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CAMILO E A INFLUÊNCIA FRANCESA

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A leitura de A Mulher Fatal deixou-me uma curiosidade por resolver: a reconhecida influência da cultura francesa na sociedade e na literatura portuguesas da 2ª metade do século XIX. E decidi ilustrar-me com a integração no seu tempo de três das passagens que recortara.

Manon Lescaut

«Imaginei que ele estivesse alapado na tulha das Açudes, lendo alguns capítulos paradoxais de Manon Lescaut, ou quejando romance justificativo das paixões ignóbeis!» (p. 62).

Refere-se Camilo ao célebre romance de Antoine François Prévost, Histoire du chevalier des Grieux et de Manon Lescaut (1731), cuja heroína é precisamente Manon Lescaut, romance citado habitualmente apenas como Manon Lescaut.

Trata-se de um romance muito polémico , dado que  Abade Prévost faz o leitor sentir enorme simpatia por duas personagens que, objetivamente, vivem fora da moral tradicional: Des Grieux mente, joga, rouba; Manon aceita presentes de amantes ricos; ambos vivem uma paixão que desafia a ordem social e religiosa. Muitos moralistas do século XVIII e do XIX censuraram precisamente isso: o romance parecia justificar o vício pela força do amor.

Mas… por que razão fala Camilo em «capítulos paradoxais»? Decertoaqueles em que Prévost consegue levar o leitor a admirar personagens moralmente condenáveis. Quiçá, uma irónica crítica, aqui, aos moralistas, que, por esse motivo, consideravam tais  capítulos “paradoxais”.

Henri Heyne

«Que anjo naquele homem  restituiria a Deus a sociedade, se ela não fosse em toda a parte, o inferno dos anjos e o paraíso dos demónios, como, da de Paris, dizia Henri Heyne! (p. 63).

Um quadro de Heine, por Moritz Daniel Oppenheim

A frase citada é, na verdade, frequentemente atribuída ao alemão Heinrich Heine (Henri Heyne na grafia francesa do apelido). Trata-se seguramente de uma paráfrase do pensamento de Heine sobre Paris, uma citação apócrifa que se não encontra ipsis verbis na sua obra, nomeadamente em Französische Zustände («Situação da França»), em Lutetia ou na correspondência. Heine viveu em Paris de 1831 até à morte; para ele, Paris era o centro da inteligência, da liberdade e da modernidade, mas também um lugar de corrupção moral e de tentações. De resto, a antítese «o paraíso de… / o inferno de…» foi um recurso retórico muito usado no século XIX.

Poder-se-á acrescentar que, não sendo uma citação literal, e como Camilo lia abundantemente jornais e revistas francesas e recorria frequentemente a florilégios de citações e como, por outro lado, Heine era um dos autores mais citados nesses repertórios da década de 1850-1870, tal é bem provável. Aliás, Heine morreu em 1856 e, entre 1856 e 1870, publicaram-se em França numerosas edições póstumas, colectâneas e memórias sobre ele: Pensées de Henri Heine, L’Esprit de Henri Heine, Œuvres choisies. Camilo podia muito bem ter lido uma dessas obras, em que Heine descreve a vida social parisiense, sobretudo os salões, a aristocracia, os meios literários e políticos.

Stendhal

«Na verdade, eu havia apostolado tão incompetente quanto inconvenientemente a contrição dos pecados. Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as cristalizações do amor, formadas naquela alma, ramo desflorido e seco, submerso no lago congelado, conforme a teoria de Stendhal. A meu ver, cristalizações de lágrimas só o calor da mortalha as degela (p. 118).

Deveras curiosa a alusão à «teoria de Stendhal». A ideia é uma das mais célebres de Stendhal e encontra-se no capítulo II, sobre o nascimento do Amor, do ensaio De l’Amour, publicado em 1822. A imagem não é, porém, a de um lago gelado, mas a de um ramo seco mergulhado nas minas de sal de Salzburgo, onde fica revestido de cristais brilhantes:

«Nas minas de sal de Salzbourg, deita-se, pelo Inverno, nas profundezas abandonadas da mina um desfolhado ramo de árvore, dois ou três meses depois, retira-se recoberto de cristalizações brilhantes […]. Já não é possível reconhecer o ramo primitivo», escreveu Stendhal.

Não pode, porém, deixar de apreciar-se como, aparentemente, singelos e despretensiosos apontamentos encerram em si tamanha densidade ideológica.

