MAIS DE UM MILHÃO DE ASSINATURAS

0
21

Há causas que se dizem apartidárias e é precisamente por isso que expõem, sem disfarce, as contradições políticas do nosso tempo. As questões humanitárias são uma delas: funcionam como um teste simples, quase binário. Ou se está, ou não se está.

Um abaixo-assinado promovido pelo Partido da Esquerda Europeia – em Portugal representado pelo Bloco de Esquerda – reuniu já mais de um milhão de assinaturas a favor da suspensão do acordo de associação entre a União Europeia e Israel, como resposta ao genocídio em curso em Gaza e na Cisjordânia e à guerra no Líbano. No momento em que escrevemos este artigo, a cifra que consta no site dos promotores da petição é esta:

Um milhão cento e vinte e três mil trezentos e trinta e três (e a contagem continua). Para partidos que, juntos, têm apenas 21 eurodeputados. O contraste não é apenas estatístico, tem uma dimensão política. Mostra que há uma base social muito mais ampla do que aquela que cabe na representação institucional, e que não se revê, necessariamente, nos partidos que lançaram a iniciativa.

Ao mesmo tempo, esta adesão popular expõe algo ainda mais incómodo: o duplo padrão da UE. A mesma União Europeia que rapidamente invoca sanções, suspensões e isolamento diplomático noutros contextos, não reage quando o problema envolve Israel.

Durante anos, décadas, a causa palestiniana foi remetida para um nicho ideológico. Mais de um milhão de assinaturas sugere o contrário: quando a questão é colocada em termos humanitários, sofrimento civil, destruição propositada de hospitais, escolas, chacinas de população civil, snipers que atacam intencionalmente crianças e jornalistas, médicos e socorristas, as fronteiras partidárias tornam-se irrelevantes. Ou seja, existe uma opinião pública disponível para ir mais longe do que os seus representantes. As organizações políticas devem passar a ter isso na devida conta.

Em Gaza, bombardeamentos israelitas continuam a matar diariamente pessoas não-combatentes

Em que é que isto incomoda Israel? A resposta está nos números do comércio externo, por exemplo: 28% das exportações israelitas destinam-se ao mercado europeu; as trocas comerciais entre os países da UE e Israel somam mais de 46 mil milhões de euros por ano; a Europa financia mais de 900 projetos de desenvolvimento que beneficiam centenas de empresas israelitas, algumas delas envolvidas nas ações militares do genocídio em curso em Gaza e Cisjordânia e na guerra no Líbano. Ou seja, a ideia é “magoar” Israel onde mais lhe dói: no bolso.

paisagem urbana no sul do Líbano já se assemelha a Gaza

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui