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A ALIANÇA DAS GERAÇÕES

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Nenhuma comunidade se constrói sobre a fragmentação. O progresso nasce sempre da continuidade, da transmissão de conhecimento e da capacidade de cada geração acrescentar valor à anterior.

Vivemos hoje uma realidade inédita na história da humanidade. Nunca tantas gerações coexistiram durante tanto tempo. Avós, pais, filhos e netos partilham décadas de vida em comum. Esta longevidade, longe de constituir um problema, oferece uma oportunidade extraordinária para criar uma verdadeira aliança entre gerações.

Mas essa oportunidade só se concretizará se abandonarmos preconceitos que continuam profundamente enraizados. Ainda persiste a ideia de que a idade diminui a utilidade social das pessoas. Reformar-se é, muitas vezes, interpretado como retirar-se da vida ativa. A experiência acumulada durante décadas é frequentemente substituída pela ilusão de que apenas a novidade produz inovação. É um erro.

O conhecimento técnico evolui rapidamente, mas a experiência humana continua a ser insubstituível. O discernimento, a capacidade de enfrentar crises, a serenidade na decisão, o sentido ético e a memória coletiva não se aprendem em manuais nem através de algoritmos. Constroem-se ao longo da vida.

Da mesma forma, seria igualmente injusto ignorar o contributo das novas gerações. Os jovens trazem consigo uma extraordinária capacidade de adaptação, domínio tecnológico, criatividade e vontade de transformar o mundo. São eles que desafiam modelos estabelecidos e impulsionam novas formas de pensar.

Não existe oposição entre juventude e experiência. Existe complementaridade. As sociedades mais inteligentes serão aquelas que conseguirem unir estas duas forças. Empresas onde trabalhadores jovens e seniores colaboram produzem melhores resultados. Escolas que aproximam alunos dos idosos ajudam a preservar a memória histórica e os valores da comunidade. Famílias onde diferentes gerações convivem regularmente desenvolvem maior estabilidade emocional, solidariedade e sentido de pertença. A aliança entre gerações não é apenas uma questão afetiva. É uma necessidade económica, social e cultural.

Num país como Portugal, marcado pelo envelhecimento demográfico, não podemos continuar a olhar para os cidadãos mais velhos como um custo. Eles representam um dos maiores patrimónios nacionais. Transportam conhecimento profissional, experiência de vida, memória histórica, cultura e capacidade de participação cívica. Da mesma forma, os jovens não podem ser vistos apenas como destinatários de políticas públicas. Devem ser protagonistas da inovação, da ciência, da cultura e da transformação económica.

O verdadeiro desenvolvimento acontece quando uns aprendem com os outros. Quando um avô conta ao neto a história da sua vida, transmite-lhe muito mais do que recordações. Ensina-lhe resiliência, perseverança, responsabilidade e identidade. Quando um neto ajuda o avô a navegar no mundo digital, demonstra que ensinar também é uma forma de amar. Nesta troca não existem vencedores nem vencidos. Existem cidadãos que crescem juntos.

O futuro exige uma nova visão da sociedade. Precisamos de políticas que promovam a aprendizagem ao longo da vida, o voluntariado sénior, programas de mentoria intergeracional, ambientes de trabalho inclusivos e espaços públicos onde pessoas de todas as idades convivam naturalmente. Mas, acima de tudo, precisamos de recuperar uma ideia simples: nenhuma geração basta a si própria. As grandes conquistas da humanidade nunca foram obra de uma única geração. Cada uma recebeu um legado, acrescentou-lhe valor e entregou-o à seguinte. É esta corrente invisível que constrói a civilização.

A verdadeira riqueza de uma sociedade não reside apenas na sua economia ou na sua capacidade tecnológica. Mede-se pela forma como liga o passado ao presente e prepara o futuro. A aliança das gerações não é uma utopia. É uma escolha. E talvez seja a mais importante que Portugal terá de fazer nas próximas décadas.

CEUTA versus GAZA

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O cartaz com as letras FCK BNGVIR é um cartaz muito utilizado por manifestantes israelitas que protestam contra o Governo. As letras significam "Fuck Benjamin Netanyahu & Ben-Gvir".

Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, é, para ser comedido, uma reconhecida cavalgadura.

