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ELOGIO DA MAÇÃ E DA CASTANHA

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Começo por citar pequeno parágrafo de um bonito texto de Sophia de Melo Breyner Andresen: A coisa mais antiga de que me lembro é de um quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima de uma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, una e inteira.

Permito-me parafrasear o texto de Sophia. E dizer que, das imagens mais antigas de que me lembro, não é a do mar, que conheci muito tarde, é a do pequeno horizonte da quinta do meu pai, vestido, ao longe, por uma singular mancha de castanheiros antigos, muitos deles seculares, debruado junto aos ribeiros, que regavam a pequena quinta por renques de macieiras, de que evoco a cor vibrante das maçãs Bravo de Esmolfe, a luzidia cor das maçãs camoesas, o delicioso sabor acre das maçãs reinetas, que aprendi a dizer cabaçais, e eu, como Sofia, nessas poéticas tardes de outono, ali encontrava a felicidade perfeita. Ali, em Sernancelhe.

Nesse vizinho chão, onde teve seu berço a Confraria da Maçã Portuguesa, a maçã, seu emblemático fruto, é designada como “fruto da terra, das raízes e da luz”.

Singulares estes apelativos de profundo significado.

Fruto da terra, deste chão que vem sendo povoado desde o Neolítico, como atesta esse alfobre de monumentos dolménicos, que hoje são cartaz ao longo dos trilhos que atravessam a serra de Leomil ou da Lapa; este chão que foi romano, foi godo, mouro e cristão; este chão que pertenceu ao rei; que pertenceu a senhorios laicos e eclesiásticos, onde habitaram lavradores livres e jornaleiros sujeitos; este chão onde os homens agora se igualam em seus direitos, onde labutam ainda com algum suor.

Chão de húmus propício, no aconchego do vale, onde correm ribeiros e o Rio Távora e onde nasce o rio Vouga.

Chão de encostas soalheiras, onde os frutos ganham os distintivos da cor e do sabor, que, ao despertar o outono, se soltam, agora, sobre as modernas paletes que os levarão aos quatro cantos do mundo.

Fruto da terra!…

Fruto das raízes e da luz!…

Fruto das raízes. Quer dizer que vem de longe, do princípio, de um tempo que mal pode chamar-se assim, porque ainda não existia a história.

A maçã vem do tempo em que Javé, o mundo já criado, vinha passear com Eva e Adão nesse Jardim que lhes talhara, o místico Jardim de Éden de que nos conta o Génesis, ao descrever os mitos fundadores da nossa cultura judaico-cristã.

Por esse mito, escrito em livro santo, sabemos que Javé ali fizera desabrochar as macieiras e uma delas havia, preciosa, que estava no meio do Jardim, de que Eva e Adão não poderiam recolher frutos.

Seduzida pela cor, pelo perfume, num outono qualquer, Eva colheu uma maçã e deu outra a Adão.

Adão e Eva de Tiziano Vecelli –1550

E, pela vez primeira neles, se gerou o verdadeiro conhecimento, isso que fora atribuição divina até ali. Maçã, fruto da luz. Eva e Adão reconheceram que estavam nus. Conheceram a sua desobediência. E deixaram a seus filhos, mais tarde, nós, essa capacidade de conhecer, de distinguir, o livre arbítrio que nos faz homens.

Maçã, fruto da terra, das raízes e da luz.

Fruto do Paraíso, o primeiro fruto que teve nome na nossa história, na nossa cultura.

Da castanha não nos fala o Livro do Génesis.

Mas ei-la, logo ali.

Eva e Adão, fechadas as portas do Éden, caminharam sobre uma terra ainda vazia, abrindo os primeiros caminhos. Javé deu-lhes por agasalho, era outono, tempo das maçãs maduras, uma túnica de cordeiro. Não lhes encheu o bornal da merenda.

