar estas possibilidades ou recear toda a inovação.
Mas seria igualmente ingénuo acreditar que o progresso tecnológico produz, por si só, progresso humano.
Quem beneficiará desta transformação? Quem controlará os instrumentos, os dados e a riqueza que eles geram? Que acontecerá aos trabalhadores cujas competências deixem de ser necessárias? E que sociedade construiremos se a eficiência económica se tornar o principal critério para avaliar o valor das pessoas?
Uma sociedade não pode medir a dignidade humana pela produtividade de cada um. O ser humano vale mais do que aquilo que produz, mais do que a sua utilidade económica e infinitamente mais do que a sua capacidade de competir com uma máquina.
A tecnologia deve servir as pessoas. Não são as pessoas que devem ser reduzidas às exigências da tecnologia.

Pensar continua a ser indispensável

Há outro risco, talvez menos visível: o de começarmos a delegar nas máquinas não apenas o trabalho, mas também o esforço de pensar.
Quando uma resposta aparece imediatamente, podemos esquecer a importância de formular a pergunta. Quando um sistema apresenta uma conclusão convincente, podemos deixar de a interrogar. Quando tudo parece acessível, corremos o risco de confundir informação com conhecimento e conhecimento com sabedoria. Mas informação não é conhecimento. E conhecimento não é sabedoria.
Pensar exige tempo, dúvida, confronto de ideias, experiência e capacidade de reconhecer os próprios erros. Exige também responsabilidade: alguém tem de responder pelas decisões tomadas e pelas consequências que delas resultam.
É por isso que a educação assume uma importância decisiva. Não basta ensinar as novas gerações a utilizar ferramentas de Inteligência Artificial. É necessário ensiná-las a questionar, verificar, distinguir, argumentar e pensar pela própria cabeça.
Uma escola que forme utilizadores competentes, mas dispense cidadãos capazes de julgar criticamente, poderá preparar pessoas para o mercado de trabalho e falhar na preparação para a liberdade.
E Portugal?
Portugal não pode limitar-se a assistir a esta transformação, consumindo tecnologias concebidas noutros lugares e aceitando, como inevitáveis, as decisões de quem as controla.
Precisamos de investir no conhecimento, na ciência, na educação e na qualificação dos trabalhadores. Precisamos de empresas capazes de inovar, de instituições públicas preparadas e de políticas que não deixem para trás os mais vulneráveis. E precisamos de participar, com pensamento próprio, na discussão europeia sobre os limites e as responsabilidades desta nova era. Não temos de disputar com as grandes potências todos os instrumentos tecnológicos. Temos, porém, de saber que sociedade queremos construir com eles.
A dimensão de um país não se mede apenas pela sua capacidade de produzir tecnologia, mas também pela inteligência com que a utiliza, pela cultura que preserva, pela justiça que pratica e pela liberdade que garante.
A Inteligência Artificial pode ajudar-nos a construir um país mais informado, mais eficiente e mais capaz. Mas não substituirá a vontade política, a responsabilidade colectiva nem a coragem de enfrentar os problemas que há demasiado tempo adiamos.

O futuro não é uma fatalidade

A tecnologia não escolhe os valores em nome dos quais é utilizada. Essa escolha continua a pertencer-nos. Podemos construir um mundo em que a Inteligência Artificial amplie as capacidades humanas, reduza desigualdades e nos devolva tempo para aquilo que verdadeiramente importa. Ou podemos permitir que concentre poder, fragilize direitos e transforme cada pessoa num conjunto de dados, previsões e resultados.
A diferença não estará apenas nas máquinas que formos capazes de criar. Estará nas escolhas que fizermos, nas regras que estabelecermos e na humanidade que estivermos dispostos a defender.
É por isso que esta discussão não pertence apenas aos engenheiros, aos empresários ou aos governantes. Pertence a todos nós. Porque o futuro não será verdadeiramente nosso se deixarmos de participar na sua construção.
A Inteligência Artificial poderá tornar-se cada vez mais poderosa. Caberá aos seres humanos decidir ao serviço de quem estará esse poder e de que valores será instrumento.
No fim, a pergunta essencial continuará a ser a mesma: não apenas que mundo queremos construir com a Inteligência Artificial, mas que humanidade queremos preservar dentro dele. O futuro ainda é humano. Mas não está garantido. Temos de o construir.

O LOUREIRO DA QUINTA DO VALBOM DAS MINHAS MEMÓRIAS DE INFÂNCIA

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Ali nascia, como no Éden que os antigos Livros de Horas pintavam, um riozinho, na mina de água que, de tão fresca e tão límpida, se aproveitava para beber e logo se dividia, como o rio do Éden, em quatro braços que, de tão modestos ficaram sem nome, estes riozinhos, que iam regar pelo estio fora quartéis de feijões, hortas de morangos, milhos de hastes já arvoradas e os renques de macieiras e pessegueiros que bordejavam os caminhos dessa Quinta de memória e de sonho.