Camilo Castelo Branco é isso mesmo: uma fonte de saber inesgotável. Escrevia romances para economicamente sobreviver; mas é na análise miúda do que escreveu que reside a razão da sua sobrevivência como um escritor de todos os tempos.

O HOMEM QUE RECUSOU A REFORMA

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fotograma do videoclip Comfortably Numb Re-Imagined

Há qualquer coisa de desconcertante em Roger Waters. Aos 82 anos, quando poderia viver confortavelmente da herança dos Pink Floyd, reaparece para reescrever Comfortably Numb, uma das canções mais emblemáticas do século XX. Não para a atualizar musicalmente, não para explorar a nostalgia de uma geração, mas para lhe dar uma nova vida política. Desta vez, a canção é dedicada ao povo palestiniano e à destruição de Gaza.

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Não deixa de ser um gesto curioso. A versão original, integrada em The Wall (1979), era uma viagem ao interior de um homem emocionalmente anestesiado. A “dormência confortável” era uma metáfora para a alienação, para o trauma, para o isolamento de quem já não consegue sentir plenamente o mundo à sua volta.

Na nova versão, a anestesia muda de destinatário. Já não é um indivíduo que perdeu a capacidade de sentir. É uma sociedade inteira que parece habituar-se às imagens da guerra, aos escombros, às crianças mortas, aos hospitais destruídos e à normalização do horror. A insensibilidade deixa de ser psicológica para se tornar moral.

É uma inversão forte. Em 1979, a pergunta era: “Como é que um homem chega a este estado?” Em 2026, a pergunta é: “Como é que nós chegámos a este estado?” A intenção de Waters é clara: impedir que a repetição das imagens produza indiferença. Recordar que a capacidade humana de se habituar ao sofrimento alheio pode ser uma das mais perigosas formas de anestesia coletiva.

Mas também é interessante tentarmos perceber o que leva um octogenário recusar a tranquilidade da reforma para continuar a meter-se em batalhas que dividem a opinião pública e lhe garantem mais críticas do que aplausos? A resposta não está no dinheiro. Nem na fama. Nada disso é preocupação para um homem com a carreira feita há muito tempo.

Há pessoas para quem a arte nunca foi um lugar de conforto. Sempre foi um lugar de combate. Quem se lembrar de outras músicas de Roger Waters talvez perceba que o músico sempre fez da música um instrumento de confronto com a guerra, o poder, a propaganda e os mecanismos de manipulação. Há nisto uma coerência rara num artista que, mais de cinquenta anos depois, continua a correr riscos para defender aquilo em que acredita.

Na verdade, para além de coragem e coerência, a idade deu-lhe também essa liberdade. Quando já não existe uma carreira para proteger, uma editora para agradar ou um mercado para conquistar, desaparece também uma parte significativa do medo. A proximidade do fim da vida não leva necessariamente à resignação. Em alguns casos, produz exatamente o contrário: a urgência de dizer aquilo que sempre se considerou essencial.

Há quem procure paz. Outros procuram sentido. E há pessoas que nunca se reformam daquilo que são. Um professor continua a ensinar, mesmo sem sala de aula. Um cientista continua a fazer perguntas. Um escritor continua a escrever. Um músico continua a compor. Gente que teima em tentar mudar o mundo e que nunca se reconheceriam no espelho se deixassem de tentar.

A nova Comfortably Numb acaba por ser mais do que uma canção sobre Gaza. É um manifesto contra a indiferença. Neste tempo em que a informação circula à velocidade da luz e a emoção dura apenas alguns segundos, o maior risco não é a violência. É habituarmo-nos a ela.

Roger Waters parece acreditar que o pior destino não é sentir demasiado. É deixarmos de sentir. E essa continua a ser, quase meio século depois, a verdadeira mensagem de Comfortably Numb.

Roger Waters com a cantora palestiniana Mona Miari (fotograma do videoclip)

A MULHER FATAL

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Não fiquei desiludido, porque o retrato se me antojava, mais ou menos, como Camilo o descreve, com ares respirados em Paris, vestindo-o de roupagens voluptuosas, atraentes, perfumes fortes, olhar felino. E, por outro lado, insaciável devoradora de fortunas, depois que a tal a obrigava a sua intensa vida social no meio da burguesia lisboeta ou da fidalguia que não hesitava em arruinar-se em vassalagem à Beleza.

