O CARACOL É MARROQUINO

A gente do território de Loures gosta de caracóis! Mesmo muito. E porque assim é, o Festival do Caracol Saloio, uma organização da Câmara Municipal de Loures, é um evento muito acarinhado por estas paragens desde a sua primeira edição, em junho do ano 2000. O sucesso foi estrondoso. E nas edições que anualmente se seguiram, marcando o calendário oficial e as agendas dos aficionados, não houve outro remédio se não colocar mais e mais mesas, ser criativo na dinamização cultural do evento e no conteúdo das ementas.

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A imaginação não tem limites e o (pobre do) caracol passou a saber o que é levar com temperos de toda a ordem, aparecer nos pratos dos gulosos escondido em fofos e pataniscas e, até, ser apresentado como um (quase) afilhado do Bulhão Pato. E mais, muito mais. A competição estimula a criatividade dos cozinheiros para além do simples ato de cozer o caracol, bem temperado com orégãos. Que o caracol pode ser fraco, mas o molho é ótimo!

Porém, neste início de século, a aventura do caracol ainda mal tinha começado. Empenharam-se, um dia, as vontades, na concretização de algo inédito que foi conceber e concretizar um tacho gigante, bem como respetiva colher à medida, para mexer os tantos, os muitos, os…, enfim, os imensos quilos de caracóis cozinhados numa única empreitada. Para a história ficaram os números, 1.111 Kg de caracóis, um tacho de 3 metros de diâmetro e 1 metro de altura. A tampa pesava 200 quilos e era necessária a ajuda de uma grua, para a abrir.

Para o interior do caldeirão foi deitada mais de uma tonelada de caracóis, vindos de Marrocos. Para completar a receita, entraram para o tacho gigante 40 quilos de alhos, 30 de cebola e outros tantos de sal, 13,5 quilos de caldos de carne, 20 quilos de chouriço, quatro quilos de orégãos e cinquenta malaguetas. Tudo isto regado por muitos litros de água despejada por uma mangueira dos bombeiros.

À boleia do caracol, em 2009, o município de Loures candidatou-se ao recorde mundial do Guinness para o “Maior Tacho de Caracóis do Mundo”. E atingiu o seu propósito. O tacho magnífico está exposto no Parque Adão Barata, na extremidade sul da cidade de Loures, no que se interpreta como um ato de partilha com a comunidade. Uma memória, ao orgulho coletivo local. Exibe detalhes inesperados, a tampa, que, por segurança, está fixada ao recipiente, ou o engenho adaptado para servir o produto cozinhado…

Também, o historial do Festival do Caracol Saloio e o devido destaque para o recorde do Guinness. Os registos fotográficos que fiz em 2023 assumem um valor documental, que não estava à espera.
Voltei a fotografá-lo agora e vejam-se as diferenças…

O tempo já se encarregou de fazer desaparecer boa parte da informação alusiva ao evento e ao recorde alcançado, estando o tacho magnífico em risco de ser apenas, e só, um tacho. O que me dá que pensar. Símbolo de um entusiasmo local, coletivo, marca de uma prática que reúne um número sempre crescente deapreciadores, o tacho dir-se-ia abandonado… O Festival do Caracol Saloio conquistou um espaço no município, tem uma história e adquiriu um valor cultural. A equipa terá deitado fora o emblema?

No ano que corre, a propósito de mais uma edição do Festival que, por sinal, já terminou, as surpresas continuam a acontecer. Em maio passado, na Revista do Expresso, um dos Flashes do Planetário de João Pacheco, “Loures-Paris”, sugeria ao leitor a aventura do Caminho das Estrelas pelo concelho de Loures e pelos restaurantes participantes na Rota do Caracol Saloio. Já em Paris, o caminho levaria o leitor a ver “uma secção de escada de caracol da Torre Eiffel, de 1889”.
O caracol, entre Loures e Paris, como traço de união ou como denominador comum. Certamente, uma inspiração.

1 COMENTÁRIO

  1. Agrada-nos saber dessa iniciativa e desse galardão. Fazem-se votos para que no tachão voltem a incluir-se os dizeres originais. Nestes dias, referir que o caracol veio de Marrocos dá mau olhado, creio; mas – aqui para nós – hábito de saborear caracóis é mesmo tipicamente meridional; pode ter vindo de Marrocos com os algarvios que para lá foram no princípio do século XX, para as obras francesas e voltaram; o certo é que caracol, caracol está bem entranhado na tradição algarvia e não me admiraria se se viesse a descobrir que esse costume em Loures tivesse partido de elementos duma eventual ‘colónia’ de imigrantes do Algarve. Direi que… se trata, para mim, algarvio de gema, de uma crónica… saborosa!

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