Num dia em que dezenas de milhares de migrantes, segundo o presidente da cidade autónoma de Ceuta, Juan Jesús Vivas, entraram na cidade a partir de Marrocos, aumentando a muito problemática crise migratória, o pobre-diabo do Ben-Gvir resolveu dizer uma piada. O que, habitualmente, corre mal a acéfalos.

Ceuta estava a ser invadida por 50.000 cidadãos, na sua imensa maioria jovens destemidos, à procura de uma vida melhor, que tentaram atravessar o mar, a nado. Seis dezenas deles morreram afogados. Os milhares que conseguiram chegar a terra, tão logo a pisaram, começaram a dar “vivas” a Espanha e a agradecer aos espanhóis na convicção de que seriam bem recebidos. Poucos teriam a consciência de que tal não seria possível.

Um dos grandes problemas de hoje, em toda a Europa, é a imigração e esse drama aumenta quando ela é desregulada. Os estudiosos indicam as principais razões para a combater: “a escassez de habitação, a sobrecarga nos sistemas de saúde e educação e a necessidade de ordem pública nas fronteiras.”

Não houve cidadão lúcido que não percebesse a necessidade imperiosa do Governo espanhol agir, de imediato, para impedir esta entrada em massa de imigrantes ilegais. Se há momentos em que a razão tem de sobrepor ao coração, este era, indubitavelmente, um deles. E é nestas alturas que se percebe quem é quem.

A primeira-ministra de Itália, Giorgia Meloni, avisou de imediato que iria promover a suspensão espanhola do Espaço Schengen.

Ora Ben-Gvir, o israelita idiota e ultranacionalista (com perdão pelo pleonasmo) decidiu escrever nas redes sociais:

“As minhas felicitações ao presidente do Governo de Espanha, Pedro Sanchez, pelo seu profundo compromisso com o acolhimento da imigração e com a diversidade humana. Como alguém que demonstra uma grande preocupação com o Hamas e com os habitantes de Gaza, apelo-lhe para que transforme as palavras em atos: abra as portas de Espanha e conceda refúgio aos habitantes de Gaza que pretendam emigrar.”

E terminou dizendo que considerava que tal poderia ser “uma excelente oportunidade para contribuir um pouco mais para a diversidade humana de Espanha”.

Tivesse um pouco de vergonha, ou escrúpulos, e ter-se-ia lembrado que, na realidade, houve recentemente, noutras regiões do nosso pobre mundo, o direito, quase a obrigação, de governantes agirem como Pedro Sanchez só não o podendo fazer com êxito por falta de meios e apoios. Por exemplo, em Gaza, os governantes da Palestina não conseguiram expulsar aqueles que invadiram os seus territórios. Deveriam ter tido todo o apoio na luta contra quem lhes entrou pelas casas não para pedir trabalho e uma oportunidade para melhorarem as suas vidas, mas para destruírem, indiscriminadamente, as cidades.

Com base na necessidade, compreensível, de prenderem um grupo de terroristas, provocaram um genocídio inqualificável, assassinarem centenas de milhares de cidadãos, bombardearem escolas e hospitais matando crianças, médicos e doentes, assassinaram centenas de jornalistas unicamente para que os crimes não fossem denunciados.

Esses criminosos é que deveriam ser abrangidos pela proibição de entrada no Espaço Schengen. Por uma questão de higiene. Itamar Ben-Gvir é um desses miseráveis.

VISEU, CIDADE JARDIM E A BEIRA ALTA EM AZUL

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Ao abrir do segundo quartel do século XX, a cidade iria ganhar uma nova estética urbanística, impulsionada por Francisco de Almeida Moreira e outros mentores. Aquele, ao tempo, empenhado Director do Museu de Grão Vasco e Administrador-Delegado da Comissão de Iniciativa e Turismo, criada em 1926.

Os testemunhos desse ambicioso projecto ficaram marcados na elegante balaustrada que margina o Jardim das Mães, que irá receber o icónico bronze de Oliveira Ferreira (1883-1942), O Melhor Sono da Nossa Vida; nos elegantes candeeiros de jardim ali implantados; na vizinha Glorieta, que celebra o poeta Tomás Ribeiro, de 1931; em intervenções no Parque do Fontelo — a que pode acrescentar-se, desígnio maior, esse impressivo friso azulejar que cobriu a então designada “curva do Rossio”, singular na dimensão, intimista no sentir, inefável nessa poética de azul e branco que se solta sobre a clareza do dia, quando de tudo nos desprendemos para olhar. Data desta época, 1935, o título outorgado a Viseu de Cidade Jardim.

