A HISTÓRIA DAS BELAS DE BELAS

Tem Rainer Daehnardt as suas raízes em Belas. Por isso dedicou aos habitantes dessa povoação dois opúsculos com histórias desse local. Aí vai uma dessas passagens.

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mapa de Portugal de 1561

Na mais antiga cartografia portuguesa impressa, datável do século XVI, no recanto mais a sudoeste do continente europeu, apenas estão mencionados os nomes de Lisboa, Cascaes, Cintra e Belas.

Compreende-se que Lisboa seja mencionada, por se tratar da capital do Reino de Portugal; Cascais, por seu turno,  primeiro e último porto de pesca para a tomada e largada dos pilotos da barra de Lisboa, também deveria ser referenciado; Sintra, local de um dos paços reais e com torre de vigia sobre o mar para ver as entradas e saídas das armadas, ganhara importância. Mas pergunta-se: Belas, este pequeno aldeamento, ainda hoje pouco conhecido, vem referido porquê?

É que, de facto, a vila se situa no cruzamento de duas estradas romanas: uma que vai de Lisboa para Sintra e a outra, na bifurcação em Belas, segue para as termas romanas das Águas Férreas, em direção às minas do Monte Suíno de que já aqui se falou e daí continuava em direcção a Cheleiros, Mafra, Ericeira e Peniche.

publicado em https://duaslinhas.pt/2026/03/mina-de-pedras-preciosas-em-sintra/

Quem sair da matriz manuelina de Belas e virar à direita percorre poucas dezenas de metros da Estrada Nacional até encontrar o Monte Wimmer, em frente do qual existe a entrada da Quinta da Chicola, conhecida pelas suas águas, já usadas pelos romanos.

A entrada era livre para que a população de Belas tivesse acesso a essas águas férreas. Muitas estalagens e cafés surgiram apenas para servir os hóspedes que vinham de Lisboa, ou de mais longe ainda, para, como as receitas médicas indicavam, beberem as águas férreas de Belas.

Esta entrada servia a Quinta da Chicola e a “Pedreira de Baixo”, de onde a sede do concelho mandava retirar anualmente o saibro para reencher o adro da igreja. Também dava acesso à velha azenha que, até ao século XIX, serviu como prisão.

À volta da vila de Belas vivia-se de forma pacata, trabalhadora e feliz. Uns senhores de Lisboa compraram coutadas de caça e aqui abateram muitos javalis. Outros vinham às termas e recebiam canecas de barro com a célebre água férrea. Havia aguadeiros que entravam com as suas carroças puxadas a burra, com grandes jarrões de barro encaixados de cada lado, que davam de beber a quem quisesse, transportando a água até à vila da Idanha.

Um casal, oriundo da Serra da Estrela, vivia então numa casa junto à fonte, na Quinta da Chicola, com duas lindas filhas e estas aceitavam receber uns trocos por servirem água às senhoras e cavalheiros que a desejassem. Foi no reinado de Dona Maria II que surgiu a rima que viria a tornar-se célebre:

Capa do opúsculo de Rainer Daehnhardt

Ora aconteceu que, tendo um marinheiro contraído a epidemia da febre amarela, o vieram a guardar na azenha. Pediu, pois, ajuda às meninas lindas, cuja casa se situava a cerca de 200 m. E foi assim que tanto elas com outras pessoas ficaram infectadas. Morreram as meninas e os pais, bem como grande parte da população. Muitas estalagens e cafés fecharam, os aguadeiros deixaram de vir e… das belas ficou perpétua recordação!

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