UM BERÇO DE AMORES

VISEU - A FONTE DE S. FRANCISCO

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Viseu. Fonte de S. Francisco

… o qual chafariz e seu espaçoso terreiro fica em frente  da frontaria das casas dos fidalgos Albuquerques cujas vistas servem de recreação a quem espaçosamente está nas janelas vendo as moças que vão à fonte.

                                                 In Memórias Paroquiais, 1758.

Por muito tempo se chamou Terreiro das Freiras à actual praça que se declara, em moderno mapa, Largo Mouzinho de Albuquerque. Às suas espaldas encontra términus a Rua Direita, verdadeiro cardo maximus da urbe romana, que desembocava, a jusante, na porta que se chamou Porta do Arco. Mimética designação, esta, forçada pelo impositivo arco da muralha afonsina, que se desprende do topo de uma face da histórica moradia dos Albuquerques, ora designada Porta dos Cavaleiros.

A deslado se levanta – ora desprendida de velhos usos que tanto poderiam ser o encher dos cântaros como o escutar das falas dos namorados – a Fonte que tomou o nome do tutelar patrono entronizado no elevado nicho do frontão: S. Francisco, o Poverello.

Deve ter sido construída nos começos do século XVIII a graciosa fonte que hoje lá se encontra. Joia de pedra lavrada que, por tão funda, não deixa que o sol revele toda a formosura daquele granito jogando em sombra e luz. Substitui, como consta em documento, fonte mais antiga, estendendo para montante uma mais possante mina, tão alta que por ela um homem de pé caminharia, se dizia. Mina que ali pudesse despejar água bastante da avantajada mãe-de-água cavada no cerne da colina.

Um pouco mais tarde, em 1745, a Câmara decide mandar construir um chafariz de duas bicas num ainda visível recôncavo da muralha, pelo seu lado exterior, o qual antes serviria para dessedentar bestas de almocreves e montadas de cavaleiros.

Uma generosa fantasia liga esta fonte a uma popular história de amor impossível – Amor de Perdição – história inventada por Camilo de Castelo Branco ao longo dos quinze dias que passou na Cadeia da Relação, no Porto, entrecho romanesco que narra os apaixonados amores da fidalguinha Teresa Albuquerque, dezasseis tenros anos, com o enamorado Simão Botelho, dois anos mais velho, que o faz preterir ao primo Baltazar.

Junto à fonte terçarão armas Simão e Baltazar. Este quer vingar afronta, mas cairá inanimado aos pés de Simão, que ficará, petrificado, olhando a janela da amada. Acorre gente do povo e do palácio. Teresa dará entrada no mosteiro, onde irá morrer de amor; Simão, desterrado para as Índias, morrerá no alto mar. Teresa, da janela do convento, terá visto ainda umas mãos a acenar. Simão terá visto ainda um lenço branco a esvoaçar.

Viseu. Solar dos Albuquerques, séc. XVIII

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