Colocado em lugar de honra, fronteiro aos Paços do Concelho, o visitante que passa e repara, é como se entrasse em familiar casa de aldeia, tirasse o chapéu e o dono da casa lhe dissesse que estava em sua casa. E o mandasse sentar e lhe servisse pão e vinho dos campos da Beira. Que esta é a imagem que ali repousa, contada em vivos cenários de um quotidiano de vida e alegorias formosas.

Solícitos pastores de manta e cajado, mulheres de capucha (a nobre vestimenta da serra tecida com a lã do gado) e o meigo retrato do rapaz nesse jeito de quem parece soltar-se para a vida, mas já enamorado, tocador de flauta inspirado. E o bru-á-á de uma feira: lavadeira de trouxa à cabeça, louceiras, vendedoras de fruta, pomos da Beira ou laranjas, quem sabe, em cestos de corra, amavios de homens da lavra ou pastores, cantos de desgarrada, ao desafio e as virtuosas donas passeando de sombrinha e saia rodada. Um mundo que se perdeu e ali ficou retratado!…

Viseu. Rossio da cidade. Friso azulejar. Joaquim Lopes (1931). Vista parcelar.

Joaquim Lopes (1886-1956), o artista por Almeida Moreira convidado, pintou este fresco, em horas de gostosa inspiração e a Fábrica do Agueiro, em Vila Nova de Gaia, executou, a mando da Comissão de Iniciativa e Turismo, este grandioso mural azulejar, inaugurado a 13 de Dezembro de 1931 e que logo transita para o património camarário, património da cidade, seu cartaz turístico de eleição.

A 17 de Maio de 2019, é oficialmente classificado como “Património de Interesse Municipal”, património da cidade, património de todos nós.

A NATUREZA NÃO ENGANA NEM REJEITA O HUMANO

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A cidade de Berlim, marcada pelo sangue e pelo medo após o atentado islamista contra as pessoas no CSD (Christopher Street Day), não clama apenas por justiça, mas também por um exame de consciência. O sangue que corre é um eco doloroso que expõe a ferida de civilizações que desaprendem a comungar com a essência humana. Assistimos à triste e vergonhosa metamorfose de termos como “diversos”, “trans” e “homossexuais” em autênticos gritos de guerra. Em vez de designarem a riqueza da biografia humana, estas palavras são hoje instrumentalizadas por instituições que utilizam vidas individuais como meros peões para atingir fins de ordenamento social. Reduzem o Homem a objeto, onde o ser humano é despido da sua dignidade tanto por defensores como por opositores, num jogo de forças que ignora a pureza da natureza inerente a cada indivíduo e a soberania da consciência individual como defende o cristianismo leal.

A sociedade não tem donos. Ninguém é senhor do tecido social. Quando casais homossexuais ou indivíduos diversos são empurrados para as margens, ou quando grupos tentam estabelecer “zonas privadas” de aceitação e exclusão na praça pública, quebra-se o respeito pelo humano, pelo Todo criado. É legítimo que cada instituição crie as suas normas internas, mas há um limite sagrado e este pressupõe que deve permanecer sempre um espaço reservado onde a humanidade geral tenha lugar independentemente da regra e da excepção. A existência não pode ser regulada pela exclusão.

Diante do terror de Berlim, onde a natureza humana básica foi barbaramente aniquilada, impõe-se uma pergunta que é essencial: porque é que alguém culpa o outro por aquilo que a natureza, criada por Deus, planeou? A criação não comete erros; a sua assinatura é a pluralidade que mostra a sua tinta na diversidade. Se olhássemos para a biosfera sem as lentes do preconceito, veríamos que a natureza não discrimina a folha que nasce torta nem a flor que exibe uma cor singular. Ela acolhe todas as manifestações da vida na sua harmonia vasta. O preconceito não é uma lei natural; é uma projeção humana. É o esgoto interior dos indivíduos que transborda, invadindo o discurso público com comentários desdenhosos e violência física, destilando um ódio cego que tenta apagar o rosto que a natureza preservou em cada ser. Também a gritaria social de um lado ou do outro não serve o “diferente” e até o compromete quando é usado por forças ideológicas que tendem criar o caos numa sociedade ordeira que querem destruir.

As pessoas “diversas” ou diferentes partilham da mesma vulnerabilidade que une toda a espécie humana; conhecem o cárcere do medo, mas não precisam e não devem implorar por serem aceites. O direito à existência e à busca da felicidade é intrínseco, inalienável e universal. As ideologias gémeas, que tentam impor o silêncio e o esquecimento às minorias, falham porque tentam lutar contra a própria Criação. Actos de agressão e terrorismo urbano não geram a verdadeira visibilidade que edifica; pelo contrário, camuflam os problemas reais e estruturais da sociedade, funcionando como uma cortina de fumo para a nossa incapacidade coletiva de promover a paz.

O caminho para a cura exige uma viagem interior. Se cada cidadão prestasse mais atenção à sua própria hostilidade interna, purificando os seus ressentimentos e dogmas, o contágio do ódio exterior perderia a sua força motriz. Uma sociedade que tolera em demasia o espírito negativo e a barbárie acaba, inevitavelmente, por castigar o bom e o justo. Urge, por isso, resgatar um mundo que tenha a natureza como espelho, garantindo um lugar seguro para todos e para cada um, onde a única lei universal seja o respeito absoluto pela dignidade humana.

DUAS PROFESSORAS EXPULSAS DA PRISÃO DE ALCOENTRE

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fotomontagem, imagem descritiva

Duas professoras foram expulsas sumariamente da atividade que exerciam no Estabelecimento Prisional de Alcoentre. A expulsão da docentes terá sido justificada pela direção daquela cadeia pela suspeita das professoras em questão serem informadoras da Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR), sobre situações que se passavam no interior da prisão.

Ao tomar conhecimento desta situação, a APAR, em comunicado, reagiu dizendo que se trata de “um absurdo abuso de poder, para mais baseado numa suspeita sem fundamento”.

A expulsão das professoras deitou por terra o trabalho de um ano letivo, impediu que as avaliações finais dos reclusos estudantes tivessem sido feitas e impossibilitou a conclusão de vários cursos de formação profissional.

No comunicado da APAR está escrito que ambas as professoras são docentes respeitadas, uma delas “com onze anos de excelente trabalho no Estabelecimento Prisional de Alcoentre” e que, nenhuma delas,  podem, “em circunstância alguma, ser prejudicadas por uma decisão incompreensível e ilegal.”

A APAR sempre teve e terá informações provenientes do interior dos 49 Estabelecimentos Prisionais existentes no país, transmitidas tanto por reclusos, como por familiares de reclusos, trabalhadores da DGRSP e dos próprios guardas prisionais e afirma que nunca “indicará o nome das suas fontes”.

ABRI A TRAGÉDIA E SAIU SURPRESA!

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Esvoaçam pardais por entre as mesas e mesmo na esplanada das piscinas em busca de cibo. Ao final da tarde, sem gente, vão à beirinha, onde a água escorre para as grades, dessedentam-se. As gaivotas, essas, têm medo dos fios de nylon que cruzam o ar sobre o empreendimento, brilham vistos de cima – e têm medo.  Uma que outra, mais timorata, ao final da tarde também ousa vir beber.

Programara levar para férias Eça e Camilo. Uma forma de enriquecer o meu léxico e de mergulhar nesse intrigante final do século XIX, de que ainda hoje haverá reminiscências e, porventura, comportamentos – às ocultas ou às claras – de veras semelhantes.

Enganei-me. Quando, depois de ter sublinhado A Mulher Fatal, de Camilo, abri A Tragédia, tive a surpresa escarrapachada a lápis logo na 1ª página em branco: «Lido 13/10/1983».

Desisti, pois, da leitura completa, embora (confesso), mais de 40 anos passados, pormenores do enredo já se esvaíram por completo. Tenho, porém, o costume, incutido pelos meus mestres, de assinalar no livro as passagens mais interessantes. Por isso, agora, fui à cata delas, na certeza de que, muito provavelmente, 40 anos não teriam passado em vão.

Permita-se-me, por conseguinte, que de algumas me faça eco agora. Nada de crítica literária, nada de recensão bibliográfica, apenas curiosidades.

Claro, o que mais nitidamente transparece é a então dependência cultural de França, o que se compreende e decerto os historiadores que dessa época trataram bem o terão assinalado:

1º)  Porque chegara o comboio: o Sud-Express, pela primeira vez, em 1887, com a sua viagem inaugural, a 4 de novembro, a ligar Lisboa a Paris e Calais. Pelo caminho-de-ferro vêm pessoas, vêm ideias, vêm os livros franceses.

2º) Porque a atitude dos nossos “aliados” ingleses em relação aos territórios africanos não merecia aprovação nacional.

Para além dessa visível ‘subordinação’ a França e aos seus costumes, valerá a pena referir passagens onde, requintadamente, poderemos apreciar o bom recorte da frase, o fino humor, a descrição inesperada e acutilante (as páginas são da edição de Livros de Bolso de Publicações Europa-América):

«A Condessa era, é ainda, como um prato de mesa redonda: o que a recebe do seu vizinho da direita, serve-se e passa-a ao seu vizinho da esquerda» (p. 20).

«[…] No palco, cinco mulheres enxovalhadas, de cabelos ignobilmente riçados, com decotes lassos que descobriam clavículas necessitadas, cantavam em linha, com tons agudos, num ritmo pulante» (p. 21).

«E ele achava Lisboa uma cidade interessante. Quereria publicar um poema, ou ser aplaudido num teatro, e ser na cidade uma pessoa essencial» (p. 25).

 «[…] um secretário-geral da Índia, sujeito pacífico que compunha odes e sofria dos intestinos» (p. 26).

« […] Gouveia Teles, um velho viúvo retirado, em Almada, onde fazia caridade e lia Horácio» (pág. 34).

«E tudo tinha um ar sujo e íntimo, um aspecto desordenado, duma vida brusca e confusa e de obras começadas com impaciência e abandonadas com desconsolação» (p. 93).

 «Gorjão fazia arte […]. Faria escola, encheria os museus de quadros sublimes e viveria na posterioridade. Para isso, lia todas as críticas, todas as estéticas. E, muito impressionável, dominado sempre pela última leitura, passava de um sistema a outro, como um cometa errante, iluminando-se de todas as opiniões que atravessava» (p. 94).

Era assim Eça: de uma ironia fina, mormente para os pretensos poetas e pintores, para a nobreza balofa. A usar inesperados contrastes, envoltos num halo impregnado de ridículo: imagina-se lá o burocrata na Índia a escrever odes e, simultaneamente (parece) a sofrer dos intestinos! Ou o viúvo entregue à caridade e ao poeta Horácio! E o que será um «ar sujo e íntimo»?!…

Era assim. E não vale mesmo a pena lê-lo de supetão. Há de se parar aqui e acolá, a saborear as palavras.

PULHÍTICOS

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PULHÍTICOS

Ide-vos foder
pela vossa ideação que é nada,
um vácuo ornado de fausto e de gravata,
onde o pensamento morre antes da rima
e a ética é uma velha que vos chateia a lata.
Por sigma de tudo o que dizeis soberano
— esse cálculo frio de quem subtrai o humano —
ide-vos foder, sim, mas com decoro,
para que o vosso brio não manche o vosso tesouro.

Deixem, porém, o estigma da República intacto,
essa ferida aberta que é o nosso único pacto.
E de acto instado, sem demora ou prece,
ide-vos foder antes que o sol arrefeça.

Acometam minorias com o vosso desprezo eleito,
e maiorias com o pão que lhes tirais do peito.
Diverti-vos no circo que vós mesmos montais,
onde o palhaço é o povo e os donos são os animais.
Congeminem leis, parideiras de nenhures,
para que a grei se perca em labirintos escuros,
entre cortes de verbas e recortes de jornais,
onde a verdade é o que menos nos dizeis, ou jamais.

Ó vós, arquitetos do lodo e do engodo,
que pensais que o mundo é o vosso prato de lodo!
Se a ontologia vos desse um espelho de frente,
veríeis apenas o verso de um ente ausente.
Filosofais sobre o bem enquanto o mal vos assiste,
numa dialética de dar dó, de tão triste.
É o ser contra o parecer, o nada contra a massa,
e no intervalo do vosso ego, a decência passa.

