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ÁFRICA NÃO PODE CONTINUAR À PORTA DA HISTÓRIA

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A recente posição assumida pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, ao defender a presença permanente de países africanos no Conselho de Segurança das Nações Unidas, não constitui apenas uma declaração diplomática. Trata-se de um reconhecimento histórico tardio de uma profunda injustiça política internacional que dura desde 1945. África já não pode continuar a ser o único grande bloco civilizacional do planeta excluído do núcleo duro da governação mundial.

O atual Conselho de Segurança da ONU nasceu num contexto geopolítico completamente diferente do mundo contemporâneo. Foi concebido após a Segunda Guerra Mundial, num período em que grande parte de África ainda estava sob ocupação colonial. Os vencedores da guerra desenharam uma arquitetura internacional baseada nos seus interesses estratégicos e militares, ignorando por completo centenas de milhões de africanos que nem sequer tinham direito à autodeterminação.

Passaram mais de oitenta anos. Hoje, África representa mais de 1,4 mil milhões de habitantes, possui 54 Estados soberanos, detém enormes reservas minerais, energéticas e ambientais estratégicas, dispõe da população mais jovem do mundo e tornou-se um dos espaços centrais da disputa económica e geopolítica internacional. Ainda assim, continua sem um único assento permanente no Conselho de Segurança. Esta realidade tornou-se moralmente insustentável e politicamente indefensável.

Como pode a ONU falar de democracia global, equilíbrio internacional ou legitimidade multilateral quando todo um continente continua excluído das decisões permanentes sobre paz, segurança e guerra? Como pode o Conselho de Segurança decidir sobre conflitos africanos sem representação africana permanente? Quantas vezes tropas africanas morreram em missões internacionais decididas por potências que jamais aceitariam semelhante exclusão sobre os seus próprios destinos? A verdade é simples: o atual modelo tornou-se obsoleto.

A posição de António Guterres revela lucidez política e consciência histórica. Guterres compreendeu que a ONU corre sérios riscos de perder legitimidade internacional caso continue presa às estruturas herdadas do pós-guerra. O mundo tornou-se multipolar. A distribuição do poder internacional mudou. As economias emergentes ganharam peso. Novos centros de influência surgiram. África deixou de ser apenas objeto da política internacional para se transformar progressivamente num sujeito incontornável das grandes decisões globais. Mais do que nunca, a reforma do Conselho de Segurança tornou-se uma necessidade estratégica para salvar a credibilidade da própria ONU.

E neste contexto, ganha enorme relevância a possibilidade de o antigo Presidente do Senegal, Macky Sall, poder vir a assumir futuramente funções de Secretário-Geral das Nações Unidas. A eventual ascensão de um líder africano experiente à liderança da ONU teria um profundo significado político e simbólico. O Senegal sempre ocupou uma posição diplomática respeitada no espaço africano e internacional, sendo reconhecido pela estabilidade institucional relativa, tradição diplomática e capacidade de diálogo.

Mas a questão central ultrapassa nomes ou nacionalidades. O verdadeiro debate é civilizacional. O século XXI não poderá continuar organizado segundo os equilíbrios de poder do século XX.

África já não aceita ser apenas fornecedora de matérias-primas, palco de conflitos geopolíticos externos ou simples mercado consumidor das grandes potências. O continente quer participar na definição das regras internacionais, na construção das soluções globais e na arquitetura da paz mundial. E isso é legítimo.

Nenhuma reforma séria da governação global será sustentável sem África. Nenhuma estratégia internacional sobre clima, migração, terrorismo, segurança alimentar, minerais estratégicos, energia ou crescimento demográfico poderá funcionar ignorando o continente africano.

As grandes potências sabem disso. Os Estados Unidos sabem disso. A China sabe disso. A Rússia sabe disso. A União Europeia sabe disso. Por isso, a disputa pela influência em África tornou-se hoje uma das principais batalhas geopolíticas do planeta.

A ONU precisa agora de demonstrar coragem política para adaptar-se ao novo mundo que emerge. A entrada de países africanos como membros permanentes do Conselho de Segurança não deve ser encarada como um favor diplomático, mas sim como uma reparação histórica e uma necessidade de equilíbrio global.

O continente africano exige respeito político. Exige representação. Exige justiça histórica. E, acima de tudo, exige que o futuro da humanidade deixe finalmente de ser decidido sem África sentada à mesa principal das grandes decisões mundiais.