E Eva e Adão, os primeiros viventes nesta terra dos homens que agora é nossa, encontraram o primeiro alimento nas castanhas que, nesse virginal outono, se despejavam pelo chão, por onde abriam caminho. Foram eles quem primeiro as conheceu. E chamaram pão às castanhas que comeram. Fruta-pão, nome que nossos avós, seus filhos, mantiveram e Árvore-do-pão chamaram aos castanheiros.

E eis-nos celebrando, hoje, estes dois frutos. São ambos antigos. Desse princípio de mundo. Basta ver alguns troncos de castanheiros vizinhos, que têm mais de mil anos. Vieram, as árvores-mãe de ambos os frutos desse Oriente longínquo, onde o Éden pousara.

Cobrem hoje a nossa terra. Os frutos multiplicaram-se em variedades, a maçã e a castanha, como as raças dos homens.

Ambos se tornaram pão. Ambos foram indispensáveis ao longo da nossa história. Manjares do povo. De reis e senhores. Manjares da gente do trabalho. Manjares de cerimónia operados em cenóbios antigos.

Magníficos frutos celebrados por poetas, por ilustres pintores do tempo de Grão Vasco ou pelos naturalistas do século XIX, que todos deixaram em museus singulares representações.

Maçã e castanha, que estas Confrarias irmãs celebram, ano a ano, e permanentemente os celebram junto de quantos, lavradores diligentes, empresários activos, autarquias empenhadas, que, nestes tempos de globalização, com empenho, com suor, com alegria, com muito trabalho, muita dedicação, com a luz do sol dos verões das Terras do Demo e os frios benfazejos, com as águas de outono, dádiva da Mãe-Natureza, bênção que se tornará propiciadora da colheita que se espera generosa.

Frutos de esperança, nestas terras, a maçã e a castanha.

O GRANDE TROPEÇÃO COLETIVO DA HUMANIDADE

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Já não há metáforas que possam ter alguma equivalência ao declínio humano. Quando suspiro, penso: – Ah, a humanidade… Essa magnífica espécie que descobriu como dividir o átomo, mas que ainda não percebeu que o sinal de “Puxar” na porta não é um convite para um duelo de força física.

Se olharmos de longe, somos um prodígio de engenharia biológica. De perto, somos basicamente semelhantes a um primata ansioso com um smartphone na mão, a tentar convencer-se de que é o centro do universo enquanto tropeça nos próprios atacadores. O triunfo da lógica (ou a falta dela) leva-me a concluir que o que mais me fascina no Sapiens não é a sua inteligência, mas a sua dedicação quase religiosa ao absurdo.

Somos o único animal que paga fortunas por comida que nos faz mal, para depois pagar fortunas por medicamentos que combatem os efeitos dessa comida. Inventamos o conceito de “Tempo” apenas para dizer o dia inteiro que não o temos, enquanto o gastamos com meras futilidades. Acreditamos em teorias da conspiração complexas — como a Terra ser plana ou o mundo ser governado por lagartos — porque aceitar que a realidade é apenas um caos aleatório, onde ninguém está realmente ao comando, é, aparentemente, demasiado assustador.

Dizem que a Internet seria a “Biblioteca de Alexandria” no bolso de cada cidadão. O resultado? Temos acesso a todo o conhecimento humano acumulado e usamos essa ferramenta divina para discutir com desconhecidos se o ananás deve ou não estar na pizza, ou para partilhar fotos de torradas que se parecem com o rosto de uma celebridade. Criámos a Inteligência Artificial porque, convenhamos, a inteligência natural já dava sinais de fadiga.

A nossa irracionalidade é a nossa verdadeira “impressão digital”. É o que nos faz comprar um fato de banho em pleno inverno porque está em promoção e ignorar as alterações climáticas porque “hoje até está um bocadinho de frio”. O ser humano é um mestre na arte de ignorar o óbvio. Construímos castelos de cartas sobre fundações de ignorância e depois ficamos genuinamente ofendidos quando a gravidade decide fazer o seu trabalho. Somos criaturas que temem o escuro, mas que passam a vida a fechar os olhos à luz dos factos.

