OS BOTÕES DA ROMÃZEIRA

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8 de Maio. O dia entardecera fusco, nublado, breve aragem anunciava súbito abaixamento da temperatura. Maria fora, após o almoço, dar mui breve caminhada com o cão, simultaneamente para ele próprio também desentorpecer as pernas e satisfazer as suas habituais necessidades.

Ao regressar, passou resvés ao muro do jardim. A romãzeira começava a sorrir-lhe, com uma porção de botões em flor. Por sinal, a marota, do lado de fora do jardim.

– Olha, Joaquim! – disse-lhe, ao entrar em casa. – Este ano, a romãzeira vai mangar de nós e põe as romãs do lado de fora! Já começou a florir.

– Bom tempo está, de facto, para flores agora! – resmungou Joaquim.

Maria nem comentou. Deu o miminho ao cão e aprestou-se para os habituais 30 minutos de pausa sob o caramanchão, após o almoço. Desta feita, porém, não conseguiu pregar olho. Não só porque uma amiga lhe telefonara a querer saber dela, mas também uma outra, inesperadamente, sua prima, fizera videochamada:

– Olha, fui operada. Correu bem. Tive alta agora, minha filha vem buscar-me. Vamos lá ver como é que isto vai correr agora!…

Desconhecia Maria que a prima estivesse doente e procurou animá-la, como sempre costumava fazer, incitando-a a ter pensamentos positivos.

Por isso, num ápice, deu consigo a pensar o que era, de facto, isso de «pensamento positivo». E bem depressa se consciencializou não ser atitude de “atar e pôr ao fumeiro”. Tem de vir de dentro. Tem de ser prática quotidiana. À custa de introspecção pela manhã e, sobretudo, no final da jornada.

O seu Joaquim, por exemplo, quando lhe respondeu assim, nem sequer imaginou ser a prontíssima reacção que tivera a prova cabal de que, no íntimo, a sua normal tendência é sempre para o pior. Não conseguia ver, como sói amiúde dizer-se, «o copo meio cheio»…

Tantos livros e tantos artigos se escrevem sobre isto. No fundo, porém, uma introspeção atenta, ao final do dia, é susceptível de mostrar o evidente. Quando, após o almoço, me apressei a comentar que não estava tempo para a romãzeira florir, poderia ter-me, ao invés, regozijado, por depois de a termos cortado tanto, ser bem auspicioso os botões estarem agora já a aparecer!…

11 COMENTÁRIOS

  1. O pensamento, o pensar… de facto o “pensar positivo” é tentar desembaraçar o novelo com a que a vida nos “presenteia”, novelo que sempre está num emaranhado, mas que queremos que as suas “pontas” sigam numa só direcção no seu deslizar, a tal positividade, é que, muitas “pontas”, não é o que queremos… mas elas existem, num tempo, dentro dos “nossos muros”, noutro, fora. Então, pensar positivo, é detectar as “flores” fora e dentro do nosso muro, mesmo que não exista um tempo no nosso pensamento, para que elas floresçam. Em nosso redor já floresceu muito.. e não vimos.

  2. jorge.45
    9 de maio de 2026 15:07
    Florir é sorrir.
    Jorge
    …….
    Silvia Quinteiro
    9 de maio de 2026 13:42
    Li o texto em viagem e fi-lo com muito gosto. Devo dizer-lhe que gostei particularmente do final. Achei encantador, sereno e luminoso.
    …….
    De: Vanda Maria Amaro Jardim Fernandes.
    9 de maio de 2026 12:35
    Como sempre bem inspirado, amigo Zé! Tão belos os botões, quanto os frutos saborosos! Só mesmo Tu, com a subtileza do costume para olhares a natureza no seu melhor!
    ………..
    De: Ana Claré.
    9 de maio de 2026 11:23.
    Bom dia senhor meu compadre
    Que tenhas um excelente final de semana apesar desta chuva maluca nos estar a irritar, mas há que deixar de lado estes pensamentos negativos e pensar que as plantinhas agradecem, nós é que somos uns ambiciosos a querer tudo ao nosso gosto.
    Quanto ao Joaquim… é normal, é próprio dos seus fígados.
    Fico feliz pela nossa romãzeira já ter florido dessa forma, e desse lado porque provavelmente é o lado que apanha mais sol.
    Adorei o texto e as fotos estão lindas, que ela continue a dar mais e mais.
    Beijinhos
    Ana
    ……..
    PS.
    Já agora dá um beijo ao Joaquim e não te amofines, desliga, pois isso é mesmo próprio dele.
    Vamos realmente olhar para o copo meio cheio, é que o tempo que nos resta não está para nos pensar negativo, aceitar e cara alegre.
    ………….