Fazei das vossas sedes catedrais do vazio,
onde a honra naufraga num copo de rio.
Mas deixem o estigma da República intacto,
não por respeito, que isso é termo abstrato,
mas porque até o parasita precisa do hospedeiro,
e sem a república, não sois mais que o nevoeiro.

Ide-vos foder, então, com a vossa retórica oca,
onde a mentira é a língua que vos move a boca.
Mas ide-vos foder com a consciência (se houver)
de que a História vos cospe quando vos vê passar, ou sequer.

O GUIA DE SOBREVIVÊNCIA URBANA: COMO NÃO SE PASSAR

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A estupidez humana é a única energia renovável que o planeta ainda não aprendeu a explorar. Como ela é abundante e gratuita, o melhor que tem a fazer é proteger-se. Siga este protocolo rigoroso:

  • Olhar de Peixe Morto: Quando alguém começar a explicar uma teoria da conspiração baseada num vídeo de três segundos, não discuta. Fixe os olhos num ponto invisível atrás da pessoa e acene lentamente. A ausência de atividade cerebral recíproca costuma afugentá-los.
  • O Truque do Telemóvel Fantasma: Sinta o seu telemóvel vibrar a cada cinco minutos. Peça desculpa com uma cara de profunda preocupação financeira e afaste-se a dizer: “Sim, chefe? Outra vez o reator nuclear?”
  • Fones de Ouvido Gigantes: Use fones de ouvido que pareçam duas fatias de melancia coladas às orelhas. Mesmo que não esteja a ouvir nada, eles funcionam como um sinal universal de “Não existo para o mundo”. Se alguém insistir em falar consigo, aponte para os fones, abane a cabeça com tristeza e continue a andar.
  • Concordância Absoluta e Absurda: Se o confrontarem com uma idiotice monumental, não tente educar a pessoa. Diga apenas: “Tens toda a razão, e acho que o governo devia proibir os pássaros porque são todos drones das secretas.” O estúpido ficará confuso ou validado, mas a conversa acabará mais depressa.

O TRIÂNGULO ISÓSCELES*

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Karim Khan caiu. Oficialmente, por alegada “má conduta grave”. Politicamente, há uma coincidência que merece reflexão. O procurador do Tribunal Penal Internacional que ousou pedir a detenção de Benjamin Netanyahu acabou afastado na sequência de acusações de abuso sexual. Não cabe discutir aqui a sua culpa ou inocência. Mas é impossível ignorar o momento em que tudo aconteceu.

Karim khan, procurador-geral do Tribunal Penal Internacional

É inevitável recordar Julian Assange. Também ele foi acusado de crimes sexuais pouco depois de revelar documentos que expunham crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. As acusações acabariam arquivadas, mas serviram para o manter privado da liberdade durante anos.

Julian Assange, jornalista, fundador do site Wikileaks

Não afirmo que as denúncias contra Khan ou Assange fossem falsas. Afirmo apenas que, nos dois casos, o debate deixou de ser os crimes de guerra para passar a ser a vida privada dos seus protagonistas. A atenção pública mudou de alvo.

Curiosamente, a regra parece deixar de funcionar quando o visado é Donald Trump. Também ele enfrentou uma sucessão de processos judiciais e acusações pessoais. A diferença é que nunca foi politicamente neutralizado. Pelo contrário: transformou os tribunais em palco eleitoral e regressou à Casa Branca.

Donald Trump, Presidente dos EUA

Este triângulo Assange – Khan – Trump mostra como a justiça pode ser usada como arma política. Mas a sua eficácia depende de quem ocupa o banco dos réus. Assange denunciou crimes de guerra e acabou a defender-se de acusações sexuais. Karim Khan investigou crimes de guerra e vai ter de se defender de acusações sexuais. Trump foi acusado de crimes sexuais e acabou a denunciar perseguição política. Por estas trajetórias adivinhamos como a justiça não consegue permanecer imune às disputas de poder.

*O triângulo isósceles é aquele que tem dois lados iguais. Ou o que tem um lado desigual.

CAMILO E A INFLUÊNCIA FRANCESA

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A leitura de A Mulher Fatal deixou-me uma curiosidade por resolver: a reconhecida influência da cultura francesa na sociedade e na literatura portuguesas da 2ª metade do século XIX. E decidi ilustrar-me com a integração no seu tempo de três das passagens que recortara.