O protagonista, Carlos Pereira, vai de amor em amor, sofredor e desastrado a maior parte das vezes e cai, por fim, mas mãos peçonhentas de Cassilda Arcourt, mesmo depois de – na verdade – ter logrado uma existência aparentemente viável.

Mais do que uma vida campestre, o narrador – amigo e confidente do protagonista – delicia-se a contar das desgraças alheias no ambiente que apresenta como sendo o da Lisboa desses meados do século XIX.

Recorde-se que Camilo Castelo Branco nasceu em 1825 e este livro foi publicado em 1870, ou seja, quando o autor se considerava já velho de 45 anos.

Confesso que, sendo eu epigrafista e estudar epitáfios romanos em que se lavra a idade em que a morte ocorreu, esse foi o primeiro aspecto que mais me impressionou. Camilo, aos 45 anos, considerava-se velho, dando a entender ser mesmo essa a percepção das pessoas nessa altura. E o protagonista, Carlos Pereira, que ele diz ter conhecido em 1849, tinha 32 anos em 1857. «Em vinte anos», comenta Camilo, «enfolha, enflora, fruteia e fenece uma geração […] E alguns tinham pavor da velhice dos 40 anos!» (p. 22 – estou a seguir a edição de Livros de Bolso Europa-América, nº 292).

Do ambiente burguês da capital os traços camilianos são os costumados: alojamento em hotéis, recepções em casa de amigos, noites de tavolagem, uma sociedade de expedientes, em que se antoja amiúde a compra de um título de Conde ou Marquês. Em relação à província, a figura que não se oblitera é a do padre sempre ganancioso, frequentemente a quebrar as juras do celibato.

Enganar-me-ia, contudo, se não alvitrasse ter sido a sua linguagem tersa, riquíssima, incisiva e pura o que mais me encantou, não só porque não hesitou em dar conta, aqui e ali, dos livros que se liam (que ele lia), sobretudo franceses, como se sabe, mas, de modo especial, pela sua exemplar sujeição à vernaculidade:

«Um homem que saíra em rapaz para África e lá vivera em navios, e sertões, e portos de mar, veniagando as suas mercadorias de carne viva com alma e feitio à semelhança do Criador» (p. 27).

 Quase se esquece, por detrás das palavras, o seu significado: o homem foi… um negreiro!

«O milionário que se dói do ultraje compra diplomas de estima pública; isso é fácil: dê banquetes, embriague os convivas para a vertigem do baile; lá irá tudo, desde a honra que se vendeu até à honra que se almoeda» (p. 29).

Só esmiuçando se enxerga bem o que ele quer dizer: corrupção!

Aqui e além, uma nota erudita, não desprovida de carga irónica:

«Imaginei que ele estivesse alapado na tulha das Açudes, lendo alguns capítulos paradoxais de Manon Lescaut, ou quejando romance justificativo das paixões ignóbeis! (p. 62).

Ou ainda:

«Que anjo naquele homem  restituiria a Deus a sociedade, se ela não fosse em toda a parte, o inferno dos anjos e o paraíso dos demónios, como, da de Paris, dizia Henri Heyne! (p. 63).

O toque crítico à mudança da toponímia das cidades por razões políticas:

«Quem se lembra já hoje da Rua do Coruche? Há doze anos que passou por ela o Progresso, esse iconoclasta implacável que subverte as coisas santas da religião artística de antiquários e poetas. O Progresso é barrigudo, não cabe em ruas estreitas. Aquela, a do Coruche, levou-a ele diante de si; e, como às cavaleiras desse pujante demolidor andem os bons progressistas para darem o seu nome às empresas que ele comete, aquela rua das minhas saudades ficou-se chamando do Visconde da Luz» (p. 64).

Neste caso, é de Coimbra que se fala, mas tal visconde teve nome de rua um pouco por toda a parte.

Não falta uma crítica que, de repente, té poderia arvorar-se agora:

«Não se restauram patrimónios a estudar: extinguem-se. E, concluída uma formatura em Portugal, quem a comprou com o seu trabalho e todo o seu haver, sente-se apenas habilitado para ir mendigar um ofício de quatro libras mensais às portas das secretarias» (p. 68).

É bem conhecido o hábito, no século XIX, mormente na sua segunda metade, de os burgueses comprarem títulos de nobreza. Falando em cem contos, declara o protagonista:

«A  mim convinha me possuí-los, para comprar um título de marquesa para Estela» (p. 69).