No fundo, talvez a nossa estupidez seja a nossa maior defesa. Se fôssemos totalmente lógicos, a vida seria uma folha de Excel cinzenta e impecável. Sem a nossa gloriosa capacidade de sermos absurdos, quem é que riria das piadas? Quem é que compraria o “manual de autoajuda para ser feliz em 5 passos”?

Ainda continuando a falar de aberrações: a política e a guerra. São os dois passatempos favoritos da humanidade quando nos cansamos de ser apenas individualmente estúpidos e decidimos ser catastróficos em grupo. Se a história humana fosse um exame de condução, já teríamos tido a licença perdida no primeiro milénio; no entanto, continuamos a acelerar em direção ao muro, discutindo quem escolhe a música no rádio.

Quanto à política, parece um teatro do absurdo em alta definição. É o único setor onde se pode ser promovido por falhar espetacularmente. O cenário político global atingiu um nível de surrealismo que faz as pinturas de Salvador Dalí parecerem fotografias de passaporte. Vivemos a “Era das Bolhas Algorítmicas”, onde a sátira está morrendo porque a realidade é mais ridícula do que qualquer piada. As pessoas consomem notícias por feeds personalizados que apenas confirmam o que elas já pensam, impossibilitando qualquer diálogo racional.

No auge da ironia, líderes envolvidos em conflitos brutais são sugeridos para prémios de paz. A guerra é o monumento máximo à nossa incapacidade de partilhar um planeta pequeno. Gastamos biliões em arsenais nucleares que, se alguma vez forem usados, garantem que ninguém restará para contar quem ganhou. É o equivalente a comprar um seguro de vida onde a casa explode e o segurado morre.

A política e a guerra provam que a inteligência humana é uma ferramenta poderosa, mas que, infelizmente, costuma ser entregue a pessoas com o equilíbrio emocional de uma criança de cinco anos a quem roubaram o brinquedo — a diferença é que agora o “brinquedo” tem ogivas nucleares.

OTA

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Decidi quebrar o enguiço e, em serena manhã de domingo, passeei-me pelas ruas quase desertas do centro urbano. Vi a calma do mercadinho, ao ar livre, no largo traseiro à igreja paroquial…

… a semiobscuridade do templo, deserto – a hora de missa já passara – convidava à oração.

Espreitei um alpendre. Saudosas do seu tempo útil, queixaram-se-me da ferrugem que as consumia alfaias agrícolas ao abandono: charruas, uma grade de bicos, uma roda (para tirar água de poço?)… E segredaram-me:

– Se pedisses à Junta de Freguesia que olhasse por nós. Até poderíamos ficar limpinhas, num espaço jeitoso, a contar aos meninos de agora para que é que nós servíamos…

– Sabem – respondi-lhes – eu não sou de cá. Vim para um casamento…

Deixei-as, porque, de repente, uns dizeres junto às portas me chamaram a atenção:

– Olá, vizinha, bom dia! Que significam estes dizeres?

– É dos Reis. Os grupos passam a cantar as Janeiras e pintam esses dizeres! Uma tradição nossa!

Li depois a explicação mais à frente, num painel, em português e inglês:

Pensei de novo nas alfaias. Se calhar, a Junta, que pôs este letreiro e até mandou fazer azulejo a mostrar como era antigamente o Largo Dr. Mário Madeira, um dos largos mais concorridos do lugar, se calhar, até era capaz de pensar nelas…

Depressa, porém, outra parede me chamou a atenção, a anunciar um Centro de Interpretação. Um Centro de Interpretação? – pasmei.

Estava encerrado, mas vim a descobrir depois de que é que se tratava: do Canhão Cársico de Ota, classificado como “monumento natural local”, «o mais espectacular e extenso vale em canhão das regiões calcárias portuguesas»! Totaliza 316,29 ha e encontra-se localizado entre as aldeias da Atouguia das Cabras e da Ota.

Um canhão é, do ponto de vista geológico, um vale estreito, geralmente provocado pela constante erosão das águas ao longo de milhões de anos. Neste caso, o culpado foi mesmo a Ribeira da Ota, curso de água sazonal que nasce na Serra de Montejunto e que percorre a Serra da Ota, onde se formaram inúmeras cascalheiras ao longo de 2,5 km, devido à erosão flúvio-cársica das paredes verticais que formam actualmente o canhão.

Gerou-se, dessa sorte, um ecossistema de características invulgares, propício a que a população para aí organize passeios, a fim de, serenamente, observar espécies raras, animais (o bufo-real, o corvo, o melro azul, a garça-vermelha, a águia cobreira, o noitibó, a águia-calçada…), assim como fósseis abundantes… Enfim, numa comunhão única! Hélder Cardoso, entomólogo do Bombarral, teve mesmo ocasião de aí instalar uma estação para estudo das borboletas nocturnas, que constituem excelentes indicadores da saúde do ambiente.

Muito longe estava eu, portanto, de vir a saber que este canhão me levaria a esquecer – pelo menos, durante algum milagroso tempo – os bem diferentes, mortíferos e barulhentos canhões da actualidade bélica!…

E, assim, Ota passou a ter, para mim, superior encanto.

«COMO UMA NUVEM VERDE»

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Na sala admiradores, parentes e amigos da autora. Alguns dos presentes quiseram dizer alguns dos poemas que mais lhes haviam suscitado a atenção.

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Com prefácio de Jorge Castro, o livrinho, de 68 páginas, é edição de Poética Edições e contém 55 poemas. O último, sobre o amor, congrega «olhar, silêncio, paz». O primeiro é a ternura da avó: «Um dia, quando eu for longe, | levarei o azul dos teus olhos». Pelo meio, a autora, «Um dia calada, mais um, | na soleira da porta», recusa-se a «regressar às memórias».

E faz bem – porque, de facto, é sempre muito mais sadio olhar para diante. Mesmo quando «sentada na cadeira | de baloiço do bisavô»…

EDITAL: INSTRUÇÕES PARA A AUTO EXTINÇÃO EFICIENTE

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Parabéns. Chegámos finalmente ao auge da nossa sofisticação intelectual. Conseguimos a proeza de transformar o horror visceral em estatística higiénica. Falar de guerra hoje é um exercício de estética: discutimos o alcance de um míssil como quem aprecia a curva de um decote, e planeamos invasões com o desapego de quem joga uma partida de xadrez num domingo de chuva.

É admirável a vossa capacidade de esquecer que, por baixo do metal que brilha no satélite, existe uma coisa inconveniente chamada carne. A carne queima, sabiam? E faz um barulho bastante desagradável quando é triturada por metais de alta precisão. Mas não deixem que esse detalhe “humanitário” estrague a vossa retórica de soberania. Afinal, o que é uma criança sem pernas perante a majestade de uma fronteira redesenhada no mapa?

Continuem assim. Ignorem que a guerra não é um “tabuleiro geopolítico”, mas sim um talho a céu aberto onde o lucro de uns é pago com o tutano de outros. É fascinante observar como a humanidade se tornou especialista em eufemismos: não chamamos “assassinato em massa” quando podemos dizer “ajuste estratégico”. Não chamamos “agonia” quando podemos dizer “danos colaterais”.

O vosso aviso é este: a Natureza não tem pressa, mas tem memória. Enquanto brincam aos deuses com os vossos botões de pânico, o chão que pisam prepara-se para vos engolir a todos – generais e poetas, culpados e cúmplices. Se o vosso objetivo é provar que a inteligência foi um erro evolutivo, descansem: a prova está entregue e o veredito é de uma vacuidade absoluta.

Preparem as medalhas para os vossos esqueletos. Serão as decorações mais brilhantes num deserto onde ninguém restará para governar.