Manon Lescaut

«Imaginei que ele estivesse alapado na tulha das Açudes, lendo alguns capítulos paradoxais de Manon Lescaut, ou quejando romance justificativo das paixões ignóbeis!» (p. 62).

Refere-se Camilo ao célebre romance de Antoine François Prévost, Histoire du chevalier des Grieux et de Manon Lescaut (1731), cuja heroína é precisamente Manon Lescaut, romance citado habitualmente apenas como Manon Lescaut.

Trata-se de um romance muito polémico , dado que  Abade Prévost faz o leitor sentir enorme simpatia por duas personagens que, objetivamente, vivem fora da moral tradicional: Des Grieux mente, joga, rouba; Manon aceita presentes de amantes ricos; ambos vivem uma paixão que desafia a ordem social e religiosa. Muitos moralistas do século XVIII e do XIX censuraram precisamente isso: o romance parecia justificar o vício pela força do amor.

Mas… por que razão fala Camilo em «capítulos paradoxais»? Decertoaqueles em que Prévost consegue levar o leitor a admirar personagens moralmente condenáveis. Quiçá, uma irónica crítica, aqui, aos moralistas, que, por esse motivo, consideravam tais  capítulos “paradoxais”.

Henri Heyne

«Que anjo naquele homem  restituiria a Deus a sociedade, se ela não fosse em toda a parte, o inferno dos anjos e o paraíso dos demónios, como, da de Paris, dizia Henri Heyne! (p. 63).

Um quadro de Heine, por Moritz Daniel Oppenheim

A frase citada é, na verdade, frequentemente atribuída ao alemão Heinrich Heine (Henri Heyne na grafia francesa do apelido). Trata-se seguramente de uma paráfrase do pensamento de Heine sobre Paris, uma citação apócrifa que se não encontra ipsis verbis na sua obra, nomeadamente em Französische Zustände («Situação da França»), em Lutetia ou na correspondência. Heine viveu em Paris de 1831 até à morte; para ele, Paris era o centro da inteligência, da liberdade e da modernidade, mas também um lugar de corrupção moral e de tentações. De resto, a antítese «o paraíso de… / o inferno de…» foi um recurso retórico muito usado no século XIX.

Poder-se-á acrescentar que, não sendo uma citação literal, e como Camilo lia abundantemente jornais e revistas francesas e recorria frequentemente a florilégios de citações e como, por outro lado, Heine era um dos autores mais citados nesses repertórios da década de 1850-1870, tal é bem provável. Aliás, Heine morreu em 1856 e, entre 1856 e 1870, publicaram-se em França numerosas edições póstumas, colectâneas e memórias sobre ele: Pensées de Henri Heine, L’Esprit de Henri Heine, Œuvres choisies. Camilo podia muito bem ter lido uma dessas obras, em que Heine descreve a vida social parisiense, sobretudo os salões, a aristocracia, os meios literários e políticos.

Stendhal

«Na verdade, eu havia apostolado tão incompetente quanto inconvenientemente a contrição dos pecados. Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as cristalizações do amor, formadas naquela alma, ramo desflorido e seco, submerso no lago congelado, conforme a teoria de Stendhal. A meu ver, cristalizações de lágrimas só o calor da mortalha as degela (p. 118).

Deveras curiosa a alusão à «teoria de Stendhal». A ideia é uma das mais célebres de Stendhal e encontra-se no capítulo II, sobre o nascimento do Amor, do ensaio De l’Amour, publicado em 1822. A imagem não é, porém, a de um lago gelado, mas a de um ramo seco mergulhado nas minas de sal de Salzburgo, onde fica revestido de cristais brilhantes:

«Nas minas de sal de Salzbourg, deita-se, pelo Inverno, nas profundezas abandonadas da mina um desfolhado ramo de árvore, dois ou três meses depois, retira-se recoberto de cristalizações brilhantes […]. Já não é possível reconhecer o ramo primitivo», escreveu Stendhal.

Não pode, porém, deixar de apreciar-se como, aparentemente, singelos e despretensiosos apontamentos encerram em si tamanha densidade ideológica.

Camilo Castelo Branco é isso mesmo: uma fonte de saber inesgotável. Escrevia romances para economicamente sobreviver; mas é na análise miúda do que escreveu que reside a razão da sua sobrevivência como um escritor de todos os tempos.