500 ANOS DO CASAMENTO DA INFANTA D. ISABEL

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As celebrações focaram-se no Itinerário da Infanta Isabel, refazendo os passos da comitiva real que, no início de 1526, partiu de Lisboa (local de nascimento da princesa) em direção a Espanha, onde se casou com o Imperador Carlos V. Um encontro de linhagens que foi desenhado muito antes de se realizar.

De facto, pressentindo o fim da vida, D. Manuel I acrescentou ao seu testamento (1521) um codicilo com uma tarefa imperativa para o príncipe D. João: “Item muito rogo e encomendo ao dito Príncipe meu filho, que tome grande e especial lembrança e cuidado de se acabar o cazamento da infante D. Izabel sua Irmaã com o Emperador no qual elle sabe quanto tenho athe aqui trabalhado, e quanto o dezejo […]” Mais do que uma aliança afetiva, tratava-se de um movimento estratégico para consolidar a hegemonia das coroas ibéricas num mundo em expansão.

Em 1526, a promessa cumpriu-se. Após o casamento por procuração no Paço Real de Almeirim, Isabel iniciou a sua jornada rumo à fronteira. O itinerário – que passou por Torres Novas, Chamusca, Ponte de Sor, Alter do Chão e Monforte – culminou em Elvas, o último solo português que a Infanta pisaria antes de se tornar Imperatriz. Foi ali, sob o olhar das muralhas que vigiam a fronteira, que a Infanta se despediu do reino do seu irmão D. João III.

No passado dia 19 de abril, Elvas recuou no tempo para homenagear este legado. As celebrações incluíram recriações históricas com trajes de época, banquetes e danças de corte, evocando a opulência da comitiva original que impressionou as crónicas do século XVI. O som das gaitas de foles, o restolhar dos trajes de seda e o bater dos cascos dos cavalos no empedrado anunciaram a recriação do cortejo da Infanta.

O momento simbólico da “Entrega da Infanta” – a transição formal para o séquito espanhol – foi encenado na ponte sobre o Rio Caia e em Badajoz, evocando o ato diplomático que selou o destino de Isabel.

Ao casar em Sevilha, a 11 de março de 1526, Isabel não foi apenas uma rainha consorte; foi a alma do Império. Inteligente e sensível, governou como Regente de Castela durante as longas ausências do marido, a quem escrevia incansavelmente, provando que a sua educação humanista a preparara para os mais altos voos da governação. O ambiente poliglota em que viviam não era apenas um reflexo da árvore genealógica, mas uma ferramenta essencial de governação. Isabel, educada na corte de D. Manuel I, cresceu num Portugal que era o centro de um império global, dominando o português e o castelhano, além do latim. Já Carlos V, embora fosse o monarca mais poderoso da cristandade, teve de aprender a equilibrar o seu francês nativo com o neerlandês, o alemão e, mais tarde, o castelhano, que se tornaria a língua do coração do casal.

Diz-se, inclusive, que a relação entre ambos foi uma das raras exceções de afeto real genuíno na época, e a língua terá sido a ponte para essa união num império onde, como Carlos dizia, “o sol nunca se punha”.

Apesar de ter desempenhado de forma exemplar os papéis de mulher, mãe e soberana, a morte colheu-a precocemente aos 36 anos, mergulhando o seu nome num esquecimento de séculos, guardado apenas pela lenda e pela arte. Hoje, o seu olhar sobrevive na obra-prima de Ticiano, a imagem que o Imperador, apaixonado, contemplou até ao fim dos seus dias.

Retrato da Infanta D.Isabel por Ticiano, 1548 – Museu do Prado

PORTUGAL: TORTURA E ASSASSINATOS EXTRAJUDICIAIS

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Em síntese, a parte dedicada a Portugal no relatório anual da Amnistia Internacional traça um retrato bastante crítico da situação dos direitos humanos no país, centrado sobretudo em seis eixos: violência policial e discriminação racial; maus-tratos nas prisões; restrições ao direito de manifestação; aumento dos crimes de ódio; persistência da violência de género; dificuldades no acesso ao aborto.

O relatório destaca particularmente investigações sobre alegados homicídios de pessoas racializadas por agentes policiais e novos indícios de maus-tratos no sistema prisional. Refere ainda preocupações com o crescimento do discurso e dos crimes de ódio num contexto político marcado pela subida da extrema-direita e do partido Chega.

Claro que no resto do mundo há situações verdadeiramente calamitosas, no que diz respeito aos direitos humanos. Hoje assistimos à complacência das democracias perante um Estado genocida, à perseguição judicial dos que continuam a procurar justiça, igualdade, democracia no concerto das nações. Agora, domina a guerra e não a diplomacia. Domina a mentira e o fingimento nas relações entre Estados.

Israel executa um genocídio contra os palestinianos, invade e bombardeia países vizinhos, ocupa territórios que pretende colonizar. A Rússia e a Ucrânia continuam uma guerra de destruição mútua. Os EUA envolvem-se em assassinatos extraterritoriais extrajudiciais e ataques ilegais à Venezuela, ao Irão e ameaças de invadir Cuba e Gronelândia.  Vivemos num mundo sem moral.

É neste enquadramento que foi publicado o relatório da Amnistia Internacional, um rol de atrocidades e injustiças praticadas em todo o mundo por quase todos. E é lamentável que Portugal esteja incluído.

Este relatório é baseado em investigações sectoriais feitas por organismos internacionais independentes e em relatos jornalísticos sobre investigações de “casos de polícia” e que incluem depoimentos de vítimas.

fonte Relatório Anual 2025/26: Estados devem impedir nova ordem anti direitos – Amnistia Internacional Portugal

SEGUROS PARA NADA

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fotomontagem,composição gráfica

Se algumas pessoas foram ressarcidas pelas suas companhias de seguros devido aos danos causados com as sucessivas intempéries, muitas outras houve que não tiveram a mesma sorte, apesar da contestação das peritagens e de terem desenvolvido todas as diligências para que tal fosse possível. Portanto, seguros para quê?

Mesmo das zonas mais afectadas, vêem-se e ouvem-se todos os dias notícias de queixas, sem que ninguém resolva os problemas.

O primeiro-ministro Montenegro, com o Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR), resolveu criar um novo modelo de resposta a catástrofes, com a criação de um fundo de catástrofes naturais e sísmicas e a implementação de um sistema de seguros obrigatórios para habitação e infraestruturas empresariais. Assim, cria-se a obrigatoriedade de ter mais um seguro, desta vez ainda em habitações e empresas para suportar o tal fundo de catástrofes naturais e sísmicas que, entre outras coisas, vai, naturalmente, fazer aumentar as rendas e os preços das casas.

O plano prevê, ainda, diz Montenegro, mecanismos de apoio público para assegurar que as famílias com menores rendimentos consigam aceder ao sistema, garantindo uma dimensão de solidariedade social. A realidade é que os seguros não têm funcionado na globalidade para os mais necessitados. Por isso, pague-se mais…

Claro que as reacções a esta medida foram más. É que, por um lado, as freguesias pedem também financiamento para equipamentos de desobstrução das vias e, por outro, os municípios querem clarificar o financiamento e quem faz o quê.

Para o cidadão pagador, a situação só piora. Levam-se anos e anos a pagar seguros que, na hora da verdade, não funcionam, nem que seja com a velhinha desculpa de ‘não ter as coberturas certas’. E, agora, acresce-se mais um seguro obrigatório para, segundo o primeiro-ministro, garantir uma resposta mais rápida e previsível em situações de crise, reduzindo a dependência da intervenção do Estado.

Montenegro entende que assim se exige um equilíbrio entre o papel do Estado e a responsabilidade coletiva. ‘Não podemos transmitir à sociedade a ideia de que o Estado pode pagar tudo a todos, a todo o tempo’.

A justificação do primeiro-ministro é deveras interessante. Levamos anos a pagar seguros obrigatórios que, na prática, não servem para nada e agora temos mais um porque ‘o Estado não pode pagar tudo a todos’. Estou parcialmente de acordo porque o Estado somos todos nós. Mas, já agora (e gostaria de referir que sou das pessoas que lêem as letras pequenas, os orçamentos sejam do que forem, os contractos e outras ‘minudências’), com todos os impostos a aumentarem, bem como custo de vida e a inflação, sem que as migalhas da baixa do IRS consigam cobrir as despesas, vamos ainda contribuir para ‘engordar’ mais as seguradoras? Montenegro só se esquece de exigir às companhias de seguros que cumpram com as suas responsabilidades.

Só mesmo das cabeças deste (des)governo.

FALAR DE CASSINGA

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Nos anos 70, a Namíbia era ainda um território ocupado pela África do Sul, governada por um regime branco racista que reprimia a maioria negra da população. O apartheid sul-africano, hoje frequentemente evocado quando se analisam outras realidades contemporâneas, era então um sistema internacionalmente isolado, apoiado apenas por alguns aliados estratégicos ocidentais e, até 1974, também pela ditadura portuguesa.

No dia 4 de maio de 1978, em Angola, tropas paraquedistas sul-africanas atacaram em Cassinga a base da SWAPO, o movimento de libertação que combatia a ocupação sul-africana da Namíbia. Depois da independência de Angola, em 1975, e da chegada do MPLA ao poder, a SWAPO encontrou em território angolano um espaço de retaguarda relativamente seguro para instalar bases, treinar combatentes e acolher refugiados.

Cassinga era um desses locais. Funcionava simultaneamente como base militar e campo de acolhimento civil, albergando também população não combatente ligada etnicamente e politicamente à SWAPO. Situada a centenas de quilómetros da fronteira namibiana, Cassinga parecia suficientemente distante para escapar à guerra. A distância, contudo, não impediu o ataque sul-africano, que acabaria por transformar-se num massacre com centenas de mortos entre guerrilheiros e civis.

Paraquedistas sul-africanos atacam Cassinga, Angola

A operação foi também um prenúncio do que viria depois. Nos anos seguintes, a África do Sul aprofundaria a intervenção militar em território angolano, procurando derrubar o MPLA e impedir que Angola se transformasse numa plataforma de apoio aos movimentos de libertação da região. Para Pretória, a sobrevivência do apartheid passava pelo controlo estratégico da Namíbia e pela contenção dos movimentos revolucionários internos. O apartheid sul-africano está hoje a ser replicado noutras geografias, mais uma vez com a complacência dos governos europeus e dos EUA.

Paraquedistas sul-africanos atacam Cassinga, Huambo, Angola

A intervenção cubana foi decisiva para impedir a queda do MPLA e alterar o equilíbrio militar regional. Também em Cassinga, o contra-ataque às forças sul-africanas contou com tropas cubanas estacionadas em Angola. Os militares sul-africanos acabariam por retirar, evitando prolongar um confronto que poderia provocar perdas significativas num exército dependente de uma minoria branca relativamente reduzida.

As fotografias da época mostram sem filtro o horror da guerra: centenas de corpos amontoados, entre eles mulheres e crianças. A imprensa sul-africana, submetida à censura militar do regime, procurou enquadrar o massacre como uma vitória legítima contra “terroristas”, insistindo que a maioria dos mortos seriam homens adultos e, portanto, combatentes, mesmo quando muitos não usavam uniforme.

Existem igualmente imagens que comprovam a presença militar da SWAPO em Cassinga, com desfiles, treinos e cerimónias militares. Esse facto continua a ser usado para justificar o ataque, embora nunca tenha eliminado a controvérsia sobre a dimensão da matança de civis.

Parada militar da SWAPO em Cassinga
armamento soviético colocado em Cassinga

Em março de 1990, a Namíbia tornou-se independente e a SWAPO assumiu o poder. Poucos anos depois, em 1994, o apartheid sul-africano desaparecia ingloriamente com a chegada do Nelson Mandela à presidência. Na África Austral, movimentos apoiados pela URSS – como o MPLA, a SWAPO e o ANC – alcançaram o poder político, embora cada um tenha seguido trajetórias próprias, marcadas tanto pela Guerra Fria como pelas realidades internas dos seus países.

Cassinga e os que ali foram martirizados foram tabuleiro e peões, respetivamente, de uma guerra entre potências que nunca se importaram com o sofrimento humano que os seus jogos de guerra provocavam.

VIAGEM A LISBOA E CONFRONTO COM A REALIDADE

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Um destes dias tive de me deslocar de Santa Comba Dão a Lisboa para tratar de alguns assuntos particulares. Na A1, entre Fátima e Santarém, a minha viatura colapsou totalmente, o que me aconteceu pela primeira vez em mais de 50 anos e fiquei parado na berma da auto-estrada. Dentro da viatura, um erro que assumo desde já, fiz um telefonema para o ACP, a fim conseguir apoio para um reboque e transporte para Lisboa. Saí do automóvel, encostei-me ao separador e fiquei a ver passar os camiões pesados, em elevada velocidade, tentando não ter receio de que alguma coisa corresse mal.

Passada meia-hora, apareceu uma Brigada da GNR que, de forma gentil e extremamente correcta, veio saber o que se passava. Aconselhou-me a passar para o outro lado do separador, por uma questão de segurança, e, após saberem que eu já tinha solicitado a assistência, foram embora. Dei comigo a pensar que, afinal, ainda podemos ter esperança nas forças policiais, apesar do que, segundo a acusação do Ministério Público, se passou, em Lisboa, com alguns agentes da PSP, suspeitos das maiores barbaridades e violação dos mais elementares direitos dos cidadãos. Esclareço que, até ao trânsito em julgado da decisão judicial são, nos termos da CRP, presumidamente inocentes.