Voltando à vernaculidade da linguagem, não hesito a transcrever mais uma passagem em que a negativa está presente de forma, a meu ver, bem airosa: o uso corrente do prefixo des-, patente, noutras passagens, em despenar, desvalidar, desafecto e que – disso nem sempre nos damos conta – também existe em despedir e desconfiar. Ora veja-se:

«Na verdade, eu havia apostolado tão incompetente quanto inconvenientemente a contrição dos pecados. Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as cristalizações do amor, formadas naquela alma, ramo desflorido e seco, submerso no lago congelado, conforme a teoria de Stendhal. A meu ver, cristalizações de lágrimas só o calor da mortalha as degela (p. 118).

Tudo imagens para se declarar arrependido de haver incitado Carlos a largar a amante e a voltar para a mulher que, no final de contas, ainda amava.

Camilo, um Mestre!

BRUXELAS EMPENHADA EM REDUZIR A CULTURA EUROPEIA A INSTRUMENTO DE GUERRA

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Dois milhões de euros, ninharia para os cofres opulentos de Bruxelas, mas cifra vital para a alma de uma Bienal que sempre se quis universal, ficaram suspensos por um capricho geopolítico. A senhora comissária, Henna Virknen, brande o seu telemóvel como outrora se brandia uma espada, anunciando na efémera praça digital que a cultura deve pagar o preço da desobediência. Eis o primeiro sintoma da bílis de que fala o povo: a razão turva-se quando o poder resolve vestir a farda do moralismo.

Ora, independentemente do xadrez económico e político que se joga na Ucrânia, essa pobre terra transformada em cavalo de Troia dos grandes estrategas globais, uma coisa se nos afigura cristalina. A Europa, velha de séculos mas surpreendentemente imatura na sua gerontocracia, julga rejuvenescer apostando apenas nas suas qualidades guerreiras. É um equívoco trágico e profundamente irónico: um continente que inventou a universidade, a sinfonia e a declaração dos direitos do homem reduz-se agora à retórica do bombardeiro e ao gesto do diplomata que só conhece a provocação como forma de diálogo. O poder, nessa Bruxelas asfixiante, parece ter esquecido todas as línguas, excepto a do dinheiro e a da sanção. Impõem-se “valores subversivos” contra “valores sagrados”, mas ninguém se dá ao trabalho de definir quais são uns e outros, porque, neste conflito surdo contra o povo europeu e contra o povo russo, parece reger o argumento cínico do tudo vale.

Escutemos, com atenção, os hinos do fanatismo contemporâneo. Lá longe, do outro lado do Atlântico, ouvimos o eco gutural de “América acima de tudo”. Aqui, no velho continente, respondemos com o timbre melífluo, mas igualmente vazio de “Valores democráticos da Europa acima de tudo”. É a mesma moeda, cunhada em lados diferentes, servindo o mesmo espírito do globalismo que sopra das torres de marfim financeiras para as planícies do sofrimento real. Cada vez se tem mais a impressão, e o senso comum, esse bem raro, teima em confirmá-lo, de que a grandeza das potências tem como condição necessária a humilhação metódica do cidadão comum. A dissidência, nessa Europa embriagada de si mesma, é simplesmente pensar de forma diferente; a heresia, hoje, é querer a paz sem submeter a alma ao dogma.

É preciso, pois, que o povo desperte. Não o povo abstracto dos discursos oficiais, mas a carne e o osso que pagam impostos e criam os filhos. Bruxelas estende-se como um polvo de braços tecnocráticos, avassalando até os sagrados espaços da cultura, transformando a arte num campo de batalha rasteiro. A Bienal de Veneza, que devia ser um oásis de contemplação, arrisca-se a tornar-se um museu da censura. E esta é a maior tragédia: quando os burocratas se arrogam o direito de definir o que é ou não “democrático” na paleta de um pintor ou na música de um compositor, estamos a trocar a utopia pela polícia.

O humanismo, esse velho amigo esquecido, dita que a cultura não é instrumento de guerra, mas trégua. A cultura não é arma de arremesso, mas ponte. Se a Europa quer verdadeiramente rejuvenescer, que olhe para os seus filhos, não para os seus generais; que se inspire nos seus filósofos e teólogos, não nos seus comissários. Que guarde o cinismo para a política, que é, afinal, a sua matéria-prima e a generosidade para a arte. Caso contrário, a Bienal de Veneza não será a única a afogar-se nas suas águas turvas; afogar-se-á a própria ideia de Europa, vítima da sua própria bílis, sufocada pelo polvo que criou para a defender.