EUROPA, RECOMENDAÇÕES PARA 2026

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  1. O “Eramus Obrigatório” para Políticos – Em vez de jovens estudantes, todos os chefes de Estado passariam seis meses a viver com o salário mínimo de outro País da União. A Coesão: Imagine um chanceler alemão a tentar arrendar um T1 em Lisboa ou um primeiro-ministro grego a gerir a pontualidade de um comboio na Filândia. A empatia burocrática atingiria níveis recorde.
  2. Tradução Automática de “Politi-quês” para Humano – A Comissão Europeia implementaria um filtro de IA obrigatório em todos comunicados. A Mudança: Termos como “autonomia estratégica aberta” seriam traduzidos para “ vamos tentar não depender tanto de quem não gostamos”. Se o povo entender o que Bruxelas diz, a coesão deixa de ser um mito urbano.
  3. A “Euro-Visão” da Fiscalidade – Um concurso anual onde cada país apresenta a sua proposta de orçamento com coreografias e luzes LED. O Benefício: Já que perdemos tempo a analisar números que ninguém lê, pelo menos tornamos o debate sobre os fundos de coesão entretido. Quem tiver o melhor sistema de combate à corrupção ganha “12 pontos” e prioridade nos fundos do NextGenerationEU.
  4. O Sistema de “Puntos de Sesta” Unificado – Para equilibrar o Norte produtivo com o sul relaxado, criar-se-ia a “ Sesta Europeia Harmonizada”. A Regra: Entre as 14h00 e as 16h00, o continente inteiro desliga o Wi-Fi. Menos e-mails significa menos burocracia desnecessárias e cidadãos muito mais felizes e menos propensos a sair da União.
  5. Substituir Fronteiras por Buffets Transfronteiriços – Em vez de controlos alfandegários, as fronteiras teriam mesas de 1km com especialidades de cada lado. O Resultado: É impossível odiar um país vizinho enquanto se partilha um croissant e um pastel de nata. A coesão territorial passaria pelo estômago, o único órgão europeu que nunca precisa de tradução.

CRIANÇA DE 5 ANOS APANHA TIRO NO PEITO

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Maria ainda só tinha 5 anos quando foi atingida a tiro no peito. Dali a uns dias a família iria celebrar o sexto aniversário da menina, mas a festa ficou estragada com a bala perdida do disparo de um agente da Polícia Judiciária.

A cena passou-se em outubro de 1987, no antigo bairro Pedreira dos Húngaros, um território difícil onde a pobreza se misturava com injustiça social e discriminação, mistura fértil para o surgimento de muitos pequenos criminosos, bandidos pilha galinhas, tráfico e consumo de droga.

De acordo com relatos publicados na época, o acidente ocorreu cerca das 15 horas, na ocasião em que muitas crianças brincavam nas ruas sujas e esburacadas daquele bairro degradado”.

A bala nunca foi extraída do corpo da pequena Maria. A criança sobreviveu, mas tem tido uma vida com a saúde fragilizada, com dores permanentes provocadas pela bala que permanece a milímetros do coração.

Os relatos publicados confirmam que foram os agentes da Polícia Judiciária que levaram a criança para o hospital. Os mesmos relatos falam da responsabilidade da polícia, que frequentemente entrava no bairro já de pistola na mão.

Passados 40 anos, Maria apresentou uma queixa na Provedoria de Justiça. Quer que o Estado assuma a responsabilidade que tem pelo peso de uma bala cravada no peito desde criança. Numa curta conversa que tivemos, Maria diz que não consegue trabalhar “porque as sequelas físicas e as dores crónicas causadas pela bala que trago no peito tornaram-se insuportáveis. Sinto que hoje em dia a bala se quer mexer. Custa-me muito estar sentada durante muito tempo e tenho de me deitar para aliviar. Tenho um enorme peso nas costelas, tendo três delas já totalmente danificadas por causa do projétil, o que me obriga a tomar remédios muito fortes e a usar cremes específicos para conseguir aguentar a dor. Já me custa imenso carregar um simples saco de 5kg. Consigo fazer as coisas de uma pessoa normal, mas demoro o dobro do tempo para tudo. Esta invalidez impede-me de exercer qualquer atividade profissional.”

– E por que razão a bala não foi extraída quando a levaram para o hospital?

