Pequena biografia de Cândido Ferreira (1949-2023)

A biografia de Cândido Ferreira, nascido em terra e família humildes, transverbera um ser inquieto e polifacetado que, ainda jovem bolseiro e trabalhador-estudante, fascinava já pela sede de aprofundamento de ecléticos saberes e pelo afanoso compromisso em múltiplas causas de cariz social, cultural e até na investigação científica.

0
1107

O início da sua vida profissional, em 1973, ainda hoje marca muitos ex-alunos, colaboradores e pacientes: em Cantanhede, sua terra natal; em Pombal, perante o assinalável desenvolvimento no SMP, em 1976; na Lousã, “perdido” por serras esquecidas em dedicação ao Serviço público; e nos HUC, onde, após estágio em Lyon, em 1980, desencadeou a primeira colheita de órgão de cadáver, tendo sido o único médico com formação específica a apoiar o primeiro transplante bem-sucedido em Portugal.

Sentindo-se cingido no exercício de funções, em 1982 optou por uma carreira autónoma na área da diálise, tendo sido responsável por um número impressionante de tratamentos e por uma consulta externa que, durante 25 anos, serviu 5% da população nacional em acordo quase benévolo com o SNS. Recusando sempre acumular funções públicas e privadas, jamais concorreu a apoios públicos e nunca cobrou quaisquer honorários nem aceitou alvíssaras dos milhares de pacientes que cuidou, deixando “marca” que ainda hoje muitos recordam – a de “médico dos pobres”.

Pioneiro na extensão de cuidados de hemodiálise, sobretudo a diabéticos, além dos sete projetos pessoais em que se empenhou, CF nunca regateou apoio tanto a clínicas privadas como aos hospitais públicos de Lisboa, Santarém, Bragança, Vila Real, Luanda e até Abidjan. Sempre atento a novos avanços científicos, orientou a formação de largas centenas de técnicos de diálise, organizou encontros médicos em Leiria, percorreu o mundo a conhecer numerosas unidades de referência e participou em congressos nacionais e internacionais, onde apresentou dezenas de comunicações. Em 2009, a equipa que dirigiu obteve, no Congresso da Sociedade Internacional de Nefrologia de Londres, o diploma de “Melhor Trabalho” na área da investigação clínica, ao qual a NDT, a revista europeia da especialidade, dedicou diversas traduções.

A qualidade do desempenho humano, técnico, científico e profissional mereceu-lhe o reconhecimento de profissionais de todos os continentes, traduzidos na atribuição de prémios de prestígio, nacionais e internacionais, enquanto empresário da saúde; de empresas de certificação e de avaliação de clínicas de diálise, que adotaram alguns dos seus critérios inovadores; de dezenas de delegações que visitaram o seu Serviço, entre elas a OM dirigida pelo seu Bastonário; da Escola Superior de Enfermagem de Leiria, que presidiu a uma sessão em sua homenagem e a que aderiram os Presidentes da Câmara e da Assembleia Municipal; dos doentes e suas famílias, reconhecimento expresso em inquéritos de opinião, nos quais também foi pioneiro; em revistas de doentes renais, que consideraram as suas clínicas como “modelares”; da generalidade dos seus ex-colegas e colaboradores, que fazem questão da sua presença em eventos memorativos; e de ex-pacientes e amigos que organizaram homenagens de despedida nas quais, significativa e espontaneamente, se envolveram mais de mil pessoas.

Leal a Hipócrates, Cândido Ferreira elege como referência moderna Linhares Furtado que, em 2021, o honrou com a doação de um quadro da sua autoria para o Museu de Arte e Colecionismo de Cantanhede, que acolhe um copioso e eclético espólio artístico reunido e doado por Cândido Ferreira àquele Município. Outros ilustres médicos, como Levy Guerra e Diniz de Freitas, seus professores, e também os colegas António Travassos, Ana Bela Couceiro e Rufino Ribeiro integrarão um pequeno espaço aí dedicado a artistas médicos portugueses. Em 2012, coordenou uma homenagem a Alexis Carrell, à qual se associaram outros notáveis colegas.

Em 2007, criou, em Leiria, um museu dedicado à Nefrologia e Diálise, que doou à SPN. Colabora, desde 2017, com o Município de Setúbal, doando centenas de peças arqueológicas que abrangem toda a História local. Em 2018, doou à Junta de Freguesia da Urra dois núcleos museológicos, tendo, por isso, sido agraciado com a Medalha de Mérito.

Democrata e humanista, integrou, como independente, o Executivo Distrital do MDP, de Coimbra, tendo sido detido por atividades contra a ditadura. Caído o regime, foi eleito “coordenador político” da Câmara de Cantanhede, “cargo” no qual conduziu, de forma reconhecidamente exemplar, a transição autárquica para a democracia. Em 2019, a Assembleia Municipal atribuiu-lhe um “Voto de Louvor”, subscrito por todos os seus membros.