Dois dias em Lisboa confirmaram o que me vinham dizendo, uma cidade cada vez mais caótica, suja, desmazelada, dois anos após ter saído da capital. Fiquei em choque com o estado a que um mau autarca pode conduzir uma cidade, a minha cidade, transformando-a numa enxovia.

Regressei a casa no Inter Cidades, que saiu à hora certa da Gare do Oriente. A carruagem estava cheia, com todos os passageiros agarrados aos telemóveis. Um homem, com cerca de 50 anos, passou toda a viagem, até ao seu destino a ver tik-tok. Uma mulher, com cerca de 40 anos, após a saída do passageiro que estava no lugar ao lado, esticou-se no banco e colocou os pés em cima do assento. Enfim, mergulhei neste admirável mundo novo da sociedade portuguesa.

Quando cheguei ao destino já passava das 21 horas e pedi a um amigo para me ir buscar, porque já não havia táxis, num concelho em que a Presidente da Câmara, em recente entrevista a um canal televisivo, garantia querer transformar o município num destino aprazível para o turismo, reforçando, deste modo, a economia local. 

Nos dias seguintes os acontecimentos de que tomei nota não me alegraram. A ex-chanceler Merkel, a principal responsável pela situação de degradação da Europa, esteve em Lisboa, possivelmente para ver os ‘pacóvios’ do sul, que ela tentou esmagar, mas não prescindiu de ir aos fados, beber um bom vinho e comer da boa comida portuguesa. Descobri que o ‘encantador de burros’, é a versão portuguesa do TACO, ao admitir que, afinal, a descida da idade da reforma – uma imbecilidade total, de resto, saída da cabeça de um homem desesperado – não é uma exigência para a aprovação das alterações à legislação laboral. E, por último, para o governo existem dois tipos de percepção, uma correcta, a de que existe uma sensação de insegurança, e outra incorrecta, a de que o SNS está um caos, pois o executivo  assegura que o SNS está bem e recomenda-se, os portugueses, madraços, é que têm a percepção que está um caos.

É UMA VERGONHA

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imagem representativa da crónica, alterada graficamente

Durante anos, organizações internacionais, mecanismos europeus de prevenção da tortura, associações de direitos humanos e até tribunais portugueses e trabalhos jornalísticos (basta lembrar o programa “Casos de Polícia” nos anos 90 na SIC) foram deixando avisos sucessivos sobre práticas de violência, humilhação, agressão e abuso cometidos por elementos da PSP e da GNR. Relatórios atrás de relatórios, repetindo quase sempre as mesmas palavras: uso excessivo da força, maus-tratos em esquadras, impunidade, investigações insuficientes, ausência de fiscalização eficaz.

E, quase sempre, o mesmo tipo de vítima. O imigrante. O pobre. O cidadão racializado. O trabalhador precário. O morador de bairros periféricos. O indivíduo sem capital social, sem advogado, sem visibilidade mediática e sem meios para enfrentar uma corporação armada. Não se pode ignorar esta coincidência permanente. A violência policial raramente é distribuída de forma aleatória. Escolhe quase sempre quem tem menos capacidade de defesa pública.

O caso dos trabalhadores imigrantes em Odemira mostrou isso de forma particularmente brutal. Militares da GNR acusados de sequestrar, humilhar e agredir pessoas vulneráveis, num ambiente onde a exploração laboral já era extrema. Antes disso, outros casos tinham surgido em bairros periféricos de Lisboa, em esquadras policiais, em estabelecimentos prisionais. É um padrão que se repete.

Agora surgem as denúncias e detenções ligadas às esquadras do Rato e Bairro Alto. Tortura. Violência. Violação. Humilhação. Alegadas agressões praticadas dentro de instalações policiais onde os cidadãos se deveriam sentir protegidos pela lei.

Alguém acredita seriamente que nada disto era conhecido internamente? Quando aparecem dezenas de agentes envolvidos ou investigados, quando há práticas alegadamente repetidas durante anos, quando existem grupos internos, cumplicidades, silêncios e normalizações, torna-se pouco credível imaginar chefias completamente cegas, estruturas hierárquicas totalmente ignorantes ou comandos incapazes de perceber o ambiente instalado dentro das próprias esquadras.

Uma instituição policial é uma estrutura fortemente hierarquizada. Controla horários, turnos, relatórios, detenções, operações, disciplina interna, circulação de informação. Não é plausível que fenómenos desta dimensão prosperem durante anos sem sinais, rumores, denúncias, suspeitas ou conhecimento informal dentro da cadeia de comando. O escândalo não reside apenas nos alegados crimes. Reside também na possibilidade de eles terem sido permitidos pelas hierarquias.