E quando isso acontecer, não digam que o povo não avisou.

(crónica publicada também em Pegadas do Tempo)

O CARACOL É MARROQUINO

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A imaginação não tem limites e o (pobre do) caracol passou a saber o que é levar com temperos de toda a ordem, aparecer nos pratos dos gulosos escondido em fofos e pataniscas e, até, ser apresentado como um (quase) afilhado do Bulhão Pato. E mais, muito mais. A competição estimula a criatividade dos cozinheiros para além do simples ato de cozer o caracol, bem temperado com orégãos. Que o caracol pode ser fraco, mas o molho é ótimo!

Porém, neste início de século, a aventura do caracol ainda mal tinha começado. Empenharam-se, um dia, as vontades, na concretização de algo inédito que foi conceber e concretizar um tacho gigante, bem como respetiva colher à medida, para mexer os tantos, os muitos, os…, enfim, os imensos quilos de caracóis cozinhados numa única empreitada. Para a história ficaram os números, 1.111 Kg de caracóis, um tacho de 3 metros de diâmetro e 1 metro de altura. A tampa pesava 200 quilos e era necessária a ajuda de uma grua, para a abrir.

Para o interior do caldeirão foi deitada mais de uma tonelada de caracóis, vindos de Marrocos. Para completar a receita, entraram para o tacho gigante 40 quilos de alhos, 30 de cebola e outros tantos de sal, 13,5 quilos de caldos de carne, 20 quilos de chouriço, quatro quilos de orégãos e cinquenta malaguetas. Tudo isto regado por muitos litros de água despejada por uma mangueira dos bombeiros.

À boleia do caracol, em 2009, o município de Loures candidatou-se ao recorde mundial do Guinness para o “Maior Tacho de Caracóis do Mundo”. E atingiu o seu propósito. O tacho magnífico está exposto no Parque Adão Barata, na extremidade sul da cidade de Loures, no que se interpreta como um ato de partilha com a comunidade. Uma memória, ao orgulho coletivo local. Exibe detalhes inesperados, a tampa, que, por segurança, está fixada ao recipiente, ou o engenho adaptado para servir o produto cozinhado…

Também, o historial do Festival do Caracol Saloio e o devido destaque para o recorde do Guinness. Os registos fotográficos que fiz em 2023 assumem um valor documental, que não estava à espera.
Voltei a fotografá-lo agora e vejam-se as diferenças…

O tempo já se encarregou de fazer desaparecer boa parte da informação alusiva ao evento e ao recorde alcançado, estando o tacho magnífico em risco de ser apenas, e só, um tacho. O que me dá que pensar. Símbolo de um entusiasmo local, coletivo, marca de uma prática que reúne um número sempre crescente deapreciadores, o tacho dir-se-ia abandonado… O Festival do Caracol Saloio conquistou um espaço no município, tem uma história e adquiriu um valor cultural. A equipa terá deitado fora o emblema?

No ano que corre, a propósito de mais uma edição do Festival que, por sinal, já terminou, as surpresas continuam a acontecer. Em maio passado, na Revista do Expresso, um dos Flashes do Planetário de João Pacheco, “Loures-Paris”, sugeria ao leitor a aventura do Caminho das Estrelas pelo concelho de Loures e pelos restaurantes participantes na Rota do Caracol Saloio. Já em Paris, o caminho levaria o leitor a ver “uma secção de escada de caracol da Torre Eiffel, de 1889”.
O caracol, entre Loures e Paris, como traço de união ou como denominador comum. Certamente, uma inspiração.

REVELAÇÕES & OUTRAS MERDAS

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Nicolau Maquiavel , Jean-Jacques Rousseau e Michel Foucault . Composição gráfica.

Porque a Sua Abnegação é uma Ratoeira

Tentar abnegar o sistema político atual é um exercício de uma ingenuidade comovente. O leitor acredita piamente que, ao cruzar os braços e recusar o jogo, está a ser um rebelde original. Na verdade, está apenas a cumprir, à risca, o guião escrito por três fantasmas que gerem a sua existência.

1. A Gargalhada de Maquiavel: A Abnegação como Submissão Voluntária

O velho Nicolau Maquiavel observa a sua “plena diferença” e sorri com um cinismo paternalista. Para o Príncipe moderno, o cidadão abnegado é o maior milagre administrativo de sempre. Ao retirar-se da ágora por uma questão de pureza moral, o leitor não está a boicotar o poder; está a limpá-lo de obstáculos.

  • A lição maquiavélica: O poder detesta o vácuo. Se o leitor abdica do seu espaço por “nojo” do sistema, a única consequência real é que o seu vizinho menos escrupuloso passa a governar a sua vida. A sua abnegação não é um protesto; é uma rendição disfarçada de superioridade intelectual. O Príncipe agradece o seu silêncio oportuno.

2. A Ratoeira de Rousseau: O Contrato que Nunca Assinou, Mas Paga

O leitor pergunta: “Como poderei fazer parte dum sistema se o abnego veemente?” Jean-Jacques Rousseau responde-lhe com a cláusula mais leonina da história da humanidade: o Contrato Social. O leitor nunca assinou este contrato, não leu as letras miúdas, mas nasceu carimbado por ele.

  • A lição rousseauísta: Segundo Rousseau, para ser livre, o indivíduo deve alienar-se totalmente a favor da comunidade (a “Vontade Geral”). Se o leitor tenta ser “totalmente diferente”, o sistema considera-o um erro de digitação social. A democracia rousseauísta tem um requinte satírico: ela obriga-o a ser livre nos termos dela. Se recusar ser livre dentro do rebanho, será “forçado a ser livre” através da exclusão, do ostracismo ou do manicómio. A sua vontade individual é um luxo que a Vontade Geral consome ao pequeno-almoço.

3. A Jaula de Foucault: A Biopolítica do Corpo Abnegado

Aqui reside o golpe de misericórdia na sua revolta. Michel Foucault entra na sala para lhe explicar que a sua “abnegação” chega atrasada: o sistema já se apropriou de si antes mesmo de o leitor aprender a dizer “não”.

  • A lição foucaultiana: O leitor acha que o poder é um político num palácio. Foucault ri-se. O poder é a clínica que o registou ao nascer, a escola que moldou a sua postura, o hospital que vigia a sua saúde e o algoritmo que prevê a sua depressão. A sua “abnegação” ocorre dentro de uma linguagem e de um corpo que o próprio Estado produziu. Mesmo quando o leitor se isola na sua total interdição, está a usar os conceitos de “liberdade” e “diferença” que o próprio poder normalizou. O leitor não está fora do sistema; o leitor é a parede da ala psiquiátrica do sistema.

A Resposta à Pergunta Proibida

Qual é a alternativa para o atual sistema político?

A alternativa, vista pelos olhos deste trio, é de um niilismo sublime. Não há alternativa externa, porque não há “fora”. A única alternativa é aceitar a esquizofrenia política:

Viver como um Príncipe Sem Trono (Maquiavel), que finge obedecer ao Contrato Sagrado (Rousseau), enquanto sabota subtilmente as Métricas dos Corpos (Foucault). É a resistência não através do isolamento, mas através da ironia absoluta: cumprir todas as regras de forma tão literal e robótica que o próprio sistema acabe por entrar em curto-circuito por excesso de zelo.

FALTA DE AR

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Não posso crer. A Oxigénio deixou de dar-me música para respirar. O botão do play fica ali a rodar a rodar, mas a música não arranca. Nem um pio. Apenas o irritante barulho da vida lá fora.

Envio uma mensagem ao Paulo, tranquilamente diz-me que a ouve “na boa”, irrita-me a tranquilidade da escrita. Ainda acrescenta que o Benfica está a ganhar, como nesse momento isso me servisse de consolo. Além de já saber que o Benfica ganha sempre, desde que eu não assista ao jogo. Ele mora na Amadora eu em Lisboa, portanto o problema é local. Óbvio!

A rádio vive em comunhão comigo, é exclusiva, não precisa de cama, comida ou roupa lavada. É minha companhia diária. É perfeita. Fui à procura de uma solução chamada João e o seu o rol de hipóteses técnicas.
Here we go! Vai a definições, som, saída, desliga e liga a coluna Bluetooth, liga e desliga o Mac, qual é o modelo da coluna, qual o modelo do Mac, a versão do MacOS, abre outro navegador, fecha o navegador. Abre uma janela privada. Talvez o navegador esteja a bloquear a reprodução automática, ou então a rádio utiliza um formato de streaming AAC ou HLS que está a falhar no navegador, ou ainda há um problema específico do navegador, o Safari pode ocasionalmente ter este comportamento com alguns streams!

