GAIOLA-DE-BRUXA

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– Quem me dera, Professor, ter um jardim!… e uma romãzeira!… – respondeu-me a Isabel, quando lhe mostrei a romãzeira já em flor.

Bem diferente foi, contudo, a reacção de Maria, octogenária, que tem uma quinta e sabe ler as nuvens e quando devem podar-se as videiras e qual a altura melhor para semear griséus… Comentou:

– Alguma razão assiste também ao teu Joaquim, porque, na verdade, os botões da romãzeira não deveriam estar tão desenvolvidos no começo de Maio. Devia o homem alegrar-se, como alegres estão, neste ano, os cultivadores de cerejeiras no Douro? Talvez, é o copo meio cheio, mas ele bem sabe que, para lá das mudanças ocasionais do tempo, como dantes soía num ou outro ano, elas se tornaram agora uma assustadora constante. Este ano, o calor típico de Maio sucedeu em Abril e as águas mil, acompanhadas de chuva e granizo, estão a mimosear os agricultores em Maio. É tão duro viver do trabalho da terra, admiráveis combatentes os que resistem, numa luta que é aceitação da conjugação de elementos que os ultrapassa.

E é bem verdade! Ingénuo e egoísta fui eu, ao não ver além do visível, a não ter aproveitado o ensejo para uma mensagem de solidariedade.

Aceito, porém, que jardim constitua, como sonha a Isabel, fonte de serenidade, na contemplação do crescimento das folhas, do desdobrar das flores… Agradável e sempre surpreendente fonte de aprendizagem também, não nó por dispormos hoje de aplicações informáticas susceptíveis de, rapidamente, nos identificarem as plantas derredor, mas também porque o apoio amigo do botânico nos dá a oportunidade de enriquecer conhecimentos.

Assim aconteceu.

Intrigara-me aquela coisa, espécie de fungo ou estranho cogumelo que me aparecia, já não era a primeira vez, entre as pedras e junto às plantas, pelos buracos. Erva ruim, pensei. Massacrei-a. Outra me apareceu, dias depois, mais à frente. Matei-a. À terceira, parei. Preciso de saber o que isto é. Esta espécie de armadilha laranja, sem olhos, reticulada, a lembrar o muselet, aquela ‘gaiola’ de arame que prende a rolha do champanhe.

Não hesitei – e mandei mensagem ao João Monjardino, com fotografia.

Veio pronta a resposta:

– Gaiola-de-bruxa! Aparece no jardim pelo Outono, tem vida efémera e exala um odor forte que atrai os insectos de que se alimenta, porque eles entram lá, ficam presos e ela delicia-se com tal manjar, além de eles colaborarem na sua reprodução, espalhando os esporos (com dimensões de 5–6 x 1,7–2 µm )…

Interroguei também a «inteligência artificial» que me explicou:

«Gaiola-de-bruxa (Clathrus ruber) é um fungo notável pelo seu aspeto de rede esférica vermelha ou alaranjada, semelhante a uma gaiola, comum em solos ricos, hortas e florestas. Conhecido pelo odor intenso a carne podre que atrai insetos para dispersar esporos, não é comestível e pode causar distúrbios gastrointestinais».

Não voltei a destruir as gaiolas-de-bruxa. Dão um ar de graça no meio do verde e… deram-me excelente lição de vida!

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