ARDINGA

UMA PRINCESA MOURA EM LAMEGO

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desenho com recurso a IA

Ardinga é tão jovem ainda!…

Ardinga tem o sangue da gente mais de sul, cresceu na orla do deserto, a ama-de-leite contou-lhe na tenda as mil e uma histórias do velho conto das mil e uma noites. Histórias quentes de amor lhe contava no calor da tenda, enquanto o pai recrutava guerreiros entre os pastores.

O frade imaginoso trouxe para o seu livro, de entre as muitas histórias, a história de Ardinga que veio com seu pai e os guerreiros mouros que ocuparam Lamego nos finais do século X.

Era tão jovem ainda, Ardinga!…

Já conhecia as histórias todas das mil e uma noites. E outras histórias que contavam os pastores do deserto. O seu pai saía agora com os pastores feitos guerreiros para as batalhas, muitas vezes para além da montanha. Ardinga adivinhava histórias que aconteciam para além dos montes de onde chegavam soldados feridos. E os soldados contavam-lhe histórias da valentia dos cristãos. E do temor de um Cavaleiro-Negro – D. Tedon – que, sozinho, se atirava contra os soldados.

Ardinga gostava de escutar as histórias dos soldados que iam chegando lá de longe. E foi seguindo os passos do Cavaleiro-Negro e aprendeu no contar dos soldados o caminho que a levaria ao herói.

Ninguém sabia o que se passava no peito de Ardinga. E, um dia, a princesa, que era ainda quase menina, ilude a guarda e segue um caminho como quem sabe para onde vai.

Há pousos de sentinelas cristãs que não se atrevem a prender a donzela estrangeira. E levam-na junto de um monge que curava aos soldados as feridas do corpo e da alma. E o monge Gelásio, que assim se chamava, fez nascer no coração da donzela moura o amor do seu deus. E abrigou-a no seu eremitério, a que as águias que, às vezes, o sobrevoavam fizeram dar o nome de S. Pedro das Águias. Eram Terras de Tabuaço.

Que se passava agora que nunca mais chegava o Cavaleiro-Negro, D. Tedon, por quem Ardinga suspirava?!…

Soube o Rei, ao chegar aos seus Paços, a história de Ardinga, que, um dia, o abandonara. Irado com o que lhe contaram, chama os melhores soldados e corre ao lugar onde Ardinga se demorava. E é ela a primeira quem vê assomar no alto dos cerros, de alfange em punho, os soldados de seu pai.

Tardou tanto o Cavaleiro-Negro!…

E Ardinga morreu primeiro de amor antes de morrer sob o golpe cruel do alfange de seu pai. Quando o Cavaleiro-Negro chegou à boca do eremitério, a fronte banhada ainda no sangue da luta, conheceu então a história de Ardinga e só teve tempo de descer ao rio que ali perto corria e de trazer para terra o corpo frio de Ardinga de cuja memória haveria de fazer o seu amor até à morte.

E Ardinga era tão jovem ainda!…

Castelo de Lamego

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