Também era terra de vinha e meloal, de figueiras, de castanheiros sem conto, de mato e pinhal, mais de pão, fartos centeais ondulando em Maio com o pendão, rolheiros grandes, na eira, no começo de Agosto, palheiros fartos por todo o ano e o pão na masseira levedando devagar.

No casario da Quinta morava a Tia Piedade. Ela e outros herdeiros partilhavam aquela herança de família.

Sobre um cômoro, perto da mina e dos cortiços das abelhas, crescia, nem a tia sabia desde quando, um loureiro que meus braços de menino nunca foram capazes de abraçar. Tinha uma copa redonda, de verde-escuro e era assim todo o ano, como as oliveiras.

No tempo certo, ao findar da Primavera, a mãe e a tia cortavam raminhos compridos de loureiro e punham-nos a secar, à sombra, na janela, sobre um largo tabuleiro e guardavam depois as folhas secas em saquinhos de linho e utilizavam-nas nessa delícia de cozinhados que elas inventaram e mais ninguém fez igual ainda. E, no Domingo de Ramos, também levavam para a igreja raminhos de loureiro que, depois, guardavam pendurados no frontal de madeira a espaldas da cozinha.

Mais tarde, quando fui estudar para a cidade, aprendi a história, que era ao mesmo tempo linda e triste, dessa árvore estranha que é o loureiro, de que se não colhiam frutos, só flores.

folha de louro

Era assim, como vinha nos livros:

Um dia, Cupido, o pequeno deus travesso que carregava ao ombro uma aljava cheia de flechas, resolve vingar qualquer antiga afronta de Apolo, filho de Zeus, Senhor dos Céus antigos. E despede, então, uma flecha de ouro ao coração de Apolo, que se enamorara perdidamente de Dafne, a belíssima filha de um rei que descuidadamente se banhava no rio.

Outra flecha, esta de chumbo, atinge o coração da ninfa, que se torna indiferente ao amor e a quem só apraz a liberdade da floresta.

Apolo, desesperado, bem persegue a ninfa por todos os caminhos. Mas ela se esquiva sempre. E quando já não pode, com seus recursos, escapar aos braços de Apolo, nem lhe chega a ajuda de seu pai nem de um qualquer deus protector, metamorfoseia-se em loureiro; e Apolo apenas pôde abraçar o tronco do loureiro, a árvore que se tornará a sua árvore, que se tornará o símbolo da eterna juventude, da força e da braveza e da frescura dos dias.

Dos seus ramos os reis antigos mandavam tecer as coroas com que coroavam, depois, as altivas frontes dos poetas e dos heróis. Os seus místicos ramos coroam ainda hoje as frontes de todos os vencedores.

Mas quem se lembra ainda desta história antiga?!…

JÁ NÃO SE AGUENTA…

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bancada do Chega

Ao tempo, efectivamente já vão muitos anos, nas Cortes, usava-se uma linguagem quase que poética, mas de muito bom gosto, para a altura. Claro que agradar a um rei, era, ou tinha que se ser engenhoso na linguagem para não ferir a sensibilidade de sua majestade, mas, simultaneamente não dar aos outros “parlamentares” a ideia de um desprovimento intelectual e socialmente um, digamos assim, cidadão desprovido de capacidade intelectual.

Os tempos evoluíram e na Assembleia, que sempre foi do povo, agora na primeira república, a riqueza de vocabulário foi-se cultivando, dando às frases e ideias, um respaldo histórico, sempre no sentido de não se cometerem os erros do passado, indicando novos caminhos, com um linguarejar elegante, dando ao orador uma nota de um estatuto de fluência linguística e competência política.

A Assembleia a seguir ao 25 de Abril, teve num período curto, uma forma de discurso menos filosófica, mas civilizada. Nos tempos recorrentes, a incivilidade tomou conta do espaço da Assembleia da República e os insultos velados, ou até frontais, por incapacidade linguística dos deputados que os proferem, leva os beligerantes deputados a provocarem interrupções já sistematizadas, no decurso da ordem do dia, que já levam ao ataque com carácter pessoal. Esses ataques são suportados com textos nas “redes” ditas “sociais”, onde se apoiam os oradores da Assembleia da República e pretendem que os leitores concordem e apoiem estas calunias, e vejam quem as diz, como sendo os únicos deputados capazes de dizer a verdade no e ao país.

Nestas redes, está montado um cenário que nos tenta convencer que é verdade o que determinado dirigente “gritou” e argumentou jocosamente, na Assembleia da República. Conseguem desgastar a confiança dos cidadãos, conseguem levar a um “medo social” sobre “invasões” de estrangeiros, todos são corruptos (menos eles), numa catadupa de discursos de medo e ódio sem justificação nenhuma.