A campanha presidencial brasileira poderá marcar uma mudança de paradigma. Jair Bolsonaro, impedido de concorrer, participa no debate político através de vídeos gerados por inteligência artificial (IA) em apoio à candidatura do filho, Flávio Bolsonaro.
Isto está a levantar questões que até agora nunca tinham surgido. O recurso a imagens artificiais é fraude política? Em termos legais, se a lei não se opuser, pode ser permitido. Mas, a democracia depende da confiança que depositamos nos políticos. Se não sabemos distinguir entre o real e o fictício, como poderemos confiar, como escolher?
Durante décadas, uma fotografia ou um vídeo eram um testemunho da realidade. Mas isso acabou. Hoje, temos de perguntar se podemos acreditar no que vemos.
Não se percebe como pode ser legal substituir a presença de uma pessoa pela sua reconstrução digital, porque será sempre uma mentira, ao transmitir aquilo que nunca aconteceu. Se já não podemos confiar na imagem, na voz e na evidência visual, que debate político vamos ter num futuro próximo?
A IA pode criar políticos cada vez mais convincentes, com discursos cada vez mais empolgantes, mas será sempre mentira. Até hoje, em campanhas eleitorais ou debates políticos na televisão ou nas redes sociais, acreditavamos no que viamos e ouviamos. Os candidatos foram, muitas vezes, confrontados com declarações que fizeram no passado, com promessas de campanhas não cumpridas. Mas, agora, se é um “boneco” digital que promete, como responsabilizar o verdadeiro candidato?
O problema da IA não é só poder mentir. A propaganda sempre mentiu. O problema é poder ocupar o espaço público sem descanso, sem fadiga, sem erros, sem silêncio e sem a presença do próprio candidato. Pela primeira vez, uma campanha eleitoral pode ser feita por alguém que, na verdade, nunca esteve lá.




Quando a presença física e a voz de um líder político podem ser mimetizadas de forma indistinguível, o ecossistema de informação colapsa, pois o perigo já não se limita a dados distorcidos, mas sim à destruição da verdade factual partilhada.O maior risco desta nova era não é apenas o público acreditar em vídeos falsos (deepfakes), mas sim o surgimento da chamada “negação do ceticismo” (the liar’s dividend), que permite aos políticos reais descartar provas verdadeiras de corrupção ou abusos de poder alegando simplesmente que as evidências foram geradas por inteligência artificial. Esta dinâmica destrói a linha de responsabilidade política, uma vez que um avatar digital pode fazer promessas falsas ou propagar discursos de ódio, garantindo ao candidato de carne e osso uma negação plausível que esvazia o escrutínio democrático. Além disso, a capacidade dos algoritmos de gerar milhares de variações de discursos por minuto gera uma saturação assimétrica do espaço público, sufocando o jornalismo de verificação de factos e mergulhando o eleitorado numa desconfiança absoluta que alimenta o cinismo, a apatia e o populismo radical.Embora a propaganda política sempre tenha usado a retórica para persuadir, a IA introduz uma escala industrial de personalização da mentira capaz de mapear os medos e preconceitos de cada cidadão para gerar conteúdos sintéticos sob medida. Esta ausência de fadiga e de erro humano transforma o debate democrático num teatro de marionetas digitais, substituindo o confronto direto de ideias pelo ruído ininterrupto de algoritmos otimizados para o engajamento emocional a qualquer custo. Para travar esta falência moral, torna-se urgente uma regulação coerciva rígida por parte dos tribunais eleitorais, que devem punir a utilização oculta de clones digitais com a cassação de candidaturas por fraude, a par da responsabilização financeira das plataformas tecnológicas e de um forte investimento na literacia mediática dos cidadãos. A democracia exige a presença, o erro humano e a responsabilidade, pelo que permitir que o espaço público seja governado por simulacros significa abdicar da nossa própria liberdade de escolha.
Chomsky dizia que a IA era “o ataque mais radical ao pensamento crítico” e aos direitos de autor, dizemos nós. Mas aqui se vê que acabou por galgar barreiras e entrar num domínio difícil de controlar.
Estamos na linha da criação da bomba atómica – e começo pela contribuição e arrependimento de Oppenheimer, embora o mesmo tenham sentido outros cientistas como Einstein, Szillard ou Enrico Fremi. A intençao inicial era meritória – travar excessos – e afinal converteu-se numa ameaça destrutiva e hoje contínua intimidação.
Legislação parece não haver e havendo, não há quem a faça aplicar sem gerar o conflito da exacerbada divisão de opiniões, outra forma de guerra.
Chegámos a um impasse?
Muitos. E só as circunstâncias e um pouco de razoabilidade humana poderão mudar o rumo da História para melhor.