Optando sempre pela carreira médica – sua “paixão” desde a infância – recusou, em 1975, integrar a Assembleia Constituinte em lista do Partido Socialista. Não obstante, entre 1985 e 2005, envolver-se-ia em atividades políticas, tendo sido Presidente Distrital do PS e triplicado o número de votos do partido, enquanto candidato à Câmara de Leiria. Assumindo a vereação do Desporto, aí realizou, entre 90 e 91, um trabalho que mereceu o único louvor, e por unanimidade, do Executivo Municipal de Leiria, no século XX, além de várias distinções dos clubes e associações desportivas e culturais do concelho. Encarando essas funções como um dever cívico, sempre declinou prémios, vencimentos ou, sequer, senhas de presença, mesmo enquanto membro do CA dos SMAS de Leiria.

Em 2011, declinou o pedido de diversos socialistas para se candidatar a Secretário-Geral do PS contra a linha então dominante. Em 2015, face à insistência de muitos cidadãos, assumiu uma candidatura à Presidência da República que, alvo de distorções e discriminação, quase passou despercebida. Nestas “intrusões” pela política privou, entre outros, com personalidades como Isabel e Hortense Allende, Filipe Gonzalez, Mitterrand, Mário Soares, Zenha, Nobre da Costa, Alegre, Eanes, António Costa e o SG da ONU, António Guterres.

Produziu milhares de artigos de opinião, acolhidos em jornais, revistas e redes sociais, tendo-se cedo destacado na revista Opção, de Artur Portela Filho, em pleno PREC. Efetuou também inúmeras intervenções públicas, incluindo na rádio e na TV. Ligado aos meios artísticos e culturais, a partir de 1994 destacou-se nas áreas do romance, conto, crónica e ensaio, tendo-se associado à Associação Portuguesa de Escritores, a convite da Direção. Em 2009, liderou um movimento cívico que, no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, ganhou uma reclamação contra o EP.

Em 1994, fundou a APAR, ONG que luta pela dignificação da Justiça e pela Reinserção Social dos reclusos e suas famílias. Em 2019, foi por ela distinguido como Sócio de Mérito e, mais tarde, eleito Presidente do Conselho Consultivo. É também sócio n.º 1 da ONG Santa Maria da Vitória, que promove ajuda às antigas colónias portuguesas.

Em 2007, num retorno à vida rural, adquiriu uma exploração agrícola no Alentejo, dedicando-se à produção pecuária e de vinhos, os quais logo mereceram prémios em todos os concursos em que participaram. Em 2013, concluiu uma unidade de Agroturismo, a Casa da Urra, que continua a expandir sem quaisquer apoios oficiais e que foi distinguida, já em 2022, com as melhores classificações atribuídas pela Booking e Airbnb.

Reconhecido pelo seu voluntarismo e generosidade, colabora com várias autarquias e, a convite do reputado médico José Tereso, aderiu à Confraria dos Sabores da Gândara. Em 2010, foi também entronizado “Confrade de Honra” da Confraria Gastronómica Nabos e Companhia. Sócio de diversas associações desportivas e culturais, participa em vários Movimentos cívicos independentes e de solidariedade, nacionais e internacionais, que amiúde o convidam para entrevistas ou como palestrante, tendo efetuado inúmeras intervenções públicas, incluindo em órgãos de Comunicação Social. Recentemente, aderiu à SEDES, uma organização à qual esteve ligado Miller Guerra, ilustre médico que igualmente conheceu. O convite para a adesão partiu do atual Presidente, o médico Álvaro Beleza e de um dos antigos fundadores, José Roquette.

Na noite de fim do ano de 2017, encerrou a sua carreira médica simbolicamente no Serviço de Urgência da Clínica que sempre dirigiu. Mas, em 2020, perante a pandemia, voluntariou-se para, em teletrabalho, integrar a Linha SOS 24 e, face à ausência de resposta e ao caos instalado, não resistiu em “voltar a vestir a bata de médico”.

Fontes: “Nos Bastidores da Medicina”, de 2018; “A Poluição Atmosférica”, revista “Capa e Batina”, de abril de 1971; “A Transplantação em Portugal”, de 2018; “Pegadas Recentes”, de 2018; “O Poder da Oração e Seus Efeitos”, de 2012: “A Psiquiatria é uma Ciência?”, revista oficial da Ordem dos Médicos, março-abril de 2010; “Covid-19 – A Tempestade Perfeita”, 2.ª edição de 2022; Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso; Santa Maria da Vitória.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui