Colheram-me de surpresa as litografias penduradas, seguidas, na parede daquele solar alenquerense. Instantâneos sob o título ‘Inez de Castro’, de legendas escritas à mão, em francês e português. Bem antigos seriam também os quadros em que foram emolduradas.
Senti-lhes o encanto, puxei do sorrateiro telemóvel, não me arrependi. Amantes do vestuário e da moda estudariam, de preferência, as vestimentas representadas, os adereços, o calçado; aos historiadores da sociedade prenderiam a atenção os gestos, as posições, se havia cão ou gato na cena… Epigrafista e paleógrafo me confesso e fui-me às legendas manuscritas.

Reza a primeira o seguinte (dispenso a versão francesa que hoje poucos entenderiam):

Sabendo el-rei Dom Afonso que seu filho casara com Inez enfureceu-se tanto que jurou vingar-se encaminhou-se pois a Coimbra onde assistia Inez para obrigá-la a dissolver essa união e achou-a instruindo os seus dois filhos. Não obstante as ameaças de D. Afonso e sua crueldade não pôde fazer assinar a essa senhora o auto de renúncia que para isso tinha preparado.
Conta a segunda:

Irritado Dom Afonso dessa inesperada resistência concebeu o projeto de mandá-la matar escolhendo para cumprimento três dos mais cruéis inimigos dessa dama os quais aproveitando-se da partida de Dom Pedro para uma caçada se introduziram no quarto de Inez mediante certos domésticos por eles subornados e ouviram escondidos a despedida de Dom Pedro à sua esposa que lhe rogava não a deixasse naquele momento em que tristes pressentimentos a atormentavam. Ele meigou-a brandamente e partiu deixando-a involuntariamente aos golpes dos seus algozes.
Tem por título a terceira:

Falecido Dom Afonso I, Dom Pedro sendo eleito rei mandou logo buscar os assassinos de Inês um deles fugiu para França mas os outros refugiados em Castela tendo-lhe sido entregues por Pedro-o-Cruel fê-los supliciar ignominiosamente [?] e lançar-lhes as cinzas ao vento. Tornou público o seu casamento declarando seus filhos por sucessores e mandando exumar o corpo de sua esposa ordenou o colocassem sobre um trono cingiu-lhe a fronte com o diadema e ordenou lhe fossem rendidas soberanas honras por todos…
O significado cultural
As litografias estão assinadas por Napoleón Thomas (1804-1879), pintor, ilustrador e litógrafo francês, cuja reconhecida actividade se centrou entre os anos 1830 e 1870. Foram impressas em Paris, «chez BULLA Frères», notável empresa litográfica a que se ficaram a dever imagens que hoje correm mundo. O parisiense François Bulla, cuja actividade se situa entre 1814 e 1855, foi notável gravador, editor de estampas e impressor-litógrafo. Interessou-se de modo particular por litografias ditas “populares”, ou seja, cuja temática poderia recolher a atenção de vasto público. Quando se aposentou, em 1855, sucedeu-lhe seu irmão Antoine e é por isso que, nas litografias de Alenquer, surge a informação «chez BULLA Frères», que permite, portanto, datá-las do 3º quartel do século XIX.

Logo estes dados aquilatam do seu valor intrínseco, porque constituirão, estou em crer, um espólio invulgar no nosso País. O facto de os proprietários do Solar de Pancas as terem adquirido atesta, por seu turno, uma atitude cultural relevante, sendo relevante também – e não de somenos! – o facto de Napoleón Thomas ter escolhido (ou ter sido chamado a desenhar), em Paris, nessa altura, um tema português de significado e ressonância internacional. Ou melhor: um tema que, assim, mais se prova ter largamente ultrapassado fronteiras! Aspecto cultural que não é despiciendo, não!
Aliás, a circunstância de ter havido a preocupação de as legendas serem em francês e traduzidas (e bem, pude verificar!) em português igualmente deve ser aspecto a realçar.

Mantém o solar a cenografia antiga palaciana. A capela familiar, por exemplo, bem cuidada. Livros belamente encadernados nas estantes. Telas antigas, mobiliário de madeira exótica e risco à século XIX… Um ambiente fora deste tempo, para dar solenidade aos eventos que acolher.
Um que outro participante poderá reparar neste ou naquele pormenor decorativo; eu reparei na história da nossa Inês de Castro – e não estou arrependido.