    De: Regina Anacleto.
    9 de maio de 2026 16:43
    Gostei do seu texto. Fez-me refletir. Olhar para o nosso eu interior e senti-lo parece-me que deveria ser uma obrigatoriedade. Mas o resultado não pode passar por encarar o negativo. É mais salutar dizer que já me deram dois meses de espaçamento, por exemplo no controlo de uma doença, do que pensar que apenas me deram dois meses de “alforria”. E eu que o diga. Tenho tido bastantes contrariedades durante a vida, mas sempre olhei para a frente. A romãzeira a florir para o lado de fora é sinal de que vai dar fruto. Se este fica de uma banda ou da outra, não tem interesse. O certo é que ela vai ter frutos.
    Muito obrigada pela partilha
    Beijo amigo
    Regina
    ………..
    Saul Gomes
    9 de maio de 2026 10:01
    Muito obrigado. Gosto muito de romãs. Tenho uma no meu pequeno quintal mas não tem dado fruto… Haja esperança!
    …………..
    Black Raven
    9 de maio de 2026 11:19
    O texto está muito bonito.
    Era importante que as pessoas entendem-se a mensagem do “copo meio cheio”. A tendência humana, infelizmente, é ver o copo meio vazio.
    E é por isso que tantos sentimentos negativos reinam, hoje em dia, na sociedade.
    ………………
    António Carlos Silva
    9 de maio de 2026 11:18
    Bom dia Zé e obrigado pela novidade sobre as flores da romãzeira. Também tenho uma no meu jardim mas, infelizmente, não sei se já tem botões de flores ou se estes caíram entretanto com a chuva violenta desta noite. É que tenho estado de cama com uma crise aguda de ciática em que cada movimento, por mais ligeiro, parece esmagar-me a perna direita. Normalmente, segundo a minha Maria, sou mais do tipo do Joaquim do teu curto conto, com tendência para ver sempre o copo vazio. É assim que me sinto agora ainda que à espera que o copo encha e possa reencontrar de novo o prazer de estar vivo apesar do peso dos anos.
    Um grande abraço desde o Monte das Pedras.

    Elisa Silva
    9 de maio de 2026 10:19
    E… quanto aos botões da romãzeira, só tenho a dizer: a natureza é um mistério de maravilhas e todos os dias nos dá lições cujo sentido nos põe a pensar…
    …………..
    Isabel Ferreira da Mota
    9 de maio de 2026 10:16
    Quem me dera, Professor, ter um jardim!… e uma romãzeira!…
    Mas deu para saborear, já que partilho do mesmo espírito.
    Grata, com um beijinho
    ……….
    Carlos Jorge
    08/05/2026 23:57
    Nunca tinha pensado numa romã como sorriso. É uma associação interessante. Gosto de romãs. As pessoas dão-lhe diferentes significados, para os maçons é o símbolo da união, uma analogia também interessante.
    ……….
    Noémia de Sousa Cavaco Pires
    10 de maio de 2026 16:14
    Muito obrigada por partilhar comigo este maravilhoso texto.
    Gostei muito, tanto da forma como está escrito (fluido e muito gracioso) como do seu conteúdo e de nos fazer pensar na forma como reagimos às coisas importantes e triviais (mas não menos importantes) da nossa vida.
    O título, por si só, já é fantástico. Agora, cada vez que vir uma romãzeira vou lembrar-me sempre disto, porque é muito importante ver e apreciar as “flores da romãzeira” dentro e fora do nosso quintal , na altura certa ou fora dela….obrigada.
    Um beijinho e bom resto de domingo.