– A bala nunca foi extraída porque os médicos diziam na altura que eu não passava dos 8 anos de idade. Depois, conforme eu ia sobrevivendo, iam-me dando sempre mais 2 anos de vida, e por aí fora. Era um risco enorme extrair a bala porque ela ficou alojada num sítio muito perigoso e corria o risco de se mover e ir diretamente ao coração. Por essa razão médica, decidiram não operar e ela permanece no meu corpo até hoje.

Na Provedoria de Justiça, Maria espera encontrar alento para uma luta contra o Estado que se adivinha difícil.

Correio da Manhã em 14 de outubro de 1987

Uma história que vamos acompanhar.

Para quem nunca conheceu o bairro Pedreira dos Húngaros, aqui fica uma reportagem da RTP de 1984: Bairro Negro.

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HISTÓRIAS DE EMIGRANTES

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Pode parecer lugar-comum, mas não hesito em garantir que, para uma história assim, intimidade requeria-se. O espectador precisava de estar perto, a sentir as emoções, as raivas, as perplexidades, tudo aquilo por que poderia ter passado uma família portuguesa emigrada para os arredores de Londres, em 2017.

Bilingue, como o é a realidade, Um Cigarro e Quatro Pares de Ténis reconstitui, com realismo, o retrato dessa emigração, onde o sonho esbarra com as contrariedades do dia-a-dia. Bem elucidativos são, logo, os primeiros momentos, em que a mãe, o homem (irmão), o filho, a filha surgem atarantados, sem saberem o que fazer.

Concebeu, pois Ema Fonseca – certamente com conhecimento de causa – um quadro esclarecedor:

«Entre ténis de marca, jardins sonhados., desilusões e redes de tráfego de “prota”, cada um dos membros da família procura, à sua maneira, o significado da felicidade e a sua identidade num meio estranho» –  escreve Fernando Alvarez, o diretor do Teatro Experimental de Cascais que, para a peça, se encarregou, como habitualmente, da cenografia, dos figurinos e dos adereços.

E concordo inteiramente com ele: merece “especial atenção” a primorosa encenação de Ana Padrão e um grande aplauso bem encorajador para «o elenco incrível maioritariamente jovem – Ivo Arroja, Maria Arrais, Sílvia Chiola e Tomás Andrade, ao qual se juntam os dois veteranos, Maria Joana Pinho Maria João Pinho e Sérgio Silva».

Fotos de Ricardo Rodrigues.

É a 190ª produção do Teatro Experimental de Cascais. A não perder! Estará em cena até dia 31 de quarta a sábado às 21 h., domingo às 16.

Assinale-se ainda que se trata do texto vencedor da 3ª edição do concurso promovido pelo Teatro Experimental de Cascais «Texto para Teatro», nesta edição subordinado ao tema ‘Identidade’.

Aplausos também para toda a equipa técnica: luz (João Cachulo e Jorge Saraiva), som (Sérgio Delgado), legendagem (Gonçalo Magalhães). Tudo funciona a contento, o que não é fácil aqui, com tanta mudança de cena no mesmo cenário.

cartaz

BOMBEIROS

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Pronto-socorro urbano dos Bombeiros do Estoril, 1925

Não deixa de ser curioso apercebermo-nos do significado literal da palavra «bombeiro»: o que perfeitamente sabe manusear a bomba. Fala-se não das mortíferas bombas atuais, mas do mecanismo mediante o qual era possível lançar jactos de água para fazer calar as chamas.

No tempo da Roma antiga, o nome era outro: vigiles, vigilantes. Tinha grande autoridade o seu comandante, o praefectus vigilum, que era da ordem equestre (para enfrentar, se fosse caso disso, o comandante dos pretorianos, que era da ordem senatorial…). O quartel-general dos vigiles estava estrategicamente colocado em Óstia, o porto fluvial de Roma. Além do serviço de incêndios, os vigiles cuidavam da higiene pública urbana.

Voltando a Cascais e ao catálogo, importa referir que a exposição, inaugurada a 8 de novembro de 2025, estará patente na Casa Sommer, em Cascais, até 11 de outubro.

