ABRAÇADEIRA

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Guardei religiosamente o papelinho no porta-moedas. Quando cheguei à drogaria, dei-o ao Ricardo:

Eu trouxe o papelinho na mesma, não fosse haver engano. Não houve. Era mesmo disso que o Chico canalizador precisava para acabar de vez com a história do entupimento que nos massacrara a cabeça. E mostrou-me como é que tudo ficara. A água começou a correr normalmente. Eficaz fora a solução adoptada.

Quando, no entanto, me dispunha a pôr o recado no cesto dos papéis, hesitei, “não ponho” e cá está ele a servir-me para a conversa de hoje.

Primeiro: eu diria ‘braçadeira’, que me parecia o termo correcto. Não é. O Chico Castro tem razão: abraçadeira está bem, porque, de facto, abraça. Faltou o ‘s’ do plural, mas… ninguém repara!

Segundo:  o Chico pôs todas as palavras com inicial maiúscula. Escreveu-as assim, decerto, sem motivo especial; o normal seria pôr todas as palavras em minúscula. Recordo-me, no entanto, do Celestino Costa, canteiro: quando, no cemitério, lhe encomendavam um letreiro, ele escrevia tudo em maiúsculas.

Confusão tem, contudo, muita gente no uso das maiúsculas. Não se estuda Gramática (ponho Gramática com g grande para chamar a atenção) e desconhece-se a função da maiúscula como elemento atribuidor de importância especial ao significado da palavra. Por exemplo, Igreja (com maiúscula) refere-se a uma confissão religiosa; já igreja matriz é com minúscula, um substantivo comum.

Tanto o Ricardo como o Chico sabiam exatamente o que ali estava escrito. Sabiam o que era uma ‘abraçadeira de espigão’; o que era um ‘tubo P.V.C. (que é habitual escrever-se PVC, siglas do policloreto de vinila); sabiam o que significava 40 (seguramente, digo eu, 40 milímetros de diâmetro)…

Como sói dizer-se: «Cada macaco no seu galho». O político, nomeadamente, deve saber falar; saber distinguir ‘sob’ de ‘sobre’ (e, aí, as asneiras diárias são muitas!…); conhecer a conjugação pronominal dos verbos… Tenho um colega que sistematicamente se refere a um senhor ministro chamando-lhe «Dr. Serálhe»; compreende-se porquê: sai-se, de vez em quando, com «será-lhe entregue…».

O Ricardo trabalha na drogaria; o Chico Castro é canalizador. Conhecem ambos, como a palma das mãos, os nomes das ferramentas do seu dia-a-dia. Fale-lhes eu, epigrafista, em ‘campo epigráfico,’ ‘estela’, ‘cipo’ – e olharão para mim a sorrir. Como eu, ao princípio das andanças na pedreira, em miúdo, sabia lá o que era uma bujarda, o forro-a-melão, um camartelo!…

Todavia, voltando atrás: político que se preze não pode arriscar-se a dizer «será-lhe». Se não sabe distinguir ‘Igreja’ de ‘igreja’, vá que não vá, o Povo perdoa; mas «será-lhe entregue…», senhor ministro?!…

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