Está embutida na fachada principal da capela do Divino Espírito Santo, em Vide, freguesia de Vila da Rua, concelho de Moimenta da Beira, uma pedra retangular de granito, que ostenta uma inscrição em latim, limitada superiormente por dois filetes paralelos, limitação que também existiria em baixo, ainda que só reste um sulco feito por cinzel. Mede 42 cm de altura, 50 cm de largura; a altura das letras varia entre 6,5 e 9 cm.

Foi referida na Carta Arqueológica de Moimenta da Beira (Câmara Municipal de Moimenta da Beira, 2025, p. 126-127). Era, porém, conhecida desde há muito, na medida em que Frei Bernardo de Brito não deixou de a mencionar no seu livro clássico, Monarchia Lusitana, de finais do século XVI,e também Sousa Viterbo a contempla no seu conhecido Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram… datado da 2ª metade do século XVIII. O alemão Emílio Hübner inclui-a, portanto, no seu Corpus Inscriptionum Latinarum, de 1869, sob o nº 4643.

Lê-se: BONO REI PVBLICE NATO
Que significa: «Ao nado para o bem da República». ‘República’ tem, aqui, o sentido original de res publica, literalmente, a coisa pública, entendida no seu significado mais abrangente: o bem-estar do Povo, dos governantes, de.. tudo!
O que poderá ter acontecido? Os obreiros que encontraram essa pedra numa das obras acharam piada a essa espécie de base, distinta do resto do monumento, que estaria já bastante esboroado e nada se percebia do que lá vinha escrito. Aqui, ao invés, tudo estava ainda bonitinho. Até se poderia avivar um tudo-nada para se ler melhor (e, por isso, é que nem se aperceberam que ficava o nexo Æ e ficou apenas o E).
Acharam, além disso, que o importante era deixar o escrito para fora, dissesse ele o que quisesse dizer; por outro lado, a dúvida era essa mesma: seria esconjuro, reza, fórmula mágica? Fosse como fosse, o melhor era preservá-lo e deixá-lo intacto para a posterioridade. Esclarece Frei Bernardo de Brito que a pedra foi «levada das ruínas de junto à ermida de S. João», e se conserva «na parede da ermida de S.Sebastião em Vide»; Viterbo situa-a «em Vide, no frontispício da capela do Espírito Santo», onde efectivamente se mantém.

Dois mistérios ainda subsistem, contudo:
– A frase, colocada no final do monumento em que se expunha o currículo do imperador, terá sido aplicada, muito provavelmente, a um imperador do século III em diante, época em que se requeria um halo de espiritualidade, para garantir a fidelidade dos súbditos, dado que a subida ao trono nem sempre seguia as regras consuetudinárias.
– A pedra andou em bolandas, como se deduz dos testemunhos de Bernardo de Brito e de Viterbo. E foi achada onde? Um monumento deste teor requer, naturalmente, um contexto urbano. Qual? Grande desafio, pois, para os estudiosos e arqueólogos locais.
(com a colaboração de José Carlos Santos)