João, deixa-me enrolar um cigarro, isto é um stress. Nunca aconteceu antes… Primeira vez? Ok, espera. Experimenta abrir a rádio no teu telemóvel. Usa o WiFi. Nada? E com os dados móveis? Nada também? E, vamos tentar perceber outra coisa: abre a Radar no Mac e no telemóvel, são ambas rádios do mesmo grupo económico. Não dá também? Voilá!!! O problema não está no teu equipamento, está no streaming das rádios. Se a rádio toca na Amadora, não toca em nenhum dos teus dispositivos, a solução paira no ar! Envia já um email a explicar tudinho.

Ok, João vou enviar já. Mais uma vez obrigada pela persistência. Um beijo grande. Dois. Queres vir cá jantar amanhã? Ok, desta vez para outra caldeirada, vale?

Olho de novo para o site com o botão irritante a rodar e nenhum som. Preciso tanto da Oxigénio para respirar, tanto. Acendo outro cigarro e vou digerindo a aventura.
Às vezes não vale de nada reiniciar a vida, às vezes não somos nós que temos de nos formatar, a resolução está lá fora. Às vezes focamo-nos tanto nos nossos defeitos, limitações, nas dúvidas, nos receios, no nosso umbigo, que não percebemos que a solução está mesmo à frente nariz.

Abro o site da RTP, quero ver o que se passou no mundo enquanto nada se passou nada por aqui. Trump, Irão, exames nacionais, Venezuela… está tudo na mesma.
Volto, por mera teimosia, ao site da Oxigénio. Envio um sms: João Voltou!
Levanto o volume. Levanto a atitude. Já não me falta ar

OS ROMANOS EM CASCAIS

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A história de Cascais conta com um novo e valioso capítulo. Os conceituados arqueólogos Guilherme Cardoso e José d’Encarnação lançaram o livro “A Presença Romana em Cascais: Um Território da Lusitânia Ocidental”. Editada pela Associação Cultural de Cascais, a obra sintetiza mais de 20 anos de rigorosa investigação arqueológica sobre o concelho.

A sessão de lançamento decorreu no Casal Saloio de Outeiro de Polima (Centro de Interpretação do Espaço Rural de Cascais). O evento reuniu amigos, admiradores e estudiosos, servindo também de palco para celebrar o Dia Internacional da Arqueologia.

Esta publicação reveste-se de um duplo significado. Por um lado, celebra os 50 anos de atividade da Associação Cultural de Cascais em prol do património local. Por outro, reforça o compromisso contínuo dos autores com a partilha do conhecimento, um trabalho de proximidade que ambos mantêm também no espaço de opinião Duas Linhas, onde José d’Encarnação assume uma presença proeminente e de referência.

Mais do que um registo científico, este livro é um património de todos os cascalenses, essencial para compreender a identidade e as raízes do território.

POESIA DE COMBATE

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fotomontagem

INFAUSTO SERVIL

Tu, o infausto servil,
essa carcaça oca que deambula e não habita,
tu, que te dizes presente mas não és:
Sabe que nenhum Deus reclamará a tua sombra.
Não há altar para o que nunca teve substância,
nem redenção para o escravo que ama as suas correntes.

Serás, vezes sem conta,
uma abstração moldada pelo medo,
um rasto de pó numa engrenagem cega.
Pouco importa o teu grito ou o teu silêncio,
pois ergueste o teu templo sobre certezas que não tens.
O teu fôlego é um mentir de ti mesmo,
uma máscara colada ao vazio,
um inventário de tudo o que não és.

Olha para as tuas mãos:
estão sujas de tempo e de submissão.
Se queres a vida, ama o Mundo na sua fúria e no seu cansaço,
ama-o como quem aceita o naufrágio, sem esperança de porto.
E humilha-te, enfim.
Não a humildade dos fracos, mas a dos lúcidos,
a daqueles que sabem que o “Eu” é a maior das mentiras.

Acende a candeia com o óleo do teu próprio desengano.
Ilumina-te de uma luz que queime, que desfaça o acessório,
até que reste apenas o osso, o frio e o rigor.
Só na mais solene e cruel convicção da tua insignificância
poderá brotar, talvez, uma libertação.

Não esperes misericórdia nem retorno.
A existência é o sentido único da lâmina:
uma verdade que se corta em tudo o que se vive.
O resto é o servilismo dos mortos que esqueceram de deitar-se.