O Comité Europeu para a Prevenção da Tortura foi repetindo críticas duríssimas a Portugal. Organizações internacionais foram denunciando padrões persistentes de maus-tratos por parte de PSP e GNR. Mas o discurso oficial foi quase sempre o mesmo: casos isolados, episódios pontuais, desvios individuais.

A erosão social começa assim: na normalização silenciosa da brutalidade contra quem tem menos voz, maior dificuldade no exercício dos seus direitos e menor proteção social. Fomos sendo habituados à ideia de que certas pessoas podem ser revistadas com mais violência, detidas com menos explicações, humilhadas com maior facilidade e espancadas sem grande problema. Nos últimos tempos, alguns agentes da política contribuíram para o agravamento deste tipo de injustiças.

O caso do Rato e do Bairro Alto não é só um caso criminal. É o reflexo daquilo em que Portugal se está a transformar.

CRIME PERFEITO

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“Malhou” na mulher porque ela lhe disse não ter dinheiro para as despesas…

– A “gaija” se calhar pensa que estou rico ou que herdei!

Isto foi ouvido pelas duas vizinhas do casal, que do quintal, observaram sem intervir. É que o “moina” já vinha com o vinho, não fosse sobrar para alguma delas, ou para as duas e os respectivos maridos terem que intervir. Seria uma tragédia. O melhor era ir depois do “malhanço” e tentar ajudar em alguma coisa. Viram que o marido da amiga já estava fora de portas e chamaram:

– Ò Tininha!… Podemos entrar?

Foram entrando é claro. Dentro, a vítima tentava disfarçar os vermelhos da face com uma toalha. As amigas tiram-lha da mão para observarem bem, uma exclama:

– Havias de meter os cornos ao filho da puta! “Atão” isto faz-se?

Olhava com espanto, presume-se… interrogando a outra amiga que com a mão na boca, tinha um ar de ter acontecido um terramoto. Efectivamente a cara da ofendida e barbaramente agredida, apresentava muito sangue pisado, fundamentalmente na zona dos olhos, completamente raiados de sangue, inchados e a ficarem negros. Fazem-na falar para ver se encontram uma “razão” para este acto troglodita. O que sabiam era que anteriormente não era assim, batia-lhe, mas não desta forma, “ai que tinha de haver “puta” a entrar na vida deles, tinha”. O “gajo” sempre bebera quase tudo que ganhava, mas nunca tinha batido nela como agora. A “Tininha” tinha que fazer queixa dele no posto da policia! Lá isso é que tinha. E vão, as duas de incentivar ao acto, no que é negado pela ofendida, que diz:

– Não me façam isso. É que ele foi despedido! Ele e mais 26 na empresa.

– Mas isto não pode ser! Mais uma razão para ele não te bater! Tu é que és o sustento da família, sempre foste e agora mais… Mas não pode o “corno” fazer o que faz!

– Deixa lá. – Diz a outra, tentando contemporizar e acalmar a situação.

– Deixa andar, deixa andar e dá no que dá! Olha para esta cara! Pode lá ser?! Olha, vais ao centro de saúde e vais ter que dizer o que te aconteceu. Se não dizes, dizemos nós. Amanhã tens que ir trabalhar e como é que vais atender os clientes no café? O Sousa não te deixa trabalhar neste estado! Entras de baixa e ele mete outra no teu lugar.

A outra amiga estava de regresso da cozinha com gelo num saco de plástico que colocou na mão de Tininha. Esta levou o gelo à face… fez uma “careta” de dor, mas deixou o gelo em contacto com a pele.

– Vá lá. Veste-te para irmos. Não vais com essa camisa de dormir. Lá por ser domingo já devias estar vestida. Não me digas que o gajo te levou p’rá cama? O “corno” é mesmo porco, depois de fazer o que lhe interessou “malha” na mulher!

– Não é nada disso! Estava a limpar o pó e disse-lhe que precisa de dinheiro para dar ao Carlitos, para comprar uns materiais para levar para a escola. Aí é que foi a desgraça toda.

– Quer dizer, o filho é dele, mas tu é que o sustentas? Que pai do “carago” ele é! Havia de ser comigo! Fazia-lhe a cama. Isso é que fazia!

– Olha uma coisa – Diz a outra amiga – o Nandinho da Carla também foi despedido da firma… lá perto de Valongo, sabem?

