Porque a Sua Abnegação é uma Ratoeira
Tentar abnegar o sistema político atual é um exercício de uma ingenuidade comovente. O leitor acredita piamente que, ao cruzar os braços e recusar o jogo, está a ser um rebelde original. Na verdade, está apenas a cumprir, à risca, o guião escrito por três fantasmas que gerem a sua existência.
1. A Gargalhada de Maquiavel: A Abnegação como Submissão Voluntária
O velho Nicolau Maquiavel observa a sua “plena diferença” e sorri com um cinismo paternalista. Para o Príncipe moderno, o cidadão abnegado é o maior milagre administrativo de sempre. Ao retirar-se da ágora por uma questão de pureza moral, o leitor não está a boicotar o poder; está a limpá-lo de obstáculos.
- A lição maquiavélica: O poder detesta o vácuo. Se o leitor abdica do seu espaço por “nojo” do sistema, a única consequência real é que o seu vizinho menos escrupuloso passa a governar a sua vida. A sua abnegação não é um protesto; é uma rendição disfarçada de superioridade intelectual. O Príncipe agradece o seu silêncio oportuno.
2. A Ratoeira de Rousseau: O Contrato que Nunca Assinou, Mas Paga
O leitor pergunta: “Como poderei fazer parte dum sistema se o abnego veemente?” Jean-Jacques Rousseau responde-lhe com a cláusula mais leonina da história da humanidade: o Contrato Social. O leitor nunca assinou este contrato, não leu as letras miúdas, mas nasceu carimbado por ele.
- A lição rousseauísta: Segundo Rousseau, para ser livre, o indivíduo deve alienar-se totalmente a favor da comunidade (a “Vontade Geral”). Se o leitor tenta ser “totalmente diferente”, o sistema considera-o um erro de digitação social. A democracia rousseauísta tem um requinte satírico: ela obriga-o a ser livre nos termos dela. Se recusar ser livre dentro do rebanho, será “forçado a ser livre” através da exclusão, do ostracismo ou do manicómio. A sua vontade individual é um luxo que a Vontade Geral consome ao pequeno-almoço.
3. A Jaula de Foucault: A Biopolítica do Corpo Abnegado
Aqui reside o golpe de misericórdia na sua revolta. Michel Foucault entra na sala para lhe explicar que a sua “abnegação” chega atrasada: o sistema já se apropriou de si antes mesmo de o leitor aprender a dizer “não”.
- A lição foucaultiana: O leitor acha que o poder é um político num palácio. Foucault ri-se. O poder é a clínica que o registou ao nascer, a escola que moldou a sua postura, o hospital que vigia a sua saúde e o algoritmo que prevê a sua depressão. A sua “abnegação” ocorre dentro de uma linguagem e de um corpo que o próprio Estado produziu. Mesmo quando o leitor se isola na sua total interdição, está a usar os conceitos de “liberdade” e “diferença” que o próprio poder normalizou. O leitor não está fora do sistema; o leitor é a parede da ala psiquiátrica do sistema.
A Resposta à Pergunta Proibida
Qual é a alternativa para o atual sistema político?
A alternativa, vista pelos olhos deste trio, é de um niilismo sublime. Não há alternativa externa, porque não há “fora”. A única alternativa é aceitar a esquizofrenia política:
Viver como um Príncipe Sem Trono (Maquiavel), que finge obedecer ao Contrato Sagrado (Rousseau), enquanto sabota subtilmente as Métricas dos Corpos (Foucault). É a resistência não através do isolamento, mas através da ironia absoluta: cumprir todas as regras de forma tão literal e robótica que o próprio sistema acabe por entrar em curto-circuito por excesso de zelo.