Exposição que assume, na verdade, um duplo significado: por um lado, ao apresentar a evolução das viaturas usadas ao longo dos tempos e os objetos manuseáveis no combate ao fogo e no pronto auxílio em caso de acidente ou catástrofe (capacetes, malas de primeiros-socorros, apitos, extintores, o braçal do chefe de piquete, a escada de molas…) é útil manancial para a História da Tecnologia; por outro – e não de somenos importância – é que, além das máquinas e dos apetrechos, ali se mostram pessoas, os abnegados homens e mulheres que, ao longo dos tempos, se disponibilizaram para estar ao serviço da comunidade.

Capacete dos Bombeiros dos Estoris
Avião despenhado na Serra de Sintra, 1947.
Boia do Seastar, naufragado em Cascais, 1972.

Não há nomes. A excepção quase única: a justa homenagem a Ana Rita Abreu Pereira e a Bernardo Figueiredo, da corporação dos Estoris, atraiçoados por repentino golpe de vento que os vitimou, a 22 de Agosto de 2013. Ah! E a fotografia de José Geraldes Neto, cuja extraordinária colecção de miniaturas ligadas aos bombeiros não tem igual e bastantes delas estão agora de novo ali a ser mostradas. Eloquente tal omissão de nomes, porque o importante é mesmo servir e o nome não interessa.

Exposição que representa, pois, enorme reconhecimento aos Soldados da Paz –  expressão que, nos tempos que correm, se reveste, afinal, de um significado maior.

A REVOLTA DOS NABOS

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Meus caros sub-nabos e nabiças em flor,

É com o coração cheio de clorofila e a mente nublada pelo vapor da panela que venho defender a nossa herança hortícola! Como ousam criticar as “boas intenções” de quem nos governa? Não percebem que a governação é como uma horta biológica? Não se faz sem estrume, e o resultado, por norma, é para enterrar.

Somos um país de nabos. Mas que falta de visão! O nabo não é um defeito, é um projeto estratégico. Se não temos agricultura de exportação, temos a “cultura de importação de nabice”. Portugal não é um país, é um caldo verde gigante onde todos boiamos, esperando que a chouriça do orçamento nos toque à porta (embora saibamos que a chouriça é sempre para os mesmos).

Dizem que o problema reside na “nabinha”, na semente. Pois eu digo que a semente é de ouro! Onde é que se encontra um povo que elege o Nabo A para se vingar do Nabo B, sabendo que ambos vêm do mesmo canteiro e partilham o mesmo adubo (pago por nós)? Isso não é estupidificação, é coerência gastronómica! Queremos que a sopa saiba sempre ao mesmo para não estranharmos o paladar da mediocridade.

Vejamos as vantagens desta nossa “Brassica” sociedade:

1. Resiliência: O nabo cresce em qualquer lado, tal como o contribuinte português sobrevive a qualquer imposto.

2. Versatilidade: O Nabo 1 (o eleitor) é o único vegetal no mundo que vota para ser descascado e ainda agradece o “sentido de Estado” de quem segura a faca.

3. Ecologia: O nosso “nabal” é tão extenso que já nem precisamos de charadas de pré-campanha. Basta um cartaz com uma foto retocada e uma promessa murcha para a rama abanar de contentamento.

Criticar os “propósitos bem-intencionados” do Governo é um atentado contra a nossa biodiversidade. Se o que é “Nacional é bom”, então o nosso nabo é de denominação de origem protegida!

Parem de pensar! O pensamento é uma erva daninha que estraga a plantação. Sigamos o exemplo da nabinha: cresçamos espontaneamente, sem discernimento, e deixemo-nos cozer em lume brando até ficarmos bem tenrinhos. Afinal, no grande banquete da Europa, alguém tem de ser o acompanhamento que ninguém pediu, mas que todos esperam que esteja no prato.

Viva o Nabal! E, por favor, passem o sal, que a realidade está difícil de engolir.

humor