  3. maria helena coelho
    10 de maio de 2026 15:47
    Pois é…mas o pior é que isso do pensamento positivo ou negativo nasce um tanto connosco. E para quem tem pensamento negativo, há que fazer um grande e contínuo esforço para o contrariar.
    Gostei muito das tuas flores da romãzeira e do teu pensamento positivo.
    Beijinhos amigos
    Maria Helena

  4. Não se nasce, Lena, com pensamento negativo, embora, na verdade, até no parto essa atitude influi. Ana fez voluntariado durante alguns anos na maternidade e contava-me: «Se a mãe, mesmo que a gravidez tivesse corrido menos bem, chegava à porta do bloco de cara alegre ‘isso vai ser num instante’, era num instante e tudo corria bem; se, ao invés, gravidez de excelência, mas parturiente negativa, corria mal de certeza, porque ela nem acertava quando é que devia fazer força!».
    O pensamento positivo cultiva-se no dia-a-dia. Como as flores de romãzeira…
    José

  5. Maria Manuel Valagao
    10 de maio de 2026 17:19
    Reli agora o teu conto.
    Logo, logo, tive dificuldade em entrar na narrativa que se inicia ao entardecer e recua para o início da tarde, “passear o cão depois do almoço”.
    Pareceu-me que a ideia deste conto é a metáfora da romãzeira que “ganha viço depois do corte” e contraria a atitude pessimista de ver o copo meio-vazio.
    Será?

  6. Dora Barradas
    11 de maio de 2026 09:37
    só agora regressei ao PC e a minha opinião do texto é que é Bom;
    de fácil leitura e proporcionador de reflexão caso assim o queiramos aproveitar !
    mas se calhar é porque eu adoro romãzeiras e romãs  !!

  7. adilia alarcao
    12 de maio de 2026 18:53
    Pois, pela minha parte, muita concordância recebe, amigo José. Mas alguma assiste também ao Joaquim, porque na verdade os botões da romãzeira não deveriam estar tão desenvolvidos no começo de Maio.Devia o homem alegrar-se, como alegres estão, neste ano, os cultivadores de cerejeiras no Douro? Talvez, é o copo meio cheio, mas ele bem sabe que para lá das mudanças ocasionais do tempo, como dantes soía num ou outro ano, elas se tornaram agora uma assustadora constante. Este ano, o calor típico de Maio sucedeu em Abril e as águas mil, acompanhadas de chuva e granizo, estão a mimosear os agricultores em Maio. Veremos como o todo se comporta, mas nalguns sítios já se perdeu muita coisa, irremediavelmente.
    É tão duro viver do trabalho da terra, admiráveis combatentes os que resistem, numa luta que é aceitação da conjugação de elementos que os ultrapassa. Eu interpreto que essa aceitação (o oposto da resignação) sucede quando se tem o hábito de meditar. É a ‘sua introspeção’ diária, benéfica para todos os males, das Marias e Joaquins deste mundo.
    No Espinhal, mais húmido e frio, bem perto da Serra da Lousã, as nossas romãzeiras costumam florir a partir de meados de Junho.
    Continue atento à Vida e a chamar para ela a atenção dos amigos. É saudável para todos.
    Um abraço grato e amigo.
    Adília

  8. Maria Adélia
    14 de maio de 2026 00:49
    Olá amigo! Muitos comentários !
    Interessante o texto. Conteúdo baseado numa árvore admirada por mim desde pequena no redor de um tanque que alimentava nenúfares deslumbrantes (casa dos avós).
    Muito me animou o facto de ela estar viçosa e já com botões vermelhos, uma vez que sofreu alguns cortes.
    É bom sinal!
    Agradeço a viagem que esse lindo texto me proporcionou.
    Para ti mais uma vez Parabéns.

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