Todas anuíram.

– E bateu na Carla, só que esta deu-lhe com uma garrafa cheia de vinho na cabeça. O “gajo” levou seis pontos na cabeça e ela disse-lhe que se voltasse a acontecer, ela fazia queixa de violência doméstica e nunca mais ia ver os filhos.

– Pois é, mas não tinha garrafa nenhuma de vinho e fui apanhada pelas costas quando levei a primeira, caí e nunca mais me levantei.

– Corno! Filho da puta! É preciso ser muito cobarde!

– Filho… da puta… o quê?…

Tinha entrado o autor da “proeza”, a cambalear, e a interrogar, em ar de desafio a autora da frase. Maria, olha para ele, tira uma jarra com flores, cheia de água, que se encontrava em cima de uma floreira e… acerta na cabeça do homem com violência e no meio de vidros, flores e água, este cai direito no chão, sem um ai… ali fica inerte. A autora do “disparo” diz em voz aflita:

– Meu Deus o que eu fiz!… Matei o teu homem… Ai minha nossa senhora…

– E agora – diz a outra amiga com as mãos na cabeça.

A ofendida diz com o gelo na cara e a olhar para o homem:

– Não se preocupem. Ninguém fez nada contra ninguém. Ele é que vem com os copos, quis bater-me outra vez, escorregou, caiu e a jarra caiu-lhe em cima… e… partiu-se toda…

Olhando para as amigas:

            – Foi ou não verdade o que aconteceu? Vinha bater-me ou não?

– Claro que sim. Nem tivemos tempo de o agarrar…

SENSAÇÕES ESTRANHAS

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fotomontagem

Em tempos, passei junto da Ópera de Milão, no momento em que chegavam – de lamborghini, ferrari, porsches… – damas de longos vestidos, cavalheiros de fato escuro e papillon. Saíam os motoristas numa pressa, para escancararem as portas de trás. Uma suave atmosfera de outro mundo, ou melhor, deste nosso, prosaico, a penetrar noutro universo, dignando-se a descer ao comum dos mortais…

Na noite do passado dia 5, mui diferente foi a entrada para o hall do Casino Estoril, agora longo tapete estendido a sedutoras máquinas de jogo… Bem acolhedor se quis mostrar o glorioso Salão Preto e Prata, sem milanesas pretensões – que tal não era o objectivo.

Esperava-nos Verdi. Ia mostrar-nos uma Aïda, serva, a morrer de paixão por Radamés, o filho do faraó. Mútua era essa paixão. Sim, tudo se passava noutro tempo, em que havia hieróglifos sem Pedra de Roseta capaz de os decifrar.

Encenação de Ignacio García e Aurora Cano; discreta também a cenografia, de Alejandro Contreras, mais a sugerir do que a mostrar. Em pano de fundo, enorme painel de hieróglifos, de enigmática mensagem. Figurinos de Ana Ramos, igualmente sem escusadas ostentações, ligeiro apontamento egípcio antigo. A Hesperian Symphony Orchestra, dirigida por Antonio Ariza Momblant, a não ocupar o papel preponderante, mas apenas a sublinhar a acção, ora em lírica suavidade ora, qual sonora trombeta, forte dramaticidade.

Invocaram-se Ísis e Osíris, porque aos humanos nem tudo corre bem – ou nada mesmo –  sem o conluio dos deuses,  num lima de guerra entre povos vizinhos: Etíopes dum lado (o povo de Aïda), Egípcios do outro. Agora invadidos, daqui a pouco invasores…

E o Amor acaba por vencer. Acaba – embora trágico – por falar mais alto do que o fragor metálico das espadas e punhais.

Mais uma louvável iniciativa do Grupo Chiado para trazer a ópera ao quotidiano. Bem hajam! Gratos estamos, também, pela gentil cedência de imagens. Gratos a: María Ruiz  e Lucía Tavira, no difícil e muito bem desempenhado papel de Aïda; a Eduardo Sandoval e Enrique Ferrer, elegantes figuras de Radamés. María Luisa Corbacho incarnou bem Amneris, a princesa despeitada; Manuel Mas foi o vingativo Monasro, rei da Etiópia, pai da protagonista; Jordi Serrano, o faraó, soberano; Ramfis,·Antonio Alonso, por seu turno, altivo no papel de Sumo Sacerdote, a autoridade religiosa e política, a voz do poder dos deuses e da segurança do Estado.

E não faltou o coro, aquela anónima «voz do Povo», a tudo comentar, como se fora de cena estivesse e jamais pudesse calar-se. Feminino e masculino – porque, em tragédias assim, há sempre as duas perspectivas a ter em conta.

