A recente posição assumida pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, ao defender a presença permanente de países africanos no Conselho de Segurança das Nações Unidas, não constitui apenas uma declaração diplomática. Trata-se de um reconhecimento histórico tardio de uma profunda injustiça política internacional que dura desde 1945. África já não pode continuar a ser o único grande bloco civilizacional do planeta excluído do núcleo duro da governação mundial.
O atual Conselho de Segurança da ONU nasceu num contexto geopolítico completamente diferente do mundo contemporâneo. Foi concebido após a Segunda Guerra Mundial, num período em que grande parte de África ainda estava sob ocupação colonial. Os vencedores da guerra desenharam uma arquitetura internacional baseada nos seus interesses estratégicos e militares, ignorando por completo centenas de milhões de africanos que nem sequer tinham direito à autodeterminação.
Passaram mais de oitenta anos. Hoje, África representa mais de 1,4 mil milhões de habitantes, possui 54 Estados soberanos, detém enormes reservas minerais, energéticas e ambientais estratégicas, dispõe da população mais jovem do mundo e tornou-se um dos espaços centrais da disputa económica e geopolítica internacional. Ainda assim, continua sem um único assento permanente no Conselho de Segurança. Esta realidade tornou-se moralmente insustentável e politicamente indefensável.
Como pode a ONU falar de democracia global, equilíbrio internacional ou legitimidade multilateral quando todo um continente continua excluído das decisões permanentes sobre paz, segurança e guerra? Como pode o Conselho de Segurança decidir sobre conflitos africanos sem representação africana permanente? Quantas vezes tropas africanas morreram em missões internacionais decididas por potências que jamais aceitariam semelhante exclusão sobre os seus próprios destinos? A verdade é simples: o atual modelo tornou-se obsoleto.
A posição de António Guterres revela lucidez política e consciência histórica. Guterres compreendeu que a ONU corre sérios riscos de perder legitimidade internacional caso continue presa às estruturas herdadas do pós-guerra. O mundo tornou-se multipolar. A distribuição do poder internacional mudou. As economias emergentes ganharam peso. Novos centros de influência surgiram. África deixou de ser apenas objeto da política internacional para se transformar progressivamente num sujeito incontornável das grandes decisões globais. Mais do que nunca, a reforma do Conselho de Segurança tornou-se uma necessidade estratégica para salvar a credibilidade da própria ONU.
E neste contexto, ganha enorme relevância a possibilidade de o antigo Presidente do Senegal, Macky Sall, poder vir a assumir futuramente funções de Secretário-Geral das Nações Unidas. A eventual ascensão de um líder africano experiente à liderança da ONU teria um profundo significado político e simbólico. O Senegal sempre ocupou uma posição diplomática respeitada no espaço africano e internacional, sendo reconhecido pela estabilidade institucional relativa, tradição diplomática e capacidade de diálogo.
Mas a questão central ultrapassa nomes ou nacionalidades. O verdadeiro debate é civilizacional. O século XXI não poderá continuar organizado segundo os equilíbrios de poder do século XX.
África já não aceita ser apenas fornecedora de matérias-primas, palco de conflitos geopolíticos externos ou simples mercado consumidor das grandes potências. O continente quer participar na definição das regras internacionais, na construção das soluções globais e na arquitetura da paz mundial. E isso é legítimo.
Nenhuma reforma séria da governação global será sustentável sem África. Nenhuma estratégia internacional sobre clima, migração, terrorismo, segurança alimentar, minerais estratégicos, energia ou crescimento demográfico poderá funcionar ignorando o continente africano.
As grandes potências sabem disso. Os Estados Unidos sabem disso. A China sabe disso. A Rússia sabe disso. A União Europeia sabe disso. Por isso, a disputa pela influência em África tornou-se hoje uma das principais batalhas geopolíticas do planeta.
A ONU precisa agora de demonstrar coragem política para adaptar-se ao novo mundo que emerge. A entrada de países africanos como membros permanentes do Conselho de Segurança não deve ser encarada como um favor diplomático, mas sim como uma reparação histórica e uma necessidade de equilíbrio global.
O continente africano exige respeito político. Exige representação. Exige justiça histórica. E, acima de tudo, exige que o futuro da humanidade deixe finalmente de ser decidido sem África sentada à mesa principal das grandes decisões mundiais.