O Cântico da Escudela Universal: Da Fome à Unidade

Em tempos se construíram cidades e vilas de pedra e ego,
Onde o pobre vive de escudela na mão, em perpétuo rogo.
O rico, arquiteto de espelhos, do suor alheio se alimenta,
Enquanto a cidade, em seu brilho, a própria miséria sustenta.
Ó Povos destroçados, que nas margens medonhas caminhais,
Por que buscais em Deuses esquecidos a paz que vós mesmos negais?

Vós, que escreveis a proemial história com mãos calejadas,
Aventais motivos vãos e seitas em rotas estilhaçadas.
Navegais em rios estreitos, temendo a imensidão do mar,
E destronais os sonhos sentidos antes mesmo de os ousar.
A escudela que carregais não é apenas o fardo da fome,
É o símbolo de uma Humanidade que esqueceu o seu próprio nome.

Por que não ser Único? Por que a vergonha sorri sem coragem,
Enquanto evocais destrezas que são apenas miragem?
O pobre guarda o seu aforro e um cantar que é terno e profundo,
Mas o povo, em seitas dividido, permanece órfão do mundo.
Sibilai o longo caminho, mas não como quem vai vencido,
Pois quem vive na separação, morre sem nunca ter vivido.

Oh rico Povo, de alma imensa e voz de séculos unida,
Que a vossa grata voz desperte para a profecia da vida!
Que a escudela se torne o cálice de um sentido afável e novo,
Onde não haja mais rico ou pobre, mas apenas um único Povo.
Uni-vos nos novos caminhos, para além do medo e do olvido,
Pois só na Humanidade inteira o destino será cumprido.

O CAPITAL HUMANO ESQUECIDO

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Vivemos numa época em que o conhecimento é apresentado como o recurso mais valioso para o desenvolvimento económico, científico e social. Fala-se da economia do conhecimento, da inovação e do talento como os motores do futuro. Contudo, quando milhões de pessoas atingem a idade da maior maturidade intelectual e profissional, deixam de ser vistas como um ativo e passam a ser tratadas como um custo. É um paradoxo difícil de compreender.

Uma sociedade investe durante décadas na formação dos seus cidadãos. Acompanha-os desde a escola até à universidade, promove especializações, incentiva a aprendizagem ao longo da vida e beneficia da experiência que cada profissão vai acumulando. Mas, precisamente quando esse património humano atinge o seu ponto mais elevado de conhecimento, muitas dessas pessoas são empurradas para a margem.
Não porque perderam competência.
Não porque deixaram de pensar.
Não porque deixaram de criar.
Apenas porque envelheceram.

Este é um dos maiores desperdícios do nosso tempo.
O verdadeiro capital de uma sociedade não está apenas nas infraestruturas, na tecnologia ou nos recursos financeiros. Está, acima de tudo, nas pessoas. E entre essas pessoas encontram-se milhares de homens e mulheres que acumularam décadas de experiência, de capacidade de decisão, de memória institucional, de sentido crítico e de sabedoria prática.
Ignorar esse património é desperdiçar riqueza.

As sociedades mais inteligentes serão aquelas que souberem criar novas formas de participação para quem continua a querer contribuir. Não se trata de impedir reformas nem de obrigar ninguém a trabalhar para além da sua vontade. Trata-se de abrir portas a quem deseja continuar a ensinar, a orientar, a inovar, a aconselhar ou simplesmente a colocar a sua experiência ao serviço da comunidade.
A longevidade alterou profundamente a condição humana. Hoje, muitas pessoas chegam aos setenta ou oitenta anos com saúde, lucidez e uma enorme capacidade de intervenção. Persistir em modelos sociais construídos para uma realidade demográfica do século passado significa desperdiçar um dos maiores recursos do século XXI.

O futuro não depende apenas da energia dos mais jovens. Depende também da inteligência coletiva que nasce quando a juventude e a experiência trabalham lado a lado.
Precisamos de abandonar a ideia de que a idade marca o fim da utilidade social. Pelo contrário, pode representar o início de uma nova forma de participação, menos condicionada pela carreira e mais orientada para a transmissão de conhecimento, para a mentoria, para o voluntariado qualificado e para a construção de projetos com significado.
Nenhum país se pode dar ao luxo de desperdiçar o seu capital humano mais experiente.
Valorizar esse património não é um gesto de solidariedade para com os mais velhos. É um investimento inteligente no futuro de toda a sociedade.
Porque uma nação que esquece os seus cidadãos mais experientes não perde apenas memória. Perde capacidade de construir o amanhã.