Acrescente-se que foi na véspera de Natal de 1871 que o espectáculo subiu à cena, pela primeira vez, na Ópera do Cairo, capital do Egipto. No palco do Salão Preto e Prata, os quatro actos seguiram o libreto que António Ghislanzoni (1824–1893) escreveu para Giuseppe Verdi (este, o trabalho que  tornou Ghislanzoni mais famoso como libretista), preparado com a colaboração do francês Camille du Locle (1832–1903) e do egiptólogo e arqueólogo Auguste Mariette (1821–1881). Bem diversificada equipa, portanto.

A apresentação no Estoril foi a primeira das quatro previstas para esta digressão em Portugal, que vai terminar em Lisboa, depois de passar por Braga e Águeda.

“POVO QUE LAVAS NO RIO”

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Tanques de lavar em S. João, em 1931, Lagos

Lembro as mulheres da minha aldeia, minha mãe nesse corpo de heroínas, quando em seus tempos livres, cesto à cabeça carregando a roupa da família, roupa que o suor encardira, roupa de quotidiano dela própria, do seu homem e dos filhos, roupa de trazer no dia-a-dia, lençóis de estopa ou de linho, roupa que reservara intimidades, toalha de mesa da cozinha familiar que às vezes cobria a cesta da merenda e depois se estendia sobre a relva na meia-manhã de trabalho, lembro-me de as ver passar, airosas de porte, dignas de sua mãe, essa Eva primeira quando, abandonado o Jardim que habitara, secara ao sol as peles de cordeiro que Javé lhes dera por agasalho, a ela e a Adão, antes que tivesse inventado as fibras do linho.

lavadeiras nas margens do rio Pavia, Viseu

Odisseia destas mulheres era o transcurso de um caminho de rio ou ribeira, mais tarde do tanque de lavar construído na margem da aldeia, caminho que faziam a cantar quando, tantas vezes, mais se lhes oferecia o chorar, caminho de histórias contadas com as companheiras, como as de Ulisses, que um poeta cantou. Depois, quase sempre joelhos em terra, mal agasalhados nas tábuas de uma joelheira, bate-que-bate, no lavadoiro, entre as mãos de sabão e os risos delas e das companheiras e o cantar dos demorados romances antigos, a faina seguia até que a roupa ganhasse o jeito de vela aberta ao sol e ao vento, suspensa do cordame estendido entre dois mastros na margem do tanque ou da ribeira onde se estendia a corar antes de voltar água e à corda estendida para o sol a secar.

Lavadeiras no rio Mira, Odemira

Ano a ano, no pino do Verão, havia a barrela. Tinha lugar marcado no canto de alargado pátio de uma casa de lavoura. Um cesto vindimo bastava, ou uma larga caixa de madeira que viera de um tempo de avós. E a roupa grave, lavada, camisas de linho de vestir ao Domingo, toalhas de mesa de trabalho ou festa, lençóis, em camada, ali ficava dentro, jeito de adormecida. Sobre ela estendia-se o barreleiro, jeito de manto para o efeito guardado. Uma rasa de cinza de lenha comum ardida na fogueira, ou de molhos de vides secas em moreias num canto da vinha colocava-se a cobrir. E de um pote de água a ferver num canto de lareira que perto se inventava despejava-se a água, sobre a cinza, até vê-la, demorada, a sair pela base do cesto ou do caixote. Ali dormia depois, a roupa humedecida até à madrugada quando a dona vinha para a levar ao ribeiro e a estender ao sol antes de na arca a guardar.

Lavadeira entrega a roupa lavada, Avenida da Liberdade, Lisboa (1906)

“Povo que lavas no rio”!… Como é fácil lembrar o magnífico poema de Pedro Homem de Melo que a sentida voz de Amália transfigura ao deixar-nos suspensos do drama que a sua voz canta!… Como é fácil lembrar o ecoar da voz de Gracinda (Beatriz Costa) nas alegres cenas do filme “Aldeia da Roupa branca”, de Chianca de Garcia, desenroladas em terra saloia e essa heroica viagem das carroças carregadas com a roupa lavada que haverá de vestir os senhores da cidade!… Como é fácil lembrar as cenas campestres dos romances de Júlio Dinis ou as poderosas imagens carregadas de cor que José Malhoa nos deixou, de lavadeiras!…

Povo que lavas no rio!… Memória. A poesia, neste caso, em boa hora trocada pela mecânica máquina de lavar!…