Publiquei um vídeo nas redes sociais com uma pergunta muito simples: “Alguém viu estas imagens em algum telejornal?” As imagens mostram um funeral coletivo em Gaza. Cento e doze pessoas mortas no mesmo bombardeamento. Três anos depois, as equipas de resgate conseguiram recuperar e identificar as ossadas, permitindo finalmente que as famílias lhes dessem sepultura.
Esperava respostas sobre “ver televisão” e sobre aquelas imagens. E obtive-as.
Depois de ter despachado em grande velocidade o lixo deixado por trolls e bots ao serviço do sionismo, fiquei com uma maioria de comentários que dizem praticamente a mesma coisa. Uns confessam que já não ligam aos telejornais há muito tempo. Outros dizem que ainda ligam o televisor, mas garantem nunca ter encontrado aquelas imagens em nenhum canal.




Não retiro daqui uma conclusão científica. A amostra é composta por pessoas que seguem as minhas páginas e, por isso, não representa a sociedade portuguesa. Mas revela qualquer coisa que merece ser pensada.
Durante décadas, a televisão ocupou um lugar muito particular na nossa vida coletiva. Não era apenas uma fonte de informação. Era a primeira testemunha da realidade. Se um acontecimento era suficientemente importante, sabíamos que iria aparecer no telejornal. Hoje, essa confiança parece estar a desfazer-se.
Cada vez mais pessoas começam o percurso informativo ao contrário. Primeiro procuram nas redes sociais, em canais alternativos, em plataformas de vídeo ou em aplicações de mensagens. Só depois, se o fizerem, verificam o que disseram os media tradicionais.
Não significa que as redes sociais sejam mais rigorosas. Não são. Sabemos bem que nelas circula o melhor e o pior. Só que a relação do público com os meios de Comunicação Social alterou-se, as pessoas deixaram de confiar. Essa mudança talvez explique a crise das audiências.
Durante muito tempo, as empresas de televisão competiam entre si, era uma disputa entre canais de televisão. Hoje competem com milhões de telemóveis. Competem com testemunhos diretos, vídeos gravados por cidadãos, jornalistas independentes, organizações humanitárias, investigadores e pessoas comuns que publicam aquilo que veem sem esperar pela autorização de uma redação. A televisão, os jornalistas perderam o monopólio da primeira versão da realidade.
O critério jornalístico dá para tudo e mais um par de botas, no que diz respeito ao alinhamento de notícias ou até à supressão de algumas. Essa é uma decisão editorial, deveria ser discutida no interior das redações, e creio que já não é. Mas o que me impressionou foi a quantidade de pessoas que já nem espera encontrar nas televisões (por maioria de razão também nas rádios e jornais, incluindo respetivos sites e redes sociais), uma ampla cobertura sobre o que se passa no mundo.







